Os argentinos do Flamengo foram levantados pela primeira vez nos 120 anos do clube, em 2015, e a lista só cresceu desde então.
Originalmente publicado pelos 120 anos do clube, em 2015 – e revisto, ampliado e atualizado. A versão original pode ser conferida clicando aqui.
Campeão da Supercopa do Brasil, do Estadual, da Libertadores e do Brasileirão em 2025, o Flamengo tetracontinental começa por Agustín Rossi. Justo representante da nacionalidade forasteira que reúne mais campeões (e também o maior artilheiro estrangeiro) do clube. Hora então de relembrar os vários hermanos da nação para além do quarteto usualmente mais lembrado: Valido, Doval, Mancuso e o próprio Rossi.
O primeiro apareceu em 1937: Agustín Cosso, matador importado do Vélez. Artilheiro do campeonato argentino de 1935, chegara à seleção e deixara ótimos 95 gols em 123 partidas por La V Azulada. No Mengão, o desempenho não foi inferior: marcou 20 vezes em 29 jogos. Dava-se bem nos gramados, mas não se ambientou tanto na nova cidade e já em 1938 regressou à Buenos Aires, acertando com o San Lorenzo. Deu tempo, porém, de hospedar alguns conterrâneos que vieram em 1937 disputar uma série de amistosos. Eram reservas em seus clubes ou astros decadentes, uniformizados pelo combinado batizado de Beccar Varela.
Três dos membros do Beccar Varela acabaram no Mengão: o lateral-esquerdo Arcadio López (que havia ido à Copa de 1934), então no Ferro Carril Oeste; o zagueiro Atmio Luis Villa e o atacante Agustín Valido, ambos do Lanús. Só este último ficaria mais de uma temporada e, curiosamente, foi como aposentado que se eternizou mais. Foi no primeiro tricampeonato estadual. Convencido a atuar nas duas últimas partidas em 1944, Valido fez com febre o gol do título, sobre o Vasco. Se radicaria no Rio de Janeiro, onde faleceu em 1998. Dedicamos-lhe um especial: clique aqui.
Em tempos de I.A, já é possível dar nitidez à panelinha dos pioneiros de 1937: Agustín Valido, Arcadio López, Agustín Cosso e Luis Villa
Valido havia se formado no Boca, de onde o Flamengo pinçou os dois hermanos seguintes: os atacantes Francisco Provvidente e Alfredo González. Provvidente era um reserva com mais de um gol por jogo nos auriazuis, motivo pelo qual estes haviam recusado-se a vendê-lo ao primeiro interessado, o Nacional (com a recusa, os uruguaios escolheram aleatoriamente aquele que viria a ser seu maior artilheiro: Atilio García).
Dos dois, porém, foi González quem melhor rendeu. Provvidente não se firmou e saiu no início de 1939, enquanto o novo reforço deixou 31 gols em 49 jogos – o melhor deles, a tarde de 1938 onde anotou três gols (Valido fez outro) em um 5-0 no Botafogo em pleno campo de General Severiano. A exemplo de Valido, González foi outro que hermano se enraizou no Rio de Janeiro, defendendo ainda Vasco e o próprio Botafogo, além de treinar o Bangu campeão estadual pela última vez (em 1966, justo contra o Flamengo).
González acabaria até apelidado de El Carioca quando voltou ao futebol argentino, como contamos neste outro Especial, dedicado a ele. Aquele título de 1939, aliás, teve uma verdadeira colônia argentina. Além de Valido e de González, haviam, por ordem de chegada, o meia Carlos Volante e os atacantes Arturo Naón e Raimundo Orsi. Todos tinham passagem pela seleção, com El Mumo Orsi tendo mais cartaz: se consagrara na Juventus quando o time alvinegro firmou-se como gigante (penta italiano de 1931 a 1935) e vencera pela Itália a Copa de 1934, marcando gol na final.
O Flamengo “argentino” que encerrou em 1939 o pior jejum estadual do clube, doze anos: os quatro primeiros em pé são Carlos Volante, Agustín Valido, Raimundo Orsi e Arturo Naón. Alfredo González é o penúltimo jogador em pé. O sétimo em pé é Caxambu, brasileiro que jogaria no Gimnasia. O segundo agachado é Domingos da Guia, ídolo no Boca
Antes, pela Argentina, Orsi havia sido medalha de prata nas Olimpíadas de 1928, como contamos no Especial dedicado a ele. Naón, por sua vez, ainda é o maior artilheiro da história do Gimnasia LP. Mas, curiosamente, outra vez foi o nome teoricamente menos badalado que se deu melhor. Volante, a quem também já dedicamos um Especial próprio, jogava no futebol francês e por lá se juntou à seleção brasileira, da qual foi massagista na Copa do Mundo de 1938.
O “intercâmbio” rendeu a Volante a vinda à Gávea ainda naquele ano, para se tornar o estrangeiro que mais vezes jogou pelo Flamengo até então. Seu sobrenome originou a expressão “volante” para designar aquele meia recuado, que oferece uma proteção extra à defesa. Era como atuava. Campeão de outros dois estaduais (1942 e 1943), Volante fez história também no futebol baiano, em especial no Bahia, treinando o tricolor na vitoriosa final da Taça Brasil de 1959: clique aqui.
Naqueles anos de Platinismo, onde abundavam jogadores argentinos no Brasil, o Flamengo adquiriu diversos outros até os anos 50: o meia Julio Castillo, ex-River, prometia em 1940 ao somar seis gols em nove jogos, mas faleceu prematuramente. Havia escondido sua diabetes para não cancelar a contratação e, com a insulina ainda longe da escala industrial, sucumbiu dias depois de sua última partida. Seu gol mais recordado foi sobre o Botafogo, no calcanhar aéreo abaixo desenhado no primeiro volume da obrigatória série de quadrinhos Me Arrebata, a registrar até discurso emocionado de Ary Barroso no sepultamento de Castillo.
O mártir Castillo tratado por I.A. À direita, sua perda precoce nos traços de “Me Arrebata”
Já os atacantes Emilio Reuben (constantemente divulgado como nascido no Canadá, mas na realidade parido no interior da província de Corrientes, vinha do Independiente) e Ricardo Alarcón (jogador de seleção por San Lorenzo e Boca – fez o primeiro gol da Bombonera), o rústico defensor Sabino Coletta (outro ex-Independiente), o atacante Rafael Sanz e o defensor Alfredo de Terán (ambos ex-Banfield) também jogaram pouquíssimo, mas por motivos menos trágicos. Estrelas em seu país, nenhum passou dos dez jogos pelo rubro-negro, embora alguns tenham integrado o tri de 1942-1944.
Quem soube render mais tempo foi o goleiro Eusebio Chamorro, ex-Newell’s e integrante já do segundo tricampeonato carioca (e o primeiro tricampeonato logrado por qualquer clube na “Era Maracanã”), de 1953-55. Vale dizer que o treinador desse tricampeonato, o paraguaio Manuel Fleitas Solich, havia defendido a seleção argentina em quatro amistosos não-oficiais em 1928, contra dois clubes espanhóis de visita por Buenos Aires: derrota de 1-0 para o Celta de Vigo e massacre de 8-0 na revanche; vitória de 3-1 sobre o Barcelona (com dois gols de Orsi, aliás, na primeira vez em que a Albiceleste usou um distintivo no peito) e empate em 0-0 na revanche com os catalães. Como ele nunca defendeu a Argentina em outros jogos, essas estatísticas não costumam ser lembradas, mas vale a menção curiosa. Solich, diga-se, também foi quem lançou Zico pela primeira vez no time adulto, em 1971.
O argentino realmente nativo a ter treinado o Flamengo trabalhou entre 1965 e 1967. Tratava-se de Armando Renganeschi, campeão estadual em 1965, título valorizado em especial por marcar o quarto centenário da cidade do Rio de Janeiro. Renga já vinha de décadas de trabalho no futebol brasileiro, iniciada ainda como o jogador que o Bonsucesso importara em 1940, e ampliada de modo mais notável como treinador exitoso nas divisões de acesso do campeonato paulista – currículo chamativo o suficiente na época para fazê-lo até treinar a maior parte da campanha do Independiente campeão argentino em 1963.
Valido em outra arte do primeiro volume a série “Me Arrebata”. Junto a Rondinelli, autor de outro cabeceio imortalizado em outro tricampeonato estadual. E junto a Zizinho em 1994, nos cinquenta anos do primeiro tricampeonato
Rogelio Domínguez jogou de 1968 a 1969 como um goleiro já consagrado: estivera no Real Madrid de Di Stéfano pentacampeão europeu e colecionara bons momentos também por Racing, seleção (campeão da Copa América de 1957, presente na Copa do Mundo de 1962) e, mais recentemente, Nacional (vice na Libertadores de 1967). Aposentou-se no Mengão, onde começou com grandes atuações, embora terminasse marcado pela expulsão em Fla-Flu decisivo em 1969 – por protestar contra um gol irregular mal validado. Já dedicamos este Especial a Domínguez.
Domínguez foi anfitrião de Narciso Doval, que aportou do San Lorenzo em 1969, indicado pelo técnico Tim (treinador dos azulgranas campeões invictos em 1968, algo então inédito no profissionalismo argentino). Teve altos e baixos no início, a ponto de ser emprestado ao Huracán em 1971, mas firmou-se no retorno como o grande ídolo pré-Zico no início dos anos 70. Virou goleador no Brasil e formou grande dupla com o próprio Zico. Venceu duas vezes o Estadual e foi artilheiro em outra, ainda em tempos de prestígio equilibrado com o do Brasileirão.
El Loco ainda é o maior artilheiro estrangeiro do Flamengo, conseguindo ser ídolo também no Fluminense. Mais um argentino que virou carioca, este grande personagem também já teve dois Especiais dedicados a si: pelos 70 anos que teria feito em 2014 e pelos 30 anos de sua morte precoce completados em 2021. Bem diferente da trajetória dele foi a passagem obscura do zagueiro Jorge Paolino, ex-Racing e seleção que entre 1976-77 jogou apenas nove vezes, desentendido com técnico e direção. Vale lembrar ainda de Ricardo Ibarra, estrela nos anos 70 e 80 no esporte original do clube, as regatas, participando como rubro-negro das Olimpíadas de 1984; o Flamengo, diga-se, venceu seguidamente os torneios de remo entre 1972 e 1981.
Doval, ainda o estrangeiro com mais gols pelo Flamengo: virou capa de quadrinhos (é o loiro no segundo volume de “Me Arrebata”) e documentário
Já Ubaldo Fillol tornou-se o primeiro (e único) que a seleção argentina chamou do Mengão, entre 1984 e 1985. Consagrado no River e seleção, o campeão da Copa de 1978 fora contratado ainda recém-chegado ao Argentinos Jrs para tentar suprir de uma vez a aposentadoria de Raul e a lacuna de idolatria deixada pela venda de Zico ao Udinese. Deu azar de estar nos anos de entressafra entre a primeira e segunda passagens de Zico pelo Flamengo, não ganhando títulos. Começou muito bem, mas declinou e ao fim a torcida já chegava a pedir nova chances a Cantarelli. Detalhamos neste outro Especial.
Outro campeão do mundo que veio nos anos 80 foi o atacante Claudio Borghi, único que talvez supere Diego Maradona como maior ídolo do Argentinos Jrs: presente em todos os títulos do modesto clube (como jogador no bi argentino de 1984-85 e na Libertadores de 1985, como técnico em 2010), foi justamente o primeiro apelidado de “novo Maradona” e venceu com ele a Copa de 1986. El Bichi Borghi, porém, entrou em rápido declínio, decepcionando no Milan e no River antes de não render também na Gávea, em 1989, como contamos no Especial dedicado a ele. Seu sucessor foi o último com passagem pela seleção a vir ao clube: o volante Alejandro Mancuso, que também tem Especial próprio.
Honroso reserva do craque Fernando Redondo na Copa do Mundo de 1994, Mancuso veio do Palmeiras e conquistou a massa pela raça e os títulos em 1996 (estadual, invicto, e a Copa Ouro Sul-Americana, primeiro título continental desde a Libertadores de 1981). Até a vez de Rossi, foi o último a ter maior destaque: os seguintes, já no século XXI, vinham sendo no máximo razoáveis. O volante Hugo Colace veio em 2007 sob indicação do próprio Mancuso, mas se queimou em expulsão precoce contra o Vasco. O meia-atacante Maxi Biancucchi veio do Paraguai como o folclórico primo de Messi também em 2007, na grande campanha que levou o Flamengo da zona de rebaixamento a um 3º lugar.
Maxi virou xodó especialmente após marcar o gol da vitória sobre o Fluminense e até esteve no plantel campeão brasileiro em 2009, mas também não se firmou e no futebol baiano é que conseguiu luz própria. Em 2008, o meia Rubens Sambueza sequer chegou aos dez jogos. Já Darío Bottinelli, da boa Universidad Católica de 2010-11, foi quem mais conseguiu uma sequência na Gávea, entre 2011 e 2013. Como Maxi, teve seu momento de glória em um Fla-Flu, virando para 3-2 (ainda em 2011) com dois gols após os 40 minutos do segundo tempo. Mas não conseguiu uma regularidade de boas partidas.
O meia Lucas Mugni, promessa do Colón, e o volante Héctor Canteros, ex-Vélez, chegaram em 2014 e não convenceram a massa; Mugni, curiosamente, seria adversário (pelo Ceará) no jogo que assegurou matematicamente o título brasileiro de 2025, rendendo suspiros de quem desfruta como rubro-negro atualmente em comparação aos anos em que era o basquete quem melhor sabia aproveitar argentinos: nesse esporte, o Flamengo foi campeão mundial em 2014 no embalo de Nicolás Laprovíttola e reforçado pelo veterano Walter Herrmann, medalha de ouro nas Olimpíadas de 2004 (nelas, foi colega de outro futuro flamenguista, Federico Kammerichs).
Em 2016, chegaram o meia Federico Mancuello e o zagueiro Alejandro Donatti, outros que não deixaram tantas saudades na Gávea. Mancu vinha credenciado por testes na seleção argentina após ser peça-chave em 2014 na complicada volta do Independiente à primeira divisão no primeiro semestre e pela luta séria pelo título da elite já no segundo. Desde então, teve lampejos inconstantes e foi vendido em 2018 ao Cruzeiro.
Mancuso com a taça estadual de 1996, ficou ídolo. Biancucchi e Bottinelli, marcados por Fla-Flus, foram xodós momentâneos
Donatti, vindo de um Rosario Central vice tanto na liga como na copa argentinas em 2015, acabou ainda mais obscuro: só dois joguinhos e repasse ao futebol mexicano em 2017, ano em que o craque Darío Conca apareceu igualmente pouquíssimo. Lesionado e em fim de carreira, estava emprestado pelo futebol chinês e só entrou três vezes em campo. Escaldado pelos flops ou não, fato é que foram seis anos sem hermanos no Flamengo, ao menos no futebol. No basquete, o armador Franco Balbi ganhou três cariocas (2018, 2019, 2020), dois NBBs (2019 e 2021) e, sobretudo, os títulos sul-americanos de 2021 e 2025 e o segundo mundial rubro-negro no básquet, em 2022.
O ano de 2023 marcou então a (demorada) vinda de Agustín Rossi para suprir a posição em que ninguém vinha se consolidando entre o declínio de Diego Alves, a irregularidade de Hugo Souza e a falta de empolgação com Santos ou Matheus Cunha. Contratado em janeiro, Rossi precisou aguardar até julho para ser regularizado; antes, em abril, o técnico Jorge Sampaoli chegou como resposta da diretoria à sequência de vice-campeonatos com o incensado Vítor Pereira.
Quando o clube parecia se acertar na briga pelo título brasileiro, uma desastrada briga de vestiário no fim de julho se sucedeu por sequência de somente duas vitórias nos sete jogos seguintes, eliminação para o Olimpia na Libertadores e vice-campeonato na Copa do Brasil. Foi o fim da linha para Sampaoli, mas não para Rossi, que em 2024 foi brevemente acompanhado pelo garoto Carlos Alcaraz. Meia profissionalizado pelo Racing e um dos carrascos do próprio Flamengo na Libertadores 2020, Charly esteve emprestado (pelo Southampton) no segundo semestre.
Ibarra, Kammerichs, Laprovíttola, Herrmann e Balbi: destaques em outros esportes
Alcaraz ganhou a Copa do Brasil e cavou sua imediata volta à Premier League. Já um xodó, Rossi virou ídolo de vez em 2025. Formado no Chacarita, tinha como cartaz os seis anos de Boca, ainda que seu desempenho fosse errático: perdera a titularidade para Esteban Andrada na reta final da traumática Libertadores 2018, foi sucessivamente emprestado (Antofagasta em 2018, Lanús entre 2019-20) e no segundo semestre de 2022 a diretoria preferiu recorrer ao experiente Sergio Romero.
Como se não bastasse, até mesmo no Al-Nassr, onde passara o primeiro semestre de 2023, Rossi amargou reserva noticiada com pejorativo humor entre os argentinos. Rotina que não mudou de imediato no Rio: Sampaoli preferia Cunha e foi o criticado Tite quem passou a usar regularmente o goleiro argentino. A volta por cima começou em 2024, primeiramente com o recorde de jogos seguidos sem tomar gols; a retomada da fama de bom pegador de pênaltis, salvando três em cinco no Brasileirão; e a Copa do Brasil, pontapé inicial para a temporada mais emblemática da carreira de quem chega a ser visto como potencial convocável pela seleção brasileira tão logo conclua a naturalização.
Ramos Delgado morreu em Buenos Aires em 2010, depois de uma carreira que passou por Lanús, River, Santos e a seleção argentina.
Nota originalmente publicada em 27 de agosto de 2015, para celebrar os 80 anos que Ramos Delgado teria recém-completado se estivesse vivo
Falecido em 3 de dezembro de 2010 em Buenos Aires, José Manuel Ramos Delgado foi um dos maiores zagueiros do futebol sul-americano. A ponto de ser considerado ídolo no River mesmo sem ganhar nenhum título em seis anos neste gigante… e de ter atraído mesmo com 32 anos nada menos que o Santos de Pelé, onde também foi brilhante. Era um beque limpo, que saía jogando e de liderança serena, a ponto de ser capitão em 16 dos 25 jogos oficiais que fez pela seleção. Ramos Delgado foi raro em diferentes sentidos: foi um dos poucos afro-argentinos (seu apelido era El Negro, inclusive, embora ele fosse mais exatamente um mulato) e também um dos curiosos luso-argentinos conhecidos no futebol. E também foi um dos argentinos que assumiam Pelé como superior a Maradona!
Era filho de um cidadão português nativo da então colônia de Cabo Verde. Nos países de língua espanhola, a tradição é o sobrenome paterno anteceder o materno, ao inverso dos países de colonização portuguesa. Assim, seu sobrenome lusitano Ramos vinha antes do castelhano Delgado, o materno. No River dos anos 40 já havia brilhado um volante chamado José Ramos, curiosamente também nascido em Quilmes assim como o zagueiro. Talvez para diferenciar-se de José Ramos, o beque usou os dois sobrenomes – algo que, se não é exatamente raro (Carlos Navarro Montoya, Ramón Medina Bello, as duas duplas gêmeas dos Barros Schelotto e dos Funes Mori são outros exemplos mais lembrados do futebol argentino), também não é tão comum.
No Lanús em 1956, ano dos Globetrotters; reconhecido mesmo sem títulos no River; e na pouco lembrada passagem pelo rival lanusense, o Banfield
El Negro Ramos Delgado também seguiu o xará José Ramos em outro ponto: embora nascido em Quilmes (em 26 de agosto de 1935, inclusive tendo feito juvenis no clube de mesmo nome), foi profissionalizado no Lanús. Se hoje os grenás formam uma equipe de médio porte acostumada a lutar no pelotão de cima e até a ganhar títulos continentais, na época tinham sua tradição mas a expressão era diminuta. Começaram a fazer campanhas interessantes no início dos anos 50. Ainda sem o zagueiro, venceram em 1955 a Copa Juan Domingo Perón, torneio de pré-temporada que a AFA recentemente oficializou.
Mas em 1956 é que foi a primeira vez em que o Lanús realmente ameaçou lutar pelo título argentino profissional, algo que só voltaria a ocorrer em La Fortaleza a partir de fins dos anos 90. Ramos Delgado estreou precisamente naquela campanha, na 4ª rodada, vitória de 1-0 no Estudiantes em 6 de maio. No jogo seguinte, deu-se ao gosto até de simplesmente conferir em Avellaneda duas assistências em movimentada derrota de 5-3 para o Independiente, em dois cruzamentos para Benito Cejas. Aquela celebrada equipe acabou apelidada de Los Globetrotters, bom indicativo de sua qualidade. Dentre os feitos, um 4-0 no San Lorenzo, 4-1 no Huracán e um 2-0 no Boca dentro da Bombonera. Em julho de 1956, com apenas dois meses de profissional, o zagueiro já aparecia na capa da revista El Gráfico, sinal imenso de prestígio naqueles tempos; é a da imagem esquerda acima.
Três facetas dele: garoto no Lanús. Na Via Veneto de Roma com o goleiro Cejas, em uma das viagens com o Santos. E como técnico do Platense cumprimentando outro argentino com quem conviveu na Vila Belmiro, César Menotti (então treinador do River)
Com o garoto na defesa, o Granate também conseguiu, no primeiro turno, segurar um 0-0 no Monumental de Núñez diante do River, que viria a ser o grande concorrente pela taça. River e Lanús estavam empatados na liderança quando ocorreu o jogo da volta. Em casa, os azarões terminaram o primeiro tempo vencendo, gol de outro destaque daquele time, Alfredo Tanque Rojas (jogador das Copas de 1958 e 1966 e que passaria igualmente pelo próprio River, mas brilharia muito mais no Boca). O poderoso Millonario jogava desfalcado de dois pesos pesados: o goleirão Amadeo Carrizo, lesionado, e o xerife Néstor Rossi – no primeiro turno, Rossi lesionou o visitante Benito Cejas e, para não apimentar ainda mais a partida, foi poupado. Mas a camisa pesou mais que as circunstâncias. No segundo tempo, o River virou para 3-1.
O Lanús conseguiu aprontar mais um pouco, com um 5-3 no Gimnasia LP e um 4-0 no Argentinos Jrs, mas o concorrente não perdeu mais, a ponto de garantir o título ainda na antepenúltima rodada. Os grenás ficaram a só dois pontos não só de um primeiro título, mas de romper o oligopólio dos cinco grandes (Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo), vigente desde 1930 e que nem o “sexto grande” Huracán conseguia quebrar. Os vices de 1956 sentiram o baque em 1957, onde foram penúltimos. Mas Ramos Delgado conseguia se destacar, a ponto de fazer no início de 1958 sua estreia pela seleção. E de ser convocado à Copa do Mundo da Suécia mesmo sem ter participado das eliminatórias.
Ele não atuou na Copa, escapando do vexame dos 6-1 para a Tchecoslováquia que eliminaram precocemente na primeira fase os hermanos. O River era a base daquela seleção e seus jogadores terminaram bastante afetados. O time havia sido tricampeão entre 1955 e 1957 e decaiu para quinto em 1958. O Millo não sabia, mas só voltaria a ser campeão dezoito anos depois, em 1975. Ramos Delgado foi contratado como reação à queda de rendimento e seria tido como um dos grandes ídolos desse largo período sem coroas; em 2011, foi incluído pela revista El Gráfico entre os cem maiores ídolos riverplatenses, em edição especial.
Ele, aliás, poderia ter começado a carreira no River: fez testes lá antes de tentar no Lanús, mas sem aprovação. A falta de troféus não importava em falta de qualidade nos elencos que o clube foi tendo. Ramos Delgado participou de grandes resultados daquele período, sendo titular tanto nos 3-2 sobre o Real Madrid em amistoso no Santiago Bernabéu em 1961, quebrando oito anos de invencibilidade que o então pentacampeão europeu tinha em casa (curiosamente, os três gols argentinos foram de brasileiros); e um 2-1 no Santos no início de 1962, ano em que os praianos venceriam suas primeiras Libertadores e Mundial, quando aquele beque anulou Coutinho.
Outro registro de Ramos Delgado como capitão da seleção: no Maracanã, antes do 1-0 sobre a Inglaterra, na vitoriosa Copa das Nações de 1964. Antonio Rattín, ele, Amadeo Carrizo, Abel Vieytez, Miguel Vidal e Carmelo Simeone (sem parentesco com Diego); Ermindo Onega, Alberto Rendo, o futuro são-paulino Pedro Prospitti, Alfredo Rojas e Roberto Telch
Ramos Delgado, também em 1962, foi à Copa do Mundo. Era pedido pela crítica, mas o técnico Juan Carlos Lorenzo só usou-o na última partida da fase de grupos, vindo de uma perigosa derrota por 3-1 para a Inglaterra. O beque fez sua parte: a Argentina não sofreu gols da Hungria… mas também não marcou. A eliminação se confirmou no dia seguinte, com os ingleses avançando junto com os húngaros graças a um jogo sem gols contra a Bulgária. O treinador Toto Lorenzo passou anos queimado no próprio país por ter improvisado demais nas escalações que idealizou. Infelizmente, a tarde de eliminação seria a única partida daquele zagueiro em Copas do Mundo.
Não foi a única amargura em 1962. Ramos Delgado teve proposta do Real Madrid, mas foi retido em Núñez. E viu o River ser vice para o arquirrival, pesando derrota polêmica em Superclásico na penúltima rodada: a cinco minutos do fim, o Millo desperdiçou um pênalti muito por conta dos passos escandalosamente adiantados (mesmo para os padrões permissivos da época quanto a isso) do goleiro do Boca. A derrota teve amargura extra a Ramos Delgado, barrado do jogo por opção do treinador riverplatense Néstor Rossi, um tipo durão que, para aquele duelo direto, optou por defensores “que dessem porrada”, segundo explicações dadas já em janeiro de 2002 à revista El Gráfico.
Em 2002, à El Gráfico, e em 2009, à FourFourTwo, falou com todas as letras que Pelé foi superior a Maradona. Notem a queixa por terem melado uma ida ao Real Madrid e uma descrição sobre o Rei: “nunca arregou. Mais de uma vez escutei Pelé indagar a um adversário se queria jogar futebol ou se queria porrada. Que escolhesse, porque se garantia”
Quando aquela temporada estava para completar quarenta anos, um Ramos Delgado ainda lúcido não teve papas na língua: “no River havia uns jogadores de grande hierarquia. Mas não bastou. Sempre nos faltou cinco centavos para o peso. As pessoas dizem que nos faltava raça. Mas não creio que tenha passado por essa faceta. As razões das frustrações eu não tenho. Sinceramente, eu não sei. Esse jogo do pênalti do Delém eu não joguei. Pipo Rossi, que era o técnico do River, pôs a mim e a Ermindo Onega no bcano. E eu lhe respondi que eu não era nenhum burro para dar porradas. Quando diziam que eu era brando, gargalhava. Dar pontapés é coisa de incompetente. Se fui titular em todos os clubes onde joguei não foi porque eu fosse lindo, loiro e de olhos verdes. Eu era um cara que gostava da bola e sabia se antecipar à jogada porque era veloz mentalmente”.
A recuperação de El Negro com a Albiceleste viria entre 1964 e 1965, quando ele enfim virou titular absoluto na seleção. Foi o capitão na conquista mais importante da Albiceleste até a Copa de 1978: a Copa das Nações, sediada em 1964 no Brasil pelas comemorações dos cinquenta anos da CBD. Mesmo bicampeã mundial, a seleção canarinha terminou surrada por 3-0 no clássico realizado em pleno Pacaembu. Falamos aqui.
Carlos Alberto Torres, os argentinos Cejas e Ramos Delgado, Djalma Dias, Clodoaldo e Rildo; Davi, Lima (que escolheria Ramos Delgado para o time santista dos sonhos montado em 1982 pela Placar), Nenê Belarmino, Pelé e Edu
Ainda como jogador de um River seguidas vezes vice-campeão argentino na década (em 1962, 1963 e 1965), Ramos Delgado participou de todas as eliminatórias para a Copa de 1966, nas quais o treinador ainda era José María Minella. Mas para 1966 coisas mudaram. O River negociou-o com o Banfield e, sem o xerife, passaria vergonha na final de uma Libertadores que parecia ganha. Já a seleção voltou a ser treinada por Toto Lorenzo. Que voltou a prescindir de Ramos Delgado: sequer o levou à Inglaterra, limitando-o a um amistoso não-oficial contra o Cagliari em 1º de junho de 1966, em um dos últimos testes pré-Copa. Uma lesão inoportuna teria sido outro entrave. Foi assim que a braçadeira passou a ser de Antonio Rattín (o jogador mais à esquerda da fileira superior nas fotos de seleção, logo ao lado dele), capitão que polemizaria no torneio pela forma como saiu expulso.
Vale dizer que na época a rivalidade Banfield x Lanús ainda não estava florescida, só se impulsionando a partir dos anos 80; o zagueiro, assim, é de certa forma o único a representar a Argentina vindo dos dois lados do Clásico del Sur. Ao fim de 1966, os banfileños ficaram só em 13º e, no Metropolitano de 1967, o Taladro até correu ligeiro risco de rebaixamento, que provavelmente viria sem o veterano. Já os santistas ainda lembravam daquele beque que os segurou pelo River em 1962. Quando Mauro Ramos de Oliveira deixou a Vila Belmiro em 1967, o Peixe imediatamente contratou o ex-capitão da seleção argentina para repor a vaga do capitão do bi brasileiro.
O zagueiro retratado como “melhor beque-central do mundo” em reportagem da Placar em 1970. Ano em que um campeão da Copa do Mundo foi seu reserva
Era tempo de renovação no Santos: os alvinegros haviam perdido o Estadual e a Taça Brasil em 1966, encerrando o ciclo do técnico Lula. Mas a renovação incluiu aquele veterano de 32 anos. Idade que não seria um empecilho para Ramos Delgado se tornar, até hoje, o estrangeiro com mais partidas pelo Santos. Ele enfim seria campeão também na carreira clubística, para além de troféus amistosos que tivera no River. E o primeiro foi bem emocionante: o São Paulo lutava para encerrar dez anos de jejum e conseguia isso até o último minuto da última rodada, quando levou o empate do Corinthians. Terminou igualado com o Santos, o que forçou um jogo-extra fatal aos tricolores. Em doze minutos, o San-são estava 2-0 para os praianos, com o desconto são-paulino só ocorrendo a 2 minutos do fim.
Se a disputa foi férrea em 1967, em 1968, não teve para ninguém. O título estadual veio com quatro rodadas de antecedência, mesmo com o fim de onze anos de invencibilidade do Santos contra o Corinthians pelo torneio. E venceu-se também o torneio nacional mais prestigiado, o Roberto Gomes Pedrosa. Já em em 1969, veio o tri estadual, títulos na Recopa Sul-Americana (torneio diferente daquele com mesmo nome existente hoje: reunia os campeões da Libertadores, similarmente ao que fez a extinta Supercopa nos anos 80 e 90) e também na Recopa Mundial; a Internazionale, derrotada na Itália, não se atreveu a vir ao Brasil jogar a partida da volta…
Bastidores ao estilo Mad Men de alguma excursão internacional santista: Ramos Delgado, Pelé, Carlos Alberto Torres, Cláudio e Edu; Kaneco (nipo-brasileiro que jogaria no Vélez!), Negreiros, Toninho Guerreiro e Rildo
Em dupla de miolo de zaga ainda recordada com Djalma Dias, Ramos Delgado foi titular em todas as partidas decisivas desses títulos, assim como em outro evento famoso em 1969 – o dia em que o Santos teria propiciado trégua na Guerra de Biafra, na Nigéria. A qualidade de El Negro se revela também no fato de que Joel Camargo iria à Copa do Mundo de 1970 mesmo sendo reserva daquele argentino; havia até quem inclusive pedisse pelo hermano ser naturalizado pela canarinho mesmo, como salientou o Almanaque dos Craques, livro obrigatório publicado em 2022 pela Associação dos Pesquisadores e Historiadores do Santos.
Ramos Delgado se aproximou bastante de Pelé, a ponto de ser padrinho de uma das filhas dele, e de ser no restaurante que o zagueiro empreendia em São Vicente que “o Rei” comemorou o nascimento do filho Edinho. Na via oposta, duas das três filhas do hermano nasceram brasileiras (Ivana e Vanessa, com a primogênita Marisa sendo a única argentina de nascença), como destacado na reportagem abaixo. Mesmo passando dos 35 anos, desempenhou-se muito bem entre 1970 e 1971, lutando pela Bola de Prata da Placar. Em 1970, ele também foi o zagueiro escolhido na primeira eleição do Prêmio Arthur Friedenreich.
Como técnico do Santos, não foi tão bem
Mas para 1972 a idade já pesava, assim como o jejum de três anos seguidos sem vencer o Estadual – uma enormidade para um ambiente tão (bem ou mal?) acostumado. Houve rumores de que seguiria no elenco, mas convertido em auxiliar técnico do treinador Pepe, o que não se concretizou. Dispensado ao fim do ano, seguiu ativo em chamativos jogos de várzea. O estádio vizinho do Ulrico Mursa abrigava peladas dele com Coutinho, Dorval e outros veteranos alvinegros e o time da casa acabou convencido de que aquele zagueiro ainda podia ser útil. A Portuguesa Santista o convenceu de volta e, em meados de 1973, Ramos Delgado topou dar uma ajudinha para a “Briosa” (de acordo com declarações dele na reportagem acima).
Parou definitivamente em fevereiro de 1974 de jogar competitivamente, com a eliminação rubroverde na fase preliminar do estadual. Ainda assim, se manteve na Baixada por um bom tempo: seja tocando empreendimentos próprios como aquele restaurante, seja exercendo cargo na Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo ou ainda como Relações Públicas e diretor de esportes do Clube Sírio-Libanês de Santos. Eventualmente, foi requisitado novamente na Vila para treinar juvenis, já tendo o argentino experiência em dar aulinhas de futebol nos projetos que coordenou como secretário público. A renúncia de Otto Glória acabou fazendo-o assumir o time principal em novembro de 1977. Ramos Delgado teve o mérito de promover Pita, mas não teve bons números: em 26 jogos, equilibrou de modo pouco saudável vitórias (nove), empate (também nove) e derrotas (oito).
Como técnico do Belgrano em 1978, liderou o 1º turno da liga cordobesa (que tinha até álbum de figurinhas próprio, de onde tiramos a imagem…), mas ficaria no vice para o rival Talleres
Ele foi o treinador santista em excursão feita pela Argentina em novembro de 1977 (derrota de 2-1 para o fortíssimo Talleres da época, uma das bases da seleção campeã em 1978, e goleadas de de 6-3 sobre uma seleção de Salta e de 5-2 no Atlético Tucumán). Foi o chamariz para que exercesse na terra natal a nova função. Inicialmente, treinou o Belgrano na valorizada liga provincial cordobesa em 1978, embora não impedisse o hexacampeonato seguido daquele histórico Talleres. Trotou então por Atlético Ledesma (ainda que por apenas três jogos no Torneio Nacional de 1979), da província de Jujuy e nas sete primeiras rodadas do rebaixamento do All Boys em 1980, ano em que o River o reempregou para treinar as categorias de base.
Em Núñez, o filme ocorrido na Vila Belmiro repetiu-se, com uma diferença mais trágica: El Negro assumiu interinamente a equipe principal do Millo ao fim de 1982, após o antecessor Vladislao Cap ter falecido em pleno exercício do cargo. Ramos Delgado permaneceu até os primeiros meses de 1983, na reta final do Metropolitano ainda válido por 1982 e nos amistosos de verão. Seus resultados foram de maior a menor e a cartolagem optou por não efetiva-lo para a temporada seguinte. Ramos Delgado seguiu o ano de 1983 trabalhando no Peru, com o Universitario. Ele inicialmente seguiu por lá em 1984, mas a equipe bege seria campeã peruana já com Fernando Cuéllar como treinador na consagração.
Em uma volta ao River, como técnico em 1982: celebra com Fillol e Jorge García uma vitória sobre o Boca
Ramos Delgado teve então seu trabalho mais reconhecido como treinador, no Deportivo Maipú: em 1985, primeiramente encerrou 27 anos de jejum deste clube na liga provincial de Mendoza. Além do fim da seca, a conquista foi importante por outro fator, o de classificar o Maipú a um torneio entre os campeões do interior do país para selecionar quem entraria na segunda divisão argentina de 1986-87. Ainda com Ramos Delgado, essa vaga nacional veio. Ele permaneceu para o início da Primera B de 1986-87 e os mendoncinos puderam até terminar em 6º e avançar aos mata-matas pelo acesso à elite. Não são poucos os torcedores que creem que a promoção viria se aquele treinador não saísse no meio da temporada para assumir o tradicional Estudiantes.
O ex-zagueiro não vingou treinando o Pincha, deixando-o na penúltima rodada da primeira divisão de 1986-87. Na de 1987-88, treinou o Platense em uma volta olímpica simbólica, em esquecida liguilla que permitiu aos marrons sonhar com uma vaga na Libertadores. Seguiu no Tense por mais uma temporada e, na de 1989-90, virou a casaca em La Plata, treinando o Gimnasia até março de 1990. Não esquecido em Mendoza, reassumiu o Maipú na segundona argentina em 1991. Também na Primera B, foi um dos diversos técnicos do Talleres na temporada 1993-94: assumiu em 31 de outubro de 1993, substituindo Salvador Ragusa. Naquele ano, aliás, a Placar exaltou o ex-zagueiro ao elogiar Ricardo Rocha: “desde Ramos Delgado, no fim da década de 60, o clube não tinha um becão assim”.
Seu principal momento como treinador: no Deportivo Maipú campeão provincial de Mendoza em 1985, após quase trinta anos. Ramos Delgado é o penúltimo na fila superior
O Talleres havia acabado de sofrer seu primeiro rebaixamento e tivera um início acidentado na segundona. Com Ramos Delgado, houve melhora inicial, mas a estagnação acabou sendo sentida enquanto o Gimnasia de Jujuy disparava na liderança rumo a um tranquilo acesso direto. Desde a primeira semana de abril de 1994, El Negro foi substituído por Daniel Willington (seu ex-colega de seleção, como visto em uma das fotos daqui) para a reta final da campanha, que lograria o acesso via repescagens – enquanto Ramos Delgado passava a, no mesmo torneio, treinar o Chaco For Ever.
Ainda em 1994, Ramos Delgado se diplomou como jornalista esportivo. Mas logo passou a focar-se como técnico dos juvenis dos Santos. Três profissionais renomados no jornalismo esportivo, aliás, indicaram-no naquele mesmo 1994 para o time santista dos sonhos em eleição promovida pela Placar: Michel Laurence, criador da Bola de Prata, o locutor Luís Carlos Quartarollo e o notório santista Milton Neves, assim como o então líder da Torcida Jovem do Santos. O beque, infelizmente, viria a ter o mesmo triste fim de outra lenda argentina na Vila, o goleiro Agustín Cejas, com quem chegou a jogar por lá: faleceu com a memória destruída pelo Alzheimer.
Como anfitrião de Maradona na Vila Belmiro, em 1995, ano em que houve negócio sério para Dieguito ser contratado pelo Santos!
Ele ao menos tinha lucidez ainda conservada em novembro de 2007, quando acompanhou seu Lanús sendo enfim campeão argentino pela primeira vez na divisão principal – conquista que ontem fez dezoito anos, a propósito. Procurado na época para comentar a conquista grená edição na especial preparada pela revista El Gráfico, declarou que “este resultado, esta alegria tão merecida do pessoal do Lanús, tem a ver com a maneira de trabalhar nas divisões inferiores. Se respeitou uma linha de jogo e uma norma de conduta. Por isso surgiram tantos e tão bons jogadores. Fui ver as últimas partidas, porque me empurrou meu sobrinho, que é fanático. E fiquei contente em ver a volta olímpica de um grupo de jogadores que praticou um futebol que me agrada”.
Em 2025, a Placar novamente publicou edição especial para eleger o time dos sonhos dos doze principais clubes brasileiros. A dupla de zaga escolhida foi Mauro Ramos e Alex, mas Ramos Delgado seria o honroso reserva imediato: foi o terceiro mais votado, seis vezes, incluído em escolhas do ator Marcos Frota, do ex-colega Manoel Maria, do pupilo Pita (a quem, como treinador, havia lançado no time principal); e de Robert, volante do elenco de 1995, além dos jornalistas Raphael Prates e, novamente, Luís Carlos Quartarollo.
Já dedicamos este outro Especial para relembrar os hermanos que passaram pelo Santos.
03/12/2010 Ramos Delgado , o adeus da lenda !! Extremamente técnico, El Negro (apelido que recebeu na Argentina pelos traços) é considerado junto com Mauro Ramos os maiores defensores da história santista! Uma sucessão de camisa 2 perfeita! 👇👇👇https://t.co/oQmNL5bKuEpic.twitter.com/6SD28Mnx9K
Rubén Bravo foi maestro do Racing e ainda passou pelo Botafogo, clubes que quase nunca se cruzaram em competições oficiais.
Até a Recopa 2025, a ausência de qualquer duelo que não fossem dois amistosos revela muito: até redenções recentes, Botafogo e Racing tiveram anos e anos de história bastante marcada pela “dor de já terem sido e não mais serem”, para parodiar versos celebrizados pelo ilustre torcedor racinguista Carlos Gardel. Exceto pela década de 60 e pela catarse continental de 2024, foi raríssimo algum momento em que as duas torcidas pudessem comemorar simultaneamente: quando os dois não estavam em jejum, ao menos um lado vivia seca. O sofrimento se impregnou tanto na identidade que as duas equipes chegaram a constar no Top 13 de clubes mal-assombrados catalogados em 2007 pela revista argentina El Gráfico, em matéria que repercutiu no Brasil ao notar-se que até os hermanosjá estavam sabendo quehay cosas que sólo pasan en el Botafogo.
Uma dessas coisas que só acontecem com o Botafogo foi como um celebrado centroavante argentino, embora tivesse talento reconhecido em General Severiano, terminou aquém do esperado. Pode-se dizer que o único fracasso da carreira de Rubén Norberto Bravo foi o time carioca: antes, brilhou na terra natal; depois, brilhou no Chile e foi campeão francês. Como técnico, foi o primeiro adversário do iniciante jogador Maradona – e ganhou. Um dos famosos fãs de Bravo foi o superartilheiro Luis Artime, que sempre foi torcedor assumido do Racing embora ironicamente fosse carrasco frequente do clube, inclusive pelo rival Independiente. Segundo depoimento dado em 2014 por Artime, Bravo cabeceava “como os deuses”. E dizia já em 1980 que “o ideal seria que todos os gols do futebol fossem tão bonitos como os que vi garoto fazer meu ídolo, Rubén Bravo”.
Em 1969, pelos vinte anos do primeiro título de um histórico tricampeonato do Racing, a revista El Gráficoassim descreveuEl Maestro – ou El Troesma, para os íntimos, em humorística inversão (de sílabas) como na do músico belga Stromae: “como jogava Rubén? Como os anjos. Tinha os pés alados, o peito do pé acolchoado para repousar a bola, esbofeteá-la suavemente e despedir-se dela em uma carícia. E na testa tinha outro peito do pé. Uma década antes de Pelé, chegou a fazer realidade o que Vicente Feola disse um dia do genial moreno do Santos: ‘dribla com a cabeça’. Porque EL TROESMA tinha um domínio de jogo de cabeça tão admirável que com a bola ali acima fazia de tudo: gols, passes, condução, até drible aéreo”.
O melhor atacante argentino de 1950
Embora algumas fontes apontem que o filho de Francisco Bravo e María Genevois teria nascido em Rosario ou em Santa Fe, Rubén Bravo veio ao mundo no interior cordobês mesmo. Nascido em 16 de novembro de 1923 na cidade de Cruz Alta, começou em um dos principais clubes dela, o Everton. Pôde jogar nesse time (que revelaria também Darío Franco e Eduardo Berizzo, ambos vice-campeões de Libertadores com o Newell’s, e Juan Pablo Vojovda) até os 16 anos, chegando a participar de jogos sub-18. A família veio a se instalar em Rosario e Bravo, incorporado pelo Rosario Central. Que utilizou-o por três partidas no sub-19, suficientes para notar o diamante bruto que chegara em Arroyito. Bravo não seria apelidado de El Maestro à toa.
Visto brasileiro de Rubén Bravo esclarece que nasceu na cordobesa Cruz Alta
Ele estreou em 27 de abril de 1941 (portanto, com 18 anos ainda incompletos) pela equipe adulta do Central, já como titular. A precocidade só demorou dois minutos para ser avalizada: foi quando o adolescente abriu o placar sobre o Tigre, pela 5ª rodada do campeonato argentino daquele ano. No lance, concluiu cruzamento de outro cordobês, Juan Carlos Heredia, pai de futuro ídolo do Barcelona naturalizado pela seleção espanhola. O adversário jogava em casa e virou para 4-1, mas a estrela de Bravo não se mostrou fortuita: aos 36 minutos do segundo tempo, marcou o outro gol rosarino, descontando para honroso placar final de 4-2. No jogo seguinte, estreou sua arma mais famosa, o cabeceio, para aproveitar uma catada de borboletas do goleiro do Independiente, embora novamente não evitasse derrota; o Rojo venceu por 3-2 em jogo de duas viradas no placar.
Exigir que aquela andorinha ainda sem maioridade fizesse verão no inverno que (literalmente) se avizinhava era demais. No decorrer da temporada, o Central acabou sofrendo seu primeiro rebaixamento; sintomaticamente, a estrela internacional Raimundo Orsi (campeão carioca com o Flamengo após ter vencido a Copa de 1934 pela Itália) perdera quatro dos cinco jogos em que foi tolerado como treinador auriazul. Bravo, ao menos, deixou seis gols (e duas assistências) em treze partidas, sendo o vice-artilheiro do plantel. O artilheiro fora Waldino Aguirre. No século XX, El Torito Aguirre foi o único profissional a superar Mario Kempes em gols pelo Central. Mas ali precisara de 28 jogos para somar dez golzinhos.
O retorno foi imediato. Bravo mais fez gols (foram 18) do que jogou (16 vezes) e sua equipe embalou com goleadas como 12-1 para cima do Nueva Chicago ou 9-0 sobre o Duck Sud para ser campeã da segundona de 1942 com rodadas de antecedência e oito pontos de vantagem (em tempos em que vitórias valiam dois, e não três pontos), em supremacia que fez a AFA autorizar que o Temperley cedesse sua condição de mandante para a rodada final com os canallas – travada em Rosario mesmo, tal como no primeiro turno.
Na reaparição na elite, em 1943, El Maestro ainda era menor de idade pela legislação argentina na época, mas se mostrava gente grande: em 26 jogos, despejou dezesseis gols (sendo o artilheiro da sua equipe) e oito assistências. Elas de fato incluíram algumas de cabeça, como nos 3-3 com o San Lorenzo ou em derrota de 6-3 para o Gimnasia. Foi também dele o passe – do jeito “normal”, com os pés – para o único gol de Clásico Rosarino vencido dentro da casa do Newell’s.
Como mascote com a bola no Everton de Cruz Alta, em 1938. E com a bola em 1943 no Rosario Central, junto a Waldino Aguirre e Ernesto Vidal, futuro vencedor da Copa do Mundo de 1950
Em 1944, Bravo foi novamente o artilheiro centralista, agora com dezenove gols (e três assistências) em 28 jogos. O problema é que o time custava a se dar bem na primeira divisão: lanterna em 1941, apenas 11º de dezesseis times em 1943, 9º em 1944 e então 12º em 1945, quando a ameaça de novo rebaixamento foi palpável. Nessa luta, Bravo contribuiu com oito gols e sete assistências em 21 jogos, com um desempenho especial para cima do Racing, ao marcar duas vezes em goleada de 4-1. O time de Avellaneda era, por sinal, uma de suas vítimas frequentes: ainda em 1941, o atacante já havia marcado (de cabeça) para abrir um 2-1; em 1943, dera o passe para Waldino Aguirre fechar um 2-0 no primeiro turno e, no segundo turno, marcado gol e fornecido duas assistências em maluca derrota de 5-4 fora de casa; e em 1944, dera passe para gol em outra derrota, de 2-1.
O Racing, em jejum desde 1925, então contratou um pacote do Rosario Central para 1946: Bravo chegou à Academia juntamente com Héctor Ricardo, já goleiro da seleção, e o zagueiro Saturnino Yebra. Na 2ª rodada, já marcava seu primeiro gol, com os cabeceios de sempre aproveitando rebote do goleiro para vazar as redes do Huracán (de Alfredo Di Stéfano) aos 14 minutos do primeiro tempo e assim abrir vitória de 3-2. Apenas três minutos depois, também forneceu sua primeira assistência como racinguista, em tabelinha com Roberto D’Alessandro. Profissional, fechou com estilo um 3-1 dentro de Arroyito sobre o Rosario Central: foi de voleio. Ao todo, foram 21 gols e dez assistências em 29 jogos. No Clásico de Avellaneda, abriu um 2-0 na casa rival. O novo clube, porém, não deu combate a um imparável San Lorenzo campeão com o melhor ataque da década, ficando com o 4º lugar – embora o Racing pudesse vencer até a seleção mexicana, por 4-2, já em janeiro de 1947.
Em 1947, quando o Racing ficou somente em 6º, Bravo voltou a brilhar nos dérbis com o Independiente: marcou duas vezes em 3-2 em casa no primeiro turno e fez o da virada de 2-1 na casa rival pelo segundo. Mas esteve menos afiado no geral: 27 jogos, treze gols e três assistências eram números razoáveis, mas abaixo da produção que a revelação Di Stéfano fizera com o campeão River. Se as campanhas periclitantes do Central foram o entrave para Bravo ser incluído nas Copas Américas ocorridas em janeiro de 1945 e em fevereiro de 1946, a concorrência forte também pesou para não ir à travada em dezembro de 1947. A Argentina vivia uma geração dourada que pôde vencer seguidamente essas três Copas América anuais mesmo alterando ano a ano o time-base, com somente um jogador titular nas três.
Para 1948, o jejum do Racing parecia que ia terminar. Logo na rodada inicial, Bravo marcou os dois primeiros gols de um 4-1 dentro da Bombonera sobre o Boca. O clube fechou o primeiro turno na liderança, no embalo de sete vitórias seguidas. A cinco rodadas do fim, seguia líder, com 35 pontos, embora os 34 do Independiente e os 32 do River não dessem sossego. Até ali, Bravo, em 24 jogos, produzira quatorze gols e gerara outros seis diretamente, com as cinco assistências e um pênalti sofrido. Foi quando a categoria dos jogadores entrou em greve prolongada. Os cartolas foram intransigentes: o torneio prosseguiu, preenchido com juvenis, amadores e/ou não-sindicalizados (estes, normalmente estrangeiros, como o ídolo botafoguense Heleno de Freitas, a seguir jogando pelo Boca). La Academia murchou e o título em Avellaneda terminou comemorado justamente pelo Independiente, cujos pibes puderam assegurar o troféu com uma rodada de antecedência.
Acróbata, Bravo era excelente no jogo aéreo. Cansou-se de fazer gols e até dar assistências com a cabeça (fotos de 1947 e de 1950)
Aquela greve teria novos desdobramentos na carreira de Bravo. A reação dos principais astros foi se mandar para ligas financeiramente atraentes, notadamente a do chamado Eldorado Colombiano (como o próprio Di Stéfano e muitos outros) e a da Itália. O Racing soube segurar seus astros, muito deles nomeados pelo ministro Ramón Cereijo (braço político que favoreceu a construção do Cilindro, em 1951, um favorecimento governamental retribuído com o nome oficial da cancha ser Presidente Juan Domingo Perón) a empregos públicos no Ministério da Fazenda – Bravo, por exemplo, era bibliotecário lá. A AFA, que não convocava quem atuasse fora da Argentina, ficou receosa de ser representada na Copa do Mundo de 1950 com um elenco secundário e não ir longe, tal como ocorrido em 1934. Em agosto, ela chegou até a anunciar em setembro uma pré-convocação de 44 jogadores. Ao difundir essa lista, a imprensa brasileira classificou Bravo como “a ciência jogando football“.
As eliminatórias da Conmebol, ainda sem a fórmula todos-contra-todos, seriam para a Argentina reduzidas a duelos protocolares contra Chile (ainda saco de pancadas) e Bolívia (mais ainda). Em outubro, porém, a AFA, sem ver como viável o título mundial, abriu mão até mesmo das eliminatórias. Em paralelo a essa neurose dos cartolas da federação e do próprio governo argentino, o Racing enfim encerrava em 1949 seu pior jejum até então.
Naquela campanha histórica, Bravo chegou a contribuir mais de uma vez com três assistências em um só jogo: isso se deu nos 4-2 sobre o Huracán, nos 5-2 sobre o Independiente em Clásico de Avellaneda ocorrido no campo rival (o dia mais brilhante daquele Racing, segundo o próprio Bravo) e em 6-2 sobre o Boca, duelo onde também marcou duas vezes. Ao todo, ofereceu ainda outras seis assistências. Quando o hat trick foi de gols mesmo, teve como mais memorável os 3-1 no Newell’s: pela primeira vez, sua esposa ia assisti-lo no estádio e ele prometera-lhe ao menos um gol. No mais memorável dos três feitos em cima do futuro flamenguista Eusebio Chamorro, conseguiu um de cabeça… mesmo de fora da área!
O total de gols na campanha campeã de 1949 foi de dezenove em 32 partidas, inclusive na do jogo do título, contra o Boca – que concorria contra o rebaixamento e, ao sofrer de El Maestro o gol da virada de 2-1 a dez minutos do fim, revoltou-se contra um suposto impedimento de Ezra Sued, autor do passe. A partida foi suspensa e seus minutos pendentes, disputados em outro dia. Nele, o placar não se alterou e La Acadé deu sua primeira volta olímpica profissional na liga argentina. Detalhe não menor é que a taça veio mesmo sem estádio próprio, com o Cilindro ainda em obras (o time mandou muito de seus jogos na Bombonera e ocasionalmente no San Lorenzo e em times menores)!
Juntado em 1949 (na imprensa e em publicidade de vinho) a Alberto Marcovecchio, remanescente do Racing heptacampeão nos anos 10
Para comemorar, foi feita excursão à Europa. Bravo marcou gols em vitórias de 5-3 no Valencia, de 2-1 no Atlético de Madrid e duas vezes em 5-3 sobre a seleção belga. Mas o causo mais recordado foi extracampo; o goleiro Antonio Rodríguez lembraria dali a vinte anos que “estávamos no quarto com Rubén e precisávamos de sabonetes. Como el Troesma ia sair, lhe pedi que fosse ele quem pedisse ao camareiro. Fez isso com seu francês de então e não com o que aprendeu mais tarde. Vá saber o que o homem entendeu, pois apareceu com dois conhaques!”, no que o atacante completou: “e o que íamos fazer, dar bronca nele? Não, mandamos os dois conhaques adentro e boa noite”.
A estreia de Bravo pela seleção se deu em 1950. Por conta da greve e seus desdobramentos, a Albiceleste não entrou em campo entre o fim da Copa América de 1947 e a data de 25 de março de 1950, na qual houve o primeiro de dois jogos contra o Paraguai pelo troféu binacional Copa Chevallier Boutell. No Monumental, Bravo abriu o placar de um duro 2-2, em que o oponente chegou a virar. O mesmo estádio recebeu a revanche, quatro dias mais tarde, com Bravo saindo do banco com o placar já em 4-0 aos donos da casa. Pouco convencida, a AFA não voltaria a pôr a seleção em campo por outros quatorze meses; pelo restante de 1950, a consagração alviceleste de Bravo foi mesmo o bicampeonato seguido do Racing; em 23 partidas, marcou doze vezes (incluindo o segundo de 3-1 no Independiente) e gerou diretamente outros quatro gols – três por assistência e outro por pênalti sofrido.
Nenhum time havia sido tricampeão argentino no profissionalismo. No amadorismo, o último tri havia sido do próprio Racing, em meio ao heptacampeonato seguido de La Acadé entre 1913-19. No meio da temporada de 1951, porém, houve o retorno da seleção argentina, que passou pela primeira vez pelas Ilhas Britânicas. Foi em maio, na primeira vez que Wembley recebeu uma seleção não-europeia. Bravo lesionou-se nesse jogo, recordado pela brilhante atuação do futuro goleiro palmeirense Miguel Rugilo, que impedira uma goleada da Inglaterra e permitira aos hermanos sonharem: a Argentina abriu o placar e segurou a vitória até o fim.
Mas caberia à Hungria de Puskás ser a primeira seleção não-britânica a vencer em solo inglês os Three Lions, que puderam (em impedimento, reconhecido até pela imprensa brasileira, no segundo gol) virar para 2-1, achando dois golzinhos nos dez minutos finais. Aquela seria a terceira e última partida de Bravo pela seleção. Ao fim de 1951, o Racing lograria o histórico tricampeonato, mas já sem tanto protagonismo do ídolo, que não parece ter sido mesmo depois da lesão em Wembley. Chegou a ficar sem jogar a partir de agosto: havia realizado oito partidas e marcado um só golzinho, ainda que com seu selo de qualidade: um cabeceio seu encobriu diversos jogadores do San Lorenzo até o goleiro adversário alcançar, já atrás da linha do gol, a bola.
Ao centro da imagem em seu último jogo pela seleção: contra a Inglaterra, em Wembley
No decorrer do certame, o surpreendente Banfield igualou-se na liderança, forçando jogo-extra. Ainda sem Bravo, o Racing não saiu do 0-0 na primeira final, em 1º de dezembro. El Maestro foi requisitado para a segunda e ao menos foi pé-quente: um golaço de fora da área do colega Mario Boyé bastou para dar o tri ao então time mais vitorioso de Avellaneda. Apesar da decadência, Bravo pôde chamar atenção dos cariocas no fim de janeiro de 1952, em duelo de Racing x Fluminense, deixando golzinho nos 3-2 dentro do Maracanã sobre um Flu que dali a uns meses se autoproclamaria “campeão do mundo” na segunda Copa Rio.
No campeonato argentino de 1952, porém, o atacante só estreou já na 9ª rodada, em 1º de junho – registrando assistência para o gol de Juan José Pizzuti no 1-1 com o Estudiantes. Também esteve em campo na 10ª, 13ª (na qual deu outro passe para gol de Pizzuti em 1-1 com o Lanús) e na 14ª, esta em 6 de julho. Mesmo sem gols, naquele mês ele recebeu sua última convocação à seleção. Bravo, contudo, não voltou a entrar em campo pela Argentina. É que a convocação visava partidas que ocorreriam somente em dezembro. Mês em que Bravo já estava no Botafogo, em tempos em que a Albiceleste não usava quem atuasse no exterior.
A passagem pelo Botafogo
Ainda em agosto de 1951, o Palmeiras teria tentado contratar Bravo. Naquele biênio 1950-51, clube alviverde emendou as chamadas “cinco coroas palestrinas”, que incluíram o seu autoproclamado Mundial, na primeira Copa Rio – tendo consigo, inclusive, outro hermano pré-convocado para 1950, Luis Villa (além de José Montagnoli, também argentino). Em paralelo, naquele segundo semestre de 1951 o Botafogo passava a usufruir de Oscar Basso, vindo diretamente da Internazionale para reluzir sua técnica na defesa alvinegra de jeito tão marcante que… mesmo breve e sem alcançar o título, esse zagueirão chegaria a ser duas vezes eleito para o time botafoguense dos sonhos (com votos de Nilton Santos, Zagallo, Armando Nogueira e Sandro Moreyra, dentre outros), em júris reunidos em 1982 e em 1994 pela revista Placar. Falamos disso, e mais da carreira de Basso, aqui. A ESPN, por sua vez, enfatizou hoje que ele é avô justamente de um jogador atual do Racing, o também zagueiro Agustín García Basso.
Basso também era, justamente, o líder do sindicato dos jogadores na ocasião daquela greve de 1948. Foi outro dos astros debandados até ser anistiado pela AFA em 1952, sendo assim repatriado pelo San Lorenzo. Mesmo já de volta à Argentina, o zagueiro se dispôs a ser o intermediário para a contratação de Bravo, feita “na surdina”, nas palavras do Diario da Noite de 17 de setembro. Em 19 de setembro, esse mesmo jornal detalhou que Bravo foi “alugado”, como se dizia na época sobre jogadores emprestados; por oito meses, no valor de 250 mil pesos (além de contextualizar que equivaliam a 300 mil cruzeiros, a moeda brasileira da época); e que teria salário fixo de 7 mil cruzeiros, eventualmente acrescido de “bichos” de 4 mil. Na mesmíssima data, o Jornal dos Sports noticiou como o Palmeiras seguia interessado: teria até oferecido 300 mil ao Racing em pesos mesmo.
As primeiras notícias de Bravo no Botafogo: transferência costurada por Basso, argentino que havia brilhado pelo clube em 1951
O Mundo Esportivo, também em 19 de setembro, deu outros detalhes: “não foi sem razão que o nome de Rubén Bravo ocupou as manchetes dos jornais argentinos, italianos e brasileiros. Porque o célebre ‘piloto’ da seleção argentina esteve na mira do Torino, que pretendia o seu concurso em troca de José Florio. O Racing daria seu acordo à transação e ainda daria Llamil Simes de contrapeso. Aconteceu que Florio foi para o Vasco e Bravo andou nas cogitações do Palmeiras. Eis, porém, que se sabe que não é o Palmeiras o clube brasileiro interessado e sim o Botafogo, do Rio, que incumbiu o zagueiro Oscar Basso (…) de encaminhar e fechar as negociações. Embora nada esteja resolvido, mantendo-se até sigilo em torno do ‘negócio’, é muito provável que Bravo venha a ser contratado, o que possibilitaria ao Botafogo vender Otávio ao Santos”. Vale contexto: ex-jogador de seleção e futuro arquiteto da concentração da CBF em Teresópolis, Otávio ainda é o terceiro botafoguense com mais gols sobre o Fluminense.
Bem, o argentino pousou no Rio de Janeiro pouco depois da 5ª rodada do carioca. Treinado por Sylvio Pirillo, que ainda jogava na temporada anterior, o Botafogo havia começado bem o torneio: vitórias sobre São Cristóvão (4-0) na estreia e Olaria (3-2) na 2ª rodada. Mas então ficara no 1-1 com o Canto do Rio, perdido de 3-2 no clássico com o Flamengo e sido surrado por 5-2 por um forte Bangu – o vice-campeão do ano anterior e com seu próprio argentino no beque Ramón Rafanelli. Na 5ª rodada, em 28 de setembro, vencera no aperto o Madureira, por 3-2. O argentino já estava no Rio para o duelo contra o America em 4 de outubro. Mas eram outros tempos; o encontro ainda tinha aura de clássico, com só três títulos separando os dois e proporção de torcidas também equilibrada na era pré-Garrincha.
Inclusive, os rubros, treinados por Otto Glória, também eram notícia pela recente aquisição dos seus próprios argentinos (Ricardo Pepe e Raúl Sánchez), ambos vindos do Estudiantes “de Eva Perón”, como fora renomeada a cidade de La Plata sob o recente luto pelo falecimento de Evita. Pirillo, assim, foi precavido em não lançar Bravo na fogueira de um clássico pós-resultados ruins, pois o argentino não chegara com ritmo de jogo. Mesmo sem o astro, os alvinegros puderam golear por 4-1. O argentino já tinha atmosfera mais tranquila para estrear, ainda que o jogo seguinte (em 11 de outubro) fosse outro clássico, contra o Vasco; e mesmo com prognóstico de goleada para uma nau vascaína que ainda era o Expresso da Vitória.
Bravo saiu-se bem no clássico, dando o passe para o gol do Botafogo. Que vencia até Ademir arrancar, a dez minutos do fim, um placar final em 1-1 no dérbi alvinegro. Na avaliação do Jornal dos Sports, enquanto o técnico Pirillo desengasgava sarcasticamente “eis aí a goleada que se anunciava”, o argentino era descrito como “um atacante consciencioso e provou que é de fato um crack. Naturalmente, ressente-se de um período de adaptação, pois notou-se que que o player portenho procurou como que economizar para não se entregar quando a luta atingisse o seu clímax. Após as primeiras palavras, Rubén Bravo virou-se para afirmar: ‘hay que venir cosa mejor‘. E acrescentou: ‘que maravilla es la delantera de Vasco!‘”. Em outra página, o mesmo jornal ressalvava que Bravo era um jogador “cuja classe é indiscutível, mas que carece visivelmente de forma física”.
Bravo com o técnico Pirillo, e o anúncio de que o argentino, cautelosamente, seria poupado de duelo com o America: falta de forma, em tempos em que a partida ainda era um clássico equilibrado
Ainda assim, o lampejo exibido era promissor: autor do gol botafoguense, Zezinho recebera tão livre a bola que a jogada foi muito mais do que uma assistência – conforme a imagem logo abaixo, o Jornal dos Sportschegou a relatar que “marcou Zezinho, mas quem preparou foi Bravo”. Os primeiros gols propriamente do argentino vieram no compromisso seguinte, marcando duas vezes nos 3-0 sobre o Bonsucesso no dia 19 de outubro. Ao fim daquele mês, o Diario da Noite até já especulava que Bravo buscaria a contratação de outro atacante daquele Racing tricampeão, o ponta Ezra Sued (árabe e judeu, já falamos aqui e aqui sobre El Turco Sued). Os jornais cariocas precisaram se contentar em ter somente as colunas sociais de Ibrahim Sued mesmo. É que o hype do Maestro Bravo não tardaria muito a ser abalado.
O primeiro contratempo foi um pênalti perdido em derrota de 2-0 para o Fluminense, no jogo seguinte – em clássico cujo resultado deu ao rival o título do primeiro turno. Individualmente falando, Bravo até aparentou recuperação no compromisso subsequente, ao marcar duas vezes em 9 de novembro. Mas, como há coisas que só acontecem com o Botafogo, o jogo em questão foi um complicado 3-3 contra o lanterninha Canto do Rio. Naqueles dias, o cargo de técnico passaria de Pirillo a Martim Silveira, ícone dos anos 30 em General Severiano. Viria outro jogo em teoria fácil, ainda que de visitante, contra o São Cristóvão, vice-lanterna. E o time da casa fez valer o mando, vencendo por 2-1; autor de um dos gols da vitória suburbana, Humberto Tozzi iria à Copa de 1954 já como palmeirense.
Do lado botafoguense, a tarde infeliz em Figueira de Melo não se resumiu ao resultado. Como realmente há coisas que só acontecem com o Botafogo, seu mais recente astro, ainda lutando para recuperar forma plena, lesionou-se – em tempos em que não eram permitidas substituições, o centroavante seguiu em campo fazendo número na ponta. O Diario da Noite já assinalava, na crônica pós-jogo, que “a voz geral era de que a má sorte vem perseguindo o clube de General Severiano, não só nos lances do jogo propriamente ditos. As circunstâncias às vezes representam muito mais, e há fatores importantes e decisivos que antecedem a partida”.
A nota, de nome A contusão de Bravo, grande causa da derrota, prosseguia no mesmo tom sobre um elenco já “sem bom moral e ressentido de muito trabalho psicológico para se recuperar”, tanto nas palavras do novo técnico (“a contusão de Rubén Bravo foi a grande causa da nossa derrota. Não só pelo simples fato de termos que desloca-lo para a extrema, mas, principalmente, porque Ceci e Richard, que vinham se entrosando com ele, se perderam por completo”) como de outros jogadores (“a sorte continua madrasta conosco. Não há força capaz de superar a nossa má campanha”, declarara Gerson, que não era aquele – ao passo que Nilton Santos afirmara que “quando tudo indica que vai sair bem, surge o imprevisto. Ora, reagíamos e aí vem a distensão de Bravo e com ela decrescemos todos nós. Que se há de fazer?”).
A estreia promissora de Rubén Bravo: legenda do Jornal dos Sports destacando a assistência do argentino (o jogador mais à esquerda) no clássico com o Vasco
O Botafogo também não saiu do 1-1 com o Bonsucesso, em 22 de novembro, com Bravo poupado para recuperar-se. Uma semana depois, não havia como não escala-lo contra o Vasco: ruim com o argentino, pior o time se mostrava sem ele. O rival venceu por 1-0, mas o veterano foi elogiado (clique ao lado e, de brinde, leia matéria do saudoso botafoguense Leo Batista sobre um America x Bonsucesso!) como “um dos altos valores do prélio” pelo Sport Ilustrado: até marcou um gol, mas anulado – tudo porque o colega Zezinho teria ameaçado usar a mão ao dividir com Barbosa, o que pelas regras da época seria suficiente para invalidar o desdobramento da jogada. Mas ela mereceu menção honrosa: após Zezinho ter “de certa forma” atrapalhado o goleiro, “o couro passou para Bravo e o centroavante alvinegro matou-o com serenidade e colocou-o nas redes, com uma habilidade verdadeiramente estupenda. O juiz, porém, acertadamente, invalidou a conquista que seria a do empate”.
No mesmo tom, o Diario da Noite relatava que o desempenho na enganosa derrota para o líder dava mostras de reabilitação ao Botafogo e suspirava pelo “craque fabuloso que é Rubén Bravo”. Outro diário carioca, o extinto O Jornal ia mais longe: chegou a perguntar quando o futebol brasileiro conseguiria produzir “um craque do naipe de Rubén Bravo”, na edição do dia 5 de dezembro.
Com duas semanas de folga, o Botafogo voltou a campo somente em 13 de dezembro, contra o Fluminense. Dessa vez, Bravo deixou o gol dele. A matéria pós-jogo do Jornal dos Sports foi bem detalhista: já com cinco minutos, havia driblado “espetacularmente Edson” e cruzado para Zezinho, cujo arremate, mesmo violento, fora firmemente salvo por Castilho”. Com o placar ainda sem gols, o argentino, já aos 30 minutos, também teria dado uma de suas características cabeçadas para “fulminar” Castilho. Pena: “a pelota foi fora e chegou-se a ter a impressão do tento”. Pouco antes do intervalo, o Flu abriu o marcador e, logo no início do segundo tempo, ampliou.
No reinício do jogo após o segundo gol rival, Bravo teve “oportunidade de ouro” ao ficar na cara de Castilho, mas furou. Recuperou-se logo: primeiramente, em cruzamento a Zezinho, que cabeceou para fora, e então com o gol do empate, aos 15 minutos: Braguinha cruzou pela linha de fundo, Zezinho fez corta-luz para enganar o adversário Píndaro… e, assim, o argentino reutilizou seus famosos cabeceios, mandando de peixinho às redes de Castilho. O lance chegou a animar os alvinegros rumo a um empate.
Craque sempre sem ritmo, Bravo ainda perdeu esse pênalti no jogo que deu o primeiro turno de 1952 ao Fluminense
Nesse ímpeto, registrou-se que Castilho precisou espalmar a escanteio um chute forte de Bravo. Mas então uma falta dura do botafoguense Gerson foi punida com sua expulsão pelo árbitro inglês Dickens. O Fluminense queria pênalti e o juiz deu falta, mas o azar botafoguense não havia terminado (algo inclusive enfatizado na nota): ainda tricolor na época, Didi executou uma de suas famosas folhas-secas para vencer o goleiro e matar o jogo. O rival ainda faria outro gol, mas invalidado pelo impedimento do autor, Villalobos.
Praticamente sem pausa natalina e de ano-novo, o Cariocão de 1952 teve jogo em 28 de dezembro e avançaria para janeiro do ano seguinte. No último jogo de 1952, o Botafogo venceu por 2-1 o Bangu, mesmo sem jogar bem, mas aproveitando-se de duas expulsões alvirrubras – a segunda delas, cavada por Bravo, após troca de pontapés com o oponente Vermelho. Apenas o adversário foi convidado mais cedo ao chuveiro pelo árbitro Sidney Jones (também inglês), revoltando-se tão logo o intérprete comunicou a decisão, a ponto de se fazer necessária a entrada de aparato policial em campo. Sobre a atuação de Bravo, o Jornal dos Sports também registrou uma das famosas cabeçadas, que terminou em bola fora, mas “levando grande perigo para a meta” banguense. Já a Tribuna da Imprensa noticiaria em 2 de janeiro um interesse do Corinthians por Bravo.
Em 4 de janeiro, Bravo marcou duas vezes em 4-1 sobre o Olaria. Para o dia 10, era a vez do clássico com o Flamengo. Por volta do dez minutos, Bravo simulou um de seus famosos saltos, mas fez corta luz para Zezinho ficar livre para aproveitar cruzamento de Paraguaio e fuzilar para abrir o placar. Mas a vantagem mal durou dois minutos, período em que Bravo teria perdido chance boa para ampliar (chutando “violentamente” para fora um contra-ataque) antes que Índio cobrasse bem uma falta – e contasse com o pulo atrasado do goleiro alvinegro Osvaldo – para empatar. Abriu-se assim a torneira para três gols adversários em um espaço de nove minutos, filme bem mais antigo do que as cenas de “apagão” que tão marcaram corações e mentes em 2023 por General Severiano: na saída de bola após o empate, o rival logo a roubou e, no decorrer do contra-ataque, o ainda flamenguista Zagallo cruzou para Adãozinho virar. Aos 19, então, Zagallo serviu Índio e este concluiu por baixo do corpo de Osvaldo, a cometer nova “falha clamorosa” no relato do Jornal dos Sports.
Ainda aos 27 do primeiro tempo, o Flamengo chegou ao 4-1 a partir de bola que roubaram de Bravo, embora o novo gol de Índio, além de descrito como indefensável, fosse marcado em impedimento não visto pelo juiz inglês da vez, Sydney Jones. O argentino teria perdido outra chance boa, cabeceando por cima da trave em cruzamento onde estava bem colocado. Recuperou-se aos 38, com assistência a um gol chorado com o qual Geraldo descontou. Nos primeiros 10 minutos do segundo tempo, o Botafogo teve um gol anulado, de um Zezinho verdadeiramente impedido, e perdeu outra boa chance – com Bravo habilitando Geraldo e o chute forte deste parando nas mãos seguras de Sinforiano García. A possível reação esfriou-se de vez com novo gol de falta (de Beto) em que Osvaldo, outra vez, teria pulado com atraso. Coisas que só acontecem com o Botafogo? Beto estava apenas fazendo número, após lesão minutos antes…
O famoso azar do Botafogo também se manifestou na inoportuna lesão de Bravo: o time perdeu para o vice-lanterna São Cristóvão
O placar virou 6-2 quando Rubens converteu pênalti sofrido por ele próprio. Ao longo do segundo tempo, os alvinegros se mostraram “um amontado de jogadores” (nas palavras do Jornal dos Sports), exceto por lance de quase-assistência de Bravo: ficou no “quase” porque a conclusão Zezinho, embora encobrisse García, terminou acertando a trave. Ainda haveria outra bola botafoguense na trave até que os alvinegros conseguissem aos 43 minutos um terceiro gol de honra, de Zezinho. Martim Silveira não ficaria para a temporada de 1953, com a diretoria alvinegra recorrendo a outra figura dos anos 30, Carvalho Leite.
Restavam dois jogos e a luta botafoguense era a de terminar na metade superior da tabela de onze times. Conseguiu o 5º lugar após vencer America em 17 de janeiro (3-0) e o Madureira em 20 de janeiro (5-3, com gol de Bravo). Outros três dias depois, o mesmo elenco que parecia mal assombrado dava mostras de sua qualidade ao vencer dentro do estádio Centenário um Peñarol repleto de vencedores do Maracanaço: Roque Máspoli, Víctor Rodríguez Andrade, Obdulio Varela, Alcides Ghiggia, Oscar Míguez, Juan Alberto Schiaffino e o técnico Juan López Fontana estavam todos do lado derrotado pelo Botafogo na rodada inaugural da “Copa Montevidéu”. A ocasião permitiu a Bravo reencontrar outros dois cordobeses ex-Rosario Central, ambos naturalizados pela Celeste: Ernesto Vidal, também campeão mundial de 1950, e Juan Hohberg. Conhecidíssimo, Bravo foi bem anulado pelos uruguaios em tarde de imagináveis “cenas lamentáveis” de um jogo que chegou a ser suspenso por vinte minutos e ter interferência policial até para cima de Varela.
O Botafogo também venceria o Dínamo Zagreb na 2ª rodada (3-2, em 25 de janeiro), o First Viena na 3ª (2-0, com Bravo abrindo o placar, em 28 de janeiro) e a equipe paraguaia do Presidente Hayes na 4ª, com Bravo fechando a goleada de 4-0 em 31 de janeiro. No dia 3 de fevereiro, o estádio Centenário então sediou um Clássico Vovô. Bravo precisou sair de campo aos 25 minutos, mas ao menos ali o infortúnio mostrou-se um acerto por linhas tortas: seu substituto Dino da Costa, futuro jogador da seleção italiana, marcaria ainda no primeiro tempo os dois gols do triunfo de 2-1 sobre o Fluminense pela 5ª rodada da Copa Montevidéu.
Àquela altura, somente o Botafogo ameaçava que o título não ficasse com a dupla Peñarol e Nacional. O outro gigante uruguaio foi o adversário seguinte e fez valer o fator casa, em 8 de fevereiro, pelo placar mínimo, encaminhando seu título naquele minitorneio de pontos corridos. Restou ao Glorioso um honroso vice-campeonato após duelo final com o Colo-Colo, no dia 11: estando duas vezes atrás no placar, em ambas Dino da Costa achou dois gols para empatar. Bravo havia jogado todo o primeiro tempo e dado lugar a Dino no segundo.
Botafogo antes de novo clássico com o Fluminense, pelo segundo turno – segundo em pé, Nilton Santos ainda era referido apenas como “Santos” pela imprensa. Bravo, agachado ao meio, dessa vez marcou gol
O brilho de Dino realmente pesaria para que a diretoria optasse por não estender o vínculo com o argentino para além do tempo contratado de empréstimo, conforme apurado pela Tribuna da Imprensa de 27 de fevereiro; a opção de compra definitiva foi descartada pelo preço de 600 mil cruzeiros ser considerado elevado demais, informara na véspera o jornal paulistano A Tribuna. Tão logo o empréstimo venceu, nos últimos dias de abril, o Botafogo comunicou a FERJ (na época, Federação Metropolitana de Futebol) para que esta repassasse à AFA a notícia de que o Racing já poderia regularizar de volta seu centroavante.
Coisas que só acontecem com o Botafogo: os muitos êxitos de Bravo na sequência da carreira
O campeonato argentino de 1953 começou justamente em abril, mas Rubén Bravo não chegou a entrar em campo: o Racing negociou-o com um modesto clube que estrearia naquele mesmo ano na primeira divisão do Chile.
E não é que, com Bravo consigo, o Palestino foi de imediato vice-campeão chileno? Em 2020, o clube da comunidade árabe local nomeou o argentino como um dos “elementos destacados” de uma temporada “que semeou as bases” do primeiro título do clube na elite, já em 1955.
Não parou por ali: o passo seguinte de Bravo foi brilhar no auge da equipe francesa do Nice – e isso que chegara sob inicial falta de forma, tal como no Botafogo.
Luis Carniglia, o argentino que iria treina-lo no Mediterrâneo, recordou em 1968: “em 1954, jogava minhas últimas partidas e o pessoal do Nice estava preocupado em encontrar substituto. Vim à Argentina (…). Falei com Rubén Bravo, que acabava de chegar do Chile, e resulta que estava inflado. Me convenceu, me disse que baixava de peso rápido, que estava há uns meses em jogar… fomos até Olivos e ali o fiz correr um momento; era um desastre. Mas como era bom jogador e confiava nele, decidi leva-lo do mesmo jeito. Ao chegar a Nice e vê-lo tão gordo, todos me diziam que não era jogador de futebol, que era um comerciante. No princípio, não pegava na bola; depois se pôs no ritmo e cumpriu uma campanha destacada. Menos mal, porque em mim tinham tanta confiança que me deram um cheque em branco para vir à Argentina. E o enchi com 6 milhões de pesos”.
Terceiro agachado no Palestino que, estreante na primeira divisão chilena, foi logo vice-campeão em 1953
Já mesmo em 1954 o Sport Ilustradocriticara que o Botafogo teria usado “muito pouco” o centroavante – classificado nos anos 2000 por Aimé Jacquet, técnico da França campeã mundial em 1998, como “o melhor argentino que pisou nos campos de futebol franceses”. Em 1955, o Jornal dos Sports usara até mesmo a mesma expressão “campos franceses” para noticiar o sucesso de Bravo neles. Em 1956, foi a vez de A Tribuna relatar o êxito da panelinha sul-americana do Nice: o matador Just Fontaine era bem acompanhado por Bravo, pelo também argentino César González e pelo brasileiro Brandãozinho. Além do treinador Luis Carniglia, ainda havia mais hermanos, os reservas Alberto Muro e Juan Carlos Auzoberry.
Naquela temporada de 1955-56, o Nice venceu a terceira de suas quatro taças na Ligue 1. Bravo ficou no clube por mais uma temporada, de campanha honrosa na Liga dos Campeões: o veterano marcou um dos gols da vitória de virada sobre o Rangers pelas oitava-de-final, mas o campeão francês calhou de encarar nas quartas-de-final o dominante Real Madrid daqueles tempos. O técnico Luis Carniglia logo seria incorporado pelo próprio Real para vencer as duas Ligas dos Campeões seguintes. Já Bravo seguiu no futebol francês até 1962, quando enfim parou de jogar; após deixar o Nice em 1957, trotou em divisões de acesso por Grenoble, Aix, Rouen e Roubaix, clube pelo qual mereceu em 1961 a seguinte crônica no jornal carioca Ultima Hora – assinada por Albert Laurence, pai de Michel Laurence (criador da Bola de Prata da Placar) e avô de Bruno Laurence:
“Talvez ainda não seja muito tarde para evocar o resultado mais sensacional dos jogos de dezesseis-avos de final da ‘Copa da França’, recentemente disputados: a eliminação do poderoso quadro do Monaco, vencedor da Taça de 1960 e portanto detentor do título, e também atual líder do campeonato profissional de primeira divisão, pelo modesto onze do Roubaix, da segunda divisão, por 2-1. O que poderá interessar o leitor brasileiro no fato? É que o herói da façanha, meia-esquerda do quadro do Roubaix, meia de ligação e meneur de jeu, isto é, o ‘dono do onze’, foi um velho conhecido nosso: o veteraníssimo Rubén Bravo, argentino, antigo centroavante do Racing tricampeão da AFA e do selecionado argentino da última grande época portenha”.
Laurence prosseguiu assim – os parênteses são do texto original dele: “Bravo, que jogou a seguir no Botafogo carioca (muito bem apesar já do peso dos anos, como todos se lembram) está na França. Como será possível que um jogador dessa idade consiga brilhar e ser considerado o melhor homem no campo em prélios de profissionais? A explicação, é, evidentemente, que ele soube substituir o fôlego e a mocidade do organismo, que sumiram, pela experiência, pelo conhecimento profundo do jogo. E sua técnica individual, sempre perfeita, lhe permite, em três passes longos de mestre, produzir um rendimento mais útil e decisivo que qualquer jovem de qualidade mais modesta, com toda sua atividade constante, porém confusa”.
O sucesso do Nice de Rubén Bravo chegando à imprensa brasileira. À direita, ele agachado ao lado do superartilheiro Fontaine. González está logo atrás de Bravo e o técnico Carniglia é o último em pé
Tão logo parou de jogar no início de 1962, Bravo foi repatriado por seu Racing no segundo semestre, já para ser técnico bombeiro de uma temporada decepcionante – o clube havia sido campeão um ano antes como líder de todas as rodadas, mas caíra na fase de grupos da Libertadores e perambulava pela metade inferior da tabela no campeonato argentino; terminou somente em 9º lugar mesmo. Pelo ano de 1963 até meados de 1964, o ex-atacante treinou um ambicioso Gimnasia que chegara a cheirar o título em 1962, mas que não pudera se consolidar. El Maestro então saiu dos holofotes por um tempo, seja no Racing de Montevidéu (1965-66) ou em times colombianos (Cúcuta em 1967, Santa Fe em 1968 e 1969), seja empreendendo um hotel no centro de Buenos Aires.
Em 1970, foi então requisitado pelo ex-colega Juan José Pizzuti, então comandante de um Racing novamente vencedor, para ser seu assistente técnico. A Argentina havia sido desclassificada nas eliminatórias à Copa de 1970 e reagiu chamando exatamente Pizzuti para treina-la. A comissão técnica de ambos pôde sair-se vitoriosa dentro do Beira-Rio contra o próprio Brasil, em um dos últimos amistosos de Pelé e colegas antes do embarque canarinho ao México – o resultado pesaria para o então treinador João Saldanha cair (crucificando também os cruzeirenses Dirceu Lopes e Zé Carlos, barrados da Copa, e titulares que virariam banco como Ado, Edu, Baldocchi e Fontana) e abrir vaga para o botafoguense Zagallo assumir o cargo de técnico do Brasil. Além de assistente na seleção principal, Bravo também treinava as juvenis, função na qual foi medalha de ouro nos Pan-Americanos de 1971. Mesmo falhando no pré-olímpico para os Jogos de Munique, seguiu e foi vice em 1972 no Torneio de Cannes. O mais famoso dos garotos polidos nesses trabalhos, Daniel Bertoni, autor do último gol do primeiro mundial vencido pela Argentina, o classificaria “como um pai”.
O desempenho na francesa Cannes chamou a atenção do Monaco, então afundado na segunda divisão, para aquela antiga estrela da Ligue 1. O argentino virou rara figura de destaque pelos dois lados do Derby de la Côte d’Azur, que os monegascos travam com o Nice, onde ele jogara: para a temporada 1972-73, treinou a campanha de acesso como 3º colocado da Ligue 2. A briga contra novo rebaixamento foi a tônica da temporada 1973-74, mas o time do Principado não só escapou como chegou à final da Copa da França. Em Monte Carlo, Bravo treinava uma panelinha argentina com Delio Onnis, que se sagraria o maior artilheiro até hoje do Francesão, o ponta Aníbal Tarabini e o então volante José Omar Pastoriza – futuro técnico campeão de Libertadores e Mundial Interclubes com o Independiente em 1984, Pastoriza exaltaria a facilidade com que Bravo explicava conceitos táticos.
Com cartaz crescente como treinador, Bravo foi contratado em 1976 por um Talleres no auge. Fez bonito: ganhou uma liga cordobesa (vencendo seguidamente os primeiros dezoito jogos!) então bastante valorizada tal como os Estaduais brasileiros; e, no Torneio Nacional, foi semifinalista, caindo em jogo único para um River que era base da seleção. Até hoje, Bravo tem a melhor porcentagem de aproveitamento de pontos dentre os técnicos tallarines. Uma dessas vitórias, em 28 de outubro, foi só por 1-0, mas entrou para a história do futebol mundial: fora de casa, contra o Argentinos Jrs, na estreia que um adolescente chamado Maradona fez no futebol adulto. Em 1977, o Talleres de Bravo venceria novamente a liga cordobesa. El Maestro pôde deixar pronta a base que, repleta de futuros convocados à Copa do Mundo de 1978, iria ainda mais longe no Torneio Nacional. Os alvizauis eram campeões até os sete minutos finais da decisão com o Independiente.
Primeiro em pé, como técnico do Monaco finalista da Copa da França em 1974. Os três últimos sentados também são argentinos: Onnis, Pastoriza e Tarabini
Bravo não estava naquela épica decisão (o treinador do Talleres era, por sinal, um ex-atleticano – Roberto Saporiti) e nem pôde ver Bertoni fechar a campanha campeã mundial da Argentina em 1978. Infelizmente, o coração de El Maestro inventara de parar de rege-lo ainda em 24 de agosto de 1977, na Guatemala, em plena excursão que La T fazia pela América Central em pausa da liga cordobesa. O técnico jogava um rachão com seus pupilos, que naquele dia enfrentariam a própria seleção guatemalteca, quando começou a passar mal. Mandou-os seguirem jogando enquanto “ia olhar margaridas”. À noite, com a impossibilidade de cancelamento da partida, eles perderam por 2-1 com a cabeça pensando apenas no mestre falecido ao meio-dia. Pastoriza, justamente o técnico que seria campeão nacional na epopeia do Independiente contra o Talleres, esteve no aeroporto de Ezeiza na recepção do corpo, velado na sede do Racing.
Outros elementos em comum entre Racing e Botafogo
O primeiro ano de título em comum é o de 1910, por muito tempo considerado o primeiro carioca da história alvinegra (inclusive virando verso na composição original do hino letrado por Lamartine Babo) até o reconhecimento oficial de conquista prévia em 1907. O Racing, por sua vez, venceu naquele ano a segunda divisão argentina, competição que todos os grandes argentinos precisaram disputar por ter sido criada ainda em 1899 – embora jamais rebaixado, o Boca, fundado em 1905, só livrou-se dela em 1913, por exemplo.
Em 1912, novo título carioca coincidiu com a conquista racinguista na Copa Honor, uma precursora da Copa Argentina. Também foi o ano que iniciou o primeiro jejum longo aos botafoguenses (só encerrado em 1930), enquanto o Racing engatava sua primeira fase áurea. Em 1932, o Fogão então ergueu o primeiro de seus quatro estaduais seguidos enquanto La Academia brigou até a penúltima rodada pelo título argentino. Não deu, mas comemorou uma precursora da Copa da Superliga, a Copa Beccar Varela. Era a vez do Blanquiceleste atravessar jejum comprido na primeira divisão, entre 1925 e 1949, enquanto o próprio Botafogo só vencia uma vez o estadual entre 1935 e 1957.
Assim, o ano seguinte tardou até 1961. Garrincha faturava o estadual enquanto o Racing sagrava-se campeão após liderar todas as rodadas do campeonato argentino. Em 1966, o título argentino de um (no embalo de um recorde de invencibilidade só quebrado décadas depois, diga-se) coincidiu com um Rio-São Paulo do outro. Curiosamente, também foi o ano dos únicos duelos, em um quadrangular de pré-temporada ainda em fevereiro, juntamente com o Independiente e o Sparta Praga (!). Mesmo em Avellaneda, Jairzinho e colegas bateram as duas forças locais, com 2-0 tanto na semifinal com o Rojo no dia 14 como na decisão com La Acadé no dia 16 pela chamada “Copa Carranza”. Houve revanche em 12 de outubro, um 0-0 em Mar del Plata.
Coincidência aprovada por Zagallo: tanto Racing como Botafogo elegeram time dos sonhos com treze jogadores mesmo…
Em 1967, o título carioca veio a General Severiano enquanto o Cilindro comemorava sua única Libertadores e o primeiro Mundial de todo o futebol argentino. E por quase seis décadas esse foi esse também o último ano de glórias em comum, até as redenções continentais de cada em 2024; é que os anos 70 e a quase totalidade dos anos 80 marcaram os jejuns mais famosos da dupla. Em 1983, o Racing se tornou o segundo gigante argentino a ser rebaixado (após o San Lorenzo em 1981), tal como o Botafogo viveria em 2002 (após o Fluminense em 1996 e 1997).
Além de Bravo, os seguintes outros nomes abaixo defenderam ambos:
Jenő Medgyessy: no Brasil, ficou mais conhecido como Eugênio Medgyessy ou ainda Eugênio Marinetti, imigrando da sua Hungria ao Brasil ainda nos anos 20 – inicialmente, no Botafogo. Após trabalhos também por Fluminense, Atlético Mineiro, Palmeiras (então Palestra) e São Paulo, foi à Argentina em 1933 para trabalhar inicialmente no San Lorenzo. O Ciclón terminaria campeão, mas com comandado por ele apenas no início; um atrito com os jogadores azulgranas levou-o a deixar o bairro de Boedo, acertando então com o Racing ainda em 1933. Curiosamente, terminou duas vezes campeão na temporada: enquanto o ex-clube era campeão argentino, Medgyessy era na Academia o treinador campeão da Copa Beccar Varela, aquela precursora da Copa da Superliga.
José Díaz e Mario Fortunato: estiveram ambos em 1943. “Zé Díaz”, como o volante já era apelidado pelo Jornal dos Sports antes mesmo de chegar, era aguardado como atacante feito Luis Rongo, já imortalizado no Fluminense. Chegara em 1938 a Avellaneda, vindo do Dock Sud, e foi emprestado ao Botafogo antes de ser vendido em 1944 ao Chacarita. Fortunato, por sua vez, era um ícone do Boca como jogador nos anos 20 e treinador nos anos 30. Em 1939, apareceu rapidamente no Racing. Nenhum deles se sobressaiu muito em Avellaneda. E nem no Rio: o Fogão fez sua pior campanha até então, com mero 7º lugar no estadual.
Silva Batuta: curiosamente, ele também esteve no Botafogo de Ribeirão Preto, onde despontou em 1959. Ao fim da carreira, esteve no Botafogo que disputou o triangular final do Brasileirão de 1971, mas como opção de banco. Seu auge fora mesmo nos anos 60, com bons momentos por Corinthians, Flamengo, Santos e até uma passagem pelo Barcelona e pela Copa do Mundo de 1966 antecedendo o brilho intenso que teve em 1969 no Racing. Ali, ficou mais conhecido pelos dois sobrenomes, “Machado da Silva”. E se tornou nada menos que o único brasileiro a obter a artilharia do campeonato argentino, em 1969. Sua média impressionante de gols renderam idolatria eterna mesmo com poucos jogos – foram cerca de trinta partidas, mas vinte bolas na rede pelo time eliminado no finzinho da semifinal contra o futuro campeão Chacarita. Mas, com saudades do Brasil, preferiu transferir-se ao Vasco em 1970 (e foi pé-quente, regendo o fim de jejum cruzmaltino de doze anos), mesmo sendo assumido flamenguista. Já dedicamos ao Batuta este Especial em 2020.
Silva Batuta, o outro ídolo do Racing a passar pelo Botafogo
Raúl Estévez: na Argentina, El Pipa (apelido comum a narigudos) associou-se mais ao San Lorenzo, camisa pela qual deu uma alegria aos botafoguenses – foi dele o gol na final da Copa Mercosul 2001, sobre o Flamengo, que forçou disputa por pênaltis. Reserva do reserva no Boca campeão de tudo em 2003, Estévez chegou ao Botafogo no meio da temporada do centenário, em 2004. Mas não ficou até o fim da dramática fuga de rebaixamento, acertando com o Colón. Dali cavou transferência ao Racing para a temporada 2005-06, pouco digna de nota: o clube vinha de um honroso vice-campeonato no Clausura da de 2004-05 e despencou para o antepenúltimo lugar no Clausura 2006 (turbulência que apressou a decisão de Diego Simeone pendurar as chuteiras, convertendo-se do dia da noite em jogador racinguista para treinador bombeiro no Cilindro). O atacante terminou escondendo-se na Académica de Coimbra.
Mario Bolatti: volante de um superlativo 2009 por um Huracán quase campeão após 36 anos, Bolatti cavou lugar na Copa do Mundo de 2010 também por ser o herói da complicada classificação argentina em Montevidéu. Mas as altas expectativas que gerava não se cumpriram. Em 2011, veio à panelinha argentina do Internacional, onde foi razoável inicialmente, até figurando em convocações à seleção como colorado para aqueles duelos com o Brasil limitados a quem jogasse no próprio país ou no futebol do vizinho. Mas em 2013 já começava a ser emprestado: primeiramente, a um Racing que prometia muito e terminou em penúltimo no Torneio Inicial; e então, em 2014, a um Botafogo devolvido à Libertadores no primeiro semestre… e que terminou devolvido à segunda divisão no segundo. Para 2015, o cordobês voltou à cidade natal para defender o Belgrano.
Egidio Arévalo Ríos: o uruguaio veio com moral ao Botafogo, em janeiro de 2011, após a boa Copa de 2010 por sua seleção. Mas a parceria alvinegra com o conterrâneo Loco Abreu durou pouco: após vencer a Copa América de 2011, Arévalo Ríos acertou com o futebol mexicano. No Racing, esteve na temporada 2017-18, sem se firmar. Em um dos jogos como titular, Arévalo esteve em derrota em casa para os reservas do Independiente, que priorizava em paralelo a reta final da vitoriosa Sul-Americana…
Gatito Fernández, por sua vez, foi o xodó botafoguense a ter passado pelo Racing
Roberto Fernández:El Gatito dispensa apresentações aos botafoguenses, seja pela fase vivida entre 2017 e 2018 (sobretudo como pegador de pênaltis), pela fidelidade após o rebaixamento de 2020 ou por mostrar-se um reserva empenhado e até efetivo quando foi posto em campo no redentor 2024. Em 2025, voltou para onde tudo começara, o Cerro Porteño. Fora ainda como iniciante no clube paraguaio que o goleiro esteve no Racing, emprestado na temporada 2010-11. Ameaçado de rebaixamento nos promedios, o time até fez temporada digna, com 6º lugar no Apertura e 5º no Clausura, mas para 2011 a diretoria preferiu importar Diego Saja da Grécia.
Renzo Saravia: lateral-direito formado no Belgrano, Saravia foi à Copa América de 2019 no embalo do título argentino com o Racing na Superliga de 2018-19. A fase rendeu transferência ao Porto, mas Saravia não completou seu salto europeu. Já em 2020, começou a peregrinar pelo futebol brasileiro. Chegou do Internacional ao Botafogo em 2022, perdendo a titularidade após lesionar-se. Para 2023, passou o Atlético Mineiro. Calhou de estar do lado alvinegro derrotado na Libertadores 2024. No banco.
Óscar Romero: no Brasil, esse meia é conhecido como o gêmeo talentoso do esforçado atacante Ángel Romero, xodó corintiano. Fora daqui, é justamente Óscar o irmão Romero mais celebrado. Calhou de defender o Racing justamente no período sem títulos entre o Transición 2014 e a Superliga 2018-19, mas teve seus momentos no Cilindro – sobretudo, em 2-0 em 2015 que rendeu a primeira vitória racinguista em Clásicos de Avellaneda desde 2011 (e a primeira desde 2004 na casa rival, quando esta ainda não era o Libertadores de América e sim a antiga Doble Visera), comemorada como título por valer pela final da liguilla pre-Libertadores. Na Argentina, o paraguaio virou ainda o primeiro estrangeiro a defender ao menos três grandes, com passagens posteriores por San Lorenzo (junto ao irmão) e Boca. No Botafogo, chegou da Turquia exatamente em 2024. Mas seria um dos patinhos feios da glória eterna, escanteado à reserva por problemas disciplinares. Acabou dispensado na virada do ano.
Pelé na Argentina é reverenciado mesmo no país de Maradona e Messi, o que contraria a ideia de rivalidade absoluta.
Originalmente publicada pelo aniversário de 75 anos de Pelé, em 23-10-2015 – e revista, atualizada e ampliada
“Pôde ser a hora das grandes frases, mas é a hora da nostalgia. Pôde ser a hora das palavras, mas é a hora do canto. Pôde ser a hora do ontem, mas é a hora do sempre. (…) Quando dizemos que nos despedimos de um amigo, não recorremos à comodidade de uma frase vulgar. Pelé foi, é e será um amigo da EL GRÁFICO. Em quase vinte anos, o reportamos em muitas partes do mundo. Lhe demos o lugar preferencial que damos aos esportistas exemplares. Àqueles por quem vale a pena dizer, sem temores, ‘esse homem fez do esporte um apostolado’. E já que Pelé é nosso amigo, nos custa lhe dizer adeus. É como saber, desde já, que faltará em algum estádio do mundo uma estrela prodigiosa, única, incomparável, que a cada minuto de cada dia poderia universalizar em um mesmo som os aplausos e as felicidades de mil tribunas. Lhe dizemos adeus tão emocionados como nos sentimos no sábado quando juntamos nossas lágrimas com as dele, mas neste adeus lhe estamos dizendo, desta vez, esse gracias que não admite outra palavra. (…) O tchau a Pelé é o tchau a um amigo que nunca se irá, que sempre estará chegando”.
A relação argentina com Pelé já foi não só amistosa, como profundamente devota, como bem indicam as palavras acima – retiradas do editorial da edição em que a El Gráfico cobriu o amistoso de despedida do Rei, no simbólico duelo entre Santos e Cosmos em 1977. A El Gráfico nada mais é do que a principal revista esportiva que os hermanos já tiveram: como revista física, existiu por praticamente cem anos, de 1919 e 2018. Enquanto jogava, Pelé naturalmente estampou várias capas da revista e foi retratado em várias outras reportagens. E até mesmo para critica-lo, em 2012, ela voltou a referir-se a ele como “um amigo da casa”. E é a El Gráfico a principal fonte das “heresias” (ou não) que encontramos: argentinos que acham Pelé superior a Maradona e/ou a Messi. Ou que se mostrem em cima do muro, postura que naturalmente pesa contra a dupla.
Para celebrar em 2009 seus 90 anos, a mesma El Gráfico publicou três tomos sobre grandes personagens, um para cada período de 30 anos. Pelé foi um dos seis esportistas (e um dos dois jogadores de futebol) presentes na capa do segundo tomo, dedicado ao período 1949-78. Mesmo depois de cancelar a circulação física, a revista seguiu ativa na internet e vem gradualmente digitalizando o acervo histórico, o que já incluiu aquela edição que tratou do jogo-despedida de 1977. E foi a própria El Gráfico quem promoveu em 1979 o primeiro encontro de Pelé e Maradona, onde Dieguito se mostrou encantado. Para conhecer logo o ídolo, não hesitou em irritar Claudia Villafañe, já sua companheira (embora só viessem a se casar em 1989), ao aproveitar o então único dia semanal que tinha de folga para namora-la.
Maradona ainda adolescente no quarto, com o adesivo “Pelé Soccer Camps” na parede, e no encontro na Copa 2018
“Eu sabia que Pelé era um Deus como jogador. Agora que o conheci, sei que também o é como pessoa”, teria declarado El Diez segundo a revista: clique aqui; é desse encontro foto famosa onde ambos sorriem juntos com o brasileiro tocando violão. Eles viriam a ter idas e vindas em uma relação que ficou mais marcantemente conturbada após o argentino ser eleito no início de 2001, em eleição da FIFA a partir de votação popular, o melhor jogador da história (na esteira da comoção generalizada pela quase-morte que tivera em 2000, vale contextualizar). Mas ao menos quando Diego vivia o auge, nos anos 80, ele – como veremos – sempre reverenciar quem lhe era ídolo. E o próprio Santos esteve muito perto de abriga-lo, com aval da própria empresa de marketing do Rei, em 1995.
No século XXI, houve tréguas famosas, como na presença de Pelé nas tribunas de honra da Bombonera para o jogo festivo de despedida do rival naquele mesmo 2001; ou a participação do brasileiro no episódio piloto do programa televisivo La Noche del Diez, em 2005, quando trocaram sorrisos e uma célebre sequência de cabeceios… mas já em 2007 a El Gráficoregistrava críticas chulas de Diego ao que via como submissão do rival aos chefões da FIFA. Felizmente, ambos puderam ainda em vida se reconciliar de vez, como bem demonstra o carinho de Diego ao se encontrarem na Copa do Mundo de 2018 e à saudação que fizera para os 80 anos de Pelé em 2020 – no que foi retribuído uma semana depois, quando Maradona fez 58… em homenagem efusivamente reforçada dali a outro mês, quando o argentino faleceu.
OS QUE ACHAM PELÉ MELHOR QUE MARADONA.
Se a El Gráfico passou a ter linha maradoniana, ela já escreveu coisas como “já é um feito irreversível. Não estará Pelé no mundial da Alemanha. Não voltaremos a viver o eletrizante magnetismo do seu futebol em nenhum outro torneio internacional. E então, às vésperas de outra Copa do Mundo, queremos revivê-lo. Invocar o que nos presenteou no México há quatro anos. Recordá-lo em suas tardes inesquecíveis, elevando o grito de gol com um salto de punho apertados, entregando-se ao espetáculo com tudo, sem guardar nada. E queremos agradecê-lo. Dizer-lhe, em imagens e em palavras, que não o esqueceremos nunca”.
A primeira reunião entre Maradona e Pelé, em 1979, e as homenagens mútuas em 2020
As palavras acima foram escritas por ocasião da Copa de 1974. Já em 1968, escreveu-se após amistoso entre Santos e Boca que “se joga Pelé, o espetáculo está assegurado”. A publicação também dissecava as jogadas do brasileiro, sob títulos como “anatomia do gênio” e repercutiu o gol mil (ao qual a exibição do goleiro argentino Edgardo Andrada dera “uma grandeza excepcional”, nas palavras da Placar) sem “impugná-lo”, ao contrário do que vem fazendo recentemente – veja tudo isso ao fim da matéria. Quando a seleção brasileira (pela qual Pelé estreou com direito a gol em duelo contra a própria Argentina, em 1957, no último triunfo que a Albiceleste teve em clássicos no Maracanã até 1998) venceu a Copa de 1970, a revista agradeceu e estampou que Pelé era “o rei que nunca foi príncipe”:veja aqui.
A própria El Gráfico pode ser incluída, em suma, nesse tópico. Pois, ao ser consultada pela congênere brasileira Placar em 1999 para listar os maiores jogadores do século XX, colocou-o acima de Diego… e então aquela eleição popular da FIFA em 2001 iniciou um revisionismo cada vez mais difundido, notadamente para anacrônicos eurocêntricos. Dentre declarações de ex-jogadores argentinos, uma constante é que quem prefere Pelé (ou parece preferir) são os jogadores mais antigos – os mais novos cresceram sobre o dogma inquestionável de que Maradona foi melhor. Há exceções, claro. A mais surpreendente, de um dos melhores amigos de Dieguito: a notícia de que Claudio Caniggia teria declarado ao UOL que “os melhores são Pelé, Diego e Johan Cruyff, nessa ordem” repercutiu na Argentina: clique aqui e aqui.
César Menotti, o técnico campeão da Copa 1978 – e que jogou com Pelé no Santos e treinou Maradona no Barcelona e na seleção -, foi diversas vezes enfático nas comparações. Na Placar que homenageou os cinquenta anos do brasileiro, em 1990 (portanto, ainda no auge de Diego), El Flaco falou como um: “Maradona só será um novo Pelé quando for três vezes campeão do mundo e marcar mais de mil gols”. Em dezembro de 2014, reafirmou a opinião já com Messi incluso na briga. Desta vez, foi em longa entrevista à El Gráfico (disponível aqui). Naquela entrevista de 2014, a pergunta 77 e sua resposta mencionavam Messi, Maradona, Di Stéfano, Cruyff e Pelé. A pergunta 78 então indagou sem rodeios: “nessa mesa quem é o melhor?”. Para Menotti, “Pelé, sem dúvidas. Quando se fala de futebol, tiro Pelé, porque é um extraterrestre, de outro planeta”.
A surpreendente declaração de Caniggia
Menotti reafirmou sua posição nos anos seguintes, em entrevista em 2017 à Folha de S.Paulo (“Pelé é o maior de todos. O que ele fez como jogador não é desse mundo. Ele era o maior em uma época de jogadores espetaculares e ainda foi o grande nome do Brasil de 1970, na melhor equipe de futebol que vi jogar”), e nesse ano de 2022, em entrevista à DSports Radio repercutida pelo TyC Sports: “pessoalmente não o posso pôr em nenhuma comparação porque está longe de todos, absolutamente longe. Depois, acredito eu, cada um em sua época. El Flaco Cruyff, Di Stéfano, Maradona, Messi. Mas Pelé supera todas as épocas desde meu ponto de vista”.
Ex-jogador do Racing em 1964, Menotti jogara rapidamente pelo Santos em 1968 no embalo de um intenso intercâmbio dos praianos com La Academia (Dorval, Silva Batuta, Agustín Cejas e, já nos anos 70, Manoel Maria e Ramón Mifflin…). A imagem que abre essa matéria exibe o Rei com camisa racinguista, embora a Placar já tenha a atribuído à seleção argentina. O outro time de Avellaneda não era menos admirado: em nota à El Gráficoem 1965, Pelé colocava o Independiente como a melhor equipe argentina. Bem, outro argentino ex-colega de Pelé no Santos foi José Ramos Delgado, zagueiro que soube ser ídolo na Vila mesmo já veterano ao chegar. A fonte pertinente, dessa vez, é a edição número 6, de abril de 2009, da extinta FourFourTwo Brasil, em matéria que comparava os dois gênios: para Ramos Delgado, “Pelé foi mais completo. Diego tinha grande habilidade, mais do que o Edson, mas o Pelé tinha tudo: dava instruções, executava, criava, marcava e vencia. Pelé não tinha privilégios e nem os queria”.
Na mesma matéria, outro argentino reconhecia a superioridade de Pelé: Enrique “Macaya” Márquez, bastante prestigiado em seu país por ter coberto todas as Copas do Mundo desde 1958, o que lhe rendeu inclusive homenagem da FIFA na ocasião da Copa do Mundo de 2022, seu 17º trabalho seguido em mundiais. Em março de 2010, essa espécie de Léo Baptista argentino reafirmou sua preferência, dessa vez à El Gráfico, que brincou: “Pelé antes que Maradona? Não vai lhe levá-lo à África do Sul”. O jornalista explicou: “Pelé mudou a vida do Brasil, apareceu e o Brasil começou a ganhar tudo. Antes era um bom time que se assustava com umas patadas. Pelé era mais completo, com maior resto físico, capaz de todos os luxos mas jogava simples”. Mas ressaltou na mesma entrevista que achava Alfredo Di Stéfano melhor que os dois. As declarações estão nas perguntas 97 e 98: clique aqui.
Declarações de Ramos Delgado à FourFourTwo e (no quadrado vermelho) Menotti à Placar – clique para ver ampliado
Outro jornalista longevo foi Julio César Pasquato, mais conhecido pelo apelido Juvenal, que trabalhou na própria El Gráfico desde 1962 (quando já tinha 39 anos) até falecer, no fim de 1998. Dois anos antes, deu seu testemunho à revista, na resposta 23, quando lhe convidaram já em 1996 a opinar entre Pelé e Maradona: “Pelé. Foi três vezes campeão do mundo com o Brasil, duas vezes mais com o Santos, inventava tudo com os pés, tinha uma mão no peito, era um atleta e cabeceava como José Manuel Moreno”.
Moreno era o meia-direita do grande River dos anos 40 e costumava mesmo ser classificado pelos portenhos mais antigos como superior a Maradona, uma tese pró-Pelé que chegou a ser utilizada pela Placar naquela edição especial de 1999 para os craques do século XX. E um desses portenhos foi Félix Loustau, ponta-esquerda daquela mesma equipe do River dos anos 40, apelidada de La Máquina. A qualidade de Loustau revela-se no fato de que ele foi o único titular absoluto da seleção argentina tricampeão na Copa América (ninguém sequer igualou este tri no torneio) apesar das taças virem em anos seguidos, em 1945, 1946 e 1947. No livro River, El Campeón del Siglo – Todo su Fútbol, publicado na época do centenário do clube, consta esta declaração de Loustau, que ainda vivia: “quem foi o melhor jogador de todas as épocas? El Negro Pelé. Depois vem Moreno. Maradona é bom, muito bom, mas está longe de Pelé e Moreno”.
Outro que acha Pelé superior a Diego, mas já não a outro argentino, é José Sanfilippo. Trata-se do maior artilheiro do San Lorenzo e grande figura das finais da Libertadores de 1963, quando defendeu o Boca e marcou todos os três gols auriazuis sobre o Santos; conhecido pela personalidade forte, El Nene Sanfilippo sempre se gabaria no sentido de que foi o real craque daquelas finais, mesmo que terminasse vice. Posteriormente, enfrentou Pelé também pelo Bahia, naquela partida famosa em que os tricolores se recusaram a sofrer o milésimo gol e com isso acabaram vaiados pela própria torcida.
Sanfilippo (o quase estraga-prazeres da Libertadores 1963) e Menotti
Sanfilippo declarou em abril de 2015 em outra série de perguntas promovida pela El Gráfico que já achava Messi o melhor de todos, mas que teria até brigado com Maradona por achar-lhe inferior ao brasileiro. Foi na resposta 69 (clique aqui): “Em uma nota me perguntaram quem havia sido melhor, se Pelé ou Maradona, e respondi que Pelé, dando toda uma explicação de que havia sido mais completo, e então Maradona me tachou de ‘traidor da pátria’. (…) Lhe processei. Ganhei e Diego não podia sair do país se eu não o autorizasse, porque vinha de outros processos prévios desfavoráveis. Então o autorizei e ele me agradeceu publicamente, mas para Maradona teria sido mais fácil me dar um milhão de dólares que ter que pedir-me desculpas publicamente”.
Ao ser indagado em 2005 pela El Gráfico sobre o melhor gol que lhe haviam feito, porém, Gatti respondeu: “os do negro Pelé. Para quem não o viu, Pelé foi [Michael] Jordan com os pés”. A revista retrucou: “se Pelé foi Jordan, Maradona quem foi?”. Na metáfora do goleiro, “Ginóbili”, em alusão ao cracaço argentino líder da geração de ouro do basquete alviceleste e do San Antonio Spurs, mas um jogador comum perto do mito do Chicago Bulls. Estes trechos estão nas perguntas 81 e 82 desta entrevista.
Pelé e Antonio Rattín desenvolveram até amizade após tantos encontros nos anos 60. A foto da direita, tirada em 2010 pelo autor da nota, os mostra atrás da camisa do Rei exposta no museu do Boca
Radicado em Madrid e convertido em fervoroso torcedor madridista (algo assumido naquela mesma entrevista de 2005), Gatti viraria notícia após a final da Copa do Mundo de 2022: seguia colocando Messi como abaixo de Maradona e minimizava até a redenção de La Pulga, enfatizando que Kylian Mbappé teria tido desempenho superior na final do Qatar. Mais um ídolo histórico do mesmo Boca de Maradona a preferir Pelé foi o ex-xerife Antonio Rattín, que enfrentou diversas vezes Santos e Brasil com o Rei de adversário. Outro entrevistado pela El Gráfico, Rattín respondeu em dezembro de 2013 à pergunta “quem foi o melhor da história” que “o 1 foi Pelé, o 2 é Maradona e aí já ponho Messi no páreo (…). Se El Negro estiver aqui, passo para cumprimenta-lo”. Palavras das respostas 84 e 85 disponíveis aqui.
Por fim, vale destacar alguém um tanto suspeito como notório desafeto de Maradona ao perder ao braçadeira de capitão na seleção: Daniel Passarella, o maior zagueiro que a Argentina já teve, não titubeou ainda em 1995 ao colocar Pelé como o melhor jogador que vira – na resposta 88. Colega de Passarella na seleção de 1978, o coringa Omar Larrosa, apontado pela El Gráficocomo o melhor argentino no 6-0 sobre o Peru, depôs à revista em 2017 – e apontou o seguinte: que na infância “sempre” procurava assistir o Santos quando Pelé & cia vinham à Argentina (resposta 16); e que, entre o Rei, Maradona e Messi (resposta 92), “os três estão em um nível parelho, com distintas características, mas El Negro foi maravilhoso, um escalão acima. Tinha tudo”.
OS “EM CIMA DO MURO” E AFINS
Primeiro vencedor da Libertadores como jogador e como técnico, curiosamente na dupla Racing (em 1967) e Independiente (em 1973), Humberto Maschio teve linha similar à de Sanfilippo: mesmo em 2011, El Bocha já colocava Messi como acima de todos. Mas no tocante a Maradona, não: a resposta final de Maschio foi um “primeiro, Messi. Um degrau abaixo, Di Stéfano, Pelé e Maradona no mesmo nível. E Cruyff, um degrauzinho atrás”.
Declaração de Loustau sobre Pelé e Maradona, no retângulo vermelho (clique para ver ampliado), em enciclopédia do River. E a avaliação de Macaya Márquez na FourFourTwo
Omar Sívori, contemporâneo de Pelé e lenda na Juventus, e ex-colega de Maschio tanto pela seleção argentina (na vitoriosa Copa América de 1957) como pela italiana (na Copa do Mundo de 1962) fez uma declaração dúbia, preferindo Maradona ao mesmo tempo em que achava o brasileiro melhor: “não creio que Maradona tenha sido melhor que Pelé, Di Stéfano ou mesmo Cruyff. O que a mim sim dá possibilidade de responder é que, para mim, o jogador que mais me divertiu na vida foi Diego Maradona”.
Linha semelhante à de Sívori foi adotada por um dos maiores escudeiros de Maradona, o técnico Carlos Bilardo, campeão da Copa de 1986 e que despertava ciúmes na própria filha diante do tamanho da relação paternal que tinha com o pupilo. Mas, ao menos na primeira edição da da FourFourTwo Brasil, em novembro de 2008, quando foi indagado para montar seu time dos sonhos, El Narigón saiu-se assim: ao mesmo tempo em que depõe que Maradona, no auge, teria sido o mais completo, assumia que sua concepção era pautada sobretudo pela relação pessoal de quem o tinha praticamente como filho postiço: “prefiro Diego por causa do meu relacionamento com ele, mas Pelé foi uma maravilha”. Bilardo tratou de escalar a dupla junta.
Também encontramos outras opiniões sugestivas, ainda que não explícitas. Humberto Grondona, filho do ex-chefão da AFA, Julio Grondona, foi outro submetido às longas entrevistas da El Gráfico. Mencionou Maradona diversas vezes, sempre friamente. Indagado sobre o personagem do futebol que mais o impressionara, respondeu assim (clique aqui e veja a resposta 53): “depois de 49 anos tive a sorte de conhecer meu ídolo: Pelé. (…) Nunca pedi um autógrafo a ninguém, mas nessa vez fui com um guardanapo. Havia pedido várias vezes a meu pai a camiseta de Pelé, mas nunca me trazia”.
Declarações de Ardiles e Bilardo à FourFourTwo e ranking da El Gráfico (no retângulo vermelho) consultado pela Placar sobre os melhores do século XX – clique para ver ampliado
Imortalizado como artilheiro da vitoriosa Copa de 1978, Mario Kempes também declarou que seu grande ídolo foi Pelé, na resposta 60 de outra centena de perguntas da El Gráfico (veja aqui): “uma vez o vi em Buenos Aires. O apresentou-me um amigo e falamos por meia hora. Não entendo por que os argentinos lhe têm bronca. A rivalidade com Maradona não tem sentido, os dois foram grandes em diferentes épocas”. Osvaldo Ardiles, ex-colega de Kempes no Instituto de Córdoba e no título mundial de 1978, falou de forma parecida. Foi naquela mesma edição da FourFourTwo Brasil que comparou a dupla na análise de Macaya Márquez.
Como Bilardo, Ardiles escalou ela junta no seu time dos sonhos: “ele fazia tudo – gols, passes, cabeceios, tinha velocidade, usava os dois pés. Era quase o jogador perfeito. Os números falam por si – mais de 1.000 gols e três Copas do Mundo. Ele também jogava em uma época em que os atletas ofensivos não eram tão protegidos pela arbitragem. Muitos perguntam se (Maradona) era melhor que Pelé, mas não dá para compara-los. Pelé marcava gols, Maradona os criava. Ele era ótimo com seus passes e com os espaços que criava”. Aliás, Garrincha também foi escalado por Ossie.
Héctor Veira, maior ídolo do San Lorenzo, ex-Corinthians, técnico do River campeão pela primeira vez da Libertadores e do Mundial e que treinou Maradona no Boca, não se decidiu: “não posso escolher, não posso. Para mim há cinco jogadores que estão acima do resto: Di Stéfano, Pelé, Garrincha, Maradona e Messi. E todos em uma mesma linha”. Está na resposta 70 desta entrevista de 2013. Alfredo Rojas, atacante ex-Boca e River e que foi às Copas de 1958 e 1966, declarou algo similar, em 2015: “há três jogadores que estão acima do resto, que foram distintos de todos: Di Stéfano, Maradona e Pelé. Creio que Messi não tem os marcadores que tinham os outros antes, seguiam Pelé por todo o campo”.
No destaque, outro registro com Rattín, à direita
Em 2016, Jorge Griffa, marcador de Pelé no jogo decisivo da Copa América de 1959 (conquistada pela Argentina na única vez em que o Rei participou do torneio) e depois celebrizado como olheiro de muitas futuras joias do Newell’s de Bielsa e do Boca de Bianchi, também se esquivou – a El Gráfico lhe indagara na pergunta 36 em que lugar colocava Messi na comparação com Pelé, Maradona, Di Stéfano e Cruyff: “no mesmo grupo dos outros quatro. Quer dizer, entre os cinco maiores da história. Todos em um nível parecido”. Vale ver ainda a opinião de fãs argentinos do futebol em grupo de Facebook com dezenas de milhares membros. Os mais velhos tenderam a preferir Pelé: confira aqui; é necessário ter conta na rede social, mas não precisa integrar o grupo para acessar a discussão.
O PRÓPRIO MARADONA, NO AUGE, JÁ PREFERIU PELÉ
O vídeo abaixo, disponível pela primeira vez no Youtube através do Futebol Portenho, é um trecho de doze segundos extraído do DVD Maradona – Nápoles a seus Pés. Indagado se os torcedores napolitanos estão certos em achá-lo superior ao brasileiro, Diego, em italiano, responde de forma categórica: “não. Maradona é Maradona. Pelé foi il più grande. Eu sou um jogador normal”.
Eventualmente, o Youtube retirou o vídeo do ar, mas recarregamos o vídeo na ocasião dos 80 anos de Pelé – clique abaixo e confira. E, mais abaixo, algumas das muitas páginas que a El Gráfico dedicou ao Rei. Encerramos com outras palavras daquela edição de 1977, a também registrar que “o futebol ingressava numa nova era, a era pós-Pelé” e que “o veredito da história” era no sentido de que o Rei é “o maior futebolista que jamais existiu” e que, sem questionar o gol mil, até apontava que Pelé pôde despedir-se marcando o gol número “1.278 em 1.356 jogos”.
É só amanhã os 80 anos de Pelé. Mas vale desde já resgatar nota nossa dos 75, onde mostramos que há argentinos que o acham superior a Maradona. Como o próprio Dieguito! Ao menos nesse vídeo em pleno auge no Napoli, se disse "um jogador normal" perto do Rei https://t.co/kcIV5rQ5xGpic.twitter.com/YrzqCWBzTf
Aquela reportagem de 1977 destacou que o interesse por aquele Santos x Cosmos foi tamanho a ponto de gerar briga interna de políticos indianos por ingressos em bons lugares, contando ainda com a presença de: todos os capitães das seleções campeãs mundiais entre 1958 e 1974; do pai Dondinho e do prefeito de Três Corações; às celebridades Robert Redford, Barbra Streisand, Muhammad Ali, Henry Kissinger, Diane Keaton, Claudette Colbert, Sérgio Mendes, Mick Jagger, Frank Sinatra e de Jeff Carter, filho do então presidente ianque (Jimmy Carter).
Mas o ponto alto são as palavras que iniciaram a matéria dedicada àquela despedida. Atualíssimas:
“Te foste, Pelé – diria o poeta -, deixando uma estrela de glória a admiração. Te foste, Pelé, e já dói o vazio do ébano milagroso e genial. Te foste, Pelé, em um dia cinzento, quando vá saber que estranhos duendes desataram as fúrias do tempo. Não era chuva, era dilúvio, tormenta, vendaval. Era o pranto desconsolado de milhões de meninos, de milhões de homens, de milhões de fantasmas. Não, se não foi festa. Apesar de toda cor e música que colocaram.
Não podia ser festa. Se ias embora, Pelé… deixavas o futebol na mais comovente solidão. Sem magia, sem imaginação. Por isso chovia, por isso todos ficavam abaixo dessa chuva. Queriam sofrer porque era uma tarde sofredora. E pensava na Suécia e no Chile e no México. E pensavam no Santos, em Coutinho, nas tabelas. Pensavam no gol mil, em reis e em príncipes. História, já és pura história. E sinto o fardo de buscar palavras que digam o indizível. Quero cantar a ti e as musas não acodem. Te foste, Pelé. Te seguiremos esperando. Sempre”.
Registros da despedida de Pelé colhidos pela El Gráfico de 1977: a presença de todos os capitães campeãs da Copa do Mundo entre 1958 e 1974 à Muhammad Ali e irmão junto de Dondinho, pai de PeléO gol mil acompanhado por El Gráfico em 1969O gol mil acompanhado por El Gráfico em 1969O gol mil acompanhado por El Gráfico em 1969El Gráfico reconhecendo a validade de gols até em amistosos em 1969Nesta reportagem, a El Gráfico diz acima da foto à esquerda que o repertório de Pelé é “o mais extenso conhecido no futebol do mundo” – clique para ver ampliadoDestaque para a referência ao milésimo golDissecando os chutes de PeléMais análises sobre as jogadas do brasileiroRevista nostálgica em 1974 com a “magia que já não estará”, a das jogadas de Pelé em 1970Após o desempenho decepcionante do Brasil em 1974, a El Gráfico se entristeceu com o fim do reinado de Pelé“O mundo aclama Pelé o melhor futebolista do mundo (ele é)”, manchete de capa de 1961. Capa de 1977 sobre o adeus. E o segundo tomo da publicação especial de 2009
Antonio Angelillo antecede Hernán Crespo, o nome que costuma vir à cabeça quando se fala de argentinos na Inter e no Milan.
Hernán Crespo tende a ser o primeiro nome à mente ao buscar rememorar os argentinos da dupla Internazionale e Milan. Mas está longe de ser o único: antes dele, Andrés Guglielminpietro cometeu a “traição” na virada do século e Matías Silvestre foi o mais recente em linhagem iniciada por Antonio Valetín Angelillo. Que, se vivo estivesse, faria hoje 85 anos. Angelillo também virou a casaca no cenário seleção, defendendo a Argentina em que nasceu, na capital federal, e a Itália onde faleceu (em Siena, em 5 de janeiro de 2018). Em Milão, pôde ser artilheiro da Serie A por um e campeão com o outro. Chegou mesmo a ser o segundo argentino com mais gols no calcio, além de ter média invejável de gols com a Albiceleste. Hora de relembra-lo.
Angelillo foi formado inicialmente em um clube que já não existe, o Arsenal da cidadezinha de Llavallol, que não deve ser confundido com o de Sarandí. Segundo falou em 2007 o próprio Angelillo, um célebre olheiro, Aníbal Díaz (que também descobriria Daniel Bertoni, autor do último gol da vitoriosa Copa de 1978), o descobrira “em uma várzea em Parque de los Patricios. Havia me visto jogar. Aí me falou do Arsenal, dos Torneios Evita. E eu fui e joguei. Aí me formei, aprendi disciplina. Foi o trampolim da minha carreira. [Díaz] era muito severo e amante do futebol inglês. Nos fazia vestir bem, não queria que tivéssemos barba nem o cabelo grande. Nos dizia como tínhamos que cabecear, como matar com o peito. Te ensinava a travar, como te perfilar. Estava em todos os detalhes, algo que hoje é muito comum, mas que naquela época não era”.
O meia-atacante Humberto Maschio, o meia Natalio Sivo e o volante Vladislao Cap foram os mais ilustres parceiros de Angelillo em Llavallol e foram os três conjuntamente adquiridos inicialmente pelo Quilmes e então repassados ao Racing. Uma vez no gigante de Avellaneda, tratam de recomendar o garoto também, convertido em racinguista em 1955. Sua estreia no campeonato argentino se deu na 3ª rodada e logo viu dois gols daquele adolescente de 18 anos incompletos, inicialmente escalado na meia-direita. Dois gols que serviram para vencer fora de casa e de virada por 2-1 o Huracán, em 15 de maio. Na rodada seguinte, abriu o 3-0 no Ferro Carril Oeste. Contudo, logo se viu como estava compreensivelmente verde. Não marcou mais nenhum gol e foi praticamente esquecido depois da 10ª rodada; só voltou a campo na 17ª, também em branco, sem contribuir tanto na campanha vice-campeã daquele ano.
Ao todo, foram só mesmo três gols em nove partidas por La Acadé, mas o Boca tratou de ter mais paciência com o garoto. E não se arrependeu, apesar da pré-temporada não parecer auspiciosa: Angelillo não chegou a marcar nos quatro amistosos, em excursão a São Paulo na segunda quinzena de março – derrota de 3-2 para o Santos, derrota de 2-0 para o Palmeiras, um apertado 4-3 na Portuguesa e dura queda de 4-1 contra o Corinthians. A liga argentina começou em 15 de abril e Angelillo enfim retribuiu, abrindo o 4-1 sobre o Vélez. A 2ª rodada já foi o Superclásico e, embora não evitasse a derrota de 2-1, o garoto deixou o dele. Na 6ª rodada, anotou um verdadeiro golaço ao concluir no alto uma jogada em que deixou três adversários do Lanús (a grande sensação daquele campeonato, em elenco vice-campeão apelidado de Globetrotters) pelo caminho.
Os clubes argentinos de Angelillo: Arsenal de Llavallol, Racing (rosto inferior, com os dois à esquerda sendo os de Corbatta e Maschio, logo parceiros dele na seleção) e Boca
“Fui centroavante por casualidade. Quando cheguei ao Boca, [José] Borello era o titular indiscutido. A princípios do campeonato se lesionou com gravidade e eu passei a jogar com a 9”, relembraria em depoimento registrado no perfil dele na edição especial em que a revista El Gráfico elegeu em 2010 os cem maiores ídolos do Boca. Angelillo jogou pouco, mas jogou também muito – sua inteligência, sutileza e capacidade de improviso foram outras características destacadas de quem, ao todo, somou 19 gols em apenas 36 jogos com a azul y oro na liga argentina. Seu grande ano nela seria mesmo em 1956: com apenas nove rodadas disputadas, o adolescente já até estreava pela seleção argentina – em 8 de julho, pela Copa do Atlântico, contra o Brasil (0-0).
Ao todo, foram quatorze gols e sete assistências em 29 partidas pelo Boca pelo campeonato de 1956. O clube é que não ajudava muito; até liderava ao lado do River ao fim do primeiro turno, mas perdeu gás na reta final, com a disputa se centralizando entre o arquirrival, campeão com 43 pontos, e o surpreendente Lanús, que parou nos 41. Restou aos xeneizes fechar o pódio, com 4-0; em tempos em que vitórias valiam dois pontos e não três, o título foi matematicamente definido ainda antes da rodada final.
Em paralelo, Angelillo se firmava rapidamente na seleção. Passou em branco na segunda partida, em derrota de 1-0 em Assunção para o Paraguai em 15 de agosto pelo troféu binacional Copa Chevallier Boutell. Mas a partir do terceiro jogo, apenas quatro dias depois, ele praticamente não parou mais de colocar a bola na rede para a Albiceleste: foi o único em amistoso contra a Tchecoslováquia, no estádio do San Lorenzo. Sua partida seguinte não é considerada estatisticamente – foi um amistoso não-oficial contra o Grêmio (!), um 0-0 no antigo Olímpico.
Ainda em 1956, fez uma quarta partida pela Argentina, em 14 de novembro, deixando um no 2-2 com o Uruguai pelo troféu binacional Copa Lipton. Isso e o grande desempenho individual no Boca o fizeram ousar um contrato melhor perante a diretoria boquense. Os cartolas julgaram a solicitação como excessiva e não titubearam em suspender o jovem, mas ele seguiu afiado, dessa vez na seleção. Primeiramente, em outro amistoso não-oficial, contra uma ascendente equipe do Atlanta. Ele anotou dois gols no impiedoso (e esquecido) 12-1.
Corbatta, Maschio, Angelillo, Sívori e Cruz, os “Carasucias de Lima”. À direita, o trio Maschio, Angelillo e Sívori nos anos 90
Em março de 1957, então, foi disputada no Peru uma Copa América em seis jogos em pontos corridos. Angelillo somou simplesmente oito gols nas cinco primeiras partidas, suficientes para garantir por antecipação a conquista dos chamados Carasucias de Lima – “Cara Sujas” era uma gíria argentina para moleques, em alusão à jovialidade do quinteto ofensivo formado por Omar Corbatta, Maschio (ambos do Racing), ele, Omar Sívori (River) e Osvaldo Cruz (Independiente).
Ele contaria como o trio foi casualmente formado: “a princípio, não encontrávamos as posições, mas numa noite, em um amistoso entre titulares e reservas no campo do Huracán, Maschio foi de meia-direita, Sívori jogou de meia-esquerda e eu de centroavante. Ganhamos por onze gols e não trocamos mais”. Maschio descreveria assim aquele ataque, em 2011: “Corbatta e Sívori se sobressaíam por sua habilidade. Angelillo e eu éramos simples, dois goleadores: de fato eu meti nove gols no torneio; e ele, oito”. A ordem foi dois no 8-2 sobre a Colômbia, outros dois em 3-0 vistos até como aquém do esperado sobre o Equador, um em 4-0 no Uruguai, dois no 6-2 sobre o Chile e então o primeiro nos 3-0 sobre o Brasil – em arremate preciso inalcançável para Gilmar, aos 23 minutos, aproveitando com oportunismo um rebote de Djalma Santos.
O resultado bastou para a Argentina ser campeã por antecipação, festa que afetou visivelmente o desempenho na rodada final, contra o campeão Peru, vencedor por 2-1 – sem que Angelillo marcasse. Somando os cinco jogos com gols dele naquela Copa América aos dois oficiais imediatamente anteriores em que atuou, ainda em 1956, acumulou dez gols em apenas sete jogos. Sua ficha no livro Quién es Quién en la Selección Argentina, publicado em 2010, exalta que os dez gols ao longo de sete partidas consecutivas “é a melhor marca histórica em encontros seguidos”. Ainda em Lima, três dias depois o Peru permitiu uma revanche em amistoso que viu a forra dos hermanos e de Angelillo, a registrar seu golzinho nos 4-1.
Angelillo, porém, só atuaria apenas mais outras duas vezes pela Argentina, em troféus binacionais com o Uruguai: 0-0 pela Copa Newton em 23 de maio, em Montevidéu; e 1-1, com o décimo gol dele no ano, em 5 de junho, pela Copa Lipton. Aqueles dez gols em 1957 seguem como uma das melhores marcas anuais da seleção até hoje – o recorde vigente, por exemplo, são os doze de Batistuta em 1998 e de Messi em 2012. O mesmo livro Quién es Quién en la Selección Argentina também destaca que total de doze gols em treze jogos também rende a Angelillo uma das melhores médias de gols da história da Albiceleste.
Juan Carlos Giménez, o técnico Guillermo Stábile, Rogelio Domínguez, Pedro Dellacha, Néstor Rossi, Ángel Schandlein e Federico Vairo; Omar Corbatta, Humebrto Maschio, Antonio Angelillo, Omar Sívori e Osvaldo Cruz
Atualizações: ao fim da Copa do Mundo de 2022, Messi estabeleceu duas nova marcas. Inicialmente, superou o recorde de gols em jogos seguidos de Angelillo, ao primeiramente acumular os mesmos dez gols em apenas quatro partidas seguidas (todos no 5-0 na Estônia, dois no 3-0 em Honduras, dois no 3-0 na Jamaica e um no 5-0 sobre os Emirados Árabes) e então ao chegar em doze em seis jogos seguidos, com os gols feitos na derrota de 2-1 para a Arábia Saudita e no 2-0 sobre o México. Ao fim do Mundial, chegou a dezessete gols (com os anotados sobre Austrália, Holanda, Croácia e os dois sobre a França) com a seleção em um só ano, batendo o próprio recorde paralelo de doze anuais que dividia com Batistuta. Vale ainda acrescentar depoimento do folclórico cartola Massimo Moratti, a rotular em outubro de 2022 que os maiores atacantes que vira na sua Inter foram Ronaldo e… Angelillo.
O livro também destaca outra estatística, mas para lamentar – “quando disputou sua última partida com a casaca alviceleste, tinha só 19 anos e 9 meses: é um dos mais jovens a ter se despedido da seleção”. Angelillo só permaneceria no Boca até a 5ª rodada do campeonato de 1957, iniciado em 5 de maio. Deu tempo para registar dois gols (ambos no 2-0 no Independiente) e uma assistência. Uma lesão inoportuna foi o que inicialmente impediu mais partidas, segundo salientou a enciclopédia oficial do centenário do clube. Mas ela não atrapalhou um negócio com a Internazionale, fechado em 5 milhões de pesos.
Na época, ainda se proibia a convocação de quem atuasse fora do país, algo só alterado nos anos 70. Com isso, o infernal trio Maschio-Angelillo-Sívori terminou como ausência sentida na Copa do Mundo de 1958, marcado pela vexaminosa queda argentina ainda na fase de grupos após um 6-1 para a mesma Tchecoslováquia derrotada dois anos antes com gol de Angelillo. É que o calcio também levara El Bocha Maschio (Bologna) e El Cabezón Sívori (Juventus). Ao todo, foram somente dez meses a serviço da seleção argentina, ainda que suas estatísticas excepcionais lhe reservassem um lugar entre os cem maiores ídolos que a revista El Gráfico elegeria para a Albiceleste em 2011.
Sair cedo demais também lhe traria outro problema, como cidadão argentino: ele não cumpriu o alistamento militar, obrigatório até a presidência de Carlos Menem a todo homem de 21 anos e a fama não impediu que fosse denunciado como desertor das forças armadas, sujeitando-o ao risco de prisão caso pisasse novamente na Argentina (algo que realmente ocorreria, ao menos por algumas horas, com o franco-argentino Néstor Combin em 1969). Com isso, ficou sob exílio forçado por um longo tempo – não se arriscando a comparecer nem mesmo ao velório e enterro do próprio pai, ressaltou aquele livro Quién es Quién en la Selección Argentina.
Ele não aparece na foto, mas ela registra seu gol em Gilmar para abrir os 3-0 sobre o Brasil, jogo que definiu ainda na penúltima rodada o título da Copa América
O cartão de visitas de Angelillo na Serie A veio na 3ª rodada da temporada 1957-58, quando marcou seus primeiros três gols na Itália, em 5-2 na Lazio. Apesar do presságio interessante, demorou até o segundo turno para ter maior sequência artilheira; no primeiro, só marcou em outra partida (duas vezes, em 2-0 na Sampdoria). Mas o returno viu onze gols em 17 rodadas, alçando-o a artilheiro de um elenco nerazzurro que terminou apenas em 9º lugar. Ironia é que, permitindo-se a não convocar nem ele, nem Sívori e nem Maschio para o Mundial da Suécia, a Argentina enfrentou os três, em jogo não-oficial que serviu de amistoso pré-Copa em 21 de maio de 1958. Os dois colegas reforçaram pontualmente a Inter naquela partida em San Siro. E, justiça seja feita, a Albiceleste ganhou de 2-0.
A grande temporada de Angelillo na Itália seria a segunda, a de 1958-59. Já começou com hat trick na estreia, anotando todos os gols interistas nos 3-1 fora de casa na Udinese. Na 4ª rodada, foram cinco gols no sonoro 8-0 na SPAL. Também anotou pela primeira vez no dérbi de Milão, em 1-1 com o Milan. Compensava sequências de jogos em branco com outros em que deixava ao menos dois gols e assim conseguiu acumular exatamente 33 gols em 33 partidas. Não bastou para a Inter obter o scudetto (fechou o pódio seis pontos abaixo do Milan), mas rendeu-lhe um recorde e também a artilharia. Foi, inclusive, o terceiro argentino a ser artilheiro do campeonato italiano, e após um expressivo tempo – os antecessores Julio Libonatti e Enrique Guaita conseguiram na virada dos anos 20 para os 30.
Cheio de moral, Angelillo inclusive veio a se tornar o mais jovem capitão (quando o costume era a braçadeira ser dada ao jogador há mais tempo no elenco) da Inter até 2015, quando Mauro Icardi superou-o. Na temporada 1959-60, os números despencaram para onze gols e a Inter, para o 4º lugar, mas ainda assim o argentino enfim foi aproveitado pela seleção italiana. Ele era ainda tão novo que, após defender a Argentina, fez sua primeira partida pela Itália ainda pela equipe sub-23, em 13 de março de 1960, em 3-0 (com três gols de outro oriundo, o brasileiro José “Mazzola” Altafini) sobre a Espanha.
Angelillo ainda teve um interessante início de temporada 1960-61, marcada pela chegada do histriônico treinador argentino Helenio Herrera à equipe de Milão. Foram sete gols nas nove primeiras rodadas da Serie A, o último em 27 de novembro. Assim, em 10 de dezembro ele estava embalado para estrear pela seleção principal da Itália, um amistoso contra a Áustria em Nápoles. Não foi uma jornada auspiciosa, derrotado por 2-1. Mas o pior viria depois: pelo restante da temporada, só marcou outro golzinho na liga. Estava sob boicote aberto de Herrera que justificou-se já em 1964 de modo curto e grosso: “HH” declarou que Angelillo era um jogador com “grande capacidade futebolística diminuída – quando estava em minha equipe – por suas relações donjuanescas. Não teve problemas comigo: o retirei e pronto”.
Dois outros registros com Sívori: antes de um Inter x Juventus e na seleção italiana
A Inter ficou em 3º, a cinco pontos do título na famosa temporada marcada pelo duelo com a campeã Juventus virar de vez o Derby d’Italia, mas a diretoria preferiu bancar Herrera e vender à Roma o outrora ídolo – abrigado então em uma panelinha argentina no ataque, reforçado também com Francisco Loiáconoem setor em que já brilhava Pedro Manfredini; também chegou Luis Carniglia como treinador. Na capital, Angelillo foi reposicionado para o meio-campo (ou mezz’ala, em terminação mais específica aos fãs de tática), deixando de vez de ser o artilheiro de outrora. Ironicamente, pôde terminar com números melhores na Serie A do que quando boicotado: foram dez gols.
Em paralelo, pôde, finalmente, conseguir um primeiro título clubístico: a temporada 1960-61 da Copa das Feiras, precursora da atual Liga Europa, se estendeu até outubro e ele foi autorizado a reforçar os giallorossi nas finais contra o Birmingham City. Esse contexto lhe rendeu uma segunda partida pela Itália, mas também a última; foi em 4 de novembro de 1961, pelas eliminatórias à Copa do Mundo. Embora até marcasse seu golzinho, Israel, surrada por 6-0 em Turim em quatro gols de Sívori, não era o melhor parâmetro de adversário. E Angelillo acabaria novamente de fora de uma Copa do Mundo. A Azzurra levaria ao Chile justamente os antigos parceiros Sívori e Maschio, este lembrado de última hora após lesão de Gianpiero Boniperti. E que não deixou de tomar as dores do amigo.
Maschio ao menos não deixou de disparar pesadamente contra Herrera naquela entrevista de 2011: “não gostava dos argentinos, era ciumento. Eu não gostei dele nunca; Angelillo, tampouco. Ele arruinou Angelillo. Nessa época, Angelillo saía com uma bailarina, mas o sujeito não queria a relação. A moça era dez anos mais velha que ele, então impactava o rendimento e Herrera, malandro, lhe diz: ‘tire uma semana para descansar, assim te recuperas’. O que Antonio ia fazer, recém-apaixonado? Foi a Veneza com a namorada e fisicamente se afundou. Terminou a semana e lhe disse: ‘amanhã tens que jogar com os reservas’. Angelillo lhe respondeu: ‘mas mister, acabei de chegar’. E Herrera: ‘vai te fazer bem, assim vais te preparando’. No outro dia convocou a imprensa e Angelillo não podia caminhar. ‘Este é o ídolo de vocês, vejam como está’, dizia Herrera. Sem-vergonha”.
Angelillo dera a sua versão ainda em 1967, não menos rancorosa, a ponto de festejar a derrota interista – e de Herrera – na final da Liga dos Campeões daquele ano: “estive desde 1957 até 1961 na Inter. Bah… até que veio Helenio Herrera, esse sujeito desprezível. Como me alegro de que perdeu agora! Tudo chega na vida, e eu sabia que a esse também ia lhe tocar perder. Te juro uma coisa: no dia em que perderam com o Celtic, brindei pela derrota. Como preparador, é bom. Mas, como pessoa, não dá. Sabes o que faz? Se mete na tua casa, na tua vida privada. E sempre busca alguma confusão que o faça famoso. Te dás conta? Eu era a figura da equipe, por exemplo. Fui artilheiro em 1959, com 33 gols em 33 partidas. Ele não concebe que haja uma figura superior a ele”.
Roma campeã da Liga Europa (ainda Copa das Feiras) de 1961, com três argentinos: Angelillo (primeiro em pé), Loiácono (primeiro agachado) e Manfredini (penúltimo agachado)
A seleção argentina tampouco o prestigiou para o Mundial. Além de ainda resistir a convocar estrangeiros, ela ainda por cima era comandada por um discípulo que Herrera havia feito no Atlético de Madrid, o ex-atacante Juan Carlos Lorenzo, que assumidamente se espelhava em “HH” – anulando assim qualquer chance de Angelillo aparecer no Chile servindo novamente a Albiceleste. Mas a queixa maior em relação a Lorenzo teria de natureza, justamente quando El Toto o quis consigo e terminou prejudicando-o, segundo outras declarações de Angelillo naquela mesma entrevista de 1967 – que destacava que àquela altura ele já estava à procura de algum clube nos EUA ou na Colômbia embora nutrisse alguma esperança pelo Peñarol.
Ao resumir a sucessão de outros contratempos que lhe afetaram após deixar a Inter, explicou que: “passei à Roma e permaneci quatro anos. E justo quando o Milan ia me comprar, Juan Carlos Lorenzo veio à Roma. E sabes o que diz? Que se eu fosse ele não toma a direção técnica. Davam 150 milhões de liras [moeda italiana pré-euro] pelo passe, e eu levaria um montão de grana. Mas aí não termina a desgraça. Veja o que sucede no ano seguinte: vou passar, junto com Sívori e Altafini, ao Napoli (temporada 1964-65) e sofro uma ruptura nos meniscos… me operam; o Napoli não me compra e passo ao Milan. Fiquei na temporada 1965-66 e depois me deram ao Lecco. Acreditei que morria… um povoadozinho, uma equipe desastrosa e, como se não bastasse, fomos ao rebaixamento”.
Ironicamente, ele teve por Roma e Milan os títulos que lhe faltaram na Inter: como romanista, além da Copa das Feiras, faturou também a primeira Copa da Itália vencida pela Loba, na temporada 1963-64. Como milanista, após os empréstimos mal sucedido no Lecco, foi um ilustre reserva no scudetto de 1967-68. Foi usado apenas três vezes na campanha, com um golzinho, em 2-1 no Torino já pela 27ª rodada. Os rossoneri também levantaram naquela temporada a Recopa Europeia e a emendariam, já sem o argentino, com a conquista da Liga dos Campeões e do Mundial Interclubes em 1969, quando o Angelillo já reforçava um modesto Genoa.
Registro raro de Angelillo no Milan
Ele pendurou as chuteiras após duas temporadas escondido no Angelana, em 1971, ganhando como jogador-treinador a última divisão. Quando parou, era o segundo maior artilheiro argentino da Serie A, com seus 98 gols (em 255 jogos) superados apenas pelos 147 do compadre Sívori. Outros já vieram a supera-los (Sívori está atrás de Crespo e de Batistuta e Angelillo, também de Higuaín, Icardi, Balbo e Dybala), mas ambos ainda são o primeiro e o segundo argentinos na marca de quantidade de gols em um só jogo pelo campeonato – aqueles cinco gols de Angelillo na SPAL em 1958 só foram superados, com asteriscos, pelos seis que El Cabezón anotou em enganoso 9-1 sobre os juvenis da Inter em 1961.
De 1971 a 1988, Angelillo foi um técnico em diversos clubes pequenos da Itália, sem o maior dos relevos para além de um título de Serie C1 com o Arezzo (em 1982), com as camisas mais “pesadas” sendo as do Brescia, Reggina, Pescara, Avellino e Palermo. Chegou na sequência a conciliar no Marrocos o mesmo cargo no clube FAS Rabat (foi campeão marroquino em 1989) e na seleção nacional, voltando à Itália em 1991 para trabalhar no Torres.
Em 1993, com a Era Menem extinguindo a famigerada obrigatoriedade do alistamento militar entre os argentinos, chegou a ser sondado para assumir o Boca, que procurava um substituto para o maestro uruguaio Oscar Tabárez – mas os cartolas optaram inicialmente por Jorge Habbeger, salientou o perfil do ex-atacante no site estatístico Historia de Boca. O clube seguinte foi chileno mesmo, e o último, o Provincial Osorno (em 1994). Desde então, vinha servindo a Inter como emissário e observador de talentos na América do Sul – sendo creditado como mentor das chegadas dos longevos Iván Córdoba e Javier Zanetti.
Em 2007, a revista El Gráfico contou a trajetória do sumido Arsenal de Llavallol e encerrou-a com uma menção a Angelillo, grato ao olheiro Gordo Díaz: “em uma vez que fui a Buenos Aires, um ex-companheiro de Arsenal me chamou e me disse que El Gordo me havia deixado esse documento para mim. Isso e uma frase: ‘ao Antonio não tive que ensinar nada. Ele sabia tudo’. Me caíram as lágrimas”.