65 anos de Beto Alonso: Zico do River e campeão da Copa 78 com moral para tirar a vaga de Maradona (e peitar Di Stéfano)

Emocionado ao entrar no Monumental para seu jogo-despedida, em 1987

“O argentino foi, sem dúvida, Beto Alonso, o camisa 1 de nossa equipe na Copa de 78. Ele foi um craque, um jogador muito habilidoso e inteligente, mas que não teve o sucesso que merecia na seleção”. Essa foi a resposta do mitológico Ubaldo Fillol à pergunta da revista Placar em 2005 sobre quem foi o melhor jogador hermano desconsiderando-se Maradona. Canhoto como Dieguito, de quem “roubou” uma das vagas em 1978, Norberto Osvaldo Alonso era uma espécie de Zico do River, por ser um camisa 10 (Fillol não estava errado: na Copa, Alonso usou a camisa 1 mesmo, pois a numeração foi por ordem alfabética dos sobrenomes, a ponto do goleiro usar a 5…) habilidoso na armação e na bola parada, e com brilho intenso individual e clubístico nos anos 70 e 80. Foi apenas o segundo jogador a merecer jogo-despedida promovido pelo clube. Hoje Alonso faz 65 anos.

Quinto maior artilheiro do River, com 157 gols (seis deles, sobre o Boca) e sétimo com mais partidas, com 419, Alonso aposentou-se com nove títulos pela Banda Roja, sendo na época o jogador mais vezes campeão, ao lado de Ángel Labruna – justamente o primeiro jogador premiado com uma partida-despedida pelo clube, e depois mentor do Beto. Que sequer era torcedor millonario na infância, e sim do Racing. Nascido em 4 de janeiro de 1953 em Vicente López, criou-se em Los Polvorines, iniciando na equipe local do Textil antes de pegar duas horas de ida e outras duas de volta no transporte público para treinar no River. Antes de Labruna, teve em um brasileiro seu principal apoiador.

Foi o craque Didi. Após treinar o Peru que desclassificou a Argentina nas eliminatórias à Copa de 1970, em plena La Bombonera, e levar o país andino às quartas-de-final do mundial, o ex-meia foi contratado para fazer o River também desenvolver o “jogo bonito” e tira-lo de um jejum pendente desde 1957. Didi só pôde cumprir a primeira missão. Se ele cairia em 1972 por não resolver a estiagem de títulos, notabilizou-se por promover e polir jovens da base riverplatense fundamentais para a quebra do tabu, dali a alguns anos. Alonso foi um deles. Foi promovido em competição adulta em 8 de agosto de 1971 (derrota de 2-1 para o Atlanta; a estreia, vencendo pelo mesmo placar, viera sob em amistoso em 1970 na província do Chaco, improvisado na ponta-esquerda). Adiante, a aposta nos jovens virou necessidade: os titulares aderiram a uma greve.

O primeiro brilho especial de Alonso com a camisa do River não tardou a vir. E logo em um Superclásico. Um Superclásico em que o Boca contaria com seus principais jogadores, mas o River não: a greve havia acabado, mas os dirigentes millonarios resolveram suspender os astros pela rebeldia. Naquele 28 de novembro de 1971, a garotada promovida por Didi surpreendeu a bailou o rival, ganhando por 3-1. Alonso deu a assistência para o segundo gol, de Juan José López. O River chegou a liderar sua chave, mas decaiu na reta final. Faltaram dois pontos para a classificação aos mata-matas do Torneio Nacional. Por outro lado, aquela garotada virou a verdadeira “equipe de Didi”. Quando o brasileiro a mesclava com os figurões, os resultados ficavam irregulares.

Prestes a marcar “o gol que Pelé não fez” e com o mentor Labruna

Cerca de três meses depois, Alonso exibiu outro cartão de visitas, logo na primeira rodada do Torneio Metropolitano de 1972: a primeira tripleta da carreira, decisiva para o River bater por 5-3 o bom time do Vélez (vice-campeão no ano anterior). O gol seguinte já foi mostra de profissionalismo, no seu Racing do coração (porém, em derrota de 3-2). A ascensão meteórica se escancarou com a primeira convocação à seleção vindo em setembro. Só que foi expulso na estreia (2-0 no Chile)… o momento mais famoso de 1972 ficou para o fim do ano, em 5 de dezembro. O garoto alimentaria o apelido de Pelé Blanco ao conseguir o gol que o brasileiro errara contra os uruguaios em 1970: sem tocar na bola, driblou somente com o corpo Miguel Santoro, goleiro da seleção, antes de concluir para as redes.

O lance foi tão fantástico que foi capaz de ofuscar até o sonoro resultado de 7-2. Alonso marcou ainda outro gol nessa partida. Cuja vítima era nada menos que o campeão da Libertadores, o “rival pessoal” Independiente. Adiante, o River, já sem Didi (sobre quem Alonso declararia que “foi tudo, foi um maestro. Promoveu garotos sem importar-se com quantos anos tinham, nos gerou uma maneira de sentir o futebol, nos respaldou contra o vento e a maré”), parecia que quebraria o tabu. Chegou às semifinais e nela eliminou o velho rival Boca – Alonso costumava ser pé-quente no Superclásico, participando de outro ainda mais famoso naquela campanha, o maluco 5-4 cheio de viradas (o Millo abriu 2-0 e depois chegou a estar perdendo de 4-2). Mas perdeu a decisão para um San Lorenzo em estado de graça. Os azulgranas já haviam vencido o Metropolitano e tornaram-se a primeira equipe a ganhar no mesmo ano os dois principais torneios domésticos.

A boa fase individual de Alonso o mantinha na seleção, que lhe requisitou para seis jogos entre fevereiro e julho de 1973. O primeiro gol pela Albiceleste veio em 15 de fevereiro, contra a campeã europeia, a Alemanha Ocidental. Os hermanos bateram-na dentro de Munique por 3-2. Beto anotou um golaço de falta, impondo curva de efeito na trajetória da bola para bater o lendário Sepp Maier. O técnico Omar Sívori, porém, não usaria o garoto nas eliminatórias. Para o mundial, os técnicos já eram outros (Sívori aceitara treinar a seleção apenas para classifica-la ao torneio, sem querer mais pressão), mas o camisa 10 do River continuou esquecido e não foi convocado. E chegou a perder espaço no próprio River, quando o mesmo Sívori virou treinador millonario em 1974.

O espaço voltou com Labruna. E os títulos do River, também, com os bons cabeceios e a genial perna esquerda de Alonso sendo fundamentais, especialmente na reta final. Foram vinte gols só no Metropolitano. O craque foi suspenso por seis rodadas, e o líder River fraquejou – uma trajetória tão comum naqueles dezoito anos de jejum, onde não raras vezes o clube começava com tudo e perdia as pernas no fim. Oito pontos de vantagem haviam se reduzido para três após três derrotas seguidas (incluindo para o Boca no Monumental). O meia voltou na antepenúltima rodada, recolocando o time no rumo das vitórias marcando duas vezes sobre o San Lorenzo, campeão nacional de 1974. San Lorenzo esse que já havia levado de 5-1 em casa no primeiro turno, com dois de Alonso.

Simbolizando o fim do jejum em 1975 (partida contra o San Lorenzo) e marcando o gol do título de 1979 em Nery Pumpido

Beto, de falta, havia feito também um dos gols de um 2-1 sobre o Boca na Bombonera naquele primeiro turno arrasador. O título veio na penúltima rodada, mesmo em meio a uma nova greve, que dessa vez atingiu Alonso e outros antigos juvenis de Didi. No fim de um ano já dourado, o River ainda se deu ao gosto de repetir o San Lorenzo de 1972: após ganhar o Metro, faturou também o Nacional. Um ano de muita dedicação de Alonso: jogou apenas uma vez pela seleção, até marcando em um 3-2 sobre o Uruguai no Centenário (última vitória argentina no clássico em Montevidéu até 2009). Isso porque declinou outras convocações de César Menotti para priorizar os compromissos com o River. Foram quatorze jogos de ausência até reaparecer em derrota de 2-0 para o Brasil no Maracanã, em maio de 1976, em jogo válido tanto pela Copa Roca como pela Taça do Atlântico. Após a derrota dramática na final da Libertadores de 1976, Alonso foi negociado com o Olympique de Marselha.

A saída do país também contribuiu para que sumisse da seleção: na época, isso ainda mais atrapalhava do que ajudava o jogador a manter-se no radar (somente em 1972 a Argentina passou a convocar quem jogasse no exterior), algo que se reforçava com a valorização extrema de Menotti por jogadores de todo canto do país. El Flaco foi o único técnico a apostar largamente em jogadores do interior e dali pinçou dois dos três meias-esquerdas para a Copa de 1978: Daniel Valencia jogava no Talleres de Córdoba e Ricardo Villa recebera chances ainda no Atlético Tucumán. A escolha de Menotti significou a ausência de astros de clubes portenhos. Mario Zanabria (do Boca campeão da Libertadores), Ricardo Bochini (multicampeão da Libertadores e maior jogador da rica história do Independiente) e Diego Maradona foram solenemente ignorados na convocação. 

Mas Alonso conseguiu um jeito de se “infiltrar”. A temporada na França não havia sido tão boa e ele logo voltou a Núñez em 1977. Teve um primeiro semestre espetacular em 1978, com treze gols nas primeiras doze rodadas do Metropolitano. Os pré-convocados já estavam em regime de concentração desde fevereiro e o Beto acabou incluído posteriormente, mantendo-se na lista final e “roubando” a vaga de Maradona – que, ao contrário de Bochini e de Zanabria, ainda estava entre os últimos 25 pré-convoados antes do corte final de três deles. Sempre se supôs que a inclusão de Alonso deveu-se a influência dos militares, algo possível, mas enganoso: o meia do River também era implorado por público e mídia, e Maradona, apesar de já ter estreado na seleção, só após o corte explodiria para valer. Menotti cedeu em partes. Chamou o meia, mas o reteve na reserva de Valencia (“Menotti sentiu que queriam me impor e por uma questão de ego, creio que sem má intenção, me prejudicou”).

Alonso pôde jogar três vezes na Copa, mas sempre saindo do banco. Foi decisivo na estreia: substituiu Valencia aos 30 do segundo tempo, com o placar em 1-1 com a Hungria. Aos 37, pôs Luque na cara do gol. Luque foi derrubado, mas a bola sobrou para Bertoni pôr a Albiceleste na frente. O Beto, tamanho o prestígio, é quem foi o focado pelas câmeras na comemoração do gol, abraçado pelos colegas. Mas ele voltou à reserva para o jogo seguinte e, mesmo substituindo Valencia ainda aos 18 do segundo tempo, deu-se mal: durou só nove minutos, lesionando-se contra os franceses e dando lugar a Ortiz. Só voltaria a ser usado no 0-0 contra o Brasil, substituindo dessa vez Ortiz aos 31 minutos do segundo tempo. Na reta final, Menotti preferiu improvisar o centroavante Kempes na posição de meia-esquerda. “Me tiraram um sonho”, desabafaria Alonso. De volta ao River, perdeu a final nacional de 1978 para o Independiente, mas o clube se recuperaria faturando quatro dos seis torneios seguintes.

O River e Alonso emendaram um tri seguido entre o Metropolitano (Alonso marcou em cada semifinal com o Independiente e abriu a porteira dos 5-1 no Vélez na decisão) e o Nacional de 1979 (o Beto marcou o gol millonario da final, sobre o Unión do goleiro Nery Pumpido) com o Metropolitano de 1980. Depois, veio o Nacional de 1981. Porém, o meia já não tinha vez com Menotti: a camisa 10 da seleção continuava com Valencia e, agora, também com Maradona. Já o River enfrentava o dissabor de não repetir na Libertadores a dominância doméstica, em contraste com os recentes títulos internacionais do Boca. A queda na primeira fase em 1981 rendeu protestos contra Labruna, substituído por Alfredo Di Stéfano. Que foi incapaz de projetar um futebol envolvente. O River foi campeão nacional, mas após uma campanha muito acidentada. Quase perdeu a classificação na primeira fase para o modesto Loma Negra, embalando no momento certo, os mata-matas.

Suas outras camisas no futebol argentino: com Carlos Bianchi no Vélez e sendo o focado pelas câmeras no gol da vitória na estreia na Copa de 1978, onde usou a camisa 1

A taça ao alcance após a vitória no primeiro jogo das finais com o Ferro Carril Oeste não bastou para inibir atritos entre Alonso e Di Stéfano. A apenas 48 horas da segunda final, o meia sentiu-se moralizado o suficiente para impôr “ou ele ou eu” à diretoria, que preferiu o treinador. A torcida, não: o grito de “Aloooon, Aloooon” ecoou durante toda a tarde na nova vitória. Alonso declararia em 1995 não guardar rancor com Di Stéfano, a quem saudou no aniversário de 90 anos do River. Mas o clima em 1982 o fez exilar-se por dois anos no Vélez (inclusive marcando gol em vitória por 3-2 sobre o River no Monumental). Em tempos de vacas magras, seu novo clube ficou entre os cinco primeiros nos Metropolitanos de 1982 e 1983 e avançou aos mata-matas do Nacional de 1983. Assim, Alonso voltou à seleção após cinco anos, desde a Copa de 1978. Começava o ciclo de Carlos Bilardo.

Alonso reestreou pela Argentina marcando gol em um 2-2 amistoso com o Chile em Santiago, ainda que também tenha perdido um pênalti. Jogou ainda mais três vezes, inclusive sendo capitão pela primeira vez da Albiceleste. Calhou de ser precisamente na última vez em que ela usou Alonso, em um 0-0 com o Paraguai em Buenos Aires em 21 de julho. O craque voltou ao seu River em 1984. O Millo agora vivia risco de rebaixamento nos promedios. No início, decepção, mas já no nível de perder um título: o clube levou de 3-0 em pleno Monumental na final do Nacional para o modesto Ferro Carril Oeste, que construiu a goleada em menos de meia hora de jogo. Já em 1985, a queda veio nas semifinais, justo para os ex-colegas do Vélez. Mas um final perfeito estava reservado para o Beto, desfecho talvez meloso se fosse roteiro de Hollywood, mas cinematográfico de verdade: em 1986, o River teve a honra de ser o primeiro clube argentino a conseguir a Tríplice Coroa.

No ano mais mágico de Núñez, ganhou-se primeiramente com rodadas e rodadas de antecipação o campeonato argentino (foram dez pontos de vantagem, e quando a vitória valia dois), após cinco anos de jejum. Alonso destacou-se sobretudo em outro Superclásico: fez os dois gols da vitória no dia da “bola laranja”, em plena Bombonera. Passariam-se oito anos para nova vitória millonaria ali sobre o rival. Adiante, veio a primeira Libertadores do River. E com o Beto (titular absoluto na armação após a venda de Francescoli ao futebol francês), único remanescente dos derrotados na final de 1976, marcando o segundo na vitória por 2-1 sobre o América de Cali na Colômbia, no jogo de ida, praticamente decretando o fim da virgindade internacional. Para despedir-se de jogos oficiais em pleno Mundial Interclubes fazendo a jogada do gol do título, concluída por Alzamendi – ainda que o anúncio oficial da aposentadoria só viesse em janeiro de 1987, convencido aos 34 anos pelo técnico Héctor Veira de que já não precisava oferecer mais nada ao Millo

A história do Beto no River ainda teve um agridoce epílogo, como um dos técnicos campeões da temporada 1989-90. Trabalhou na metade inicial, em dupla técnica com Reinaldo Merlo, saindo apenas porque prometera retirar-se caso o presidente que os havia contratado não se reelegesse. Na metade final, foi substituído pelo iniciante técnico Daniel Passarella, ex-colega mas velho desafeto (“prefiro, por respeito a tudo o que está vivendo, não tocar em um tema tão delicado. É por coisas que aconteceram no passado e não se esclareceram. Deus me tocou com uma varinha e me colocou como ídolo máximo da torcida do River. Eu não digo às pessoas ‘gostem de mim’.”, declarou em 1995, fazendo referência à morte, naquele ano, de um dos filhos do ex-zagueiro). Desde então, seu esporte virou o golfe (havia sido caddie na infância). E a profissão, de corretor de seguros.

Desfecho perfeito de carreira em 1986: comemorando seus dois gols em vitória sobre o Boca na Bombonera na campanha campeã nacional; erguendo a primeira Libertadores do clube; e contra o Steaua no Mundial em Tóquio, aposentando-se como campeão

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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