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Supersemana – O Grande Confronto de 2004

No dia 17 de junho de 2004 Boca Juniors e River Plate protagonizaram aquele que talvez tenha sido o maior confronto entre ambos no século XXI. Assim como o próximo jogo, era uma partida à noite, no Monumental de Nuñez. Mas o confronto era pela semifinal da Libertadores daquele ano. E os times eram bem diferentes.

O Boca Juniors chegava àquele confronto histórico em alta. A equipe comandada por Carlos Bianchi havia vencido as edições de 2000, 2001 e 2003 do torneio continental e tinha como destaque um ataque formado por Carlitos Tevez e Guillermo “El Melizo” Barros Schelloto.

O River Plate não vinha muito atrás. Buscando reconquistar o terreno perdido para o rival nos anos recentes os Millionários tinham Marcelo Salas, Lucho Gonzalez, Gallardo, Mascherano e Cavenaghi, entre outros. Na Argentina e em todo o continente, o clássico era ansiosamente aguardado.

O medo dos confrontos entre os barra-bravas fez com que cada clássico só tivesse torcida do clube mandante nas arquibancadas. E no primeiro jogo o zagueiro Schiavi (que depois atuou no Grêmio, e atualmente joga pelo Newell’s Old Boys) marcou o gol único que dava os xeneizes a vantagem do empate na segunda partida.

As duas equipes entraram em campo desfalcadas, já que a partida de ida tinham ocorrido três expulsões: Gallardo e Garcé pelo River e Cascini pelo Boca. Mas isso não impediu a torcida que lotava o Monumental de Nuñez de ver uma partida épica, das mais emocionantes que a Libertadores já viu.

O primeiro tempo teve poucas emoções. O lance mais comentado foi um possível pênalti cometido por Schiavi em Maxi Lopez, não assinalado pelo árbitro Hector Baldassi. O jogo era nervoso, e ambas as equipes tinham medo de dar espaço ao adversário. Bianchi conseguira anular o River por 45 minutos.

Mas a segunda etapa seria diferente. Logo após a saída da bola o Boca perdeu Vargas, expulso. E a situação xeneize ficou dramática  com o gol de Lucho Gonzalez para o River. Faltavam 40 minutos para o fim da partida. O River havia igualado o confronto, tinha toda a torcida a seu favor e um adversário com dez jogadores.

O restante da partida foi bastante nervosa, como convém a um clássico decisivo. O River tentava pressionar o Boca, mas criava pouco. Os visitantes tampouco conseguiam contra-atacar, até que a quatro minutos do fim do jogo, Sambueza foi expulso, deixando a equipe da casa com um a menos.

E as coisas viraram de vez para o lado do Boca, quando Tevez aproveitou boa jogada de Cangele para empatar. Eram 45 minutos do segundo tempo. O Boca havia revertido o placar desfavorável e agora jogava de igual para igual. A torcida do River, desanimada, via Tevez humilhá-los ao comemorar seu gol decisivo imitando uma galinha.

Carlitos foi expulso pela comemoração, mas pouco importava. A história parecia definida. Mas em um clássico dessa dimensão, só o apito final decide uma partida de vez. E isso foi provado mais uma vez quando aos 50 minutos do segundo tempo o zagueiro Nasuti aproveitou um escanteio para colocar o River novamente em vantagem.

Delírio total no Monumental. O Boca havia revertido uma situação totalmente desfavorável para colocar a mão na classificação. Tevez havia humilhado a torcida millionaria na comemoração. Mas tudo havia ficado para trás com o gol providencial de um zagueiro no último lance da partida.

A classificação para a grande decisão seria resolvida nos penaltis. Nas primeiras oito cobranças ninguém errou (Salas, Montenegro, Cavenaghi e Gonzalez para o River; Schiavi, Alvarez, Ledesma e Burdisso para o Boca). Mas a sequencia foi interrompida quanto Abbondanzieri defendeu a cobrança de Maxi Lopez, permitindo que Villarreal desse a vitória ao Boca na última cobrança.

Relembrar aquele jogo do ponto de vista atual traz algo de amargo. Os dois gigantes ainda conseguiriam manter um bom nível por alguns anos, mas hoje parecem muito decadentes e incapazes de produzir um jogo histórico como aquele.

E mesmo a torcida do Boca, a grande vencedora daquela noite, teve a alegria interrompida pela metade, quando deixou escapar um título que parecia certo  na grande decisão. A taça, ao contrário de todas as previsões, acabou ficando com os colombianos do Once Caldas.

Mas nada disso era real naquela noite fria de 2004. As equipes haviam escrito uma das páginas mais importantes da história de um dos maiores clássicos do mundo. Eis os protagonistas:

River Plate: Lux, Husain, Amelli (Fernandez), Nasuti e Rojas; Mascherano (Salas), Montenegro, Gonzalez e Coudet (Sambueza); Cavenaghi e Maxi Lopez. Treinador: Leonardo Astrada.

Boca Juniors: Abbondanzieri, Perea, Schiavi, Burdisso e Clemente Rodriguez; Villarreal, Ledesma, Vargas e Cagna (Cangele); Tevez e Schellotto. Treinador: Carlos Bianchi.

Tiago de Melo Gomes

Tiago de Melo Gomes é bacharel, mestre e doutor em história pela Unicamp. Professor de História Contemporânea na UFRPE. Autor de diversos trabalhos na área de história da cultura, escreve no blog 171nalata e colunista do site Futebol Coletivo.

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