Futebol e Rugby – Parte 9: o Club de Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires Caio Brandão - 31/10/2011 - 15:04

Certos ideais e noções estéticas da Antiguidade Ocidental Clássica, reavivados no Renascimento, voltaram a ganhar força ao fim do século XVIII. Inicialmente nas artes, por meio dos neoclássicos e dos árcades, posteriormente tiveram grande difusão também pela crescente prática de atividades físicas nas classes mais ricas. Esta parte deu-se a partir da segunda metade do século XIX, culminando na primeira edição moderna dos Jogos Olímpicos (em 1896). Sob este signo, e de certa forma também devido à paralela preocupação higienista deflagrada com a nascente microbiologia (Louis Pasteur formulou em 1862 a teoria dos micróbios, descobertos por ele, como causadores de doenças), o cuidado com o corpo teve sua importância redescoberta.

Assim, práticas desportivas vieram a ganhar popularidade para além do lazer, constituindo parte integral da formação educacional das pessoas. Pedagogos, cientistas, militares e pensadores em geral concordavam quanto à utilidade e necessidade de exercícios físicos, para moldar adequadamente corpo (prevenindo assim doenças) e espírito (contra “desvios de conduta”) – e, na face sórdida, também a “raça” (a eugenia estava igualmente em voga na época).

Em Buenos Aires, isto levou a surgimentos de diversos clubes dedicados a um ou mais esportes (praticados também nas escolas), em muitos casos com incentivos estatais. Dentre eles, a Sociedad Hípica Argentina, o Tiro Federal Argentino, a Unión Velocipédica Argentina e o Tenis Club Argentino, instalados na nobre zona norte da cidade. Próximo a eles, no bairro de Palermo, foi fundado em 1880 o Club de Gimnasia y Esgrima (denominação original). Como indica o nome, ele foi criado para a prática de ginástica e esgrima, então considerados os esportes por excelência da elite criolla. Será justamente o único clube criado pelos hispânicos a ter um especial para si nesta série.

Trata-se de uma instituições desportivas mais antigas da Argentina. Seu sucesso inspiraria propostas semelhantes em todo o país: já em 1885 alguns entusiastas seus na recém-fundada La Plata (inaugurada em 1882 após planejada criação para ser a capital da província bonaerense, dois anos após a cidade de Buenos Aires ser alçada a distrito federal) começaram as discussões acerca da criação de um clube similar local; em 1887, estava fundado o Gimnasia y Esgrima de La Plata, que acabaria sendo, dentre seus homônimos, o mais ilustre no futebol, além de também ter trilhado o rúgbi (como se verá no próximo e último especial da série),

Outros GyE foram então se espalhando pelo país. Além do portenho e do platense, hoje eles abrangem desde aqueles que também já disputaram a elite do futebol argentino, como os de Jujuy e Mendoza, passando pelos de Ituzaingó, Rosario (estes, de maior presença recente no rúgbi; o rosarino já jogou futebol também), Comodoro Rivadavia, Lanús, Pedernera Unidos de San Luis (mais dedicados ao basquete; o lanusense também já passou por futebol e rúgbi), Chilvilcoy, Concepción del Uruguay, Santa Fe, Tandil e até outros existentes na capital federal, nos bairros de Flores, Vélez Sarsfield, Villa del Parque (outro mais dedicado à bola ao cesto) e Villa Devoto, fora outros semelhantemente obscuros.

Muitos deles vieram a adotar também distintivo e uniforme (de cores branco e azul celeste, tal qual a bandeira da Argentina) similares aos do pioneiro. Na imagem, a camisa e escudo originais do Gimnasia de Buenos Aires, obtidos no Amateurismo in Colores (que reproduz as vestimentas de equipes argentinas de futebol extintas ou desativadas, muitas dos quais já objetos desta série de especiais). Posteriormente, foi acrescentado ao emblema, além de adereços relativos às atividades em que se dedicava originalmente, o famoso verso do poeta romano Juvenal, mens sana in corpore sano (“mente sã em corpo são”, em latim), que bem exprime as inspirações por trás da criação do clube. A abreviação mens sana se tornaria uma alcunha de muitos Gimnasias.

O futebol e o rúgbi, por sua vez, ainda eram esportes mais restritos à comunidade britânica, seja em seus clubes (o Buenos Aires Football Club e o Porteño, por sinal, eram seus vizinhos de bairro, também sediados em Palermo), escolas (St. Andrew’s Scots SchoolLomas Academy e Buenos Aires English High School, por exemplo) e empresas (como a Buenos Aires and Rosario Railway), só vindo a encantar os criollos em maior escala já no início do século XX. E o GEBA experimentou um sucesso meteórico em ambos. No futebol, venceu a terceira divisão em 1906 e a segunda em 1909, ano em que venceu também a segundona do rúgbi logo em seu debute ali. Afiliado na União de Rúgbi em 1908, foi a pedido dele que ela passou a publicar suas atas e regramentos também em espanhol, além do inglês.

No futebol de elite em 1910, o Gimnasia obteve uma razoável sexta colocação em sua estreia e, no mesmo ano, chegou às fases decisivas das copas internacionais, a Honor e Competencia (torneios eliminatórios com equipes rosarinas e das associações argentina e uruguaia). Na primeira, caiu nas semifinais, e, na segunda, alcançou a decisão da etapa argentina. A equipe não voltaria a ir tão longe nelas. Aquela final da Competencia de 1910, curiosamente, reuniu um Gimnasia e um Estudiantes. Mas não os hoje mais famosos homônimos de La Plata, e sim os de Buenos Aires, atualmente mais obscuros (e que nunca tiveram rivalidade entre si). O adversário levou a melhor, por 3 a 1.

O GEBA, após nova sexta colocação argentina em 1911 (ano em que sua equipe de rúgbi obteve seu primeiro título na URBA, sendo a primeira criolla campeã lá), liderou a cisão que provocou a realização de dois campeonatos argentinos separados em 1912 (ano em que o rúgbi da instituição foi bicampeão). Entendendo que seus sócios tinham o direito de usufruir livremente de suas instalações, o clube não aceitou cobrar ingressos deles, contrariando a Associação Argentina de Futebol. Ele, o Porteño e o Estudiantes de La Plata fundaram a Federação do Futebol Argentino, trazendo consigo alguns clubes da segunda divisão, dentre os quais o Atlanta e o Independiente.

Os três torneios da FAF (as duas ligas se reunificariam em 1915) foram os campeonatos de elite em que o Gimnasia y Esgrima portenho teve suas melhores colocações, disputando os títulos nos dois primeiros. No de 1912, ficou em quarto, a dois pontos dos líderes Porteño e Independiente. No de 1913, foi o vice-campeão, três pontos atrás do Estudiantes (desta vez, o de La Plata mesmo, surgido por sinal em 1905 por ex-membros do próprio Gimnasia de lá, descontentes com a suspensão da recém-iniciada prática de futebol neste). No seguinte, ficou em quinto, para depois ocupar a 12ª posição no primeiro campeonato reunificado.

Os campeonatos de 1916 e 1917 seriam os últimos em que o GEBA disputou no futebol. Marcaram também os dois únicos encontros oficiais nele com o xará platense, que debutou na elite no primeiro destes. O GELP venceu ambos, respectivamente por 1 a 0 e 2 a 1. Após ganhar apenas quatro partidas, empatar outras quatro e perder as doze restantes no campeonato de 1917, os gimnasistas da capital argentina encerraram o certame em vigésimo, à frente apenas do Banfield, e foram rebaixados. Logo, o futebol foi desativado. Os únicos troféus acabaram sendo aqueles da terceira e segunda divisão.

Imagens do estádio Club de Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires. Encontra-se mais ou menos entre o Hipódromo Argentino e o Aeroparque Jorge Newbery, no bairro de Palermo

Apesar da duração fugaz no futebol, o Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires teve tempo para entrar na história sul-americana deste esporte. Em 1914, o seu estádio foi o local da realização dos dois primeiros Brasil x Argentina (que marcaram também os primeiros jogos unanimemente tidos como válidos da Seleção Brasileira, até então reunida apenas para amistosos contra clubes e combinados), pela primeira Copa Roca, disputa reativada neste ano de 2011 sob o nome de Superclássico das Américas.

Três jogadores do GEBA estiveram na primeira partida – Arturo Reparaz, Aquiles Molfino e Santiago Sayanes (presente também no segundo). O Futebol Portenho, em sua série de especiais sobre a Copa Roca, naturalmente dedicou um (aqui) à inaugural, incluindo fotos dos dois selecionados antes do jogo, em que Molfino foi capitão e autor de um gol na vitória por 3 a 0 dos anfitriões.

A cancha deste Gimnasia  foi ainda sede de cinco dos seis jogos da primeira Copa América, em 1916. Também neste ano, o clube teve seu único artilheiro na primeira divisão argentina: Marius Hiller. Além de ter atuado três vezes pela sua Alemanha natal (assim como um tio seu, Arthur, outro a ter jogado pela Nationalmannschaft), Hiller também defendeu a Argentina.

Seleção Alemã antes de partida contra os amadores da Inglaterra, em 1911. Hiller é o quarto em pé, da esquerda para a direita. Na Argentina, jogou também no All Boys, no River Plate e no Estudiantil Porteño

Por ela, jogou apenas duas vezes, ambas naquele 1916, contra o Uruguai (em vitórias por 3 a 1 e 7 a 2), mas marcando quatro – até hoje, sua média de dois gols por partida é a melhor da história da Seleção Argentina. Apenas Guillermo Stábile a igualou, com seus oito tentos em quatro jogos (todos na Copa do Mundo de 1930, onde El Filtrador foi o artilheiro). Hiller foi também, por muito tempo, o estrangeiro que mais vazou as redes adversárias pela Albiceleste, sendo superado somente por Gonzalo Higuaín (que nasceu na França).

Além do alemão e daqueles três que estiveram na primeira peleja contra os brasileiros, Antonio Apraiz, Antonio Bruno, Emilio Fernández, Santiago Gallino, Eduardo Rothschild (da célebre família judaica banqueira) e Amadao Vernet também defenderam a seleção vindos do clube de Palermo. Os dois últimos jogaram ainda no San Isidro, outro objeto desta série de especiais.

Jogadores de futebol soçaite do Gimnasia de Buenos Aires

Se o futebol hoje em dia é praticado apenas na forma soçaite no GEBA, o rúgbi continua na ativa ali, embora sem tanto destaque na URBA. Além do bicampeonato de 1911 e 1912, o clube obteve outros dois títulos (em 1932 e 1939), sendo o sétimo maior vencedor do mais valorizado torneio argentino deste esporte, em que ele originou nada menos que três dissidentes: Pucará, Deportiva Francesa e Curupaytí (curiosamente, todos rubroazuis). O primeiro fez mais sucesso: venceu a URBA em 1946 e 1950 e hoje figura na elite provincial mais respeitada do país.

O Gimnasia, atualmente, também está na primeira divisão da URBA, mas veio a entrar em decadência a partir da década de 50. Ainda assim, seu estádio era o mais utilizado pelos Pumas até o final dos anos 60. O último jogo da Seleção Argentina de Rúgbi (que hoje prefere o campo do Vélez Sarsfield) disputado ali foi em 1993. Outro fator que o liga ao selecionado é o fato de que foi do GEBA a ideia de uma camisa com listras alvicelestes horizontais de dez centímetros cada. Até essa sugestão, em 1927, a Argentina jogava rúgbi ou de camisas totalmente brancas ou totalmente azuis.

Atualmente, o Gimnasia de Buenos Aires vem tendo maior sucesso recente no hóquei sobre grama (bastante popular entre as mulheres na Argentina, cuja seleção feminina – Las Leonas – é uma das maiores forças da modalidade), tendo sagrado-se vencedor dos três últimos torneios metropolitanos e dos dois últimos nacionais. É outro das dezenas e dezenas de esportes praticados na instituição, que veio a formar muitos dos atletas olímpicos do país.

Lucha Aymar e Piti D’Elía, duas Leonas do GEBA, hoje melhor no hóquei sobre grama do que no rúgbi

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A partida pelo terceiro lugar marcou a despedida de Shane Williams por seu País de Gales. Tratava-se do maior tryman em atividade em jogos de seleções. Antes do torneio, já somava 56 tries: 54 por Gales e dois pelos British and Irish Lions, estando nesta história atrás apenas de Daisuke Ohata (aposentado neste ano e que somou 69 pelo Japão) e David Campese (retirado em 1996 após conseguir 64 pela Austrália). Nesta Copa, Williams, de 33 anos, efetuou mais dois, incluindo um nesta partida. O lance colocou a seleção do dragão momentaneamente à frente do placar, vencendo parcialmente ali os australianos por 8 a 7.

Os Wallabies, porém, não tardaram a virar e conseguiram o bronze com um 21 a 18 – isto somente porque os britânicos, em outra noite de má pontaria (erraram três penais e um chute de conversão, contra duas penalidades desperdiçadas pela Austrália), conseguiram nos acréscimos da partida novo try. Na foto, Williams é cumprimentado pelo jovem David Pocock, zimbabuano de nascença que foi eleito o melhor jogador australiano em 2010.

A final opôs a anfitriã Nova Zelândia e a França, que já haviam se enfrentado na primeira fase, com arrasadora vitória neozelandesa por 37 a 17 sobre os reservas franceses. No primeiro tempo da decisão, os All Blacks esboçaram um novo triunfo sem maiores dificuldades. O discreto Tony Woodcock aproveitou enorme buraco na defesa adversária e conseguiu um try aos 15 minutos, ao receber a bola em lateral próximo à linha de fundo dos europeus. A conversão foi perdida por Piri Weepu, que tivera diante dos Pumas argentinos a sua última exibição boa no que se refere a chutes. Ele, que não fora bem também nas semifinais contra a Austrália, desperdiçou ainda três penais na etapa inicial. Os locais abriram 8 a 0 no início do segundo tempo justamente com um penal cobrado por outro jogador, Stephen Donald.

Donald, por sinal, só foi integrado ao elenco nas semifinais, após as lesões de dois jogadores de sua posição, entrando no decorrer da final depois da contusão de outro deles, Aaron Cruden. Fora de forma e de fato visto como decadente antes do torneio, acabaria como outro herói improvável, pois seu acerto se mostraria decisivo: um minuto depois, o capitão dos Bleus, o incansável Thierry Dusautoir, conseguiu um try, com François Trinh-Duc acertando na conversão e deixando os europeus com apenas um ponto de desvantagem.

Stephen Donald celebrado pelos colegas no pódio; franceses, com Thierry Dusautoir à frente, esperando para receber a medalha de prata

Ainda com mais de meia hora pela frente, a Nova Zelândia resolveu segurar o escore, arrastando dramaticamente a partida. O resultado final (que ficou nos 8 a 7) poderia ter sido outro se o mesmo Trinh-Duc e também Dimitri Yachvili convertessem outros chutes franceses, que, após uma Copa irregular, receberiam com justiça a Taça Webb Ellis caso vencessem o derradeiro jogo – Dusautoir, inclusive, foi eleito o melhor em campo.

Os neozelandeses, mesmo jogando feio, conseguiram o que lhes era mais importante: a vitória, o título, a quebra de um jejum de 24 anos sem conquistas nas Copas e a igualdade com a rival Austrália e a África do Sul entre os maiores vencedores da competição. Exatamente os três países que a Argentina passará a enfrentar três vezes anualmente cada um, a partir do ano que vem, no Torneio Quatro Nações, a reunir as melhores seleções de rúgbi do hemisfério sul.

Nova Zelândia: Israel Dagg, Cory Jane, Conrad Smith, Ma’a Nonu (Sonny Bill Williams), Richard Kahui, Aaron Cruden (Stephen Donald), Piri Weepu (Andy Ellis), Kieran Read, Richie McCaw, Jerome Kaino, Samuel Whitelock (Ali Williams), Brad Thorn, Owen Franks, Keven Meleamu (Andrew Hore) e Tony Woodcock. Técnico: Graham Henry.

França: Maxime Médard, Vincent Clerc (Damien Traille), Aurélien Rougerie, Maxime Mermoz, Alexis Palisson, Morgan Parra (François Trinh-Duc), Dimitri Yachvili (Jean-Marc Doussain), Imanol Harinordoquy, Thierry Dusautoir, Julien Bonnaire, Lionel Nallet, Pascal Papé (Julien Pierre), Nicolas Mas, William Servat (Dimitri Szarzewski) e Jean-Baptiste Poux (Fabien Barcella). Técnico: Marc Lièvremont.

O capitão Richie McCaw erguendo a Taça Webb Ellis

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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