Retrospecto da seleção na Bombonera é excelente. O problema é o Peru…

Sensini, Cáceres, Ayala, Roa, Astrada e Verón, Simeone, Batistuta, Ortega, Gallardo e Claudio López: último jogo em La Bombonera pelas eliminatórias, há 20 anos

Não é de hoje que quando a Argentina se vê em perigo nas eliminatórias busca refúgio em La Bombonera. Trata-se de uma tática presente desde a primeira vez em que a Albiceleste disputou as eliminatórias, para a edição de 1958 (a presença de todos na Copa de 1930 se dera por convite; o único oponente em 1934, o Chile, desistiu de antemão; em 1938, o país, injuriado em perder a sede para a França, recusou-se em participar; a recusa se manteve para 1950 e 1954, agora por medo de vexame sem os astros exilados no “Eldorado Colombiano”). Em 23 jogos, foram 15 vitórias e só duas derrotas. Mas é um empate o resultado mais lembrado.

Diferentemente de equívocos cometidos pelo Infobae, que contabilizou desde 1925 todas as partidas realizadas da seleção no estádio do Boca, o ponto inicial deve ser o ano de 1940. Afinal, foi só neste ano que La Bombonera foi inaugurada. Mas demorou para receber a seleção; até meados dos anos 40 ela fazia de sua casa o velho estádio do San Lorenzo, o Gasómetro, que era o maior do país até ser demolido em 1979. Grandeza deixada de lado quando o Monumental (inaugurado em 1937) começou a ser usado em 1946, virando a moradia definitiva dos hermanos.

Foi somente em 1956 que a Argentina enfim adentrou na caixa de bombons, em amistoso em 2-2 com o Uruguai em 14 de novembro. Os gols da casa foram de Ernesto Grillo (que marcharia ao Milan para ser vice da Liga dos Campeões de 1958, com gol na final sobre o Real Madrid de Di Stéfano) e Antonio Garábal, enquanto o veterano do Maracanazo Oscar Míguez marcou os dos celestes.

Nas eliminatórias de 1958, a Argentina caiu em triangular com Chile e Bolívia, que começaram jogando entre si, com uma vitória para cada lado. Os hermanos começaram jogando fora de casa contra ambos, caindo na altitude de La Paz (2-0) mas recuperando-se em Santiago (vitória pelo mesmo placar). Era necessário vencer novamente os chilenos em seguida, em Buenos Aires, para igualar-se à pontuação da Bolívia. La Bombonera funcionou bem contra o rival tecnicamente mais qualificado: 4-0, com dois de Omar Corbatta, um dos poucos poupados no “desastre da Suécia”. Norberto Menéndez e Roberto Zárate completaram.

Classificações tranquilas desde o início vieram em 1962 e em 1966. Mas para 1970 os argentinos, pela primeira vez, conheceram duas derrotas seguidas, logo nos dois primeiros jogos, ainda que ambos fora de casa: 3-1 para a Bolívia (que marcou com dois argentinos naturalizados, Juan Díaz e Raúl Álvarez) em La Paz e 1-0 para o Peru em Lima. Os dois vizinhos depois se enfrentaram, com uma vitória para cada lado. Depois foi a vez dos hermanos os receberem em casa, com zero de pontuação. Primeiramente, contra a Bolívia, veio um magro 1-0, gol de pênalti de Rafael Albrecht.

Peruanos festejam para a desolação de Carlos Pachamé e do goleiro reserva Miguel Santoro em 1969: o perigoso antecedente de La Bombonera contra o Peru é um empate

Restava bater o Peru para forçar nova série de jogos (pois todos terminariam empatados). O empate classificaria a Blanquirroja do técnico brasileiro Didi. Foi o que acabou acontecendo: Oswaldo Ramírez abriu o marcador já aos 25 do segundo tempo. Dez minutos depois, um pênalti de Albrecht empatou. Mas no minuto seguinte Ramírez esfriou a reação, assinalando o 2-1. Alberto Rendo igualou a dois minutos do fim e mal comemorou. O placar permaneceu no 2-2 e aquela foi a última vez em que a Albiceleste ficou de fora da Copa – e a única em que isso ocorreu por desclassificação nos gramados.

Objetivamente, a primeira derrota veio na partida seguinte, com a França ganhando por 4-3 em amistoso de janeiro de 1971. Charly Loubet e (de pênalti) Jean Djorkaeff abriram 2-0 para os Bleus, aos 3 do primeiro tempo e aos 5 do segundo. Miguel Brindisi diminuiu aos 10, mas Georges Lech ampliou aos 19. Brindisi, novamente, encostou nove minutos depois. Nos dois minutos finais, um gol para cada: Hervé Revelli assinalou o 4-2 e um pênalti de César Laraignée deu números finais.

Em 27 de julho de 1973, o Peru foi novamente o adversário, pela Copa Castilla. Dessa vez, perdeu por 3-1. Carlos Guerini abriu o marcador no fim do primeiro tempo para os anfitriões, mas Héctor Bailetti igualou ainda antes do intervalo. Dois gols nos primeiros minutos do segundo tempo, aos 10 e aos 15, definiram o placar, com Guerini novamente e (de pênalti) Brindisi. A seguir, começaram as eliminatórias, em triangular com Paraguai e Bolívia.

Em tempos pré-Havelange em que a FIFA não era uma indústria, os argentinos enxergavam-se com risco sério de perderem a sede para a Copa de 1978 caso ficassem ausentes pela segunda vez seguida do torneio. Assim, La Bombonera foi usada já na estreia, em um 4-0 na Bolívia, com Brindisi marcando duas vezes no primeiro tempo e Rubén Ayala outras duas no segundo.

Fora de casa, arrancou-se um empate em 1-1 com o Paraguai e vitória por 1-0 sobre a Bolívia, na ocasião marcada pelo uso de uma “seleção B”, preparada por meses para se aclimatar à altitude ainda que terminasse esquecida pelos dirigentes, com jogadores passando necessidade – foi assim, na chamada “seleção fantasma”, a nada glamourosa estreia de Kempes na seleção. O Paraguai, que já havia derrotado os bolivianos em La Paz, ganharam também em Assunção. Na rodada final, quem vencesse em Buenos Aires ia à Copa. Na ocasião, por ironia, a Albiceleste usava um paraguaio naturalizado: Heriberto Correa.

Barcos, Desábato, Orión, Sebá, Vangioni e Lisandro López (o zagueiro), Peruzzi, Montillo, Cerro, Juan Martínez e Guiñazú antes do Superclássico de 2012

Adalberto Escobar abriu o placar para a Albirroja aos 22, mas Ayala tranquilizou dez minutos depois. Ele também virou o jogo, aos 22 do segundo tempo. No penúltimo minuto, a classificação se garantiu, com Guerini anotando o 3-1. Os argentinos estavam na Copa de 1974. E também na de 1978…

Para 1978, o Monumental entrou em reforma. Já classificada como país sede, a Argentina se preparou por meio de uma série de amistosos em La Bombonera, que nunca foi tão usada seguidamente como ao longo do ano de 1977 e no primeiro semestre de 1978. Os resultados foram estes, nessa ordem: 5-1 na Hungria (na estreia de Maradona pela Argentina) em 27 de fevereiro, 3-1 na Polônia, derrota de 3-1 para a Alemanha Ocidental, 1-1 com Inglaterra e Escócia, 0-0 com a França, 2-1 no Paraguai e no Peru, 3-1 na Bulgária, 2-0 na Romênia, 3-1 na Irlanda e 3-0 no Uruguai, já em 3 de maio de 1978.

Somente em 1992 o estádio do Boca voltou a receber a seleção. Foi em vitória por 2-0 em amistoso com a Polônia, em 26 de novembro. Os gols foram de Néstor Craviotto aos 21 do primeiro tempo e de Ramón Medina Bello aos 12 do segundo. O uso seguinte veio em 16 de novembro de 1997, na rodada final das eliminatórias. Os argentinos já estavam classificados, com a preocupação sendo um embarque tranquilo e a honra: o adversário foi a Colômbia, e La Bombonera foi usada para evitar algo parecido com os vergonhosos 5-0 sofridos em pleno Monumental de Núñez nas eliminatórias para 1994. Quase não adiantou: Carlos Valderrama abriu o placar aos 20 e só nos vinte minutos finais veio o empate, com Fernando Cáceres – curiosamente, o único titular argentino que acabaria fora da convocação.

Até essa semana, esse jogo contra os colombianos havia sido a última vez em que La Bombonera recebeu uma eliminatória de Copa do Mundo. Desde aquela partida de quase vinte anos atrás, somente em uma ocasião o Boca veio abrigar a Albiceleste: foi no Superclássico das Américas de 2012. A Argentina havia perdido o troféu em 2011 e, buscando evitar novo revés, usou a caixa de bombons para o jogo da volta após um blecaute impedi-lo de ser realizado na cidade interiorana de Resistencia (ironia!).

O jogo, o primeiro e único contra o Brasil em La Bombonera, só teve emoção nos dez minutos finais. Ignacio Scocco, voando pelo Newell’s na época, abriu o placar de pênalti aos 36 do segundo tempo. Fred empatou aos 39, mas Scocco deu a vitória aos hermanos aos 44. Mas a Argentina acabou não levando: o resultado forçou pênaltis, e neles o Brasil se saiu melhor embora Carlinhos tenha errado. Até o goleiro argentino Agustín Orión conseguiu converter, diferentemente dos colegas Juan Manuel Martínez e Walter Montillo, curiosamente ambos pertencentes a clubes brasileiros (Corinthians e Cruzeiro, respectivamente) na época. Mas Orión não defendeu a cobrança final de Neymar, que deu o bi aos canarinhos.

Vale ainda relembrar outras eliminatórias de um Argentina x Peru decisivo, as para a Copa de 1986. Mesmo jogando no Monumental, os hermanos precisaram correr atrás de um empate, que dessa vez os classificou e mandou a Blanquirroja à repescagem. Na ocasião, o atual técnico dela, o argentino Ricardo Gareca, foi justamente o carrasco! Detalhamos aqui.

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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