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100 anos do fim de uma era: nove vezes Racing, potência do amadorismo

Em 25 de outubro de 1925, o Racing Club, sem saber, encerrava uma era de ouro – ou, de certo modo, o epílogo dela, se for considerado que ela abrangeu somente o período de 1913 a 1921. Nele, o Blanquiceleste de Avellaneda virou La Academia ao ganhar oito de nove títulos argentinos possíveis, sendo sete deles seguidos (1913-19), ainda um recorde nacional. Superando desmanche que envolveu até um luto no sentido trágico do termo, e ainda conservando boa parte de remanescentes daquele ciclo do hepta, a equipe chegou ao nono título de liga em sua história. Nenhum outro clube ativo era tão vencedor. Assegurado há 100 anos, o título de 1925 ganhou relevo especial também por ter sido o último por quase um quarto de século…

Dos ídolos do hepta que ainda seguiam em 1925, nenhum era tão longevo quanto o zagueiro Roberto Castagnola, desde 1916 – quando ainda tinha 17 anos de idade – no plantel. Chegava ao seu sexto título argentino individual, cifra que ainda é superior a de muitos clubes de tradição: Castagnola, sozinho, tem depois de um século mais títulos argentinos que Huracán (cinco), Rosario Central (quatro), Argentinos Jrs (três) e a mesmíssima quantidade dos hexacampeões Newell’s e Estudiantes. Além dos mesmos títulos argentinos somados de Lanús, Quilmes, Gimnasia e Chacarita.

Outros “veteranos” eram o ponta Natalio Perinetti e sua dupla dinâmica em Pedro Ochoa, bem como o goleiro Marcos Croce: todos já no mínimo figuravam no Racing desde 1917. Croce, em especial, pudera se dar ao gosto de defender os dois bicho-papões das duas primeiras décadas do século XX: mesmo não integrando a comunidade britânica, estivera no poderoso Alumni dos anos 1900. Apenas esta equipe somou mais conquistas argentinas do que o Racing na era amadora (dez, entre 1900 e 1911), mas estava desativada desde 1913. Ochoa, por sua vez, foi o único a figurar em todas as 24 partidas do nono título do clube, enquanto o parceiro Perinetti ausentou-se mais do que de costume por uma lesão inoportuna.

À esquerda, capa da revista El Gráfico retratando a estreia, 1-0 sobre um forte Almagro, 3º colocado. À direita, cena dos 3-1 sobre o River, que na época usava camisa em listras verticais

Por outro lado, do título anterior em 1921 para 1925, deixaram o clube gente que figurara em todo o hepta. Armando Reyes, presente desde 1913, Alberto Marcovecchio e Juan Hospital, ambos desde 1912, e Francisco Olázar, desde 1910, pararam todos entre 1922 e 1923; Reyes, sob cornetas de sobrepeso na própria campanha campeã de 1921, na qual Hospital sofreu contra o River uma fratura dupla na tíbia e perônio da qual nunca se recuperou plenamente; enquanto Marcovio já era criticado em 1922 no jornal Crítica como alguém que “já não é o perigoso forward de outras vezes”. O artilheiro-mor Alberto Ohaco, presente desde a década de 1900, saiu em 1924. Mas, sem dúvidas, a perda mais trágica foi a do jovem Albérico Zabaleta: trocara em 1918 o rival Independiente pelo Racing e uniu ambos em seu precoce sepultamento em 1923, vitimado por infecção contraída de lesão que sofrera na partida de seu último gol, contra o San Lorenzo.

Das caras novas, a do artilheiro Luis Batz (com nove gols, foi o goleador do plantel campeão), a do ponta Marcelino Martínez (que chegara naquele ano credenciado como primeiro grande atacante do Vélez, com o qual fora vice para o próprio Racing no torneio de 1919) e a do centromédio Adolfo Zumelzú foram as de mais impacto. Zumelzú atuou somente naquela temporada pelo Racing, deixando um único golzinho. Mas relatos da época se deliciavam com seu jogo refinado como volante – quando esse termo não existia -, quase como um Fernando Redondo de seu tempo. Ele e Natalio Perinetti seriam os representantes daquele Racing de 1925 na primeira Copa do Mundo.

Dos demais membros do plantel, Félix Bussolini, Raúl Seregni, Américo Masetti, Juan Arbarellos, Ramón Rey, Héctor Trentino, Alfieri Tassara, Carlos Mujica, Julián Carreras, José Pereyra, Héctor Meaca, Rafael Santiso, Juan Zanetti, Juan Beltrán Pérez, Agustín Castelli, Eduardo Spraggón e Camilo Palasi se revezavam para completar o time-base. Os mais assíduos foram Seregni, Masetti e Rey, que só se ausentaram de um jogo cada um.

Tarde contra o Defensores de Belgrano: 3-1 no antigo estádio do River (anterior ao Monumental), na esquina das ruas Alvear com Tagle, na Recoleta

Embora ofuscados pelos nomes anteriores, alguns puderam ter seus momentinhos de glória: Mujica, por exemplo, marcou quatro gols nos 7-0 sobre o Tigre, tarde do único golzinho de Zumelzú como racinguista. Rey marcou duas vezes em 3-1 sobre o River (Seregni fez o outro), o do empate em 1-1 com o concorrente San Lorenzo e também o gol do jogo que assegurou o título. Foi mais, por exemplo, do que o lesionado ídolo Perinetti pôde contribuir: o ponta marcou duas vezes, uma naqueles 7-0 sobre o Tigre e, em especial, o único em duelo com o Vélez pela 18ª rodada, em 2 de agosto. Eventualmente recuperado nos anos seguintes, ele até recusaria transferir-se ao Real Madrid após brilhar em triunfo de 2-0 em 1927, satisfeito com o que ganhava: o amadorismo já era uma fachada na época.

A campanha de 1925, a números frios, foi uma demonstração clara de superioridade. Racing disputou 24 partidas e terminou, pela quinta vez, campeão de modo invicto: venceu quinze e empatou nove. Com 40 gols marcados e apenas 10 sofridos, somou 39 pontos, ficando três pontos à frente de San Lorenzo e sete à frente de Platense e Almagro. O livro Héroes de Tiento, de Carlos Aira, coloca alguns asteriscos após vasculhar recortes da época, contudo. Ao menos, no primeiro capítulo e no último daquela campanha.

A estreia, em 5 de abril, foi contra o Almagro. Aira conta que o jogo terminou “em escândalo. Aos 32 minutos do segundo tempo, Salvador Carreras recebeu um cruzamento de Eduardo Spraggón, baixou a bola com a mão e com um tiro cruzado bateu a vala visitante. O árbitro apitou gol. Humberto Recanatini, zagueiro do Almagro, viu a infração e saiu apressado a reclamar. Os jogadores tricolores protestaram contra a decisão arbitral com uma sentada. Os torcedores locais ingressaram ao campo de jogo e se suspedeu a partida. As discussões seguiram ao vestiário. O autor do gol encarou Reca e lhe recriminou: ‘você está equivocado! Você viu mal a jogada! Você assegura que eu fiz o gol com a mão e isso não é certo. O que fiz foi deter a bola com a mão, mas o gol eu fiz com o pé!'”. O tal Recanatini, vale dizer, era então ídolo de seleção e máximo expoente do Almagro nela.

Registros de 1925 mostram que a torcida do Racing já era excessivamente apaixonada cem anos atrás…

O livro também revela que Mujica, “atacante potente que se perfilava para ser grande ídolo do clube”, deixou a campanha ainda em julho justamente por não receber a remuneração aguardada; outro, Tassara, teria deixado de comparecer ao jogo contra o Sportivo Palermo por ter preferido “ir passear”, inferindo-se como protesto silencioso por não receber. Foi com a saída de Mujica que Batz, “típico centroavante daqueles anos, torpe e sem estilo”, ganhou espaço. “Estreou com um gol importante, contra o Atlanta em Avellaneda. Ao final da temporada, seu registro era imponente: nove gols em dez jogos”. O goleiro Croce, por sua vez, se dizia amador no sentido completo: “ostento em minha carreira a honra de não ter mercantilizado meus esforços e de ter praticado em todas os ocasiões o esporte pelo esporte em si”.

Durante o campeonato, o time em sua maior parte teve vitórias magras. Além daqueles 7-0, a outra única goleada propriamente dita foi um 5-0 no Quilmes, pouco antes de conquistar o título. Ochoa e Batz marcaram duas vezes cada e Marcelino Martínez fechou o massacare. O jogo do título, por sua vez, foi curiosamente em partida válida pela segunda rodada; enquanto a maioria dos clubes jogou ainda em 12 de abril, o compromisso do Racing com o Excursionistas acabou postergado para 25 de outubro, sendo o penúltimo cronologicamente disputado pelo líder.

Um simples empate significaria três pontos de vantagem sobre o San Lorenzo. Como vitórias valiam dois pontos e não três, o líder já não poderia ser ultrapassado na rodada final. Por ironia, foi o antigo estádio do San Lorenzo que recebeu o duelo com o Excursio. Aira conta que, novamente, “o escândalo esteve presente. Na metade do primeiro tempo, Croce bateu com um chutdão na virilha do atacante rival Oscar Pascual Mapelli. A partida esteve suspensa por um longo tempo. Finalmente empataram. Racing campeão invicto. Novamente, La Academia. Sem saber, quem concorreu naquela tarde ao estádio do San Lorenzo foi testemunha de um final de época. La Academia havia brindado sua última classe magistral. A volta olímpica seguinte tardou muitos anos. Nem mais nem menos do que 24. Haverão tempos piores para o Racing”.

O 1-1 contra os alviverdes do bairro de Bajo Belgrano garantiu por antecipação o eneacampeonato; a condição de título invicto, por sua vez, se garantiu com 2-1 visitando o Ferro Carril Oeste em 22 de novembro, com dois gols do artilheiro Batz no bairro de Caballito. Os nove títulos de La Acadé a mantiveram por quinze anos como equipe mais vezes campeã argentina, sendo dez deles de modo isolado; o Boca chegou aos nove em 1935 e aos dez em 1940.

Mesmo precisando esperar até 1949 para voltar a ser campeão, o Racing seguia sem ser superado por outro time: foi somente em 1952 que o River chegou a um nono título (o Racing, tricampeão seguido em 1949-50-51, já tinha então doze, igualado, por sinal, aos mesmos doze do Boca). O Independiente e o San Lorenzo demoraram respectivamente até 1970 e até 1972 para chegarem ao nono, altura em que o Racing já tinha quinze. O outro único clube a chegar aos nove foi o Vélez, algo que ainda assim demorou até 2009.

Este título histórico de 1925 não foi apenas mais uma conquista no vasto currículo de Racing, mas sim a coroação de um ciclo de ouro que cimentou a reputação de La Academia como um dos maiores times da história do futebol argentino, ou, como ela também se autoproclama, simplesmente El Primer Grande.

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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