Ave Juan Román Riquelme! 10 anos da sexta e última Libertadores do Boca

Riquelme erguido pelo futuro desafeto Palermo após abrir o placar no Olímpico, enquanto o ex-colega Schiavi sofre

Quem bem viveu os anos 2000 tinha essa impressão. A dominância sul-americana do Boca parecia sem fim. Com exceção a 2002, não houve um ano entre 2000 e 2008 sem alguma Copa continental, em especial a mais importante, a própria La Copa. Tempos em que os xeneizes chegaram a ser, a nível mundial, o clube de mais troféus internacionais. O que se reforçou no velho Olímpico, após duas finais inapeláveis contra um dos mais copeiros times brasileiros. Era a vez do Grêmio ser a vítima tupiniquim da vez, outra característica auriazul daquele período. Que teve o melhor Román.

Riquelme já havia sido o maestro nas conquistas de 2000 e 2001, é verdade. Mas a melhor versão do camisa 10 foi a madura com vinho argentino, para não dizer veterana. Aquela foi a edição em que ele mais marcou gols no torneio, oito, terminando inclusive na vice-artilharia. Quase metade desses gols, três, vieram só nos dois jogos finais, sem contar a assistência ou interferência direta em todos os outros no 5-0 agregado sobre o Grêmio, o que corrigia o “defeito” de as finais de 2000 e 2001 terem vindo apenas nos pênaltis (afinal, Román não estava na de 2003). E poderia ter sido mais…

Afinal, o Boca simplesmente não usou La Bombonera na primeira fase. O clube sonhava em festejar seu centenário em 2005 vencendo o torneio que lhe vinha tão familiar nos anos anteriores, com a eliminação ainda nas quartas-de-final para o Chivas Guadalajara não sendo bem digerida. A confusão campal levou a Conmebol a suspender a casa boquense, punição cumprida em 2007. Afinal, o time não se classificara à edição de 2006. Desde 2003, vinha se contentando com as Copas “menores”: ganhou o bi da Sul-Americana em 2004 e em 2005, assim como o bi da Recopa em 2005 e em 2006 – taça esta que fez do Boca o novo Rey de Copas a nível mundial. Por sinal, também levantada no Brasil, sobre o São Paulo no Morumbi. Esse ciclo de 2005-06 premiou o técnico Alfio Basile à seleção argentina.

Ainda sob Basile, também veio outro bi, doméstico, do Apertura 2005 (já suficiente para colocar o Boca na Libertadores de 2007) com o Clausura 2006. Ricardo La Volpe foi o substituto inicial e começou muito bem, mas não sobreviveu à vexaminosa derrapada na reta final do Apertura 2006. Um ponto bastava ao Boca nos dois jogos finais, perdeu ambos e foi igualado pelo Estudiantes, que não era campeão havia 23 anos. E ainda perdeu de virada no jogo-extra com os alvirrubros. Até hoje, os xeneizes jamais conseguiram um tricampeonato argentino seguido.

Pelas oitavas, confrontos caseiros duros contra o Vélez, seja pela truculência de Sessa ou pelo oportunismo de Zárate: vitória de 3-0 em casa, mas depois derrota de 3-1 fora

Meses depois, isso já era passado. Fernando Gago, na época visto como um novo Redondo, havia sido vendido ao Real Madrid após o Apertura 2006. Mas o que importava era a volta de Riquelme, por pior que fosse a sua fase. Levara o nanico Villarreal à final da Liga dos Campeões de 2005-06, foi solicitado por Zinedine Zidane a trocar de camisas após o último jogo da carreira do francês pelo Real Madrid e fizera uma boa Copa do Mundo, mas as eliminações nos dois casos foram duras, com direito a um pênalti perdido no minuto final da semifinal contra o Arsenal. Após a Copa, chegou a anunciar que se aposentaria da seleção. Não teve um bom início de temporada europeia. O que não impediu que fosse sondado por Manchester United, Bayern Munique, Atlético de Madrid e sete milhões de dólares anuais do Qatar. Preferiu ser emprestado ao Boca. Herói.

Velhos colegas do ciclo 2000-01 estavam lá, casos dos laterais Hugo Ibarra e Clemente Rodríguez, do volante Sebastián Battaglia e dos atacantes Martín Palermo e Guillermo Barros Schelotto. Ibarra, Clemente, Battaglia e Palermo tiveram aventuras europeias (Ibarra foi vice da Liga dos Campeões pelo Monaco em 2004, marcando inclusive o gol da classificação sobre o Chelsea em Stamford Bridge nas semifinais), mas voltaram. Os laterais foram o único titulares nos quatro títulos de Libertadores a partir de 2000. Schelotto, que por sua vez completaria dez anos de Boca em 2007, também participou das quatro, mas não ficaria para a reta final. Sua única aparição na edição 2007 foi na estreia no 0-0 contra o Bolívar em fevereiro, despedindo-se em abril justamente após um 1-1 no Superclásico com o River pelo Clausura.

El Mellizo, já veterano, iria ao Columbus Crew fazer história na MLS, mas aquela partida bastou para fazer dele, na época, o jogador mais vitorioso do clube. A dupla com Palermo já vinha cabendo há algum tempo ao jovem Rodrigo Palacio, com Mauro Boselli de reserva imediato. No meio, Éver Banega, Pablo Ledesma e Neri Cardozo, produtos da base, suplantavam o frágil corpo de Battaglia. O miolo de zaga foi formado essencialmente por Daniel Cata Díaz, ex-Colón, e pelo paraguaio Claudio Morel Rodríguez, ex-San Lorenzo. No gol, o paraguaio Aldo Bobadilla, contratado para o agridoce segundo semestre de 2006, perdeu o lugar para o reforço Mauricio Caranta, que vinha do México. Outros diversos participaram, especialmente na primeira fase, em que os auriazuis deram-se ao luxo de usar reservas mesmo contra três adversários de altitude: Cienciano, Toluca e Bolívar.

Além dos experientes Schelotto e Battaglia, tiveram oportunidades na primeira fase os defensores Matías Silvestre, Jonathan Maidana e o meia Nicolás Bertolo, nenhum dos quais vingou no momento; oito anos depois, os dois últimos seriam titulares quando o River voltou a ganhar a competição, sendo os únicos a ganharem a Libertadores pela principal dupla do país. Outro reserva foi o jovem Jesús Dátolo, o que melhor aproveitou, saindo regularmente do banco na reta final, inclusive dez anos atrás. Por fim, o técnico que substituiu La Volpe foi Miguel Ángel Russo, credenciado por um bom trabalho no Vélez, que sob ele ganhara em 2005 seu único troféu entre 1998 e 2009.

O Libertad de Guiñazú foi o único time perto da vitória na Bombonera. Deixou escapar no último lance e pagou caro em Assunção

O próprio Vélez foi o primeiro oponente “para valer” na Copa. O que, segundo Riquelme, significa o mata-mata. Salvo um 3-0 sofrido para o Cienciano em Cuzco, não houve maiores sobressaltos: fora de casa, o 0-0 foi segurado contra o Bolívar no Hernando Siles e sofreu-se uma derrota normal por 2-0 para o Toluca. Na Argentina, 1-0 no Cienciano no estádio do San Lorenzo, um 3-0 sobre o Toluca e um inapelável 7-0 sobre o Bolívar, ambos jogos realizados no campo do Vélez. A grande turbulência no mundo Boca na primeira fase veio fora do campo. Algo que tem ótica positiva aos neutros: no fim de março, o chefão Rafael Di Zeo foi condenado à prisão por incidentes de 1999.

Os mata-matas, por sua vez, foram emocionantes. O Vélez parecia derrotado ao levar de 3-0 no retorno boquense à Bombonera nas oitavas. Foi o dia marcado pelo lance grotesco do goleiro Gastón Sessa em Rodrigo Palacio: sem qualquer disputa séria pela bola, com Palacio já recolhendo o corpo conformado por Sessa agarra-la com tranquilidade, o goleiro velezano soltou o pé no rosto do atacante. Sessa foi imediatamente expulso. Palermo, como ficou célebre, teve o pênalti defendido pelo goleiro reserva, mas se redimiu no segundo tempo, usando a cabeça para encobrir a todos e fazer 2-0. O placar havia sido aberto por Riquelme, deixado livre em confusão na área ainda no início. Depois, Román serviu Clemente, que a dois minutos do fim concluiu como um ponta.

Só que em Liniers o adversário (que imediatamente demitira Sessa), por sinal treinado por Ricardo La Volpe, acreditou. Mauro Zárate abriu o placar em menos de quinze minutos, bailando sobre Silvestre (que não voltaria a jogar na edição). Um gol olímpico empatou aos 32 com gol olímpico. De quem? de Riquelme. Mas logo o Fortín se reanimou: dois minutos depois, Ledesma foi expulso. E outros dois minutos depois, Zárate recebeu livre e repôs o Fortín na frente, em verdadeira pane da zaga xeneize, que permitiu sem marcação que Maurito até dominasse no peito e girar antes de chutar. Faltando onze minutos para o fim, Ramón Ocampo conseguiu encobrir sem ângulo Caranta em um belo gol, mas o Vélez precisaria ainda de mais dois gols. Não houve tempo e no minuto 90 os fortineros ainda sofreram a expulsão de Mario Méndez. Restou a honra lavada com o 3-1.

Pela frente, uma equipe sensação na edição 2006: o Libertad, que nela liderara o grupo do River, depois eliminara o próprio River nas quartas e só caiu para o futuro campeão Internacional nas semifinais, e após levar dois gols nos últimos dez minutos. Os alvinegros haviam perdido o técnico argentino Gerardo Tata Martino para a seleção paraguaia (e Bobadilla para o próprio Boca), mas o time de Pablo Guiñazú endureceu na Bombonera: 1-1, e porque Palermo salvou a pele de Riquelme (que perdera pênalti) ao empatar aos 46 do segundo tempo; os paraguaios haviam aberto o placar pouco antes, aos 32, em falta que contou com falha de Caranta. Palermo ainda chegou a empatar antes, mas em lance anulado por impedimento.

Riquelme comemora a falta na neblina contra o Cúcuta, abrindo o 3-0 que reverteu derrota de 3-1. À direita, paródia da expressão “La Copa se mira y no se toca” com a sexta vez do Boca

Em Assunção, os donos da casa mantinham até a última hora o 0-0 que lhes classificaria. Riquelme então apareceu. Recebeu no meio-campo e disparou contra os alvinegros, chutando na entrada da área para abrir o marcador. Dez minutos depois, o jogo já estava liquidado: em escanteio, Palermo ajeitou de cabeça a Palacio, que emendou de primeira para forçar o Libertad a repentinamente ter de virar a partida em vinte minutos. Mas nada de tranquilidade: quando o Boca enfim pôde fazer o segundo jogo do mata-mata em casa, contra o Cúcuta, foi para reverter um 3-1 de virada fora para a equipe de Macnelly Torres (e do argentino Juan Manuel Martínez, o Burrito de Vélez, Corinthians e Boca).

Os colombianos seguravam heroicamente o 0-0 até os 43 minutos. Foi quando Riquelme, de falta, pôs fogo em meio à forte névoa que mal permitia a visão. Com dez minutos, a cabeça de Palermo anotava o 2-0 suficiente para a classificação, e a de Battaglia (em seu segundo toque na bola no jogo) confirmou a nove minutos do fim, assistida por escanteio de Román. Pela frente, um Grêmio que ressurgia meteoricamente após a emocionante saída da segundona em 2005. O Tricolor superou dois confrontos caseiros (São Paulo e Santos) que seriam três se o Flamengo, que estrilou contra seu único adversário na altitude (Potosí), não fosse eliminado pelo Defensor. E Mano Menezes contava com alguns conhecedores dos atalhos da Bombonera. Mas seria justo o mata-mata mais tranquilo… 

Rolando Schiavi, agora gremista, porém, perdera a posição para Teco. Já Sandro Goiano, presente na célebre vitória do Paysandu em 2003, fez dupla de volantes com o paraguaio Diego Gavilán. A aposta era buscar o contra-ataque pela esquerda, aproveitando-se da velocidade de Lúcio e Carlos Eduardo. Palacio abriu o placar antes dos 20 minutos, mas o Grêmio teve sucesso na sua proposta na maior parte do jogo. Poderia até reclamar que o gol deveria ser anulado: Palermo, que tocara para o colega, estava impedido ao receber de Riquelme. Mas aos 12 do segundo tempo Sandro complicou a situação tricolor, sendo expulso após chutar o rosto de Banega. O goleiro argentino Diego Saja foi incapaz de conter uma bomba do camisa 10 auriazul e depois foi traído no penúltimo minuto, com Patrício marcando contra.

O gol contra veio após bate-rebate oriundo de outra jogadaça de Román, que bailara contra três gaúchos e arrancara rebote de Saja. O Olímpico lotou do mesmo jeito na volta, mas os minutos que passavam mostravam que era algo protocolar. Só não ficou no 0-0 porque os argentinos, com um estranho calção amarelo, acharam dois gols nos últimos vinte minutos. Ou melhor, Riquelme achou. E só não foi outro 3-0 porque Palermo, reforçando piadinhas, perdeu pênalti já após o 2-0. A conquista serviu para que o Boca se isolasse novamente, por algumas semanas, como time de mais troféus internacionais (o Milan, que acabara de igualar-se vencendo a Liga dos Campeões, se reigualaria com a Supercopa Europeia e ultrapassaria no Mundial. O Boca reigualaria na Recopa 2008).

Essa dominância se refletiu na seleção argentina convocada à Copa América, cheia de xeneizes. (Ibarra, por exemplo, voltou após oito anos à Albiceleste; Riquelme voltou atrás na renúncia, adiada para 2009). Pena para o futebol que o 3-0 da final ficou para Dunga…

Com este Especial, encerramos matérias sobre cada Libertadores e cada Mundial vencidos pelo Boca. Confira:

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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