Copa América: os argentinos que já defenderam a Colômbia
Copa América: os argentinos que já defenderam a Colômbia Caio Brandão - 26/06/2015 - 12:48

O técnico argentino Pekerman orienta James Rodríguez na Copa 2014

Quando a Colômbia ganhou de 5-0 da Argentina em pleno Monumental de Núñez, nas eliminatórias à Copa de 1994, houve veículo na mídia colombiana que falou em parricídio. Afinal, o futebol cafetero deve talvez como nenhum outro seu desenvolvimento aos hermanos. A liga profissional por lá começou em 1949 no embalo de diversos argentinos, aproveitando-se da greve deles não atendida pelos cartolas em 1948. E o intercâmbio durou bem mais que o fim do Eldorado da liga.

Alfredo Di Stéfano foi o nome mais célebre dessa relação. Há fontes que sustentam que uma quantidade variada de amistosos pela Colômbia. Fica a menção, mas a ressalva de que dificilmente foram partidas oficiais, já que o Eldorado era também uma liga pirata banida pela FIFA por desrespeitar diversos limites sobre transferências de jogadores.

O banimento permitia, por outro lado, os clubes colombianos não pagarem nada aos clubes de origem de suas estrelas internacionais, surgindo daí bela margem de lucro para permitir salários sedutores para a época: teve até inglês que deixou o Manchester United para defender o Santa Fe (Charlie Mitten). Contra quem Di Stéfano jogou não é amplamente sabido e sequer se encontra registros fotográficos dele pelos cafeteros.

Mas bem antes do Eldorado a relação já existia: Fernando Paternoster, defensor titular da Argentina vice da Copa de 1930, apareceu como técnico da Colômbia em 1939. Antes do banimento, Lino Taioli treinou a amadora seleção de lá na Copa América de 1947, apenas a segunda disputada pelos tricolores. Eles tiveram de técnico na Copa América de 1957 outro jogador da Copa de 1930, Rodolfo Orlandini.

Adolfo Pedernera, que Di Stéfano considerava o maior jogador que vira (Di Stéfano era reserva dele no River), foi um dos seus colegas no Ballet Azul do Millonarios de Bogotá, uma das mais fortes equipes a nível mundial no início dos anos 50. Pedernera foi da dourada geração argentina impedida pela Segunda Guerra Mundial de disputar uma Copa do Mundo. Participou do torneio como técnico da primeira seleção colombiana classificada à competição, em 1962. Os novatos caíram na primeira fase, mas lograram quatro gols em cima da lenda Lev Yashin em um 4-4 com a URSS.

A Colômbia em sua primeira Copa, em 1962. O técnico era o argentino Pedernera, último em pé, de calça comprida

O Eldorado já havia acabado, mas a Dimayor permaneceu uma liga atrativa a argentinos por um bom tempo – Sergio Goycochea foi herói na Copa de 1990 como jogador do Millonarios, por exemplo – e outro goleiro, Julio César Falcioni (técnico do Boca vice do Corinthians na Libertadores de 2012), do América de Cali trivice da Libertadores entre 1985-87, esteve entre os pré-convocados (aquela América ainda tinha de atacante Ricardo Gareca, atual treinador da seleção peruana e ex-Palmeiras).

Quem fortalecia as equipes a partir dos anos 70, tristemente, eram os cartéis de droga. É desse década os argentinos nativos que comprovadamente defenderam a seleção colombiana, a começar por Hugo Lóndero, em 1975. Foi três vezes artilheiro da Dimayor, pelo América em 1969 e pelo nanico Cúcuta (clube que só na década passada obteve o primeiro título) em 1971 e 1972. Revelado na Argentina pelo Gimnasia LP, passou por diversos outros clubes cafeteros e se aposentou como maior artilheiro da Dimayor – hoje é o terceiro.

Infelizmente, o ponto de bala da carreira de Lóndero já havia passado quando a Copa América retornou, em 1975. Ele foi convocado e integrou a seleção vice-campeã, o mais perto que a Colômbia chegou da taça até vencê-la em casa em 2001; mas ficou na reserva. Nas eliminatórias à Copa de 1978, outros hermanos foram naturalizados, sem sucesso: o goleiro Raúl Navarro, ex-Huracán, campeão nas três taças do Atlético Nacional na década, até então a melhor dos alviverdes de Medellín.

Jorge Cáceres, revelado no San Martín de Tucumán, brilhou no modesto Deportivo Pereira em 1975: seu 35 gols na Dimayor daquele ano ainda são um recorde individual para uma única edição da liga. Como Navarro e Cáceres, Luis López, outro goleiro, do Santa Fe campeão de 1975 (último título dos alvirrubros de Bogotá até o argentino Omar Pérez liderar o renascimento dela na década passada), estreou em 1976 pela seleção. Em 1977, foi a vez do defensor Jorge Abraham Amado, ex-San Lorenzo que foi mais um argentino ídolo no Millonarios.

Na época, a Colômbia havia sido escolhida sede da Copa de 1986. Para receber o torneio com moral, ela recorreu a outro argentino para tentar classificar-se à Copa de 1982, dessa vez um técnico: ninguém menos que Carlos Bilardo. Bilardo brilhara treinando o Deportivo Cali vice para o Boca na Libertadores de 1978, a primeira a contar com um clube colombiano na final (o time ainda teve o artilheiro do torneio, o argentino ex-gremista Néstor Scotta). Mas El Narigón, que ganharia justamente a Copa de 1986 treinando sua Argentina natal, não teve êxito em classificar os cafeteros a 1982.

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Lóndero (em pé), vice na Copa América 1975. López (em pé) e Cáceres (agachado) nas eliminatórias à Copa 1978. O técnico Bilardo nas eliminatórias à Copa 1982. E Navarro Montoya (em pé) nas eliminatórias para 1986

Ainda em 1982, a Colômbia desistiu de sediar a Copa seguinte. Assim, precisou disputar as eliminatórias para ter direito de jogar o mundial. Seu goleiro havia nascido no país, mas era filho de argentinos e foi criado na terra dos pais. Assim como pode-se dizer que outro goleiro, Fernando Muslera, é um uruguaio nascido na Argentina, o mesmo vale para afirmar que Carlos Navarro Montoya é um argentino nascido em Medellín. El Mono, em início de carreira, atuava no Vélez quando foi convidado a jogar pela terra natal, e no impulso aceitou. A classificação, novamente, não veio.

Navarro Montoya até defenderia o Santa Fe entre 1986-87, mas arrependeu-se da escolha de jogar pela Colômbia. Viraria ícone do futebol sul-americano na virada para os anos 90 defendendo o Boca e pleiteou por anos que a FIFA lhe autorizasse a jogar pela Argentina. Isso só veio bem tarde, em 1998, longe dos tempos áureos do goleiro, ignorado por Daniel Passarella ao mundial da França embora sua ótima forma já quarentão pelo Gimnasia LP vice de 2005 tenha rendido pedidos para ser aproveitado por José Pekerman na de 2006. Ele não chamou o goleiro, mas, ele próprio tendo jogado no narcofútbol dos anos 70 (pelo Independiente Medellín), retornou ao país para devolvê-lo às Copas após 18 anos.

Pekerman conseguiu ainda a melhor campanha da Colômbia, as quartas-de-final no mundial do Brasil. Uma Colômbia que, em caminho inverso, estava cheia de jogadores importantes desenvolvidos na Argentina, incluindo os recordistas Faryd Mondragón (ídolo no Independiente) e James Rodríguez (do único título do Banfield na elite, em 2009, treinado pelo mesmo Falcioni ex-América de Cali e Boca), além de Teo Gutiérrez (Racing, River), Carlos Carbonero (presente no primeiro título argentino do Arsenal, em 2012), Carlos Valdés (San Lorenzo), Éder Álvarez Balanta e Mario Yepes (River). Sem contar o cortado Radamel Falcao García.

Mondragón e Yepes estiveram no início dessa via inversa, ainda nos anos 90, uma geração tão boa que seu ao luxo de abrir mão de Albeiro Usuriaga, que brilhara no Independiente campeão argentino e da Supercopa em 1994. Iván Córdoba passou mais de dez anos na Internazionale após ser comprado junto ao San Lorenzo. Juan Pablo Ángel foi artilheiro pelo River em 2000. O Boca campeão de tudo naquele ano (Libertadores, argentino e mundial) tinha o goleiro Oscar Córdoba, o zagueiro Sergio Bermúdez e o volante Mauricio Serna. Gerardo Bedoya e Alexander Viveros estiveram no Racing campeão nacional após 35 anos, em 2001 – ano em que Yepes, Bedoya, Jairo Castillo (do Vélez) e os dois Córdoba venceram a única Copa América da Colômbia.

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Ángel, Yepes (River), o careca Serna, o goleiro Oscar Córdoba e Bermúdez (Boca) e Iván Córdoba (San Lorenzo) na primeira invasão inversa

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Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

 
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