10 anos sem Raúl Bernao, o Garrincha do Independiente e das duas primeiras Libertadores argentinas

Se é costume no Brasil limitar os numerosos títulos argentinos na Libertadores a supostas catimba, malícia, pancada e árbitros caseiros, mesmo os mais fanáticos se rendem a pelo menos um craque inegável por elenco. O Estudiantes tem os Verón, com o pai desequilibrando entre 1968-70 e o filho sendo a alma de 2009. O Boca dos anos 2000 tem Riquelme e Tévez, o River teve Beto Alonso em 1986 e Francescoli dez anos mais tarde, assim como Bochini era o maestro do Independiente nos anos 70 e em 1984. Antes do Bocha, o Rojo tinha seu mágico em um endiabrado ponta-direita chamado Raúl Emilio Bernao, decisivo nas duas primeiras Copas do clube e do futebol argentino, no bi de 1964-65, e falecido há dez anos.

Nascido nos subúrbios de Avellaneda, em Sarandí, Bernao estreou no time adulto do Independiente em 1961, ano em que o futebol brasileiro foi invadido por argentinos. E o clube do ponta não foi exceção, contratando precisamente o técnico que havia armado o Brasil de 1958: Osvaldo Brandão (Vicente Feola só assumiu semanas antes do torneio), além de Lanzoninho (“João Lanzoni”, para os argentinos), com longa passagem pelo São Paulo nos anos 50; e Joãozinho (“João Carlos Severiano”), entre os dez maiores artilheiros do Grêmio.

Bernao, por sua vez, assumidamente se espelhava em Garrincha. Em 1961, ainda verde, marcou um único gol, em um 5-1 no Argentinos Jrs – cujo gol de honra, por sinal, foi de um dos vários brasileiros importados naquele ano, Paraguaio (“Aitor Diogo”, para os argentinos). Foi ainda como diamante bruto que ele estreou pela Argentina, em março de 1963, quando a Albiceleste, tal como o Brasil, convocou uma virtual seleção C para disputar a Copa América que terminaria ganha pela anfitriã Bolívia. Mesmo ali, foi reserva, só participando de dois jogos: derrota de 2-1 para o Peru e 1-1 com o Paraguai.

O ano de 1963 terminaria por firma-lo no clube. O Independiente terminou campeão, com Bernao sendo um dos jogadores a marcar na rodada do título, no polêmico 9-1 no San Lorenzo. O título levou o Rojo a nova Libertadores, ainda chamada na época de Copa dos Campeões, tal como na Europa, e no sentido literal, contando de fato somente com os campeões nacionais (e o da edição anterior). Mas foi ainda antes da campanha que aquele ponta ganhou de vez uma torcida tão exigente pelo bom jogo.

Em 1º de fevereiro, o Independiente recebeu o bi mundial em amistoso para celebrar a nova iluminação noturna da Doble Visera. El Loco, apelido tão constante em diversos pontas-direitas do futebol argentino (Omar Corbatta, Narciso Doval, René Houseman) abriu o placar de um primeiro tempo encerrado já em 3-0 para os donos da casa. O jogo terminou “5-1 no Santos de Pelé, com uma exibição extraordinária e com Bernao fazendo coisas para o assombro. Nessa noite, Osvaldo Ardizzone lhe inventou ‘El Poeta de la Derecha‘. E o povo o amou para sempre”, nas palavras que a El Gráfico concluiu o perfil do craque em edição especial de 2011 onde elegou os cem maiores ídolos rojos.

No clássico de Avellaneda, contra o racinguista Alfio Basile

Acabou sendo um prenúncio. A Libertadores, que iniciava já em mata-mata, começou ao Independiente em 31 de maio. Após eliminar sem sobressaltos o Alianza Lima e o Millonarios, o time adentrou nas semifinais – fase onde o Santos, como detentor do título, estreava. O Peixe, ao contrário de naqueles 5-1, estaria desfalcado de um lesionado Pelé, mas nessa mesma condição havia batido o Milan no mundial. Como de costume, mandou sua partida no Maracanã, onde era apoiado por todas as torcidas cariocas. E começou ganhando de 2-0. Começou então uma das maiores viradas do futebol argentino. E coube a Bernao tornar isso viável ao empatar ainda no fim do primeiro tempo, mesmo jogando com distensão.

Mario Rodríguez havia descontando em cabeceio de cruzamento de Miguel Ángel Mori, e o ponta, aos 44 minutos, soltar uma pancada cruzada na segunda trave de Gilmar. No segundo tempo, o aniversariante Luis Suárez decretou a virada, recentemente “impugnada” pela torcida de um time de atletas que confessadamente jogavam dopados, como Almir Pernambuquinho. Foi após divulgações em 2015 de uma compra de árbitros por Julio Grondona, que sequer era cartola rojo na época. E que convenientemente não lembram que o próprio Almir foi perdoado pelo árbitro no jogo da volta ao soltar o cotovelo em Raúl Savoy, assim como Juan Carlos Guzmán é quem foi expulso quando Toninho Guerreiro o agrediu após uma falta.

O jogo em Avellaneda, mesmo nessas circunstâncias, terminou com nova vitória hermana, com Mario Rodríguez completando jogadaça de Bernao: o ponta recuou ao próprio campo, recebeu do lateral Roberto Ferreiro, arrancou pela ponta, girou 90 graus na borda da linha de fundo, livrando-se de Joel e de Dalmo. Na saída do goleiro, viu a chegada de Rodríguez e não foi fominha. Era a terceira vitória em poucos meses sobre o Santos, logo agraciado com o rótulo de “freguês nosso” nas arquibancadas da Doble Visera. Ao fim, o Rojo superou também a lesão do goleiro titular Osvaldo Toriani para ver o reserva do reserva (Miguel Ángel Santoro) fechar o gol no Centenário na final contra o Nacional, em agosto.

O time adiante perdeu o Mundial dramaticamente para a Internazionale, que marcou o gol do título a dez minutos do fim da prorrogação. Mas já em abril de 1965 saboreava o bi da Libertadores. O Rojo, como campeão, adentrou na semifinal, superando 300 minutos de futebol áspero no confronto caseiro contra o Boca em campo e outros nos tribunais, pois os auriazuis denunciavam suposta irregularidade na escalações de dois reforços de Avellaneda. A decisão foi contra o Peñarol. Bernao terminou com maior protagonista, com gols em duas das três partidas.

A primeira foi na Argentina e o ponta marcou o único gol, fuzilando Ladislao Mazurkiewicz para aproveitar cruzamento de Vicente de la Mata. Em Montevidéu, os uruguaios ganharam de 3-1, o que não lhes dava o título e sim a vantagem do empate em campo neutro. Que foi revertida de modo inapelável em Santiago. O Rojo saiu na frente com um gol contra e outro característico petardo de Bernao assinalou o 2-0. Ao fim, os hermanos festejaram um 4-1. E com esse cartaz, o ponta voltou à seleção após aquela Copa América, dessa vez como estrela, reestreando em julho de 1965 pela Argentina.

Na seleção e no Deportivo Cali, junto com os também argentinos Abel Da Graca e Eduardo Righi, além do “freguês” Pelé

A Albiceleste terminou classificada à Copa do Mundo, com El Loco marcando dois gols no compromisso final contra a Bolívia, derrotada por 4-1, em agosto. Mas, em tempos ainda mais bagunçados que os atuais, o técnico das eliminatórias (José María Minella, nome de sua Mar del Plata natal na Copa de 1978) foi duas vezes substituído antes do pontapé inicial na Inglaterra; Osvaldo Zubeldía comandou ainda em dezembro um amistoso contra a URSS, mas revoltou-se com a administração. A AFA então chamou o técnico da Copa de 1962 de volta, Juan Carlos Lorenzo. Pior para Bernao e outros participantes das eliminatórias, que acabaram esquecidos na convocação de Lorenzo para 1966.

O Independiente, novamente derrotado pela Inter no Mundial, não emendou nova final na Libertadores de 1966, a primeira a admitir também vice-campeões de todos os países – e foi o vice argentino de 1965, o River, quem tirou o Rojo do caminho em um quadrangular-semifinal. Ignorado na Copa do Mundo (torneio em que a FIFA elegeu como melhor lateral o argentino Silvio Marzolini, que tantos bailes levava de Bernao) por Lorenzo, o ponta voltou à seleção em janeiro de 1967 para jogar a Copa América, onde o técnico foi Jim Lopes. Marcou gols nas duas primeiras partidas (4-1 no Paraguai e 1-0 na Bolívia). Na última, os hermanos tinham a vantagem do empate, mas contra o anfitrião Uruguai, que venceu por 1-0 e foi campeão.

No decorrer do ano, os rojos viram o vizinho Racing também vencer a Libertadores, em agosto, e conseguir o primeiro Mundial do futebol argentino, em novembro. Pois em dezembro as faixas foram primeiro aplaudidas pelo Independiente (sério), para depois serem contundentemente carimbadas: na rodada final do Torneio Nacional, os dois rivais se encontraram em jogo que valia título ao Independiente. Que ganhou de 4-0 aquele Clásico de Avellaneda, como lembramos recentemente.

Se Bernao tinha um inegável talento, também era um jogador por vezes criticado pela irregularidade. O que de algum modo se reflete nas suas espaçadas convocações à seleção, de dois anos em dois anos aproximadamente. Após partidas isoladas em 1963, 1965 e 1967, voltou a ser usado em agosto de 1969. Foi pelas eliminatórias à Copa do Mundo de 1970. El Loco atuou na derrota de 1-0 para o Peru em Lima e na vitória de 1-0 na Bolívia, não estando em campo na eliminação contra os peruanos em La Bombonera. Decadente, ainda conseguiu mais um título pelo clube no Metropolitano de 1970, novamente garantido em partida contra o Racing, mas já sem Bernao em campo.

Ele prosseguiu carreira no futebol colombiano, que se não era mais o Eldorado dos anos 50 continuava economicamente atrativo para jogadores sul-americanos em fim de carreira ou sem espaço na terra natal. De 1971 a 1973, o ponta defendeu o Deportivo Cali, conseguindo um vice-campeonato em 1972 em uma liga marcada pelo equilíbrio. As chuteiras foram penduradas em uma rápida volta à Argentina em 1974, no Gimnasia LP. Estreou com um gol em empate em 1-1 com o Rosario Central de Mario Kempes, autor do outro gol, mas foi o canto do cisne do Poeta de la Derecha, que atuou só mais outras nove vezes pelo Lobo. Complicações de hepatite C o levaram naquele 26 de dezembro de 2007.

Como presidente da associação mutual de ex-jogadores do Independiente, rodeado pelos ex-colegas Ricardo Pavoni, Roberto Ferreiro e Osvaldo Mura

 

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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