Blog FP: O que falta à seleção argentina Tiago de Melo Gomes - 29/02/2012 - 18:40

A Argentina fez hoje mais uma partida decepcionante, apesar da vitória conseguida no fim, em grande parte graças ao talento de Messi. Para muitos, o problema é a escalação, ou da má qualidade dos defensores. Mas é hora de encarar os problemas mais profundos da albiceleste.

É comum a avaliação de que o grande problema da seleção argentina é a ausência de defensores de qualidade. Para outros, hoje o grande problema foi a escalação equivocada na meia cancha. São dois problemas reais. Mas seriam capazes de explicar o fato de que há anos a albiceleste não consegue encontrar seu futebol?

Em 1986, a Argentina foi, com todos os méritos, campeã mundial de futebol. Tendo como zagueiros Cuciuffo, Ruggeri e Brown, jogadores muito longe do brilhantismo. No meio de campo, aquela seleção tinha jogadores como Batista, Giusti, Olarticochea e Enrique, eficientes, capazes de desempenhar com segurança suas funções, mas longe de serem craques. Em suma, a Argentina já chegou ao topo do mundo ostentando os problemas que muitos apontam como decisivos para a má partida de hoje e para outros insucessos recentes.

Uma explicação bastante popular para isso é a atuação excepcional de Maradona naquele mundial. Nessa visão, Dieguito teria carregado nas costas uma dezena de jogadores fracos, levando a albiceleste ao título. Mas há algo aí que não fecha. Mesmo enfrentando Itália, Inglaterra e Alemanha, aquela seleção levou apenas cinco gols em sete jogos (levou mais do que isso no mundial da África do Sul em apenas 5 jogos), algo que não pode ser creditado na conta de Maradona.

Mais do que isso. Maradona resolveu a maioria daqueles jogos no mundial. Mas quem viu os jogos (e não comenta apenas a partir de melhores momentos) sabe muito bem que a seleção argentina, mesmo formada em grande maioria por jogadores medianos, não foi dominada por nenhum adversário. Contra os pequenos, impôs claramente sua supremacia. Contra os grandes fez jogos equilibrados (e aí sim, Maradona fez a diferença).

Mas aquela seleção tinha um treinador competente que não modificava todo seu jogo na primeira adversidade. Tinha padrão de jogo. Tinha um plantel com lideranças. Nesse contexto, era uma equipe em que os jogadores rendiam o máximo que podiam. Em suma, era uma equipe muito bem montada, tudo o que a seleção argentina dos últimos anos não tem sido.

O que diferencia a Argentina de hoje da de 1986 não é a qualidade dos jogadores de defesa e meio de campo. Tampouco se trata de um Messi “que não joga pela seleção”, ao contrário de um Maradona que “resolvia na seleção”. Em 1982 Diego estava em uma grande seleção argentina, que tinha a base da seleção campeã de 1978, e fracassou completamente, com 3 derrotas em 5 jogos.

Alejandro Sabella pode escalar melhor sua equipe. Mas isso não resolverá nada se não conseguir criar uma equipe bem montada, com uma filosofia definida de jogo, onde os jogadores possam render o que possam, e com lideranças, jogadores “cascudos”, capazes de fazer a equipe se impor em campo. Como bem mostram as seleções comandadas por Diego Maradona e Sérgio Batista, distribuir craques em campo em uma equipe bagunçada não basta para formar uma grande seleção.

Tiago de Melo Gomes

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Tiago de Melo Gomes é bacharel, mestre e doutor em história pela Unicamp. Professor de História Contemporânea na UFRPE. Autor de diversos trabalhos na área de história da cultura, escreve no blog 171nalata e colunista do site Futebol Coletivo.