Familiares na Seleção Argentina – Parte 4: Irmãos (II) Caio Brandão - 26/12/2011 - 11:21

Argentina antes de jogo contra a Venezuela na Copa América de 1975, com os dois Killer em campo. Daniel (que marcaria três gols) e Mario são, respectivamente, o primeiro e o terceiro em pé

Assim como o especial anterior, este se focará em pares de irmãos na seleção que contenham ao menos um convocado para uma Copa do Mundo. Vamos aos restantes:

Nos anos 70, o Rosario Central viveu sua melhor fase nacionalmente, obtendo três de seus quatro títulos argentinos e igualmente três dos quatro vice-campeonatos que alcançou, sendo natural que lançasse alguns canallas na Albiceleste. Um foi Eduardo Solari, que jogou uma única vez, em julho de 1975, e irmão de Jorge Solari, presente na Copa de 1966. Ambos foram abordados no especial dedicado a tal família. Outros dos auriazuis que receberam oportunidades na seleção, incluindo naquele mesmo 1975, foram os irmãos Killer.

Mario Estanislao Killer, apesar da técnica não tão alta, sabia passar ao ataque quando necessário, e era difícil de ser superado na marcação. El Colorado (era ruivo) jogou cinco vezes entre 1972 e 1975, as duas últimas na Copa América deste ano, quando, enfim, atuou na seleção ao lado do irmão Daniel Pedro Killer, três anos mais velho e que só ali estreou pela Argentina. Mario logo perderia vitrine, após ir ao futebol espanhol (efeito comum na época aos que iam jogar no exterior). Ele também chegaria a jogar no arquirrival do antigo clube, o Newell’s Old Boys, assim como o próprio irmão Daniel.

Este, por sua vez, era um zagueiro dono de igual força na marcação e no temperamento, também sendo seguro no jogo aéreo. Naquela Copa América, chegou a marcar três vezes em um 11 x 0 sobre a Venezuela (um dos jogos em que atuou com Mario, o outro sendo na derrota de 0 x 1 para o Brasil), o que ainda faz dele o defensor que mais marcou pela seleção em um jogo. Sua técnica, porém, não era muito melhor que a do irmão; o rude El Caballo esteve na Copa de 1978, mas com seu lugar ocupado pela maior velocidade e destreza de Luis Galván. Sua maior contribuição, segundo o técnico Menotti, era o de participar dos testes dos atacantes argentinos nos treinamentos, pois acabou não utilizado no mundial. Seu último jogo pela Argentina fora em um amistoso preparatório, em abril, contra o Uruguai.

Como os Onega, os Enrique ficaram bem marcados no River Plate. E, como os Perinetti, não chegaram a conviver na seleção. Héctor Adolfo Enrique, o mais velho, teve melhor sorte, no clube e pela Argentina: foi um dos jogadores que teve um 1986 dourado, sendo campeão mundial no River (única ocasião millonaria de tal porte) e na Copa do México, tendo triunfado no time de Núñez não somente em Tóquio como também na Libertadores e no campeonato argentino daquele ano. Sua primeira convocação foi logo na chamada para a Copa do Mundo, causando grande surpresa (ficou com a vaga de nomes mais celebrados ou cotados, como Claudio Marangoni, Miguel Ángel Russo, Juan Barbas e Alejandro Sabella, o atual técnico da seleção); sequer havia sido lembrado anteriormente.

Em todos esses títulos, ele foi titular, com seu jogo generoso e solidário com os atacantes apreciado por Bilardo na seleção e por Veira no River: tocava a bola, ia buscá-la, habilitava ataques e voltava à posição, como um bom camisa 8. Foi dele que Maradona recebeu o passe antes de driblar meio time inglês na célebre jogada do segundo gol nas quartas-de-final.

Carlos Enrique, na Copa América de 1991

Na Copa, Héctor Enrique integrou o meio de campo argentino com Giusti, Burruchaga e o próprio Maradona, de quem foi auxiliar na comissão técnica de 2010. Poderia ter jogado também o mundial de 1990, mas uma lesão no joelho lhe impediu; seu último jogo foi na Copa América do ano anterior. Chegou a ser técnico em uma partida, em amistoso não-oficial em 2008, contra a Catalunha.

Irmão de El Negro, Carlos Alberto Enrique (também campeão titular da Libertadores e da Intercontinental, mas pelo Independiente de 1984) não foi um dos Locos do futebol platino à toa: no meio-de-campo ou na lateral esquerda, era tão destemido e raçudo em campo quanto um tanto inconseqüente. Não foi derrotado em nenhum de seus nove jogos pela Argentina (todos em 1991), mas em dois terminou expulso, ambas contra o Brasil. A segunda delas, na vitoriosa Copa América de 1991 (que quebrou jejum continental de 32 anos dos argentinos), acabou sendo sua última partida com a Albiceleste.

Gabriel Alejandro Milito e Diego Alberto Milito, assim como a dos Evaristo, formam a outra única dupla fraterna em que os dois componentes foram a uma Copa do Mundo. Mas, ao contrário dos irmãos de 1930, os Milito estiveram separados: Gabriel viajou à de 2006 e Diego, para a de 2010. Eles já sabiam o que era dividirem-se, uma vez  que tiveram a particularidade de defenderem arquirrivais: Gabriel, pelo Independiente, e Diego, pelo Racing, inclusive não se furtavam de trocar farpas nos clássicos de Avellaneda. Em um deles, após falta cometida por Gaby em outro jogador, Diego imediatamente pediu pela expulsão do irmão ao árbitro, no que foi mandado pelo caçula a um certo lugar. Apenas no Real Zaragoza e em doze partidas pela Argentina ambos estiveram lado a lado em campo. Pelo país, puderam conviver nas Copa América de 2007 e 2011.

Um dos jogos da Argentina com os Milito juntos foi em amistoso de 2007 contra a Noruega. Gabriel é o segundo em pé e Diego, o segundo agachado

Um ano mais novo, El Mariscal Gabriel estreou na seleção em 2000, três anos antes do irmão. Zagueiro que sabe antecipar-se bem às jogadas adversárias, chegou à seleção, e depois à Europa, após seu papel de liderança na conquista do Independiente no Apertura 2002, ainda hoje o último título nacional do Rojo. Foi levado por José Pekerman, que o conhecia das seleções de base, à Copa de 2006, mas só foi utilizado contra a Holanda, na última partida da primeira fase, quando ambos os oponentes já encontravam-se classificados. Poderia ter ido à África do Sul, mas sua pouca presença na temporada 2009-10 no Barcelona pesou contra, para Maradona.

Diego, que por sua vez joga no ataque, só veio a debutar em 2003, após finalmente demonstrar a veia goleadora que lhe faltara nos primeiros 44 jogos pelos Racing, em que marcara apenas duas vezes. Quando deixou os blanquicelestes, em 2004, já tinha números que ainda o fazem o maior artilheiro do time no século XXI (35 tentos nos 104 jogos seguintes). El Príncipe (apelido atribuído por sua semelhança física com o uruguaio Francescoli, conhecido da mesma forma) foi testado por Marcelo Bielsa como possível sucessor de Batistuta, de ciclo fechado na seleção após a Copa do Mundo de 2002.

Na seleção, ele nunca se estabilizou, porém. Mesmo após grandes temporadas no Genoa e, sobretudo, na Internazionale – foi um dos principais nomes da inédita tríplice coroa de um time italiano, na temporada 2009-10, marcando nas finais da Copa da Itália, da Liga dos Campeões (que a Inter não vencia havia mais de quarenta anos) e do jogo que decidiu a Serie A -, até a sua convocação para a Copa de 2010 esteve em dúvida antes da lista final. Jogou contra a Nigéria, vindo do banco e, como titular, passou em branco também contra a Grécia (com a Argentina já classificada), ambas na primeira fase. O último gol de Diego pela Argentina foi na Copa América de 2007, contra a Colômbia, um dos parcos quatro tentos que marcou pela seleção.

Guillermo Burdisso comemorando o gol que marcou em sua estreia

A última dupla aprovada pelo critério Copa do Mundo é a dos Burdisso, que também é a mais recente na seleção. O zagueiro Guillermo Enio Burdisso, ainda no Rosario Central que meses depois cairia para a Primera B Nacional, jogou pela primeira e única vez em amistoso contra a Costa Rica em janeiro de 2010, até marcando um gol na vitória por 3 a 2. Atualmente no Arsenal de Sarandí, chegou a conviver, na temporada 2010-11 da Roma, com o irmão Nicolas Andrés Burdisso, já com duas experiências em mundiais, onde foi colega dos Milito.

Sete anos mais velho, Nico, que desempenha a mesma função, iniciou sua trajetória pela Argentina em 2003. Então com 22 anos, já era bicampeão da Libertadores e uma vez mundial pelo Boca Juniors – títulos que, sempre com participação ativa sua, ganhariam nova soma naquele ano, fazendo dele um dos principais nomes da história do clube de La Ribera, apesar de seu forte jogo aéreo ser por vezes descompensado por erros que custam gols.

Nicolás Burdisso no jogo contra o México na Copa de 2010, seu segundo mundial pela Albiceleste

Na Copa de 2006, vinha de dobradinha caseira pela Internazionale (o scudetto, na realidade, só seria atribuído semanas depois, em razão do escândalo de manipulação de resultados protagonizado por dirigentes da Juventus, vencedora original) e compôs a defesa titular na primeira fase, perdendo os jogos seguintes por conta de lesão. O que se inverteu na de 2010, quando conquistou espaço entre os titulares no decorrer do torneio.

O Burdisso mais velho (e mais famoso) já obteve 21 títulos oficiais na carreira; apenas Di Stéfano e Cambiasso foram mais campeões que ele entre os jogadores argentinos. Pela seleção, porém, as conquistas ainda se resumem ao ouro olímpico de 2004, o primeiro obtido pelo futebol argentino.

Caio Brandão

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Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer