Futebol e Rugby – Parte 1: o Buenos Aires Cricket and Rugby Club Caio Brandão - 16/09/2011 - 01:16

*Com a colaboração de Alexandre Anibal

O melhor site brasileiro de futebol argentino pede licença para falar de rúgbi nesta série de especiais, elaborados não sem propósito: muitas das primeiras potências futebolísticas da Argentina passaram a dedicar-se, por vezes exclusivamente, a este esporte, cujo mundial só perde em audiência global para a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

A própria El Gráfico, mais prestigiada revista argentina sobre futebol, não raro deixa espaço para matérias sobre rúgbi, e fez um miniguia da Copa do Mundo dele deste ano. Pois, se o brasileiro em geral tem, dentre os esportes com bola, apreço também por vôlei, basquete e tênis além do futebol, para o argentino a situação muda um pouco: permanecem o baloncesto de Ginóbili, Scola, Oberto, Delfino e Nocioni e os raquetazos de Vilas, Sabatini, Gaudio, Del Potro e Nalbandian, mas sai o vóley e entra este irmão do futebol.

“Irmão”, pois futebol e o rúgbi têm raízes em comum, no football medieval, nome genérico (e não propriamente um esporte único) para diferentes gincanas que ocorriam no interior da Grã-Bretanha, com regras variando de vilarejo para vilarejo. Aqui, entra um breve histórico: com o passar do tempo, os diversos footballs foram se organizando paulatinamente, com pessoas da ilha inteira reunidas em colégios, onde iam uniformizando regras diversas para entenderem-se nas partidas.

Eventuais jogos intercolegiais também foram exigindo acordos para que as partidas se dessem com alguma organização. No início da segunda metade do século XIX, então, as principais correntes de rules já eram apenas duas: a da escola de Cambridge e a da escola de Rugby. Esta última resistia em favor do uso das mãos, e não apenas dos pés, por todos os jogadores.

Os principais membros da corrente de Cambridge fundaram em 1863 a Associação de Futebol. Uma das escolas participantes da reunião, a Backheath, discordando do consenso estabelecido ali, retirou-se. Acabou seguida por outras escolas que preferiam as regras de Rugby, cujas origens modernas devem-se à corrida com a bola em mãos de um certo William Webb Ellis, que hoje batiza o troféu da Copa do Mundo, em jogo de 1823 na escola homônima.

Com isso, o esporte permaneceu dividido no “futebol da Associação” e o “futebol de Rugby”, que teve a sua versão da Associação (a União de Futebol de Rúgbi) formada em 1871. Ambas as modalidades se espalharam mundialmente pelos britânicos, que, donos da então mais desenvolvida potência global, possuíam negócios em todos os continentes, além de um vastíssimo império colonial e a maior marinha mercante do mundo, liderando com relativa folga o comércio exterior.

Com isso, cidadãos seus se espalharam por todo o planeta, propagando consigo, juntamente com outros hábitos culturais, os esportes que praticavam, dentre os quais os footballs. Em certos países, a versão do futebol que acabou mais popular virou sinônimo do próprio termo; na maioria deles, foi a da Associação.

Em outros, onde prevaleceu a de Rugby ou derivados dela, o futebol da Associação passou a ser mais comumente referido como soccer ou cognatos desse termo, que teria sido cunhado, ainda na Grã-Bretanha, de uma contração da palavra Association. Os Estados Unidos são o caso mais famoso desse uso, mas isso ocorre, oficialmente ou não, também no Canadá, na Irlanda, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e alguns outros; mesmo na Grã-Bretanha, essa palavra não é incomum, vide o nome da revista World Soccer.

Placa que marca o lugar onde se deram as primeiras partidas de futebol e rúgbi na Argentina, no bairro portenho de Palermo – atrás, a cúpula do Planetário Galileo Galilei

Desde a sua independência, a Argentina recebeu dezenas de milhares de britânicos. Os súditos da Rainha Vitória se divertiam em Buenos Aires em alguns clubes e dentre eles estava o Buenos Aires Cricket Club. Adeptos do críquete, como o nome indica, seus sócios organizaram o primeiro jogo de futebol em solo argentino, ocorrido em 1867.

Tal fato levou à criação do Buenos Aires Football Club no mesmo ano e na mesma sede onde o clube de críquete já funcionava, no bairro de Palermo, apenas dez anos depois da fundação do Sheffield Football Club, o mais velho do planeta. Os dois esportes conviviam harmoniosamente no mesmo espaço, como reza a boa educação inglesa.

O futebol praticado no Buenos Aires FC, na época, ainda era uma mistura das regras da Associação com as de Rugby. Foi então que, em 7 de maio de 1874, dois sócios, os senhores Menzies e Coghlan, sugeriram que fossem adotadas as regras da União de Futebol de Rúgbi.

Assim, na manhã do dia 14 de maio de 1874, os times do “Senhor Trench” e do “Senhor Hogg”, compostos por sócios do Buenos Aires FC, se reuniram por volta das 11h30 no campo do Flores Athletic Club, no bairro de Caballito. Esse lugar era conhecido como Old Polo Ground e ficava acerca de três quilômetros de onde atualmente se localiza o estádio do Ferro Carril Oeste. Com aquele dia sendo um feriado por causa da abertura dos trabalhos do Congresso Nacional argentino, os jornais da época registraram ótima presença de públicos de sócios e não-sócios para o que foi a primeira partida de rúgbi na Argentina.

O número de praticantes do rúgbi no clube e no país aumentou e em 1886 o Buenos Aires FC participou da primeira partida oficial desse esporte disputada por dois clubes diferentes. O oponente foi o Rosario Cricket Club (posteriormente, Rosario Athletic Club e, atualmente, Club Atlético del Rosario), na cidade do adversário, que foi o vitorioso. Na revanche, deu Buenos Aires.

O rúgbi, porém, aparentemente permaneceu desconhecido da maior parte da população, pois em 1890 integrantes das duas equipes chegaram a ser presos em Rosário, no que a polícia local entendeu como alguma violenta baderna entre uniformizados. Estas duas equipes pioneiras haviam passado a travar festivos duelos anuais, com ares de celebração britânica: jogadores e público compartilhavam chá, uísque e tortas preparadas pelas senhoras e moças presentes. Estas confraternizações entre adversários após os jogos (o chamado “terceiro tempo”) já eram e continuam a ser um elemento bastante importante do rúgbi.

Elenco do então Buenos Aires Football Club que participou do primeiro campeonato argentino de futebol, em 1891. Foi o primeiro e único disputado pelo mais antigo clube de futebol (e rúgbi) argentino

Como primeiro clube de futebol no país, o Buenos Aires foi convidado para participar da primeira edição da Liga Argentina do Futebol da Associação, realizada em 1891. Três anos antes da chegada oficial do futebol ao Brasil, por Charles Miller (o menos conhecido é que ele apresentou o rúgbi aos brasileiros ainda antes, em 1888; o São Paulo Athletic Club, fundado por Miller e primeiro clube de futebol no Brasil, ainda joga o rúgbi, sendo o maior campeão nacional), no país vizinho já ocorria um campeonato – por sinal, o mais antigo do mundo fora do Reino Unido, atrás apenas do inglês (iniciado em 1888), do escocês e do irlandês (ambos em 1890).

Os números demonstram que o futebol já não parecia uma prioridade no Buenos Aires FC: venceu apenas uma partida e perdeu as outras sete que disputou, marcando 6 gols e sofrendo 23. O segundo campeonato de futebol demorou dois anos para ser realizado, e nesta segunda edição o clube já não se fez presente, nem nas seguintes. Em 1899, fundou, juntamente com Belgrano Athletic, Flores Athletic, Lomas Athletic e Rosario Athletic – todos ainda praticantes de futebol -, a União de Rúgbi do Rio da Prata, que organizou já naquele ano o primeiro campeonato da bola oval na Argentina.

El Gráfico de 1922 com San Isidro (acima) e Buenos Aires FC na capa. O BAFC, na ocasião, ainda tinha três títulos a mais que o adversário. Seria superado por ele em quatro anos

Ali, o Buenos Aires mostrou-se como a primeira grande potência, sendo campeão em seis das dez primeiras edições. Natural que fosse a equipe mais presente quando uma Seleção Argentina de Rúgbi foi reunida pela primeira vez, em 1910, com oito jogadores, mais da metade dos quinze que defenderam-na ali: A. Donnelly, Oswald St. John Gebbie (o capitão), W.H. Hayman, F. Henrys, Frank Heriot, Carlos Mold, Alvan Reid e Frederick Sawyer haviam, no ano anterior, ajudado o BAFC a somar seu sétimo título em onze campeonatos.

Cinco daquelas conquistas haviam sido de forma seguida, o que garantiria ao Buenos Aires a posse definitiva do troféu então ofertado ao campeão. O clube, em ato de grande cavalheirismo, devolveu a taça, para que ela continuasse a ser repassada entre os vencedores, só reclamando o direito de tê-la definitivamente para si no caso de as disputas de rúgbi cessarem. Mesmo assim, a União voltou a deixar o troféu da época com o Buenos Aires em 1933, para adotar outro.

Ali, o time já não era tão vencedor. Desde aquela primeira década, ganhou o campeonato apenas mais quatro vezes – o de 1909, 1915 e um bi seguido em 1958 e 1959. Em 1926, já não era mais o maior campeão, ultrapassado por um eneacampeonato consecutivo do San Isidro (que chegaria a treze conquistas em série; este foi outro a ter jogado futebol).

Distintivo do Buenos Aires CRC, que carrega exatamente as cores britânicas

As duas últimas conquistas do pioneiro ocorreram com o clube já tendo o nome atual, de Buenos Aires Cricket and Rugby Club. Dez anos antes, as instalações do Buenos Aires CC sofreram um incêndio que levou consigo boa parte da documentação histórica dele e também do Buenos Aires FC. Então formalmente separadas, as duas instituições decidiram unir-se oficialmente. Formaram em 1951 o BACRC, já identificando em seu nome a prática exclusiva de rúgbi dentre as modalidades de futebol – até porque, na Argentina, fútbol também virara sinônimo do esporte da FIFA.

Outra mudança foi no endereço: o time deixou a capital federal e passou a mandar seus jogos em Don Torcuato. A despeito da falta de títulos depois daquele bicampeonato, o Buenos Aires – que atualmente manda seus jogos na cidade de San Fernando – ainda é o quarto maior vencedor do torneio da URBA (o mais valorizado do país), a União de Rúgbi de Buenos Aires, sucessora  da do Rio da Prata.

Outros pioneiros clubes do futebol argentino, dentre os quais muitos dos primeiros vencedores do campeonato de futebol, também atualmente dedicam-se somente (ou primordialmente) ao rúgbi, e serão tratados nos especiais seguintes, a serem publicados conforme os jogos dos Pumas na Copa do Mundo de 2011.

Jogo recente do Buenos Aires Cricket and Rugby Club

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A saber, o primeiro desses jogos ocorreu no último sábado, dia 10 de setembro, em um clássico contra a rival Inglaterra. O sul-americanos estiveram em vantagem na maior parte da partida, chegando a estar à frente por 9 a 3, com todas as pontuações vindas de gols (que valem três pontos). Todavia, descuidaram-se a treze minutos do fim, permitindo aos europeus obter de uma vez sete pontos: cinco por um try, a jogada mais valorizada (quando um time consegue chegar com a bola até a linha de fundo adversária), e dois válidos pelo acerto do chute de conversão, lance de bola parada sempre oferecido ao time que alcança o try.

Os britânicos ainda conseguiram mais um gol, dando números finais ao jogo, encerrado a seu favor por 13 a 9. O placar poderia ter sido maior para ambos os lados: Jonny Wilkinson (veterano astro inglês que chegou à sua quarta Copa) e Martín Rodríguez chutaram cada um sete penais na partida e só acertaram dois. Felipe Contepomi, outro a somar agora quatro mundiais, fez o outro gol argentino – ele também errou outro penal.

Argentina: Martín Rodríguez, Horacio Agulla, Gonzalo Tiesi (Juan José Imhoff), Santiago Fernández, Gonzalo Camacho, Felipe Contepomi (Marcelo Bosch), Nicolás Vergallo, Juan Martín Fernández Lobbe, Juan Manuel Leguizamón (Mariano Galarza), Julio Farías Cabello (Alejandro Campos), Patricio Albacete, Manuel Carizza, Juan Figallo (Martín Scelzo), Mario Ledesma (Agustín Creevy) e Rodrigo Roncero. Técnico: Santiago Phelan.

Inglaterra: Ben Foden, Chris Ashton, Manu Tuilagi, Mike Tindall, Delon Armitage, Jonny Wilkinson, Richard Wigglesworth (Ben Youngs), Nick Easter, James Haskell, Tom Croft, Courtney Lawes, Louis Deacon (Tom Palmer), Dan Cole, Stephen Thompson (Dylan Hartley) e Andrew Sheridan (Matt Stevens). Técnico: Martin Johnson.

Argentinos e ingleses (que utilizaram um uniforme similar ao clássico da anfitriã Nova Zelândia, todo negro) na estreia de ambos na Copa de 2011

 

Caio Brandão

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Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer


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