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Familiares na Seleção Argentina – Parte 2: os Solari

Jorge Solari, com Oscar Más ao fundo, na Copa do Mundo de 1966

Diferentemente da família do especial anterior desta série, estes já não deixaram marcas tão profundas na Albiceleste. Por outro lado, compõem a família mais completa que já passou por ela, com relações entre irmãos, pai & filho e tio & sobrinho, razão pela qual merecem um especial à parte.

Por questão cronológica, vale mencionar que nos anos 20 a seleção tivera Emilio Solari, integrante do primeiro título da Argentina na Copa América (em 1921) e da partida recordada pelo primeiro gol olímpico (em 1924). Com carreira em pequeno clubes portenhos (Nueva Chicago, Dock Sud, Sportivo Barracas…), se desconhece, porém, algum parentesco dele com os xarás ilsutres abaixo:

Jorge Raúl Solari, o mais velho da dinastia (nascido em 10 de novembro de 1941, em Rosario), foi naturalmente o primeiro a defender a Argentina, no que fez em dez jogos entre 1966 e 1968, época em que defendia o River Plate. Os millonarios estavam em uma seca de títulos desde 1957 e aquela década ficou marcada por dolorosos vice-campeonatos – El Indio debutou na seleção exatamente no ano em que o time perdeu, conforme o Futebol Portenho explicou neste especial, uma finalíssima de Libertadores que tinha em mãos. Solari foi inclusive autor de um dos gols dessa partida, famosa por ter originado o pejorativo apelido de gallinas para os riverplatenses (cujo jejum só acabaria em 1975).

Ele foi convocado por Juan Carlos Lorenzo para a Copa do Mundo de 1966 mesmo sem jamais ter defendido a Argentina até então; nas eliminatórias, as quais não jogou, o treinador fora José María Minella. Oficialmente, estreou exatamente no último amistoso que o país fez antes do torneio, em derrota por 3-0 para a Itália, em Turim, em 22 de junho – embora na realidade houvesse em 25 de maio, ainda no Monumental de Núñez, entrando no decorrer de um 1-0 em amistoso não-oficial contra a Fiorentina (!), vencendo no mesmo gramado também o Cagliari ainda em 1º de junho. Integrou o meio de campo titular no mundial, disputando as quatro partidas dos argentinos.

Após a Copa, jogou oficialmente outras cinco vezes, todas amistosas, duas delas contra o Brasil – derrotas de 4-1 no Rio de Janeiro e um 3-2  em Belo Horizonte, respectivamente em 7 e 11 de agosto de 1968. Ao todo, só experimentou a vitória em duas ocasiões, nas partidas contra Espanha e Suíça na Copa, com quatro empates e quatro derrotas. Se tornou um técnico de relativo sucesso, embora com o tempo o Indio Solari com mais fama na Argentina viesse a ser o ex-vocalista de um dos grupos de rock mais populares do país, Los Redondos (como é mais comumente referida a banda de nome interminável Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota).

Eduardo Solari em El Gráfico de 1973, ano em que foi campeão com o Rosario Central

Como outras curiosidades, além do parentesco com os dois a seguir, Jorge também tem laços familiares com Fernando Redondo, seu genro. Ambos estiveram na Copa do Mundo de 1994: Redondo pela Albiceleste e Solari como treinador da estreante Arábia Saudita, que desde então nunca mais avançou da primeira fase.

Passara a treinar os asiáticos por indicação do próprio presidente argentino, Carlos Menem (que tem origens árabes), em resposta a pedido do próprio Rei Fahd (que batizaria a maior mesquita da América Latina, o Centro Cultural Islâmico erguido na presidência de Menem no bairro portenho de Palermo e que desencadeou este outro especial do FP).

Eduardo Miguel Solari, irmão nove anos mais novo de Jorge (nasceu em 12 de outubro de 1950, também em Rosario), também foi meia. Integrou os bons times montados pelo Rosario Central nos anos 70, participando do título nacional de 1973 dos canallas, que no ano seguinte foram ainda vice tanto no nacional quanto no metropolitano.

Em contraste com o irmão (que, por sinal, surgira justamente no arquirrival Newell’s Old Boys), foi vitorioso na carreira clubística e obscuro na seleção: oficialmente, jogou apenas uma partida, em 1975, e vindo do banco de reservas de César Menotti. Mas, tal como Jorge, Eduardo já havia entrando antes pela Albiceleste. Três anos antes da estreia “oficial”, figurou em 3-0 sobre a seleção provincial de Tucumán, em 18 de outubro de 1972, no estádio do Atlético local.

Já aquela partida de 18 de julho de 1975 acabaria lembrada por marcar a quebra de um jejum de quase vinte anos sem triunfos da Argentina sobre o Uruguai dentro do Estádio Centenário, em um 3-2 válido pela Copa Newton – o equivalente entre as duas seleções à Copa Roca que os argentinos travavam contra o Brasil. Outro a ter estreado naquele dia foi Jorge Valdano.

Após parar de jogar, Eduardo integrou comissões técnicas, incluindo a formada pelo irmão na delegação saudita de 1994. Ambos participaram da fundação do Club Renato Cesarini, equipe rosarina dedicada a revelar novos talentos. Em um dos clubes que treinou, Eduardo curiosamente enfrentou a própria Seleção Argentina – e foi a de 1986, com quem arrancou um histórico 0-0 para o Junior de Barranquilla em um dos últimos testes pré-Copa realizados pela Albiceleste.

Santiago Solari pela Argentina em 2004, seu último ano pela seleção

Santiago Hernán Solari Poggio, nascido em 7 de outubro de 1976 em Rosario, é filho de Eduardo. Mas, no futebol, ficou mais associado a Jorge, ficando conhecido justamente como El Indiecito, “O Indiozinho”. Exatamente como ele, despontou nacionalmente no mesmo River Plate (após passar pelas inferiores do Renato Cesarini e, também como o tio, do Newell’s), integrando o meio de campo titular do elenco que ganhou praticamente tudo entre 1996 e 1997.

Chegou a haver cogitação de que fosse para a Copa do Mundo de 1998, mas ele só foi ter sua primeira chance na seleção em 1999, já como jogador do Atlético de Madrid. Incrivelmente, tal como o pai e o tio, a primeira vez de Santiago na Albiceleste também foi em amistoso não-oficial: contra um elenco forte (campeão da Copa do Rei dali a uns meses) do clube Espanyol, cujos festejos da temporada de centenário incluíram um 2-0 em Montjuïch em 14 de novembro de 1999. Três dias depois, o terceiro Solari então estreou “oficialmente”, vencendo a Espanha em Sevilla pelo mesmo placar.

Após experimentar o rebaixamento com o Atleti em 2000, Solari foi demonstrar melhor seu talento no arquirrival Real Madrid. Viveu boa fase no ano que marcou o centenário do clube merengue, na temporada de 2001-02, razão pela qual sua convocação para a Copa de 2002 foi levada mais seriamente em consideração – semanas antes do torneio, ele havia inclusive sagrado-se campeão da Liga dos Campeões (ainda a última de Chamartín).

Compunha o flanco esquerdo dos Galácticos junto com Roberto Carlos, com quem por sinal iniciara a jogada que resultou no famoso gol de Zidane na final da Champions. Santiago, que não havia participado de nenhum jogo das eliminatórias, disputou três amistosos pré-Copa, mas não convenceu Marcelo Bielsa. Solari continuou recebendo oportunidades ocasionais de Bielsa (e nas três primeiras convocações de José Pekerman), defendendo pela última vez a Argentina em 2004, pouco antes de perder lugar no Real e não se firmar, em seguida, na Internazionale, ao contrário de Cambiasso (com quem se transferira do Bernabéu para a Inter).

Ao todo, Santiago jogou oficialmente onze vezes (com nove vitórias, um empate e uma derrota) e marcou um gol – em sua segunda partida oficial, em amistoso contra o México em 2000, em Los Angeles. As estatísticas apontam que sua última partida foi em 17 de novembro de 2004, em 3-2 sobre a Venezuela pelas eliminatórias, mas ele ainda figurou em 3-0 sobre a seleção da Catalunha em 29 de dezembro.

Dois irmãos de Santiago, Esteban (ex-Estudiantes) e David (ex-Independiente), também tornaram-se jogadores, mas não obtiveram sucesso parecido, estando ambos atualmente no futebol do Chipre e sem passagens pela seleção. Atualmente, a maior estrela da família é a modelo Liz Solari (La Indiecita), também filha de Eduardo.

Os Solari em férias. Santiago é o primeiro e seu tio Jorge, o último em pé. Eduardo é o terceiro. Na foto, também aparecem Esteban e Liz, os primeiros agachados.
Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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