Copa Argentina: Como organizar um torneio de forma estúpida e cretina Joza Novalis - 24/11/2011 - 21:34

A desorganização da Copa Argentina é só mais um capítulo obscuro de um futebol organizado por dirigentes amadores. Isso para ficar no eufemismo, aquela figura de linguagem na qual utilizamos termos agradáveis no lugar dos palavrões. O assunto é tão vasto e indignante que precisamos deixar de lado, por exemplo, as críticas uruguaias à Copa América, a partir das quais o vizinho charrua desistiu imediatamente de pleitear a organização conjunta da Copa do Mundo de 2030 com a Argentina. Decisão que saiu cara aos uruguaios, que receberiam o Torneio justamente cem anos depois do primeiro e no mesmo local, como em 1930. Então falemos apenas do capítulo “Copa Argentina/2011/12″.

O primeiro aspecto curioso foi o estabelecimento das chamadas Sedes Oficiais. Ninguém sabe o motivo. Quem na AFA apresenta argumentos plausíveis para o fato? Um dos argumentos foi o de que seria interessante levar o futebol de elite aos locais mais remotos do país. Locais que seriam carentes de clubes tradicionais. Então elegeram San Juan como uma das sedes, La Plata uma outra. Embora sejam burocratas da pior espécie, é impossível supor que eles não conheçam o San Martín e o Sportivo Desamparados. Mas, façamos um desconto à saúde mental dos dirigentes, até porque, com dissemos, são burocratas e por isso costumam se esquecer de certas coisas, quando interessam. Contudo, o que dizer da sede de La Plata? Por lá não há clubes importantes?

Pera lá! Mas de que sede de La Plata estamos falando? Afinal, ela deixou de existir da mesma forma que foi criada: sem critério algum. Foi simplesmente substituída por uma sede dividida em três partes: Buenos Aires, Santa Fe e Chaco. Buenos Aires e Santa Fe teriam o mesmo problema de La Plata, já que apresentam clubes tradicionais. E o Chaco? Nesse caso, ficou claro que a iniciativa foi política, já que o presidente do Sarmiento de Resistência, e governador da província, precisou ser agraciado pela AFA, sabe lá Deus por quais razões.

Pela Copa do Brasil, é uma grande festa quando por exemplo o Vasco da Gama vai a Cuiabá enfrentar uma equipe local. O estádio lota. Seria a mesma coisa se um Boca Juniors fosse ao estádio do Ramón Santamarina ou mesmo o Argentinos Juniors à pequena cancha do Racing de Olavarría. O duelo poderia ser em partida única e com a vantagem da localidade ao time de menor expressão. Mas isso são conjecturas e fogem de nosso propósito.

Fato é que o futebol argentino está infestado de política da pior qualidade. E é isso o que norteia tantas barbaridades. E castigos. Pois não há outro nome a dar à ação de obrigar os abnegados hinchas de um Colegiales a viajarem 1.600 Km até Salta. E se não fosse por eles, e também por outros “malucos” do Independiente, o estádio estaria praticamente vazio, já que em cima da hora é que foram definidas as datas e horários das partidas.

Os dirigentes do Rafaela foram dos poucos que criticaram a desorganização. Primeiro La Crema jogaria em Catamarca, depois foi o duelo foi para Santa Fe. Antes jogaria no dia 23 de novembro, agora a data passou para 08 de fevereiro/2012. Decidiram que La Crema vai atuar em Santa Fe, mas parece difícil para os dirigentes decidirem onde: se no estádio do Colón, do Unión ou de qualquer outro da província. Assim como a partida do Rafaela com do Ferro, outras cinco tiveram suas datas alteradas para fevereiro, inclusive a do Rosário Central. O duelo do Canalla com o Brown Madryn passou de 22 de novembro para 08 de dezembro. Depois foi para fevereiro. É pouco? Então que tal saber que a data da última modificação dos duelos ocorreu no dia 21/11/2011? Isto mesmo! Um dia antes da estreia do Central e dois da estreia do Rafaela. E o planejamento das equipes? Quem está preocupado com isso? E a viagem inusitada e perdida de um enorme número de hinchas do Central à longínqua Salta (feita entre o dia 20 e 21 de novembro)? Quem se importa?

O Colón de Santa Fe enfrenta o Patronato no dia 29 de novembro. Ninguém sabe onde. Assim como o duelo do Banfield com o Atlético Paraná. E foi devido ao fato de que ninguém sabia de nada é que a partida foi do dia 22 para 30 de novembro. Assim como o duelo entre Belgrano e Sacachispas, agora confirmado para o dia 30 de novembro. A confusão é tamanha que na própria página do torneio (http://bit.ly/u739k0) fica impossível de entender e aceitar os inúmeros erros que há entre o texto que apresenta o calendário definitivo e as datas propriamente ditas.

A expressão “a confirmar” virou piada. Até aqui ela serviu para as sedes, as datas e os horários das partidas (se bem que para o duelo do Chaca com o Unión eles se esqueceram até da expressão “a confirmar”, reparem no mesmo link). Quando se referiam aos árbitros, e não tinham o árbitro, simplesmente não falavam nada. Não darei aqui o link da notícia, pois como os organizadores conhecem agora os árbitros de alguns duelos que antes não conheciam, não titubearam em modificar a informação na página oficial.

Outro problema é o não televisionamento das partidas. Como não televisionar uma partida do Independiente em Salta, Racing em San Juan ou do San Lorenzo em Catamarca? Mas o problema das transmissões é o mesmo pelo qual se modifica os horários, a definição de estádios etc: como não conseguem resolver os problemas, as circunstâncias são quem os resolvem para eles. Não existia um horário oficial dos confrontos; no lugar, havia um que era extraoficial, e que acabou virando oficial por forças das circunstâncias. Assim ocorreu também com a adoção dos estádios do Lanús e Huracán para os duelos da Sede bonaerense.

Por fim, vale lembrar que a partida do Boca Juniors com o Ramón Santamarina de Tandil já foi suspensa hoje para fevereiro de 2012. Todo mundo na Argentina já sabe, menos a página oficial do torneio, que ainda não divulgou a notícia. Faz inveja ver um torneio como a Copa do Brasil e o quanto ele contagia os torcedores do Brasil. Contudo,será que vale considerar que os dirigentes argentinos precisam aprender algo com os brasileiros. Os nossos apenas se deram conta de que ganhariam mais com um mínimo de organização. Só isso. Os nossos, também por forças das circunstâncias, organizam um pouco melhor as coisas por aqui; ao contrário doa argentinos por lá. Contudo, do ponto de vista do caráter são todos farinha do mesmo saco. Farinha putrefata do mesmo saco em que tanto a sociedade brasileira quanto a argentina estão demorando de mandar definitivamente para uma enorme lata de lixo.

Joza Novalis

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Mestrando em Teoria Literária e Lit. Comparada na USP. Formado em Educação e Letras pela USP, é jornalista por opção e divide o tempo vendo futebol em geral e estudando o esporte bretão, especialmente o da Argentina. Entende futebol como um fenômeno popular e das torcidas. Já colaborou com diversos veículos esportivos.


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