Erros maradonianos custam a Copa Thiago Henrique de Morais - 3/07/2010 - 14:20

Nunca se espera um placar tão elástico num duelo entre esquadrões de brasão de respeito na camisa. Principalmente quando se trata de germânicos e argentinos, homens que jamais protagonizaram um duelo desequilibrado nas Copas do Mundo. Para que houvesse uma primeira vez, portanto, apenas algo terrívelmente drástico poderia sobrepujar tal igualdade. Eis que a disparidade tática tratou de presentear a Alemanha com uma vantagem inegável. Joachim Löw contou com a estratégia que o trouxe até as quartas. Maradona insistiu nos erros, de modo que o 4 x 0 se tornou inevitável.

Pela primeira vez durante sua gestão, El Diez optou pela continuidade de uma escalação em dois jogos seguidos. A vitória aparentemente tranquila diante do México fez com que ele confiasse no 4-1-3-2, formado pelos mesmos 11 jogadores que triunfaram em Johanesburgo no último domingo. Curiosamente, quando o comandante enfim opta pela coerência, como pediam os críticos, é o momento que se configurou o principal erro. Algo que o treinador alemão não poderia deixar passar.

Löw tambem continuou com a mesma escalação e posicionamento tático. O mesmo 4-2-3-1 que não traz boas memórias aos ingleses. Do lado alemão, porém, esta manutenção estratégica significava o plano perfeito não só para explorar as falhas adversárias, mas para anular a principal preocupação de qualquer um que enfrente a Argentina ou o Barcelona: Lionel Messi, o melhor jogador do mundo.

Primeiro tempo

Não levou muito tempo para que ficassem evidentes as vulnerabilidades da Albiceleste e o fato da tática da Nationalelf saber exatamente como explora-las. Começaram pressionando a saída de bola, para que os atacantes argentinos não pudessem recebe-la com qualidade. Quando atacavam, Podolski era o mais acionado, pois Otamendi era o elo mais frágil na última linha argentina.

O zagueiro do Vélez, aliás, também falhou ao marcar Thomas Müller no gol relâmpago, assim como fez com Luisão na derrota para o Brasil em Rosário. Uma vez mais, o jogo aereo rendia frutos aos alemães e dor de cabeça à Maradona.

A Argentina não chegou a se abater naquele instante. Contudo, na hora de reagir, não conseguia se desvencilhar da marcação alemã, que de quebra ainda se posicionava para contragolpear. No meio, Messi sofria sozinho contra Schweinsteiger e Khedira. Pelos lados, di Maria e Maxi só apareceram na partida quando inverteram as posições. Graças a isso, o novo contratado do Real Madrid achou espaços contra Boateng, mas não se mostrou suficiente para sequer causar problemas a Manuel Neuer.

Segundo tempo

Apesar dos problemas, Maradona não julgou necessário substituir os jogadores que estiveram na etapa inicial. Simplemente ordenou que seus comandados persistissem na pressão pelo lado direito do ataque. Messi continuava sem ajuda para criar, e Mascherano para marcar. Algumas jogadas até saíram, Tevez teria marcado não fosse o rosto de Mertesacker no caminho. Mas ao seguir com as mesmas falhas, a Argentina se ofereceu para sofrer com a arma mais poderosa da Alemanha nesta Copa: o contra-ataque.

Graças a isso, a Nationalelf se desafogou da pressão com agilidade e conquistou a falta do segundo gol, também cometida por Otamendi. Ele também falhou ao deixar que Podolski conseguisse a lateral livre para achar Klose, livre de marcação, marcar o segundo.

Depois desta, Otamendi deixou o campo para a entrada de Pastore, habilidoso meia ofensivo. Só que naquele momento, a alma argentina já havia desmoronado completamente. Não havia organização para atacar e muito menos para se defender da impiedosa Alemanha. No lance do terceiro gol, por exemplo, eram homens de ataque que protegiam o desocupado lado direito, mas sem sucesso. O quarto tento não passou de mera formalidade, mas serviu para reiterar a força alemã como favorita ao quarto titulo.

Aos argentinos resta a desilusão de uma derrota incontestável e previsível, visto que nunca tiveram um time equilibrado, ou tampouco um técnico de qualidade. Maradona representava o orgulho de um país, mas a forma atribulada com que levou a seleção à Copa já evidenciava isso. Nem mesmo o melhor do mundo pode salva-lo, de modo que sua figura como treinador termina como oposto do que foi enquanto jogador. Até mesmo para seus súditos torcedores.

Thiago Henrique de Morais

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Mineiro de Belo Horizonte e radicado em Araguari-MG, mora em Brasília desde 1996, cidade em que se formou em jornalismo. Trabalha com esportes desde 2004 e atualmente é o coordenador deste site e repórter do Brasiliense FC. Dentre suas principais coberturas estão o Mundial de Futsal 2008 e a Copa América 2011.


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