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Boca Juniors e Huracán: o Superclássico do Amadorismo

Poucas pessoas devem ainda se lembrar disso, mas antes mesmo do River Plate ser o feroz rival do Boca Juniors, esse lugar foi ocupado, no amadorismo dos anos 1920, pelo Huracán (até porque o River Plate jogava um outro campeonato, da Asociación Amateurs de Football, junto com os outros considerados grandes). Entre 1920 – ano de duelo retratado na imagem acima – e 1926, enquanto o futebol argentino estava dividido em dois campeonatos, só deu Boca Juniors e Huracán nos campeonatos da Asociación Argentina de Football.

Campeão de 1921, em 1922, o Huracán conquistou o bicampeonato legítimo com similar campanha: 13 vitórias, 2 empates e uma única derrota, um 1 a 0 para o Boca Juniors, o campeão de 1920, fora de casa em 3 de dezembro de 1922.

Em 1923, o tricampeonato não veio por motivos administrativos, vulgo tapetão. Quando o campeonato foi interrompido, Boca Juniors e Huracán estavam empatados em 51 pontos, mas El Globo tinha uma partida a menos. Isso não impediu a Associación Argentina de Football de propor uma final de desempate.

A primeira partida, realizada no estádio do Sportivo Barracas no dia 16 de março de 1924, foi um massacre do Boca: 3 a 0 contra o atual bicampeão. No entanto, El Globo venceu a segunda, 14 dias depois no mesmo estádio, por 2 a 0 e a AAF decretou mais uma partida de desempate.

A terceira partida, realizada no dia 6 de abril desse mesmo ano no campo do Palermo, foi 0 a 0 mesmo com prorrogação. Como não existia desempate por pênaltis, uma quarta partida teve que ser realizada no dia 27 de abril no estádio do Sportivo Barracas. Nessa, Garassini fez dois gols e deu o título para o Boca Juniors. El Globo, o incansável vice-campeão, jogou com V. Marmo no gol; C. Nóbile e J. Pratto; C. Federico, R. Vázquez e  J. Scurzoni; A. Loizo, J. Rodríguez, E. Chiarante, A. Chiessa e Cesáreo Onzari, célebre como autor do primeiro gol olímpico.

Em 1924, desanimados com o bravo, porém injusto, vice-campeonato, o Huracán ficou apenas em 7º lugar, tendo três partidas canceladas – contra Alvear, Porteño e Sportsman – por causa da realização das finais de 1923 contra o Boca Juniors em março e abril de 1924. O Boca Juniors foi bicampeão dessa forma com a conquista dupla: 1923 e 1924

Foto da final de 1923 entre Boca Juniors e Huracán, publicada na capa da revista El Gráfico de 12 de abril de 1924

Em 1925, com o Boca muito mais focado em excursão pela Europa, a primeira de um time argentino (pompa para o qual o Huracán até concordou em ceder emprestado o celebrado Cesáreo Onzari), o topo da tabela voltou a ser o espaço do clube do bairro de Parque de los Patricios. Com campanhas idênticas – 18 vitórias, 2 empates e 1 derrota, sendo que a do Huracán foi um -, El Globo e Nueva Chicago empatam na primeira colocação. A AAF demandou uma final que foi realizada no dia 22 de agosto de 1926 no estádio do Sportivo Barracas.

Logo aos 4 minutos de jogo, o Nueva Chicago marcou um gol com Maure. A partida segue difícil até que Guillermo Stábile empatou, aos 18 minutos do segundo tempo. O gol provocou reclamações dos adversários que, consternados, perderam o prumo no jogo, tendo Varela expulso cinco minutos após o gol de empate do Huracán.

No final do segundo tempo, enquanto o Huracán esperava o início da prorrogação, o Nueva Chicago abandonou o estádio e dois dias depois se desafiliou da Asociación Argentina de Football, abandonando o campeonato de 1926 no meio – para se inscrever, no dia seguinte, na Asociación Amateurs de Football (que contava com River Plate, Racing, Independiente, San Lorenzo, Vélez Sarsfield, entre outros). Dessa forma, Huracán ganhou, por abandono, o seu terceiro título de Campeão Argentino.

O campeão de 1925 conseguiu o 3º lugar em 1926 em um campeonato, vencido pelo Boca Juniors, mas esvaziado por muitas agremiações que fizeram o mesmo caminho do Nueva Chicago. No entanto, o clubes rebelados – que não podiam participar do já começado campeonato de 1926 da Asociación Amateurs de Football – tiveram o seu ato esvaziado quando a AAF se funde com a Amateurs para realizar o campeonato de 1927.

Esse era o começo do fim da rivalidade entre Boca Juniors e Huracán, pelo menos do tempo quando o Superclásico era entre xeneizes e quemeros. Embora ainda houvesse epílogo no torneio unificado de 1928 (finalizado já em meados de 1929): Huracán campeão da primeira divisão argentina, pela quarta e ainda penúltima vez… e o Boca, vice. Por um pontinho a menos!

Já era 1930, mas o encontro ainda era ríspido para o huracanense Guillermo Stábile, artilheiro da primeira Copa do Mundo, naquele mesmo ano
Rafael Duarte Oliveira Venancio

Em 2010, na primeira versão desse texto, Rafael Duarte Oliveira Venancio escrevia para o Futebol Portenho, era professor do Senac e doutorando na USP. Em 2014, era professor doutor da Universidade Federal de Uberlândia e mantinha o blog Lupa Esportiva no Correio de Uberlândia. Agora, em 2020, é pós-doutor pela ECA-USP, além de escritor e dramaturgo com peças encenadas em 3 países e em 3 línguas. Nestes 10 anos, sempre tem alguém comentando este texto com ele, seja rindo, seja injuriado...

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