B Nacional: um pouco do Atlanta, rival do River Plate na rodada Joza Novalis - 6/04/2012 - 18:10

A situação do Atlanta na B nacional é das piores possíveis. É o antepenúltimo na tabela de classificação e, o que é mais importante para o clube, o último colocado nos “promedios”. Trata-se de um típico exemplo de não-adaptação à categoria para qual subiu, o que é bastante comum para alguns clubes na Argentina. Se, contudo, nos últimos jogos, a equipe vem demonstrando certa recuperação e elevação de ânimo, o duelo contra o River não será apenas uma prova de fogo; pode ser o passo decisivo para o Bohemio passar de vez a fronteira e retornar à B Metropolitana. Para alguns poucos, em Villa Crespo, deverá ser outra coisa: o primeiro passo firme rumo à permanência na B Nacional. De qualquer forma, o Atlanta não tem mais tempo para indecisões. E nisto é que talvez esteja alguma dificuldade para o River Plate no duelo de domingo.

O Atlanta só subiu à B Nacional graças a uma revolução na sua gestão. Dirigentes compromissados com a história do clube concluíram que precisavam pagar algumas dívidas, colocar limites a salários, a contratações e a demissão de treinadores. Perto da falência completa não havia mesmo outro caminho a seguir. Quanto aos acordos para pagamento de dívidas eles de fato foram ocorrendo um a um, a partir da determinação de que o clube repassaria aos seus credores uma parte substancial de todas as suas arrecadações. Dito e feito.

O Convênio com o Lanús e a recuperação institucional

Só que faltava o time. Como reforçar o elenco fazendo, ao mesmo tempo, esforços para sanear as finanças do clube? Foi então que surgiu o acordo com o Club Atlético Lanús. O Granate cedeu vários jogadores ao Atlanta sem custos pelos empréstimos. Um ou outro com certa experiência, mas com baixo aproveitamento em “La Fortaleza”. A maioria com pouca idade e em situação de primeiro contrato. De comum, o fato de que o clube do Sul da Grande Buenos Aires arcaria com 50% dos salários desses jogadores. Também uma comissão técnica foi cedida ao Atlanta na mesma situação financeira dos jogadores. Coube ao Bohemio estabelecer o técnico, assim como a lista de jogadores que chegaria a Villa Crespo. Aqueles com os quais o Lanús concordou foram cedido imediatamente, outros, em um segundo momento e alguns deles não foram cedidos. Mas para esses casos o Granate apresentou uma lista de alternativas.

Ao Atlanta caberiam 25% do valor da venda de algum atleta granate em seu elenco. Isto, do primeiro dia ao primeiro ano, após a primeira temporada do acordo. Na segunda temporada, caberiam 15%; na terceira, 10%; e, depois, 5%. Por outro lado, ficou determinado que se o Lanús se interessasse por algum jogador da base bohemia, o clube de Villa Crespo poderia até negar, mas jamais repassá-lo a outra equipe. Caso concordasse em repassá-lo ao Lanús, o Atlanta ficaria com 35 a 50% dos valeres de uma possível transação. Esse acordo ainda permitiu que o Lanús cedesse a cobertura das plateias do estádio bohemio, a partir de um custo simbólico e que deverá ser pago somente quando abatido da venda de algum atleta envolvido no convênio entre os clubes.

O efeito do acordo foi o acesso do Atlanta dois anos depois. Só que a dificuldade de se adaptar à B Nacional é um fato. Talvez em razão de supervalorização de um elenco que havia feito uma campanha extraordinária em uma B Metro que não chega aos pés da atual, em termos de competitividade. E o próprio fato de que era necessário oferecer um tempo a esses jogadores (pois também eles precisavam de adaptação à B Nacional) redundou em uma campanha pífia e que coloca em risco a permanência na Categoria. Um dos grandes problemas está na defesa. Pouco testada na B Metro 2010/11, ela parece incapaz de oferecer combate para alguns ataques. Alguns desses ataques colocariam ao menos um de seus jogadores em times de elite da Argentina ou do Brasil, casos do Defensa y Justicia, Rosario Central, Boca Unidos, River Plate, Huracán e Instituto de Córdoba.

O outro problema está no ataque. Os 64 gols marcados pela equipe na campanha do acesso estão distantes dos 21 feitos até a 27ª rodada da B Nacional. Os 33 gols dos gêmeos Soriano na dita campanha também estão distantes dos nove gols convertidos pelos “Mellizos” até aqui. Por quê? Porque as defesas da B Nacional, e mesmo da B Metro atual, não se comparam em qualidade com as péssimas defesas da B Metropolitana da edição 2010/11.

Um recente momento de recuperação

Apesar disso, o Atlanta melhorou bem o seu futebol a partir da chegada do técnico Carlos Roldán. Ao bem da verdade essa melhora já vinha desde a última partida contra o Ferro, no final de 2012. No total foram 11 partidas (incluindo a derrota da equipe reserva contra o Quilmes pela Copa Argentina) com uma vitória, seis empates e quatro derrotas. E apesar de Roldán ainda não ter vencido a frente do time (quatro empates e três derrotas), o padrão da equipe mudou. Jogou melhor que o Huracán no empate de 2×2 em Parque Patrícios, igualou as ações com o Gimnasia LP no empate em zero na Villa Crespo, segurou com personalidade o forte ataque do Defensa y Justicia em Florencio Varela e perdeu em casa para o Desamparados de San Juan, apesar de ter dominado o rival durante os 90 minutos. Por que isto aconteceu? Por causa da defesa, que melhorou com o retorno de Nico Checho, após seis meses de contusão, com ingresso de Braian Resch na lateral esquerda e com a recuperação técnica de Guido Milán, que precisava da boa companhia de Checho.

Como joga o Atlanta atualmente

Assim como o treinador anterior, o atual monta a equipe com um 4-4-2. Com Milán e Checho centralizados, Mancinelli pela direita e Resch pela esquerda. No meio, dois volantes de marcação forte, casos de Lorefice e um outro a seu lado que sempre muda, mas que em geral é Pongoza ou Galeano. Atuando como meias abertos, Pasquini pela direita e Aparício ou Galeano, improvisado, pela esquerda. Na frente, os irmãos Soriano, que voltam a atuar juntos no ataque com a chegada do novo treinador. A formação prevê que os dois volantes de marcação fiquem bem presos à primeira linha e permitam a subida principalmente de Mancinelli pela direita. Esta é a principal saída do Atlanta para o ataque.

Pasquini e Aparicio são bons jogadores e executam bem a distribuição de bolas para o ataque. A presença de um ou de outro elevou o nível do meio-de-campo bohemio, atenuando a rispidez com que a pelota era tratada anteriormente. Contudo, esse trabalho é minimizado pelo baixo aproveitamento das jogadas no ataque. Símbolo da conquista do acesso, os irmãos Soriano vivem péssima fase e pouco vão às redes, ao contrário do que faziam na temporada anterior. Quando o meio-de-campo não trabalhava para o ataque, sempre se atenuava a baixa performance dos “Mellizos”; agora que a bola tem chegado em bom nível a seus pés fica claro que o mau momento é também uma questão pessoal dos atacantes. Mais que isso, que sua má fase é uma das razões da péssima campanha do Bohemio na B Nacional.

Para jogos em Villa Crespo, diante de rivais mais acessíveis, Carlos Roldán pode entrar com um 3-4-1-2. Neste caso, Mancinelli é quem abandona a zaga, ocupando uma posição no meio. Aparicio vai de enganche e na frente os “Mellizos” ou a saída de um deles para a entrada do bom Nico Ramírez. Após a partida contra o River, é possível que o treinador utilize mais esse esquema nos jogos como mandante.

Deu para perceber que Mancinelli é o coringa do time. A jovem promessa do Lanús pode atuar como lateral-ala, meio-campista pela direita, ou centralizado, e até de atacante também pelo setor direito do campo. É peça-chave no esquema de Roldán e felizmente tem agora a companhia de outros jogadores assumindo a responsabilidade na equipe.

A zaga fraquíssima tinha em Arancíbia seu pior desempenho. Com as modificações no setor foram apenas três gols nos últimos cinco jogos. Ou seja, Checho e Rosch estancaram a sangria. Mas justiça seja feita a Milán, que, como dissemos, recuperou confiança com a presença de Checho.

Contra o River

Carlos Roldán vai levar a campo o tradicional esquema 4-4-2. Na primeira linha ele vai de Carlos Arancibia na lateral-direita, o que significa que as perspectivas de ajuda ao ataque estão descartadas pelo setor. Zagueiro questionadíssimo até pelo mais simpático torcedor bohemio, Arancíbia se saiu bem no jogo contra o Gimnasia LP, legitimando a invenção de Roldán. O jovem atleta do Lanús é uma das apostas do novo treinador; para ele uma jovem promessa; para os torcedores, uma Serra Pelada arrasada de onde não se pode tirar mais nada. Fato é que atuou muito mal pela equipe na temporada, mas é inquestionável que sua atuação contra o Lobo colocou uma pulga atrás da orelha de todos. Zagueiro de origem, Arancibia tem até pavor de passar da linha do meio-de-campo.

Lucas Mancinelli será o volante pela direita e Pasquni pela esquerda. Gabriel López entra no lugar de Pongoza, que se contundiu e facilitou as coisas para Roldán, que já pensava em colocá-lo no jogo. No seu lado estará o implacável Loferice. Isto quer dizer que o treinador pretende evitar o apoio de seus defensores ao ataque. Em vez disso, quer toda a trama ofensiva ensaiada a partir do meio-de-campo, com Mancinelli e Pasquini tendo uma liberdade maior para criar.

A proposta do técnico é a de marcar o River do meio ao campo de defesa do Millonario. Neste setor, o combate a Sánchez é um dos objetivos. Se conseguir fazer isso, o treinador aposta que “El Chori” Domínguez recuaria para buscar o jogo e se perderia em um setor do campo em que não sabe jogar. Desta forma, Trezeguet e Cavenaghi ficariam pouco municiados no ataque. Com Mancinelli caindo pela direita o treinador acredita que ou bloqueará as subidas de Juan Manuel Díaz ou que criaria situações de gol justamente no costado de Díaz com Mancinelli pelo setor.

Tudo indica que o River deva levar os três pontos mais uma vez. Porque tem um time infinitamente superior, porque costuma fazer do Atlanta um freguês e porque o Bohemio parece jogar todas as suas fichas no talento e desenvoltura de um jogador: Lucas Mancinelli. Neste caso, se ele estiver bem pode não ser o suficiente, se por outro lado não estiver, não vai existir Atlanta jogando no campo de ataque o vice-líder da B Nacional.

Mestre em Teoria Literária e Lit. Comparada na USP. Formado em Educação e Letras pela USP, é jornalista por opção e divide o tempo vendo futebol em geral e estudando o esporte bretão, especialmente o da Argentina. Entende futebol como um fenômeno popular e das torcidas. Já colaborou com diversos veículos esportivos.

 
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