60 anos do último a brilhar tanto por Racing como por Independiente: o corajoso Miguel Ángel Ludueña, também ex-Belgrano e Talleres!

Ludueña foi de Belgrano & Talleres, Racing & Independiente. Tudo em travessias seguidas!

“O melhor camisa 5 que vi no Racing, o grande Flaco (Hugo) Lamadrid. Forte na marcação, muita qualidade para jogar”, enalteceu um dos administradores do grupo de facebook “Racing Club. El único Heptacampeón del fútbol argentino”. Lamadrid, por sinal, vem se tornando um personagem cada vez mais cult em outra rede social, o twitter, graças a seu perfil. Mas houve réplicas àquela declaração. Uma delas foi “no Racing jogou Miguel Ángel Ludueña… não se esqueça”. Tal opinião não se mostra isolada no grupo: “um camisa 5 ‘brasileiro’, o melhor que vi no Racing, de longe”, afirmou outrem sobre Ludueña, em postagem diversa. E mais outros, com autores diversos declarando “me cansei de aplaudir esse cara”; “o melhor camisa 5 que vi. Tão craque como traidor”; “o melhor camisa 5 que o Racing teve nos últimos 40 anos”; “uma pena a traição, porque era um jogadoraço”…

Miguel Ángel Ludueña era mesmo um grande volante, daqueles polifuncionais de boa marcação ao mesmo tempo em que entregavam bem a bola sem olha-la, de cabeça erguida. Não foi o primeiro e nem o último campeão por Racing e Independiente; por exemplo, o xará Miguel Ángel Mori, por exemplo, conseguiu vencer a Libertadores por ambos, na década de 60. O último foi outro volante, Hugo Pérez, também campeão continental na dupla, mas na Supercopa Libertadores, em 1988 (como reserva, sem marcar tanto no Racing, ironicamente o time do coração) e 1994. Mas nenhum deles conseguiu a façanha em anos seguidos como El Negro Ludueña. Eis um desafio a Nery Domínguez, o mais recente doblecamiseta em Avellaneda, recém-emprestado pelo Querétaro ao Racing após participar do título do Independiente na Copa Sul-Americana 2017! 

A travessia de Ludueña entre os gigantes já tinha precedentes. Nascido no interior cordobês, em Villa María, naquele 6 de fevereiro de 1958, ele começou em um dos principais times da província, o Belgrano. Esteve no Pirata de 1980 a 1985. Na época, os vizinhos Talleres, Instituto e Racing de Córdoba jogavam o campeonato argentino, que apesar do nome era restrito de modo oficial à Grande Buenos Aires, La Plata, Rosario e Santa Fe, admitindo o trio cordobês no início da década. Em paralelo, jogava-se também o Torneio Nacional, a reunir entre 1967 e 1985 os melhores do campeonato argentino (renomeado “Metropolitano”) com os melhores das ligas do interior. 

A entrada da vizinhança no Metropolitano não impedia que o Belgrano sofresse desde 1973 com um jejum na liga cordobesa. Ludueña foi promovido no time adulto em 1980, ano em que o campeão foi o Racing local, bi em 1981 (e admitido no Metro em 1982 após o Talleres entrar em 1980 e o Instituto, em 1981). Vinha sendo comum na província o empréstimo, por parte de clubes não classificados ao Nacional, de jogadores a equipes classificadas, mesmo que rivais. Assim, em 1982 Ludueña jogou o Nacional emprestado ao Unión San Vicente, exatamente o dono da taça cordobesa ao fim daquele ano. E bi em 1983. Dureza para os celestes…

A ausência no Nacional se encerrou para o Belgrano em 1984 (Ludueña inclusive fora emprestado ao Rosario Central na edição de 1983). Em 1984, porém, o Pirata reapareceu em alto estilo. Primeiramente, no próprio Nacional, disputado no primeiro semestre, liderando uma chave com Rosario Central e Vélez e caindo somente no segundo mata-mata contra o River, chegando a revidar perigosamente por 2-0 em Córdoba o 4-0 sofrido no Monumental. Adiante, encerrou-se a seca local. 

A volta olímpica no Racing: sem camisa, ao lado do veterano goleiro Fillol, no Mineirão, pela Supercopa 1988

O Belgrano agora era capaz de emendar 40 jogos de invencibilidade, superando um recorde de 39 que o Racing (o de Avellaneda) mantinha desde 1966, a um ano de ser campeão da Libertadores e do Mundial. Naquele belo barco do Pirata, El Negro era bem acompanhado por quatro ex-jogadores de seleção, casos de Pablo Comelles, ex-Boca e River; Jorge Gáspari, estrela do único título do Quilmes na elite profissional, em 1978; Carlos Guerini, ex-Real Madrid; e Raúl de la Cruz Chaparro, artilheiro do Nacional de 1981 pelo Instituto. Um timaço.

Ludueña, após disputar no primeiro semestre de 1985 a edição final do Torneio Nacional, rumou diretamente ao Talleres; o campeonato argentino agora preencheria unicamente o calendário doméstico dos seus participantes, e no formato “europeu”. O volante deixou o bairro de Alberdi como autor de 17 gols em 129 partidas, números bons para sua posição. Em uma província acostumada a vira-casacas, só não ficou ainda mais reconhecido por La B, foi por ausentar-se de uma temporada memorável do ex-clube, bi provincial e meses depois campeão do torneio do interior promovido pela AFA na temporada 1985-86 (para definir os representantes do resto do país na segunda divisão argentina, que seria nacionalizada a partir da temporada 1986-87). Já os alviazuis terminaram a temporada 1985-86 com uma segura oitava colocação na elite argentina, a quatro pontos do Top 5.

La T decaiu para um 11º lugar na temporada seguinte. No clube do bairro Jardín, o sobrenome Ludueña será sempre melhor associado a outro camisa 5, Luis Antonio (El Hacha, pai de Daniel Hachita Ludueña, ex-River), dos belos elencos tallarines dos anos 70 e com quem não tem parentesco. Mas El Negro terminou adquirido por um gigante nacional em reconstrução. O Racing, que em 1986 havia retornado à elite, deixava para trás anos de vexames e com um time de belo futebol: retornava o veterano Ubaldo Fillol, em boa forma no gol e se adquiria a magia do uruguaio Rubén Paz na armação e a artilharia implacável de José Iglesias, uma espécie de Martín Palermo da época – tosco e sem virtuosismo, mas com notável faro de gol. Comandada por Alfio Basile, La Academia já havia ficado a cinco pontos do título na temporada 1986-87. Na temporada 1987-88, ficou em 3º.

Em paralelo, o time voltou às taças após uma seca que perdurava desde o Mundial em 1967 (mesmo a segunda divisão havia sido superada sem o título, ganho pelo Rosario Central). O jejum acabou exatamente em nível continental, com a conquista da primeira edição da Supercopa, torneio que de 1988 a 1997 reuniu somente os campeões da Libertadores. O Racing virou o “campeão dos campeões” em pleno Mineirão, após empate em 1-1 com o Cruzeiro; em Avellaneda, os argentinos haviam vencido por 2-0, com Ludueña participando ativamente do primeiro gol – originado em pênalti no qual Omar Catalán fora derrubado após receber bola cabeceada pelo volante.

Detalhamos aqui como foi aquela Supercopa. Apesar do clima festivo, porém, a diretoria não se entendia com Ludueña sobre renovar-lhe o contrato. O jogador negociou com o Independiente… e também com Boca e River. Chegou a ter o carro alvejado, mas realmente terminou virando Rojo semanas depois da conquista da Supercopa. A escolha de início pode não ter parecido sábia: ao fim do primeiro turno da temporada 1988-89, o líder era o Racing. Mas os alvicelestes perderam nos tribunais os pontos disputados com o vice-líder Boca precisamente em confronto direto na última rodada do primeiro turno, em duelo interrompido por rojões racinguistas atingirem o goleiro adversário Carlos Navarro Montoya. O psicológico parece ter voltado a pesar e no segundo turno o Racing, de dez vitórias no primeiro, acumulou só mais outras três, terminando a temporada em nono.

A volta olímpica no Independiente, em 1989, pelo campeonato argentino. É o primeiro desde a esquerda

O campeão de 1988-89? Foi o Independiente, que, à espreita ao fim da metade inicial (era o terceiro, dois pontos atrás), deslancharia adiante, garantindo a taça na penúltima rodada e terminando a oito pontos do vice Boca. Era o fim de um jejum de cinco anos ao Rojo, em outros tempos: aquela era o maior período de seca no clube desde o início da Era Ricardo Bochini, em 1972. Foi exatamente a última conquista do maior ídolo do clube – falamos aqui. Quase houve mais uma, no mesmo ano: o time chegou à final da Supercopa. Mas nela foi o Boca quem levou a melhor, em novembro.

Ludueña já tinha 31 anos e, apesar de ser um incansável complemento no meio-campo aos armadores Bochini e Rubén Darío Insúa, não seguiu em Avellaneda para 1990, quando esteve no Platense; era reconhecido pelos torcedores comuns, mas não tinha o maior apreço dos barrabravas, não ouvindo ovações – nem tanto pelo passado racinguista, mas sim por recusar a pagar o que tentavam lhe extorquir. Em 1991, estava de volta ao Rojo e foi premiado: em março, Alfio Basile, agora o técnico da seleção, convocou-lhe. Nada menos que para um Brasil x Argentina, em amistoso no estádio do Vélez.

Naquela altura, ele virou, por alguns dias a menos que José Nazionale, o segundo jogador mais velho a estrear pela seleção – foi depois superado por Rolando Schiavi e pelo atual recordista, Esteban Fuertes. Aos 33 anos, atuou só por 54 minutos, no empate em 3-3. Além de escapar nos minutos finais a vitória parcial por 3-2 após estar duas vezes atrás no marcador, a ocasião única não lhe terminou feliz por sofrer uma distensão, sendo substituído por Blas Giunta. Mas com o tempo resignou-se. Quando Fuertes foi convocado, em 2009, Ludueña foi procurado pelo Olé. E assim relembrou:

“Sou honesto com você. A seleção me chegou tarde. Com 33 anos, não passava o mesmo momento que tinha aos 27, 28, no Racing, no Independiente. Até pensei que podia ir ao mundial de 1990. Esse teria sido o momento certo. Quando Basile me deu a chance, foi um prêmio à minha carreira. Lhe estava muito grato. Jogar aí era uma honra. Mas, acima de tudo, tomei como um prêmio à minha carreira. Me ligaram, a um telefone fixo, hehe. E de repente me encontrei convocado para (a concentração em) Ezeiza. Todos sempre sonham com a seleção e não acreditava que alguém fosse capaz de me fazer uma pegadinha. (Basile) me convocou porque já havia me treinado e sabia o que queria de mim. Nunca havia me machucado e… tenho a má sorte de me distender. Tive outro mês parado. Não descartava a Copa América, tinha fé. Mas desfrutei jogar com Goycochea, Simeone…”.

El Negro ainda retornou brevemente ao Talleres no segundo semestre de 1991, com La T chegando a liderar inicialmente o Apertura mas desgringolando após perder a invencibilidade exatamente no primeiro Clásico Cordobés com o Belgrano na elite (desconsiderando-se o velho Torneio Nacional). Hoje mora na capital em Córdoba, afastado do futebol e dedicado à corretagem imobiliária: “tudo o que rodeia o futebol é muito sujo”, justificou em 2015 ao Independiente Sin Censura. No ano passado, já havíamos relembrado o volante no Top 17 de vira-casacas na Argentina. Ficou “só” em 9º… a ordem das “traições” parece ter pesado quando, em 2011, a saudosa revista El Gráfico lançou edições temáticas dos maiores ídolos nos grandes clubes argentinos. Ludueña não apareceu na que elegeu os cem maiores racinguistas, mas está na dos cem rojos.

E ele também negociou com Boca e River enquanto não fechava com o Independiente. Estreou na seleção aos 33 anos, contra o Brasil

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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