Ícone do emergente Vélez, Chilavert quase foi de River e Boca. Vontade não faltou

Capas de 1996 e de 1997 da El Gráfico. Só a segunda foi às bancas

Chilavert personificou o Vélez dos anos 90. Foram nove anos seguidos no bairro de Liniers, abarcando o período mais dourado do clube, protagonizando as conquistas sob diferentes treinadores – de Carlos Bianchi a Marcelo Bielsa, passando por Osvaldo Piazza. Mas Chila não foi imune a tentações extraconjugais da dupla mais poderosa do país, que tão bem combatia. Algo escancarado novamente há vinte anos, na capa da revista El Gráfico de 5 de agosto de 1997, na imagem à direita que abre esta matéria nada romântica. 

Para começar, outra ironia para quem só conhece o Chilavert do Vélez: antes de virar fortinero, o goleiro angariara prestígio na Argentina justamente no San Lorenzo, hoje tão rival dos velezanos. Foi nos anos 80, quando o paraguaio, ainda sem a famosa barriguinha, fez parte de um elenco azulgrana apelidado de Los Camboyanos – em função do povo indochinês estoico em meio à sangrenta guerra civil interna, algo, que guardadas as muito devidas proporções, se sentia entre os sanlorencistas: uma torcida de um time sem estádio, sem bairro e sem dinheiro. Mas com jogadores lutadores, capazes de arrancarem uma campanha até as semifinais da Libertadores de 1988.

Há quem diga que a rivalidade entre Vélez e San Lorenzo teria começado por aqueles anos 80 na verdade, muito antes de La V Azulada empilhar títulos em série (tinha apenas um campeonato argentino), a incluir taças internacionais cuja ausência foi sentida até o novo milênio nas vitrines cuervas. Tudo porque, com a perda do estádio Gasómetro em 1979, o time do Papa precisou rodar por diversas canchas ao longo da “década perdida”.

Era comum o Sanloré alugar o campo do Vélez. Sua infra-estrutura acima da média, a ponto de ter sido sede na Copa de 1978 apesar de Buenos Aires também ceder o Monumental, e o ambiente são encantariam além da conta alguns torcedores azulgranas. Fato é que foi no San Lorenzo que Chilavert foi permitido pela primeira vez a cobrar uma falta. Não teve sucesso, mas, mesmo “apenas” como “goleiro-goleiro” e saindo semanas antes daquela Libertadores de 1988 começar, teve passagem muito bem reconhecida nos Camboyanos. Cavou ali sua primeira transferência ao futebol europeu.

A primeira cobrança oficial de falta de Chilavert foi ainda pelo San Lorenzo. À direita, como reforço do River de Menotti em 1988. Mas não seria efetivado

Chilavert foi contratado pelo Real Zaragoza na ocasião, mas a princípio seguiria na Argentina. San Lorenzo e River promoveriam um troca-troca: os millonarios cederiam as promessas Néstor Gorosito, meia, e Sergio Goycochea, goleiro, por jogadores das mesmas posições, respectivamente Darío Siviski e o paraguaio. O time de Núñez havia contratado o técnico César Menotti e a revista El Gráfico chegou a publicar matéria de capa com o treinador rodeado por um Chilavert e outros reforços, como Jorge Higuaín (pai de Gonzalo). Todos, sorrindo de orelha a orelha.

Só que aquele troca-troca foi melado. Exames detectaram uma doença em Goycochea, que fez mistério a respeito, atitude que gerou boatos até de que Goyco teria AIDS. Na verdade era uma artrite, que, mesmo sem a carga de fatalidade, poderia comprometer-lhe a carreira. Os goleiros não só não foram trocados como o San Lorenzo, além de conservar Siviski, foi do mesmo jeito reforçado por Gorosito (que viraria ídolo), sem espaço em meio ao pacotão de reforços no River. 

Por outro lado, a passagem pelo Zaragoza permitiu por vias tortas a chegada de Chilavert ao Vélez, ainda um clube que só tinha o título do longínquo 1968: “se deu um pouco por acaso. Eu havia cruzado com o preparador Weber quando jogava no Zaragoza e combinamos que nos íamos ver quando eu passasse por Buenos Aires. Fiz isso, e como não existiam celulares e não tinha seu telefone, me ocorreu de ligar para o Vélez, porque o preparador estava trabalhando aí. Me atendeu justo Raúl Gámez, que era dirigente do clube. Foi o destino, porque aí mesmo Gámez me convidou para que me somasse ao clube. Eu lhe respondi que no outro dia ia ao Paraguai e que tinha várias ofertas. ‘Onde estás? Bom, em uma hora vamos para aí e tomamos um café’. Me convenceram para jogar por seis meses e ao fim fiquei por nove anos”.

Vieram o título argentino em 1993, a Libertadores e o Mundial em 1994 e novo título argentino no fim de 1995, campanha em que o Vélez ultrapassou na penúltima rodada um Boca reforçado por Maradona e Caniggia e que era líder invicto até a antepenúltima. O paraguaio encerrou o ano eleito o melhor goleiro do mundo pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (o IFFHS). Ainda é o único não-europeu a conseguir, assim como o único premiado que na época atuava fora do Velho Continente. Assim, no finzinho daquele ano a El Gráfico publicaria nova capa de Chila no River, sob os dizeres: “caro, mas o melhor”. O sorriso era ainda maior do que em 1988.

Em 1996, o Vélez foi campeão argentino com Chilavert marcando duas vezes de falta. Justamente sobre River e Boca

Essa capa vazou na era da internet, mas não chegou a ir às bancas. No fim das contas, o River recusou-se a pagar os três milhões de dólares pedidos – na época, o recorde mundial ainda se limitava aos treze milhões que o Milan pagou em 1992 ao Torino por Gianluigi Lentini, transferência ultrapassada em apenas duzentos mil no novo recorde, em 1996, envolvendo a ida de Ronaldo do PSV ao Barcelona. Perto do que aquele arqueiro já barrigudo e com trinta anos ainda produziria, os três milhões se mostrariam uma pechincha mesmo naquele contexto…

O Vélez foi bicampeão no torneio seguinte, em um ano marcado pelos primeiros gols de falta em série de Chilavert, que só tinha dois gols assim no currículo – o último, em 1994. E o paraguaio não poderia ter escolhido vítimas melhores: as três primeiras naquela série de 1996 foram justamente River, Boca e seleção argentina. A começar pelo Millo, que sofreu exatamente na cobrança mais famosa do paraguaio, desde antes do meio-campo, a 60 metros da meta de Germán Burgos. O Vélez venceu por 3-2. 

O River logo deixou aquele Clausura 1996 de lado para focar-se na vitoriosa Libertadores. Ao longo do campeonato, o Boca mostrou-se um dos concorrentes ao título doméstico. Perto da reta final, o Vélez recebeu Maradona e colegas, então um ponto atrás, para aplicar-lhes um 5-1 de virada, com direito a expulsão do próprio Dieguito. Nessa partida, Chilavert marcou pela primeira vez dois gols no mesmo jogo, de falta e de pênalti sobre o desafeto Carlos Navarro Montoya – nunca perdoado por ter sido eleito o melhor goleiro do futebol argentino de 1994 mesmo sem troféus, enquanto Chila conseguia as taças internacionais do Fortín.

As vitórias sobre a dupla mostraram-se fundamentais em um torneio ganho por só um ponto de diferença. Após o bicampeonato, Chilavert esteve perto de sair de Liniers novamente, desta vez para a Roma, que havia contratado Carlos Bianchi. Foi por causa disso que o Vélez contratou, por sinal, Goycochea. Mas o paraguaio ficou e ao fim do ano acumulou novo título, na Supercopa Libertadores. No primeiro semestre de 1997, foi a vez da Recopa, com Chila sendo o herói da decisão por pênaltis contra o River. Quem abria o olho a ele agora era o Boca, sem títulos expressivos desde 1992 e que se desfizera de Navarro Montoya.

Chila fazendo força para sair do Vélez em agosto de 1997. Ficou. À direita, o famoso cumprimento com Maradona (veja o vídeo ao fim)

Os auriazuis montavam um elenco recheado de estrelas para desfazer o jejum. Além de Maradona e Caniggia, tinham diversas opções ofensivas, algo que destacamos há um mês: Juan Román Riquelme, Martín Palermo, Guillermo Barros Schelotto e o mexicano Luis Hernández, para ficar só nos mais conhecidos pelos brasileiros. Mas a defesa também era uma preocupação. Maradona abriu o bico pedindo pelo brasileiro Ricardo Rocha, de bom desempenho no Newell’s, e por Chilavert, mesmo com trocas de farpas pretéritas e futuras entre os dois: “quero que o paraguaio venha. Não quero que mude o que opina de mim. Quero que fique claro que vem para dar uma mão ao Boca. Não para que seja meu amigo”.

Ele retribuiu: “comigo e com Diego, o Boca é campeão”, estampou aquela El Gráfico de vinte anos atrás. “Nos sentando para conversar, podemos nos entender. Somos pessoas adultas”, completou. “Morro para ir ao Boca”. Para completar o alinhamento cósmico, o técnico daquele Boca era Héctor Veira, exatamente o treinador que autorizara Chila pela primeira vez a cobrar faltas, naquele San Lorenzo Camboyano. Diferentemente do River, o Boca se dispunha a arcar com três milhões, além de oferecer alguns jogadores, dentre eles ninguém menos que Riquelme. Só que agora o Vélez pedia quatro…

Ao fim, nem o brasileiro e nem o paraguaio chegaram à Casa Amarilla, que no lugar importou uma dupla colombiana do América de Cali vice da Libertadores de 1996: Sergio Bermúdez e Oscar Córdoba. Opções secundárias que se mostrariam certeiras a médio prazo: Córdoba foi o herói das duas decisões por pênaltis que decidiram o bi xeneize na Libertadores em 2000-01 e Bermúdez, o capitão. Já Chilavert, tal como contra o River em 1996, foi profissionalíssimo, mesmo às turras com Marcelo Bielsa. Quando o Vélez recebeu o Boca naquele Apertura 1997, Chila voou como poucas vezes para impedir no ângulo um golaço de falta de Maradona.

Teria sido o último gol da carreira de Dieguito, cuja admiração mostrou-se ainda maior que a escancarada amargura pelo lance, com ambos se saudando em seguida, trégua que não duraria muito além (“Maradona é comunista da Boca para fora”, dispararia o goleiro à mesma revista El Gráfico anos mais tarde). Sem o paraguaio, o River ganhou a Libertadores de 1996, mas caiu nas semis de 1998 e 1999, para brasileiros que o goleirão tantas vezes fez de freguês. E o Boca perdeu por um único ponto aquele Apertura 1997, mesmo com a oitava melhor campanha da história dos torneios curtos e sem contar com Maradona (aposentado) e Caniggia (lesionado) na reta final. Como poderia ter sido com Chila?

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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