Resumo do Independiente – traços vitais sobre o rival do Flamengo

O Independiente se coloca no caminho do Flamengo na final da atual edição da Copa Sul-americana e promete dar trabalho. A equipe dirigida por Ariel Holan pratica um futebol bem diferente do convencional, o que pode dificultar ainda mais o trabalho da equipe carioca. Então, vejamos, resumidamente, alguns traços que configuram a forma do Rojo jogar e de que maneira ele pode ser superado ou não pelo Rubro-Negro.

Uma equipe que é fruto de um ótimo planejamento de sua direção; correto?

Nada a ver. Longe disso. Duas são especialmente as razões que levam uma equipe argentina às grandes disputas continentais: organização institucional e o peso da camisa. O Independiente está longe de ser o que já foram Argentinos Jrs e Vélez, no passado, ou o Lanús, no presente momento. O Rojo combina mais com bagunça do que arrumação; mais piada do que com respeito. Mas isto tudo por dentro; por dentro das salas onde seus cartolas o comandam e definem o seu dia-a-dia.

Por fora dessas salas, no campo, é outra história. Porque no campo quem veste os jogadores é aquela camisa que entorta varal. E ocorre que, quando o caráter de um clube está ligado a grandes conquistas, é como se elas conspirassem para que coincidências positivas aconteçam. No momento, o rival do Racing tem um excelente treinador e um elenco altamente qualificado. Resultado: um timaço que promete ser uma pedra sem polimento no caminho do Fla.

Esquema de jogo

Esqueçam. Não há propriamente nenhum especifico. Em vez disso, há inúmeras formações que atendem à filosofia de jogo de Ariel Holan. Sua visão de futebol é ampla e não negocia com limitações de nenhuma espécie. Desta forma, vale dizer que se o leitor atentar-se a vários jogos do Rojo, é bem possível que se depare com inúmeras formações diferentes em cada um deles. A depender do rival, o flagra expõe o 4-3-2-1, 4-3-3, 4-4-1-1, 4-3-1-2, 4-1-4-1 etc. Todas essas formações atendem, no caso, ao que se conhece como jogo de posição.

E, para tanto, Holan treina seus jogadores para a execução de funções em campo e não para a fixação de cada um deles em um determinado setor dentro das quatro linhas. Por certo que o goleiro fica no arco e os dois zagueiros, preferencialmente, na defesa da grande área. Em virtude do aperfeiçoamento, e maturação da proposta, também o centroavante tende a guardar sua posição, lá na frente, entre os zagueiros, pivoteando e esperando a pelota chegar via lado do campo.

Mas vale lembrar: guarda posição se pensarmos apenas no contexto específico da equipe de Holan, pois se fosse em outra diríamos que Gigliotti se movimenta o tempo inteiro, saindo da área e abrindo espaços à infiltrações de homens-surpresas.

Para muitos, o dono da bola é o jovem Ezequiel Barco. E de fato ele exemplifica o que foi dito acima. Em certa partida, inicia como enganche; noutras, como extremo pela esquerda, como segundo atacante ou mesmo como ponteiro pela direita. Por aqui, no Brasil, é comum o debate sobre se o técnico deveria ou não atuar com dois centroavantes. Há jogo em que Holan atua com dois ou com três. E, nesses casos, Albertengo pode aparecer pela direita, como extremo ou mesmo como volante aberto. Maxi Meza é um extremo esquerdo, mas há jogo em que inicialmente aparece como enganche, como segundo volante por um lado ou por outro: já apareceu como primeiro volante também.

É comum que alguns técnicos alertem ao departamento de futebol de seus clubes sobre a necessidade de redução do elenco, sobretudo no intervalo entre uma temporada e outra. Com Holan, é tudo bem diferente. Trata-se de um técnico que inspira respeito máximo aos seus jogadores pelo amplo conhecimento dos conceitos que lhes apresenta no cotidiano do clube. E a consequência disso qual é? Bem, algumas. Duas em especial.

Se em determinado jogo um torcedor se encanta com certo jogador, precisa calibrar o encantamento, pois é possível que este não esteja em campo na partida seguinte. O Independiente tem um elenco enorme porque cada um de seus jogadores representará certo número de funções a serem executadas. Sendo assim, o ótimo lateral Bustos, por exemplo, pode ficar dois ou três jogos sem entrar na equipe.

Mas por que então alguns deles aparecem mais que outros? Porque, na concepção de evolução do atleta, para Holan, um dado jogador consegue executar com perfeição não somente uma certa função, mas duas ou três, no mínimo. Quem vê Bustos jogar fica encantado com sua capacidade de defender e atacar, com sua potência física e sua entrega à equipe. Porém, Sanchez Miño, mais que Bustos, é símbolo desse Rojo por sua capacidade de executar um número maior de funções e com relevante perfeição.

E qual a outra consequência do elenco graúdo de Holán? Ora, ela é inversamente proporcional ao que há de mais moderno na visão do técnico do Rojo: a visão tradicional de que um time de futebol é composto por certos jogadores. Sendo assim, basta marca-los bem, tirar seus espaços, bloquear o que eles têm de melhor. O olhar é direcionado para o jogador, mas não para as funções em campo que ele executa.

Ocorre que no Independiente de Ariel Holan, como dissemos, muitas vezes algumas funções são executadas por jogadores diferentes. Se um técnico rival prepara e leva seu time a campo preocupado apenas com certos jogadores, estes podem não aparecer para jogar naquele compromisso. Como fica a marcação, predefinida pelo rival, à equipe de Holan? Pois é, eis o problema.

Não há esquemas táticos predefinidos e não há um time titular. Mas afinal, o que há neste Rojo de Ariel Holan? O jogo de posição. E para construí-lo destacam-se duas características bem interessantes. A saída de bola e a forma como ela é trabalhada durante a partida.

Saída de bola a La Volpe

Assim como no caso do Lanús, o Rojo também pratica uma saída de jogo em que o primeiro volante recua para fazer a saída da bola. Ele se coloca entre os dois zagueiros, lateralizando-os, enquanto os laterais “de origem” se adiantam quase à linha do meio-campo. Esta saída oferece riscos, mas se bem treinada pode gerar resultados eficientes para a construção do jogo e domínio do rival. Neste contexto, a responsabilidade pela criação das jogadas se espalha para quase todos os jogadores.

Se há algo que todo clube brasileiro sonha é com um bom camisa 10, do tipo enganche, do tipo que tira passes geniais de sua cartola ou que se aproxima e penetra na área para fazer gols. Todavia, ainda que bem acima da média, esse jogador pode ser bem marcado e anulado em determinada partida. Com o chamado jogo de posição a responsabilidade da criação é de muitos. Além disso, o setor de meio-campo deixa de ser o espaço primordial para a fabricação do bom jogo.

A criação pode ocorrer em qualquer setor do campo e começa imediatamente após a pelota sair das mãos do geleiro. Ou seja, em times como o Independiente ela se inicia com o recuo do primeiro volante e sua colocação entre os zagueiros. No Lanús, quem faz este trabalho é Iván Marcone; no Independiente é difícil de saber, pois a função é exercida sempre por jogadores diferentes.

Triangulação holandesa

Como dissemos, o jogo de posição é o que mais chama a atenção na equipe argentina. Desta forma, o objetivo consiste no fato de que seus jogadores ocupem posições no campo de defesa do adversário, conseguindo superioridade numérica. E o que facilita esta superioridade é a movimentação de seus jogadores. A qualidade desta proposta é observada sempre que um jogador aparece livre para receber a bola.

A troca de passes é exaustivamente treinada de forma a que ela não ocorra por acaso, durante o jogo. Um passe para o lado ou um recuo sempre terá o objetivo de atrair os marcadores rivais, danificar suas linhas, abrir espaços e permitir que um jogador apareça livre para receber a bola. Fácil pensarmos que este jogador sempre será um atacante. Na maior parte das vezes, a proposta obtém sucesso; contudo, quando um homem-surpresa é justo aquele que tira vantagem dos defensores desatentos e aparece livre, à frente do arco, para concluir.

O sucesso da proposta também está diretamente ligado a outro aspecto. Desde a saída de bola, a equipe procura o que se conhece como triangulação holandesa, que consiste na associação de três jogadores. O jogador com a bola, que é o jogador número um, tem o objetivo de fazê-la chegar ao jogador número três, porém isto sempre ocorre de forma indireta. A bola antes passa pelo jogador número dois. Quando isto acontece, a defesa tende a se perder na marcação, pois aos olhos dos defensores o tal jogador três ou é aquele que oferece a melhor condição para o passe ou é aquele que está melhor posicionado no sentido de criar uma situação de perigo.

Ou seja, em geral, os marcadores se ocupam de bloquear o jogador três, mas a bola é passada para o jogador número dois. Quando a bola chega ao jogador três ou ele busca a finalização ou reinicia o ciclo da triangulação. O Nacional do Paraguai sofreu muito com isso; seus jogadores não achavam seus rivais argentinos em campo e o resultado, sabemos: foi facilmente batido pelo Rojo.

Um Rojo barcelonista, mas à Holan

Normal que esperemos do Independiente a troca constantes de passes ao estilo daquele Barça de Guardiola. Mas há uma diferença. A proposta do Rojo é “visceralmente” vertical e com intensa aceleração. Um dos segredos é a associação de no mínimo dois jogadores para aprofundar o jogo, levar a bola à linha de fundo e buscar o passe.

Atualmente, Holan tem priorizado um centroavante que saiba se posicionar no centro da área, pois a abertura e a amplitude do campo contribuem para que a bola chegue com facilidade ao camisa nove. Mais que isso, a proposta consagra centroavantes experientes e rodados. Efeito disso é que o escolhido para a função tem sido Gigliotti, que há muito vinha decaindo em sua carreira.

Difícil de saber qual equipe Ariel Holan levará a campo. Mas os comandados de Reinaldo Rueda podem esperar um duelo intenso e com jogadores se movimentando com muita rapidez. Diante do que dissemos, a preocupação há de recair precisamente sobre a movimentação da equipe argentina. Porém, vale uma atenção especial à associação de um volante ou lateral com o ponteiro e com os deslocamentos de Ezequiel Barco e Sanchez Miño.

Quanto à melhor forma de o Flamengo bloquear as ações do rival, e lhe causar danos, o ideal é fazer seu jogo aparecer. Necessário que a saída de bola do Rojo seja atacada o tempo inteiro. Ou seja, mesmo que o duelo ocorra na cancha argentina, mais do que nunca o Rubro-Negro precisará se conectar com seu histórico de protagonista. Isto é muito importante, pois o contrário disso, ou seja, ficar esperando no seu campo de defesa, pode ser uma tática suicida com grande possibilidade de resolver o duelo já nesta partida de ida, em Avellaneda.

Para elementos em comum como jogadores e títulos entre os dois clubes, clique aqui.

Para ilustrarmos o que foi dito acima, veja o vídeo abaixo, de Gustavo Carrate, do site conexãofut.com.br:

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Joza Novalis

Mestre em Teoria Literária e Lit. Comparada na USP. Formado em Educação e Letras pela USP, é jornalista por opção e divide o tempo vendo futebol em geral e estudando o esporte bretão, especialmente o da Argentina. Entende futebol como um fenômeno popular e das torcidas. Já colaborou com diversos veículos esportivos.

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