Há dez anos, o Arsenal vencia a Copa Sul-Americana

O ano de 2007 foi um ano dos mais festivos para o Arsenal Fútbol Club. Para começar, completou seus cinquenta anos oficiais. Celebrados em alto estilo com a conquista mais expressiva do Viaducto, a Copa Sul-Americana de 2007, com direito a eliminar os gigantes argentinos San Lorenzo (campeão nacional naquele ano e batido por 3-0 em pleno Nuevo Gasómetro) e River (também eliminado em pleno Monumental) e a vencer, nas finais, dentro do templo do Estádio Azteca. O Arse era campeão continental antes mesmo de vencer a elite argentina, o que se daria somente em 2012, e por sinal sob o mesmo treinador da conquista de dez anos atrás: Gustavo Alfaro.

Uma conquista continental chega a ser incompatível com o porte que o Arsenal tem nacionalmente, tornando-o superior a times de prestígio doméstico maiores, como Huracán, Gimnasia LP, Banfield ou Newell’s, todos carentes de taças desse nível. Em 2015, Alfaro concedeu uma entrevista à El Gráfico relembrando seus feitos no time da família Grondona, mencionando-os sobre os festejos: “dois dias depois de ganhar a Sul-Americana, fui ao aniversário da filha de Julito (filho do chefão Julio Grondona) e vi Don Julio. Me felicitou, me abraçou e me disse: ‘não vão valorizar essa taça como você e o Arsenal merecem e isso será culpa minha’. Nessa Copa, nós eliminamos o San Lorenzo campeão de Ramón Díaz, o Goiás no Brasil, o Chivas, o River no Monumental e o América do México. Não era fácil…”. 

O título da Sul-Americana, curiosamente, junta-se a outros marcos rubrocelestes redondos neste ano: 55 anos do primeiro título, a Primera D de 1962; 25 anos do primeiro acesso à segunda divisão, ao vencer um dos zonais da terceirona de 1992; e 15 anos da chegada à elite, como vice da Primera B Nacional de 2001-02. Ainda não foi rebaixado da primeira, status que só o Boca também possui. Para não falar nos 60 anos da fundação oficial. “Oficial,” pois o time já existia informalmente antes, como uma equipe mirim dos subúrbios de Avellaneda. Como os jogadores dividam as preferências pelos grandes locais (e nacionais), Racing e Independiente, as cores de ambos foram as escolhidas.

Julio Grondona, atual presidente da AFA e vice da FIFA, era um dos rojos (onde também chegou a ocupar a presidência), enquanto o mais célebre blanquiceleste foi o zagueiro Roberto Perfumo. A equipe de rua passou a ser gerida de forma mais séria como uma terapia dos irmãos Julio e Héctor Grondona (maior artilheiro do clube) após a morte do pai, Humberto, em 1956. “Era tanta a dor e a obsessão pela morte do meu velho que precisava de algo para suprir o pensamento permanente nele”, admitira Don Julio. O time informal de bairro onde jogava (“no fim de semana, fazíamos guerra e na segunda devia atender do outro lado do balcão um cara com quem havia andado aos socos”), foi oficializado pouco depois. E assumido por todos os Grondona.

Calderón, ex-goleador de Independiente e Estudiantes, foi o nome mais experiente (37 anos)

Além de Julio, foram presidentes arsenalistas seu irmão Héctor, também técnico e maior artilheiro do clube; o filho Humberto (nascido no mesmo 1957, e que leva o nome do avô), que também jogou e é o atual técnico; Gustavo, sobrinho filho de Héctor que também jogou; e o filho Julito é o atual presidente. Uma ironia é que o estádio foi erguido em terreno doado por Alberto De Stéfano, irmão de Juan De Stéfano, futuro presidente do Racing – época em que foi adversário de Julio Grondona quando este, antes de assumir a AFA, presidia o Independiente.

Um dos protagonistas do título do Clausura 2012, Luciano Leguizamón apontou o lado positivo de um clube famigliar: “é um clube sem pressões, onde não há eleições. É o clube dos Grondona, eles manejam e manejam muito bem”. A classificação à Sul-Americana, por sua vez, veio pelo 5º lugar na tabela agregada da temporada 2006-07, que já garantira o time também em sua primeira Libertadores, para a edição de 2008. A campanha campeã foi primorosa, embora encerrada com derrota em casa e contasse com encostados de clubes maiores e/ou pinçados nas divisões inferiores e/ou ainda veteranos em fim de carreira. O único que vinha da base do Arse era o talentoso Alejandro “Papu” Gómez, a receber chances da seleção nesse ano de 2017 como jogador da Atalanta. 

Já Gandolfi e San Martín não se firmaram no River. Cuenca, campeão da Copa Conmbol de 1999 com o Talleres, não dera certo no Racing, e Mosquera, no Estudiantes. Matellán era reserva do reserva no Boca supercampeão de Carlos Bianchi. Já Yacuzzi vinha do Tiro Federal, Villar do Godoy Cruz e Damonte do Nueva Chicago. Por fim, havia os casos de Díaz e Calderón, ambos do razoável Independiente dos anos 90. Caldera, que chegara a passar pela seleção no embalo de algumas artilharias do Argentinão pelo Rojo de Avellaneda, se destacara ainda mais no Estudiantes.

Revelado pelo time de La Plata nos anos 90, Calderón voltou diversas vezes para lá. Numa delas, em 2006, esteve no primeiro título argentino em 23 anos ganho pelos pincharratas, com direito a marcar três gols no 7-0 sobre o rival Gimnasia LP, que na época ainda conseguia impor equilíbrio nos Clásicos Platenses (tinha somente uma vitória a menos no dérbi, mas desde então só o venceu mais uma vez). Aqueles 7-0 são  justamente a maior goleada da história da rivalidade. Um ano depois, ele marcou um dos gols dos 3-0 em pleno Nuevo Gasómetro no San Lorenzo, contra quem começou a caminhada continental do Arsenal, na eliminatória caseira que ainda vigorava no torneio.

Semifinal, contra o River Plate: Mosquera anulando Falcao García e Cuenca celebrado após os pênaltis. À direita, o técnico Alfaro com a taça

A ida foi no Serra Dourada e contou com uma “contra-virada” relâmpago ao fim. Damonte inaugurou aos 16 minutos o placar, revertido por Paulo Baier aos 25 e aos 76. Aos 79, os visitantes já estavam de novo na frente, com um gol de Pablo Garnier antecedido no minuto anterior por um de Casteglione. Nas quartas (o Goiás caiu após um 1-1 em Sarandí, com Alejandro Gómez e Harison), o empate sem gols em casa contra o Chivas Guadalajara foi compensado na volta, no Estádio Jalisco. Javier Yacuzzi complicou a situação mexicana ao marcar já no segundo minuto, e também aos 27. Santiago Raymonda fechou os 3-1 – Sergio Santana empatara momentaneamente aos 16 – aos 78. 

Pela frente, uma semifinal caseira contra o River, que já estava em crise, mas era naturalmente favorito e já demonstrara grande desempenho em uma classificação espetacular diante do Botafogo, regada a três salvadores gols de Radamel Falcao García nos quinze minutos finais. O confronto de Davi e Golias, porém, ficou no zero nas duas partidas. Nos penais, Martín Andrizzi teve o seu defendido pelo riverplatense Juan Pablo Carrizo. O arqueiro dos rubrocelestes (ou melhor, “vinocelestes”, naquela época em que o Arsenal lembrou outro time londrino, o West Ham), porém, brilhou mais. 

Cuenca decretou a eliminação do River em pleno Monumental de Núñez ao converter o último, logo depois de ter defendido a cobrança de René Lima. Já havia pego também a primeira dos anfitriões, de Fernando Belluschi. Naquela entrevista de 2015, o técnico Alfaro assim lembrou daquele momento: “nesse dia, escutei pela primeira vez o silêncio. Num instante, eram 60 mil pessoas vaiando Mario Cuenca, que ia chutar seu penal na definição, e logo veio o gol e o silêncio total, como quando se desliga o rádio ou se põe no mudo a televisão. Terrível”. 

O adversário da final fez o Arsenal voltar ao México, agora contra o América, do técnico argentino-israelense Daniel Brailovsky, e para 100 mil pessoas no Estádio Azteca. Lá, o paraguaio Cabañas abriu o placar para os anfitriões no quinto minuto. Aníbal Matellán igualou aos 31, após boas chances desperdiçadas pelos locais. Alejandro Argüello colocou os 2-1 aos 55 em chute forte de fora da área. Só que Alejandro Gómez reigualou aos 57 e impôs a virada e a vitória dos visitantes aos 66, em lances parecidos, aproveitando lançamentos de Cuenca e falhas americanas. 

Os nomes das finais: “Papu” Gómez (único titular oriundo das categorias de base do Arsenal), hoje jogador de seleção, e Andrizzi celebrando seus gols no América

Com a segunda partida não podendo ser realizada no Viaducto, o Estádio Julio Humberto Grondona, a casa do Arse, por não cumprir a capacidade mínima exigida pela Conmebol para uma final, a festa dar-se-ia no Cilindro, o estádio do Racing. A escalação Mario Cuenca, Javier Gandolfi, Josimar Mosquera, Aníbal Matellán, Cristian Díaz, Diego Villar, Andrés San Martín, Damonte, Javier Yacuzzi, Gómez e Calderón não festejou facilmente no estádio do Racing, porém, contra Guillermo Ochoa, José Antonio Castro, Duilio Davino, Ricardo Rojas, Óscar Rojas, Germán Villa, Juan Carlos Silva, Argüello, o argentino Federico Insúa, Rodrigo López e Cabañas.

Os visitantes abriram 2-0, com Díaz desviando contra cruzamento de Óscar Rojas, e aos 63, com uma bomba da canhota de Silva. O gol salvador poderia ter vindo pelo experiente Calderón, que carimbou duas vezes o travessão. Para a meia Sarandí que compareceu (a cidade tem 60 mil habitantes; o público, incluindo Maradona, foi de 30 mil), o desafogo só veio a sete minutos do fim. Após dois escanteios e muita insistência, a bola chegou a Andrizzi na grande área após longo passe de San Martín. Mesmo sem equilíbrio e chutando fraco, o meia, que substituíra Villar aos 63 minutos, levou a melhor contra três adversários e deslocou Ochoa. 

O inconformismo mexicano levou às expulsões de Davino e do argentino Lucas Castromán, que entrara no lugar de Ricardo Rojas. Pois, como o critério de gols fora de casa também valia para a decisão da Sul-Americana (diferentemente da final da Libertadores), a derrota por 1-2 naquele 5 de dezembro de 2007 bastou para que o Arsenal coroasse o ano em que completou meio século com o primeiro grande título de sua história. O reconhecimento aos méritos seriam reforçados após o Clausura 2012.

A El Gráfico, pelo menos, se rendeu meia década depois: “sejamos sinceros, a nobreza obriga: o Arsenal vem se mantendo sem aditivos, por méritos esportivos, pelo esforço dos jogadores e a sabedoria dos seus técnicos, pelo equilíbrio e sagacidade que vem sabendo manejar seus dirigentes. A mensagem do Arsenal é outra: com ordem, trabalho, disciplina e uma identidade de jogo, até o mais humilde pode desfilar reluzindo a coroa de campeão. Até esse clube de bairro que nasceu de uma dor”.

Nota revista e atualizada deste outro Especial de 2012.

Mosquera, Gandolfi, Cuenca, San Martín, Damonte e Matellán; Gómez, Yacuzzi, Calderón, Díaz e Villar

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Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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