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O clássico do bairro

Amanhã, Huracán x San Lorenzo se enfrentarão pela 16ª vez em 95 anos. Será mais uma edição do famoso “clássico do bairro”. Como será a partida disputada na cancha de Parque Patricios, é algo que não se pode prever. Mas é possível garantir que o estádio estará lotado e a partida será quente. Afinal, quando os dois grandes rivais da zona sul de Buenos Aires se enfrentam, a temperatura sobre muito.

A receita para uma rivalidade tão forte é o fato de ela não ser apenas futebolística. Seria melhor descrita como uma briga entre vizinhos. O Huracán se situa em Parque Patricios, e o San Lorenzo em Boedo, bairros vizinhos, de perfil sócio-profissional muito semelhante (ambos habitados principalmente por trabalhadores não qualificados). Quando os dois clubes se enfrentam, não se trata apenas de um jogo. Boedo e Parque Patricios colocam a vida na partida, para mostrar a superioridade de seu bairro sobre o rival.

No aspecto propriamente futebolístico, o clássico do bairro é considerado por alguns como “el más desparejo” (“o mais desigual”). Afinal, coloca frente a frente uma equipe que faz parte dos grandes clubes argentinos, contra uma considerada pequena. O San Lorenzo possui 13 títulos nacionais, 10 deles na era profissional. Já o Huracán possui 5 campeonatos argentinos em sua galeria, com apenas um no profissionalismo.

Isso se reflete no retrospecto dos confrontos entre ambos. Em 159 encontros, são 77 vitórias do Ciclón, contra 40 do Globo e 41 empates. A maior goleada também pertence ao San Lorenzo, que aplicou um doloroso 5-0 no Huracán no Apertura 1995 (a maior goleada que a Quema obteve no confronto foi um 5 a 1 em 1944). Nas duas últimas partidas, vitórias do Ciclón por 2-0 e 3-0. A última vitória do Globo foi um 1-0 no Clausura 2009, em que o time só perdeu o título em polêmico confronto direto contra o Vélez na última rodada.

Outro dado a favor do San Lorenzo é a quase que total invencibilidade nos clássicos jogados no Nuevo Gasómetro, que o clube inaugurou em 1993. O Huracán só venceu na cancha de Bajo Flores uma única vez, em 2001, contra os reservas rivais – os titulares estavam focados para a final da Copa Mercosul, contra o Flamengo. A boa notícia para a torcida quemera é que o treinador do Globo naquela partida era o mesmo Miguel Ángel Brindisi que estará sentado no banco de reservas do clube na partida de amanhã.

Uma curiosidade do clássico é o grande número de jogadores que vestiram a camisa dos dois rivais. Nessa lista, há jogadores de alto renome, como Óscar Ortiz e Omar Larossa, campeões mundiais com a seleção argentina em 1978, e Luis Monti, único finalista em Copas do Mundo por países diferentes (vice pela Argentina em 1930, campeão pela Itália em 1934). Vários desses jogadores possuem também passagens por clubes brasileiros, como o próprio Ortiz (Grêmio), Carlos Buttice (Corinthians), Héctor Veira (idem) e Narciso Doval (Flamengo e Fluminense). No clássico, haverá outro: o goleiro Pablo Migliore, atualmente sanlorencista.

Tiago de Melo Gomes

Tiago de Melo Gomes é bacharel, mestre e doutor em história pela Unicamp. Professor de História Contemporânea na UFRPE. Autor de diversos trabalhos na área de história da cultura, escreve no blog 171nalata e colunista do site Futebol Coletivo.

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