55 anos de Sergio Batista, volante da seleção campeã de 1986 e recordista de jogos no Argentinos Jrs

Titular e figura histórica do Argentinos Jrs e da seleção na Copa de 1986, desempenho em declínio na de 1990, problemas com drogas, passagem recente como técnico da Argentina. Todos esses predicados alusivos a Maradona aplicam-se também a outrem, que hoje faz 55 anos: um volante central que compensava a lentidão (“é difícil ver um camisa 5 como os de antes, bem paradinho no meio-campo. Hoje, ele joga por todos os lados”, admitiu) com boa noção de posicionamento, de antecipação e de distribuição de bola chamado Sergio Daniel Batista – ou melhor, Checho (leia “Tchêtcho”) Batista. Afinal, ele já assumiu que não presta mais atenção se alguém indagar à sua volta por um Sergio…

“Faz um tempo, me chamaram de Sergio e minha filhinha me perguntou por quê. Da minha mulher aos jogadores, todos me chamam de Checho. Meu irmão caçula não pronunciava o S, e em vez de ‘Sergio’ saía Checho”, explicou sobre a origem do apelido único e intraduzível. Outra característica, a barba, foi adotada ainda aos 19 anos, inicialmente para disfarçar um problema de pele. Acabou por identifica-lo facilmente em campo tanto quanto sua categoria (anedota pessoal do autor: descobriu Batista em DVD da Placar para as Copas de 1990, 1994 e 1998, onde ele foi referido na narração de Milton Neves como “o violento barbudo Batista”. Mesmo anti-Argentina, o pai do autor corrigiu: “mas ele não era violento…”). No Argentinos Jrs, foram 299 jogos na 1ª divisão, recorde no clube.

Checho era filho de um ex-jogador do Argentinos Jrs chamado José Batista, consagrado lá como descobridor de talentos (o mais notável, Claudio Borghi, outro vencedor da Copa de 1986 e único presente nos quatro principais títulos do time: Metropolitano 1984, Nacional e Libertadores em 1985 e Clausura 2010) a ponto do seu nome batizar um dos setores do estádio. Isso não impediu que Sergio começasse nos infantis do Vélez. E de na infância torcer pelo All Boys, justamente o mais próximo que os vermelhos têm de um clássico tradicional. A rivalidade existe, mas a torcida do Albo nutre ainda mais rixas mútuas com o Nueva Chicago. Guarde essas informações.

Batista só chegou ao Argentinos após a instituição iniciar um convênio com o Parque, clube social do bairro portenho de Villa del Parque notabilizado pelo futsal. A parceria teria começado justamente em função da família: um representante do Argentinos calhou de estar presente quando Sergio marcou um golaço e sondou seu pai, desenvolvendo amizade que se estendeu aos dois clubes – esse convênio faria com que futuramente Esteban Cambiasso, outro aluno do Parque, também chegasse ao Argentinos. Inicialmente um ponta-direita goleador deslocado à meia direita por ainda ser muito baixo, Batista chegou a ser centroavante nos juvenis. Mas não conseguia mais marcar gols. Sua carreira futura foi salva por Alberto Tardivo, ex-jogador do clube e da seleção argentina que agora treinava os infantis colorados: “esse joga como eu, de volante”.

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Marcando de fora da área a dez minutos do fim o gol do título do Argentinos Jrs em 1985, sobre o Vélez

Batista estrearia no time adulto aos 18 anos, já com o pensamento de ter uma carreira de dez. “Assim foi, aos 28 deixei a primeira divisão”. Quando ele começou, Maradona havia acabado de ir ao Boca, em 1981. E foi Maradona quem, ao fim da temporada, entregaria a Batista o prêmio de revelação oferecido pelo Clarín. “Nos falamos e ele teve que sair em seguida porque não o deixavam em paz. Já nessa época era assim”. Sem mais ter aquele fora de série, o clube, que com Dieguito havia sido vice-campeão em 1980 (até então, o lugar mais alto no pódio que a equipe conseguira), brigou contra o rebaixamento. Mas salvou-se na última rodada, vencendo o San Lorenzo – rebaixado no lugar, no que foi a primeira queda de um gigante no futebol argentino. A rotina foi a mesma em 1982: o time do bairro de La Paternal salvou-se, agora concorrendo com o Nueva Chicago. 

“Houve um grande mérito de (Ángel) Labruna em escolher os jogadores e em nos mentalizar de que podíamos (mais). E estávamos bem de grana pela venda de Diego (Maradona). Nesses clubes, se não estás bem, é impossível fazer algo. Mesmo assim, nunca imaginei que chegaríamos tão alto”, confessou sobre a ascensão meteórica do clube pouco depois. Labruna faleceria em 1983, e um clube que já não tinha Maradona também venderia o goleiro Ubaldo Fillol ao Flamengo, mas o projeto logo daria frutos. O time venceu o Metropolitano de 1984, emendando um bi seguido com o Nacional de 1985 – com Batista inclusive marcando o gol do título, sobre o Vélez, em chutaço de fora da área a dez minutos do fim. Foram os primeiros troféus do Bicho na elite argentina. 

Com um futebol vistoso e tendo em Batista o cérebro a iniciar as jogadas ofensivas, o Argentinos venceu encantando na Libertadores de 1985 (como se vê no vídeo abaixo, em que pode-se notar a ajeitada de cabeça de Batista para um dos gols da vitória sobre o Vasco em São Januário). Por pouco, também não venceu em Tóquio a Juventus de Platini no Mundial; vencia até os sete minutos finais e depois caiu nos pênaltis. Indagado se o time não deveria ter controlado a vitória em vez de manter o ímpeto ofensivo, o volante assim respondeu: 

“Esse Argentinos não sabia administrar. Na Libertadores, contra o Fluminense, no Maracanã, (o técnico José) Yudica nos pediu que esperássemos. Fomos lhe dizer que só sabíamos ir buscar o jogo. Se aborreceu. Ganhamos de 1-0. (Nos pênaltis) sempre chutávamos os mesmos cinco e eu havia convertido na final do Nacional e na da Libertadores, mas no Japão errei. Voltando ao meio-campo, queria morrer. Depois, cruzei com (Stefano) Tacconi, o goleiro, e me contou que havia visto todas as nossas cobranças. Nós não tínhamos nada. Até hoje (a dor) dura. Nunca voltei a ver esse jogo. Não tiro da cabeça aquele vestiário, apesar do papel digno que fizemos e do grande rival que enfrentamos. Para os japoneses, foi a melhor final”.

Três jogadores daquele ciclo terminaram aproveitados pela Argentina na Copa de 1986: os atacantes Borghi e Pedro Pasculli, já como jogador do Lecce, e Batista, o único que foi titular absoluto. A estreia pela seleção deu-se cinco dias após seu aniversário em 1985 (sobre seu aniversário, fica a curiosidade de que celebrou o de 1989 talvez vendo notícias sobre a queda do Muro de Berlim), jogando dois amistosos em 14 e 17 de novembro contra o México, nas cidades de Los Angeles e Puebla. Foi o início de um relacionamento por vezes irritante com o técnico Carlos Bilardo.

“Vi 200 mil vídeos: os quatro anos antes da Copa de 1986 e os quatro antes da de 1990. Como Carlos dizia que os meias tinham que saber tudo, tínhamos que ver os vídeos com os atacantes e com os defensores. Antes da Copa de 1986, quis voltar: me botava na esquerda ou me tirava sempre. Depois entendi por quê: me fazia sentar a seu lado e relatava o jogo para que visse os erros, para que fosse um técnico em campo. Eu achava que me tirava por superstição e ficava louco”. Batista, que não era o preferido do treinador (a estreia na seleção, no fim de 1985, deu-se já após todas as eliminatórias), convenceu-o a usar nas sete partidas da campanha no México. Seguiu no Argentinos após a Copa e o time por bem pouco não chegou a nova final de Libertadores em 1986.

Em um triangular semifinal com o River, o time venceu-o por 2-0 em pleno Monumental na última rodada, forçando um jogo-extra. Nele, os millonarios tinham vantagem do empate pelo melhor saldo de gols. O 0-0 ao fim dos 90 minutos e da prorrogação pôs os oponentes na decisão. Batista terminou contratado pelo próprio River em 1988. A equipe recheou-se com um time de estrelas (como outros campeões de 1986: Borghi e Daniel Passarella) sob o comando de ninguém menos que César Menotti, mas não disputou a taça. “A culpa tivemos os jogadores. Nos víamos todos como caciques e se não tens índios que trabalhem, não dá”. A torcida, porém, saboreou a volta olímpica da liguilla, com o gosto de levar a melhor nos embates finais com os rivais Boca e San Lorenzo.

O título de fato viria na temporada 1989-90, com Batista jogando somente a primeira metade: Bilardo impôs aos pré-convocados uma longa concentração desde o início de 1990. Nela, El Checho padeceu de problemas físicos, chegando a ser rotulado de “múmia” pela mídia. Acabou de fora da final. E em seguida deixou o River, que desde 1990 vinha sendo treinado por Passarella, desafeto de Batista desde 1986. Mas o drama maior veio em 1991. Batista estava de volta ao Argentinos Jrs. Em um treino, sentiu dores e foi aconselhado pelo pai a consultar-se com um médico. Foi a última vez que se viram: enquanto Batista ausentou-se, o pai sofreu um aneurisma e faleceu. Bastante apegado a ele, o volante entregou-se ao ócio e às drogas, ficando um ano sem jogar.

Batista como jogador de Argentinos Jrs, All Boys e Nueva Chicago. Na infância torcia pelo All Boys, mas defendeu exatamente seus dois principais rivais…

Reapareceu em 1992 nas divisões inferiores, no Nueva Chicago. Mas não se reergueu. Buscou no Japão salvar a própria vida: “queria ir embora pelo problema que tinha. Não me importou nada. Me fizeram a oferta na quarta-feira e sábado estava em Tóquio”. Um dos que lhe apoiaram foi Maradona, que na mesma época enfrentava seus primeiros escândalos públicos pelo vício. Batista declararia sobre o ex-colega de quarto, comparando as situações de ambos, que “é melhor pessoa do que jogador. Te dá tudo. E quando precisei, ele esteve junto. Sempre. Eu me distanciei 10 mil quilômetros, mas o Maradona não pode ir a nenhum lado que não tenha 300 pessoas ao lado. Nem à lua pode ir”.

Falando com propriedade da diferença com Diego, deu alguns exemplos: “estávamos com a seleção em um povoado perdido na Escócia. Não havia campinhos nem traves em nenhum lado, não vendiam bolas em nenhuma loja. Parecia que as pessoas desse lugar nem sabiam que existia futebol. Andamos duas quadras e ele teve que voltar ao hotel, porque não podia caminhar. É assim. Lhe conhecem pessoas que você diz: ‘esses nunca chutaram uma bola’. (…) Ele quer viver uma vida fácil e não pode. Lhe dizia ‘vamos sair para comer’. E Diego me dizia que não podia porque não íamos nem poder falar”.

Apoiado pela esposa (“90% da minha recuperação foi graças a ela”) e pelos filhos (“meu clique foram meus filhos. Escutei a minha filha dizendo ‘acorde’. Lhes falei de frente, antes que escutassem por outro lado. Não foi fácil. No colégio deles, um pivete disse algo e minha filha, com dez anos, lhe respondeu: ‘sabes de uma coisa? Se acontecesse a teu pai, ele não ia ter os colhões que tem o meu para sair disso’”), Batista passou quatro anos no Japão, onde se desintoxicou e iniciou a trajetória de treinador, ainda em paralelo à de jogador. Ele chegou a ver-se com as chuteiras penduradas ao voltar do Oriente, batendo bola apenas nos salões do clube Parque. Acabou topando convite do All Boys.

Batista enfim defendeu o time do coração em duas boas temporadas dos alvinegros, ainda que o acesso à elite não viesse. Mas já não esconde que o lar passou a ser o Argentinos Jrs, treinando-o no acesso em 2004 (ganhando em Córdoba a repescagem sobre um Talleres 3º colocado na elite, mas condenado nos promedios): “para mim, que sou da casa, subir à elite é como ser campeão mundial. Pelo dinheiro que ganhou, o Argentinos deveria ser um dos melhores clubes do país, um clube modelo. Me dá muita raiva”. Na nova função, já não ostentava a característica barba. Na temporada seguinte, Batista voltou a treinar um time de volta à elite. Nova ironia: o Nueva Chicago, nas 13 rodadas iniciais. Foram seus principais trabalhos antes de chegar à seleção. Checho foi o técnico a treinar a Argentina campeã mundial sub-20 pela última vez, em 2007, assim como o comandante do ouro olímpico em 2008.

Ainda em 2008, Alfio Basile caiu da seleção principal. Batista era um dos nomes mais lógicos para substitui-lo, mas a AFA optou por Maradona. Batista teria sua vez após o ex-colega cair na Copa de 2010, mas resistiu pouco, até a queda em casa na Copa América de 2011. Ironia: punido pelo pênalti desperdiçado justamente pelo convocado por pressão do público e mídia (Carlos Tévez; Batista vinha sendo o primeiro técnico a impor-lhe um ostracismo). Essa concorrência com Maradona acabou prejudicando o ótimo relacionamento entre os dois. Todas as declarações usadas nessa nota foram de anos antes, em entrevista publicada em 2004 na El Gráfico, na qual Batista despediu-se assim: “eu fui campeão com o Argentinos, com o River, ganhei uma Copa, mas trocaria tudo isso se não fosse um cara respeitado e querido pelas pessoas do futebol. E me sinto um cara querido e respeitado”.

Celebrando a liguilla de 1989 com o River. Como técnico do Nueva Chicago, esteve nas primeiras rodadas da campanha do acesso em 2006. À direita, no ouro olímpico de 2008

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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