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Racing e Gimnasia LP são amigos e uniram presidentes, mas há 30 anos isso esteve em risco…

“Há séculos que não vou a campo. Na última vez que vi o Gimnasia, foi contra o Racing na [plateia] visitante porque acompanhei o Néstor enquanto minha mãe e minha irmã estavam na local. Ia 3-1, não? E o Lobo terminou ganhando por 4-3. E ele brigou comigo!”. A declaração é da própria presidente da Argentina, Cristina Kirchner, provavelmente a mais célebre torcedora do Gimnasia LP. Se desconsiderados alguns equívocos, poderia fazer referência às finais contra o Racing em 1984. Ambos decidiam quem subia à elite e os platenses levaram a melhor sobre o clube  do coração do ex-marido.

Talvez pelas cores de si e dos respectivos rivais Independiente e Estudiantes, Racing e Gimnasia LP, unidos também pelo sofrimento ao qual se acostumaram, tradicionalmente têm torcidas amigas. Se enfrentam hoje em situações distintas da do início do ano, em que os de Avellaneda tiveram desempenho sofrível e os de La Plata lutaram pela taça até a última rodada. Agora é o Lobo quem faz campanha ruim enquanto La Academia, quarta colocada, ainda tem chances matemáticas de título.

É exagerado supor que as afinidades entre os respectivos clubes tenha unido o casal Kirchner (a mãe de Cristina, aliás, é mesmo uma frequente presença na plateia do Gimnasia). Porém, resgatando os jogos dos dois clubes desde 1976, ano em que a dupla presidencial se conheceu, só um episódio se aproxima do que a memória de Cristina relatou. O Gimnasia LP, historicamente o freguês da relação, desde aquele ano venceu marcando mais de dois gols sobre o Racing em apenas cinco ocasiões: três delas corresponderam a um 3-1 na penúltima grande campanha gimnasista, em meio ao vice no Apertura 2005; ao 6-0 em outro vice, no Clausura 1996; e o 4-0 no Metropolitano 1976. Resultados que podem ser descartados pelos placares bem distantes da descrição “presidencial”.

A amizade histórica entre “Lobo” e “Academia’ sobreviveu à festa (à direita) de Flores e Pedrazzi no primeiro gol do duelo de 1984

As outras duas foram pelas finais do octagonal final pela segunda vaga de acesso na segundona de 1984. É que na época o segundo colocado não subia diretamente, senão o próprio Racing seria agraciado. Mas o privilégio era apenas do campeão: a outra vaga ficaria com o vencedor de um mata-mata entre os oito abaixo do líder, fórmula ainda recorrente em divisões mais abaixo. E o campeão foi o Deportivo Español, hoje sumido mas que ali deu largada para uma década e meia de presença na elite, onde fez algumas boas campanhas, tirando casquinha de gente mais tradicional.

Foi sem dúvidas a temporada mais sombria para o torcedor racinguista: o clube, além de rebaixado pela primeira e única vez na riquíssima história, não conseguiu subir imediatamente – dos grandes já rebaixados, é o único que teve essa pendência. Como tudo pode ficar pior, naquele 1984 o Independiente, que já havia garantido o título argentino de 1983 exatamente ao vencer clássico contra o rebaixado rival, faturou ainda a Libertadores e a Intercontinental (as últimas dos rojos, por sinal).

O Racing procurou reforçar-se, mas nem a vinda do veterano craque Miguel Ángel Brindisi (estrela do belo Huracán campeão de 1973 e fundamental dupla de Maradona no Boca campeão em 1981) adiantou frente ao desempenho espetacular do Español, campeão com nada menos que 16 pontos de diferença – e em época onde a vitória ainda valia 2 e não 3 pontos. Já o Gimnasia, na fase inicial, ficou 21 pontos atrás do Español. Estava na segundona havia cinco anos, sua maior estadia nela.

Troco do Racing: a classificação à Libertadores 1997 em duelo direto com o Gimnasia, rendendo a nota “Racing volta à Copa”

No octagonal final, o Racing já avançou aos trancos e barrancos, segurando-se na vantagem por resultados iguais por ter melhor campanha entre os postulantes. Nas quartas-de-final, contra o Deportivo Morón, venceu por 2-1 na ida e perdeu de 1-0 na volta. Na semifinal, outro aperto: venceu por 2-1 o Lanús na ida, e na volta vencia por 1-0 até um juiz de linha ser agredido e a partida ser suspensa ao fim do primeiro tempo. A continuação se desenrolou cinco dias depois e os grenás conseguiram virar, mas ficou-se no 2-1 e os de Avellaneda avançaram à final por conta da vantagem.

O Gimnasia foi menos pior, com a tática de empatar fora e vencer no aperto em La Plata. Foi assim nas quartas, com um 1-1 contra o Argentino de Rosario em Rosario seguido de 2-1 em casa; e nas semis, com um 2-2 com o Defensores de Belgrano seguido por um 1-0. O Lobo não estava exatamente um primor. Além disso, na primeira fase o Racing goleara-lhe por 4-0 em Avellaneda e segurara um 0-0 em La Plata. Mas a melhor campanha gimnasista nos mata-matas inverteu os mandos de campo.

Assim, a ida da final foi em Avellaneda e o Gimnasia praticamente assegurou a vaga ali, vencendo de virada por 3-1. Os racinguistas parecem ter compreendido isso, pois tiveram Pavón expulso aos 40 do segundo tempo e o veterano Carlos Squeo (último remanescente dos tempos melhores, jogara com Brindisi a Copa do Mundo de 1974), aos 41. Talvez o “ia 3-1, não?” ao qual Cristina referiu-se fosse sobre essa partida. Mas o mais provável é que a frase tenha se referido ao primeiro tempo da volta em La Plata (uma vez que ela estava na torcida visitante para, segundo ela, acompanhar o marido), encerrado pelo mesmo placar de 3-1. Disputado em pleno réveillon, a partida não terminou exatamente em 4-3, mas em 4-2, com destaque para Carrió, autor de dois dos quatro gols gimnasistas.

Campeão até do mundo com o Racing, o ex-zagueiro cruzeirense Perfumo treinou o título mais expressivo do Gimnasia: a Copa Centenário da AFA

Não foi a última vez que os “amigos” tiveram um duelo direto. Um primeiro encontro com caráter histórico, a rigor, nada valia ao Gimnasia, mas garantiu ao Racing o título argentino de 1966 por antecipação. A conquista já era considerada histórica na época, por vir no embalo de um recorde de 39 jogos seguidamente invicto no profissionalismo (marca só quebrada em 1998, pelo Boca de Bianchi). E foi crescendo de relevo: credenciou La Acadé a vencer a Libertadores e o Mundo em 1966… e foi a última taça nacional racinguista até 2001.

Na temporada 1995-96, então, ambos foram vices do Vélez (o Racing no Apertura, o Gimnasia no Clausura). Assim, travaram um tira-teima no Monumental de Núñez para definir quem acompanharia os velezanos na Libertadores de 1997, em tempos em que o torneio era enxuto e só admitia dois representantes por país. Novamente, quem sorriu foram os de Avellaneda: Marcelo Delgado fez o único gol, aos 5 minutos da prorrogação sobre a bela equipe dos gêmeos Barros Schelotto – formada, aliás, desde 1993, quando o Lobo venceu a Copa Centenário da AFA sendo treinado por um ícone racinguista, Roberto Perfumo. Na Libertadores, a Academia parou nas semifinais.

Gustavo Barros Schelotto, um daqueles gêmeos, foi titular no Racing que, em 2001, encerrou 35 anos de jejum no campeonato argentino. Além dele e de Perfumo, os dois alviazuis tiveram como principais nomes em comum, nas antigas, o atacante Arturo Naón nos anos 30 (ele é maior artilheiro da história gimnasista, até hoje) e os meias Diego Bayo (anos 60), Víctor Hugo Andrada, Guillermo Güendulain e José Albornoz e o lateral Néstor Sicher (todos dos anos 80/90); e, mais recentemente, os também atacantes Luis Rueda, Facundo Sava, Sebastián Chirola Romero e Gustavo Bou; e o goleiro Gastón Sessa, o meia Luciano Aued e os defensores Lucas Licht e Gastón Díaz.

Os gêmeos Barros Schelotto juntos no Gimnasia e como adversários quando Gustavo, último campeão nos dois, esteve no Racing

Entre treinadores, Diego Cocca (além de Perfumo, que no Racing também foi técnico) é outro nome em comum. Há ainda o caso do goleiro Juan Botasso, da Argentina vice da Copa de 1930 ainda como jogador do Argentino de Quilmes. Ele foi emprestado por este clube ao Gimnasia para a célebre excursão europeia de 1930-31 do Lobo e na sequência da carreira brilhou como arqueiro racinguista.

Por fim, mas não menos importante: Gimnasia e Racing são os times dos Kirchner, mas não exatamente do chamado kirchnerismo. Ao longo da presidência de Néstor, entre março de 2003 e dezembro de 2007, ocorreram dez campeonatos argentinos e apenas em um o clube de Avellaneda disputou o troféu (no Clausura 2005, como vice), chegando a terminar à beira do rebaixamento na temporada 2007-08. Na de Cristina, que desde dezembro de 2007 sucede o marido, a equipe de La Plata até rebaixada foi, em 2011, e nunca mais voltou à Libertadores. Na primeira divisão, fez no máximo um único bom campeonato argentino em quatorze já realizados ao longo da presidência dela: o do semestre passado, quando teve chances matemáticas de título até a última rodada, mas sabia desde a penúltima que a taça já era do River.

Quando Néstor Kirchner faleceu – a data completou quatro anos nessa semana, por sinal -, não deixamos de expor seu lado torcedor: leia aqui. Dizia ele que sofria mais pelo futebol do que pela política, o que há 30 anos parecia bem compreensível. Racing e Gimnasia voltam hoje a se encontrar no mesmo cenário daqueles 4-2, o Estádio do Bosque em La Plata, às 19h pelo horário de Brasília. Para mais fotos daquela tarde de 1984, confira seção repleta delas no site oficial do Loboclicando aqui.

Atualização em 2019: ao assumir o cargo de técnico do Gimnasia (sem título algum até o fim da presidência de Cristina, em dezembro de 2017), Maradona se tornou, sem dúvidas, o nome mais célebre a passar pelos dois clubes. Dieguito treinara sem muito brilho o Racing nos primeiros meses de 1995, enquanto estava suspenso pela FIFA para jogar futebol em virtude do doping na Copa de 1994. Havia expectativa de que se convertesse em jogador racinguista quando a punição terminasse, mas ele rompeu o contrato e regressou aos gramados voltando ao Boca

Racing e Gimnasia também são capítulos da mitologia maradoniana

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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