As outras vitórias brasileiras contra o Boca na Bombonera Caio Brandão - 8/03/2012 - 20:26

Iarley, nome da última vitória brasileira na Bombonera pela Libertadores até ontem. Comemorando seu gol no triunfo do Paysandu, em 2003

Na última quarta (07/03), pode-se dizer que o Fluminense fez história, ao impor uma das poucas vitórias brasileiras no Boca Juniors dentro da temida La Bombonera, o mítico estádio xeneize que pulsa ao invés de tremer, conforme as lendas. Foi o 11º revés do Boca em casa para brasileiros – apenas o 4º, se considerada apenas a Libertadores – em 48 jogos, que contabilizam outros 11 empates e 26 vitórias boquenses (na principal competição sul-americana, estes números são respectivamente 3 e 9; vale lembrar que, mesmo nos empates, o Boca levou a melhor no torneio). Neste especial, o Futebol Portenho irá lembrar os dez triunfos brazucas anteriores na Rua Brandsen, nº 805.

O primeiro clube do Brasil a enfrentar o Boca no então Estádio Camilo Cichero (o nome oficial mudou em 2000 para Alberto J. Armando) foi o Juventus, em amistoso de 1956. O time da Rua Javari sofreu a primeira derrota tupiniquim, mas marcou o primeiro gol brasileiro na caixa de bombons: Bernardi fez o de honra na derrota por 1-4 no inimaginável duelo entre os bairros de La Boca e Mooca.

A primeira vitória não tardou. Flamengo e Vasco pegaram os auriazuis em uma excursão conjunta à Argentina em janeiro de 1958, saindo-se bem: os cruzmaltinos conseguiram dois empates em duas partidas, em 2-2 e 1-1. Os rubronegros jogaram apenas uma vez na ocasião, no dia 31, mas trouxeram consigo o melhor resultado: 4-2 com dois gols de Moacyr (que seria contratado pelo River Plate posteriormente. Relembramos isso neste outro especial do FP), um de Zagallo e outro de Dida; os três seriam campeões mundiais naquele ano pela seleção. O uruguaio Javier Ambrois marcou os dois dos anfitriões, que ali tiveram a primeira derrota para um time estrangeiro dentro da Bombonera.

O segundo triunfo brasileiro veio logo outro ano depois. Novamente, os bosteros receberam dois clubes do país vizinho em seu estádio e não conseguiram vencer. O Palmeiras arrancou um empate em 1-1, com Américo igualando o escore (aberto pelo mesmo Ambrois) a oito minutos do fim. Três dias antes, em 25 de fevereiro, Gessy protagonizara um massacre gremista, marcando os quatro da vitória tricolor por 4-1, que teria sido maior não fosse o desconto de Edwards aos 37 do segundo tempo.

No início de 1961, o Boca voltou a receber brasileiros, desta vez quatro. Não só enfim venceu em casa Flamengo (4-0) e Vasco (2-0), como sapecou um 5-0 no Corinthians, com direito a dois gols do brasileiro e ex-corintiano Almir Pernambuquinho. Mas, contra o São Paulo, quem fez cinco foram os visitantes. Baiano e Agenor marcaram duas vezes cada e Gonçalo, outra. Já com o placar em 5-0, o peruano Miguel Loayza diminuiu a nove minutos do fim, em 25 de janeiro.

Dois anos depois, teve-se a primeira vitória brasileira válida por um torneio oficial, logo na decisão da Libertadores de 1963. Primeiro time argentino a chegar tão longe na competição, o Boca estava confiante. Após despachar o Peñarol nas semifinais, assustou o Santos na partida de ida: o alvinegro venceu por 3-2 depois de chegar a abrir 3-0 no Maracanã. Autor dos dois gols (o segundo, no penúltimo minuto), o goleador José Sanfilippo, aproveitando o rebote de Gilmar, ainda abriu o placar logo no início naquele 11 de setembro na Bombonera, animando ainda mais os 65 mil presentes.

O Santos é um dos dois únicos brasileiros que já derrotaram o Boca na Bombonera duas vezes. Camisa de Pelé (na foto, com Rattín) exposta no museu boquense, nas instalações do estádio

Detentores do título, porém, os santistas logo responderam: Pelé, atraindo a marcação de quatro auriazuis, serviu um Coutinho livre na pequena área para empatar, aos cinco. O bicampeonato foi enfim definido aos 37: Pelé recebeu de Coutinho, driblou o brasileiro Orlando (colega seu na Copa de 1958 e, anos depois, no próprio Santos) e, à queima-roupa de Errea, virou o jogo para o Peixe.

O mesmo Santos retornou à Bombonera no ano seguinte, em 10 de agosto, e, em amistoso, obteve nova vitória. Em roteiro similar à partida pela Libertadores no Maracanã um ano antes, os praianos abriram um 3-0, com Peixinho, Zito e Pelé marcando ainda antes dos 30 do primeiro tempo. Na segunda etapa, Juan José Rodríguez e o brasileiro Paulinho Valentim diminuíram. Peixinho e Valentim ainda marcaram outras vezes, em um eletrizante 4-3.

Tão insólito quanto o primeiro time brasileiro a conhecer a Bombonera foi o dono da sexta vitória: foi o Botafogo de Ribeirão Preto, que já havia conhecido o estádio em 1962, quando perdera de 1-2 em meio à excursão que renderia à equipe a alcunha de Pantera das Américas; na ocasião, Rezende diminuiu o placar aberto por Paulinho Valentim e Ferreño. Nove anos depois e em um segundo amistoso entre ambos, em 11 de julho de 1971, o Botinha deixou Buenos Aires com um 5-3 na bagagem, com gols de Paulinho, Marco Antônio, dois de Ferreira e um contra de Suñé. Savoy e Curioni (este, duas vezes) anotaram as comemorações boquenses.

Mais de duas décadas iriam se passar para a chegada da sétima derrota do Boca em casa para algum brasileiro. Até lá, o time já havia feito ótimo uso do lar contra Cruzeiro (na final da Libertadores de 1977), Atlético Mineiro (semifinal da Libertadores seguinte), Grêmio (nas Supercopas de 1988 e 1989, nesta na semifinal), Corinthians e Flamengo (ambos caídos na Libertadores de 1991, respectivamente nas oitavas e quartas-de-final) e São Paulo e outra vez Atlético (ambos na Copa Ouro de 1993). Quem conseguiu foi o Cruzeiro, em 16 de março de 1994, na fase de grupos da Libertadores.

A Raposa já contava com o garoto Ronaldo, a ser convocado para a Copa do Mundo meses depois, além do veterano Toninho Cerezo. O Fenômeno inclusive marcaria o tento da vitória de virada por 2-1 no Mineirão (três semanas depois, em 6 de abril), passando por toda a zaga e pelo goleiro Navarro Montoya antes de concluir um de seus maiores golaços. Antes, na Bombonera, ele sofreu a falta convertida pelo lateral Paulo Roberto, aos 15 minutos do segundo tempo. Treze minutos depois, Roberto Gaúcho ampliou, ao receber livre um belo passe de Luís Fernando Flores (autor do outro gol brasileiro em Belo Horizonte). Roberto seria contratado no ano seguinte pelo Huracán.

Beto Acosta descontou no final da partida, cabeceando cruzamento de Sergio Martínez no canto esquerdo do camaronês William Andem, o arqueiro dos mineiros. Mas o Boca, que vinha de um empate em casa contra o Vélez Sarsfield (futuro vencedor daquela Libertadores) e uma acachapada de 1-6 para o Palmeiras em São Paulo, cairia vexaminosamente na primeira fase, e ainda por cima na lanterna do grupo: os únicos pontos que somou ali foram os de vitória em seu estádio sobre o Palmeiras por 2-1, duas semanas depois do triunfo cruzeirense ali, e o de um empate no confronto doméstico ante o Vélez.

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Martínez e Célio Lúcio no Boca 1-2 Cruzeiro na Libertadores 1994; e Amarildo, obscuro herói do São Paulo (o outro clube brasileiro que já venceu duas vezes o Boca na Bombonera) pela Supercopa 1995

No ano seguinte, o São Paulo igualou-se ao Santos, obtendo sua segunda vitória contra o Boca na Bombonera. Dez dias antes, Maradona havia reestreado no clube do coração, e no futebol (ficara um ano e meio suspenso após ser flagrado no antidoping na Copa de 1994), em amistoso contra a seleção da Coreia do Sul. Mas, como o time já encontrava-se eliminado na Supercopa, El Diez não foi escalado para o jogo de 10 de outubro, último compromisso do Boca no torneio. De fato, a Bombonera, onde o São Paulo perdera pelo mesmo torneio na edição anterior, ficou estranhamente vazia naquela noite, em que o personagem acabou sendo o atacante Amarildo.

Isto porque ele (vice-campeão brasileiro com o Internacional, em 1987 – fez o gol colorado na primeira partida das finais contra o Flamengo) marcou ali dois dos três gols que fez em dezesseis exibições com a camisa são-paulina, virando o escore que Márcico, de pênalti, inaugurara. Walter Pico ainda igualou novamente o placar, mas Caio, o atual comentarista da Rede Globo, decretou a vitória tricolor aos 42 do segundo tempo naquele 10 de outubro de 1995.

Nem mesmo Maradona pôde levantar os Xeneizes, aposentando-se dois anos depois, sem troféus. Para os brasileiros, a mística do time da Ribeira e de seu estádio só voltaria com força no final da década e no início do novo século. O clube emendou um bicampeonato nas Libertadores de 2000 e 2001, ano em que, nas quartas-de-final, tirou o Vasco (que, antes de perder também em São Januário, vinha de oito vitórias em oito jogos no torneio e com mais de trinta de invencibilidade no total) do caminho com um 3-0.

Nessas edições, quem soube suportar bem foi o Palmeiras, que arrancou dois empates (2-2 na final de 2000 e 0-0 na semifinal de 2001). O Verdão, que já havia se saído com um 1-1 nas quartas-de-final da Copa Mercosul de 1998 (que conquistaria), porém, teria em ambas o desgosto levar a pior em casa, nos pênaltis. Pela Mercosul, em  2000, o Boca venceu o Corinthians, na primeira fase. Na mesma edição, pelas quartas-de-final, o Atlético Mineiro obteve um 2-2 na Argentina. Ao vencer no Mineirão por 2-0, o Galo conseguiu ser o único a levar realmente a melhor naquele período, em que o Boca mostrou-se continuamente uma verdadeira assombração para brasileiros.

Mas a nona vitória na Bombonera, mesmo, só viria em 2003. Pelas oitavas da Libertadores, o Boca teve pela frente o surpreendente Paysandu. O time de Belém já havia feito história só por classificar-se à competição, sendo o primeiro (e, ainda hoje, único) clube da Região Norte a disputar o torneio. Historicamente marcado por sucessos apenas ocasionais fora do Pará, o Papão chegava invicto: fora de casa, vencera o Sporting Cristal na estreia, goleara o Cerro Porteño com um 6-2 no Defensores del Chaco e arrancara um empate com a Universidad Católica. Terminou a primeira fase líder de seu grupo.

Ainda assim, era compreensível que os paraenses tivessem viajado à Bombonera com o pensamento de não perder por muito. Mas, a despeito de ficarem com nove em campo – Robson, àquela altura artilheiro da competição, recebera o vermelho já no início da partida, juntamente com Clemente Rodríguez, após catimba mútua; Vanderson seguiu os dois após soltar o cotovelo em Guillermo Barros Schelotto (futuro carrasco dos alviazuis) no começo da segunda etapa -, os bicolores não só souberam segurar o ímpeto do adversário como conseguiram uma vitória imaginada por muitos bem poucos, alcançada com um solitário gol aos 23 do segundo tempo. Iarley recebeu de Sandro Goiano na entrada da grande área, cortou de uma vez dois marcadores da jogada e acertou em cheio a meta de Abbondanzieri.

Três meses depois daquele 24 de abril de 2003, o próprio Iarley acabaria contratado pelo já campeão Boca, onde se tornaria ídolo. No período, os experientes comandados de Carlos Bianchi reverteram no Mangueirão o prejuízo e, na decisão, tiveram a doce vingança sobre o Santos, com um 2-0 no Alberto J. Armando e um 3-1 no Morumbi sobre os Meninos da Vila de Diego e Robinho quarenta anos após a derrota na final de 1963.

D’Alessandro, ex-ídolo do River Plate, vibra contra o antigo rival: o Internacional, em 2008, fora o último brasileiro a vencer o Boca de Gaitán na Bombonera

A década seguiu-se com nova invencibilidade em La Boca: São Paulo na Recopa de 2006 e nas quartas-de-final da Sul-Americana de 2007, Grêmio na decisão da Libertadores de 2007 (praticamente perdendo no jogo de ida a disputa com um 0-3) e Cruzeiro nas oitavas-de-final da Libertadores de 2008 sucumbiram em seguida na Bombonera. Apenas o Tricolor Paulista conseguiu levar a melhor (na referida Sul-Americana, classificou-se no Morumbi, na partida da volta).

Mesmo a décima vitória foi para quem já havia saído derrotado pouco tempo antes: o Internacional levou de 2-4 na semifinal da Sul-Americana de 2004 e de 1-4 nas quartas-de-final da edição de 2005 da competição – ambas a serem faturadas pelo próprio Boca. Também pela Sul-Americana, nas quartas-de-final de 2008, o Inter logrou um 2-1 em 6 de novembro. Magrão abriu o placar no início do segundo tempo, aproveitando de cabeça um cruzamento de Nilmar. Dez minutos depois, após Edinho cometer pênalti em Dátolo (atualmente, jogador do próprio Colorado), Riquelme igualou.

O Boca precisava fazer mais três gols (havia perdido por 0-2 na ida), mas acabou se abrindo e levando mais um. O hoje corintiano Alex, que marcara os dois gols da vitória no Beira-Rio, desviou cruzamento do ex-River Plate D’Alessandro para as redes de Javier García. A exemplo dos confrontos anteriores, do vencedor sairia o futuro campeão da Sul-Americana: o Inter conseguiria o título, por sinal, sobre outro argentino, o Estudiantes de La Plata. Até o Boca reencontrar o Fluminense, essa havia sido não apenas a última derrota como também o último jogo contra brasileiros na Bombonera.

Além dos mencionados, outros sete times brazucas já se depararam contra o Boca: Atlético Paranaense, Avaí, Botafogo, Canto do Rio, Portuguesa, São Caetano e São Cristóvão. O jogo contra o São Caetano foi o único não-amistoso; nas quartas da Libertadores de 2004, a peleja na Argentina foi no estádio do Racing (o mesmo utilizado contra o Fluminense nas semifinais da Libertadores de 2008), com os brasileiros caindo nos pênaltis após o segundo empate entre os dois no mata-mata.

Fora o Azulão, apenas o Botafogo, destes sete, também desafiou o Boca na Argentina, inclusive vencendo: um 2-0 com gols de Gianinho e Dino da Costa (futuro jogador da seleção italiana), mas em partida disputada no campo do San Lorenzo. Curiosamente, na outra vez que enfrentou o Boca em Buenos Aires, a cancha também era de outra equipe: no gramado do River Plate, o Fogão saiu derrotado por 0-1 em amistoso de 1964.

Abaixo, o retrospecto total dos clubes brasileiros – foram quatorze – em jogos contra o Boca em La Bombonera (em itálico, atualizações após esta matéria):

Atlético Mineiro: duas derrotas (1-3 na Libertadores 78; 0-1 na Copa Ouro 93) e um empate (2-2 na Copa Mercosul 2000).

Botafogo de Ribeirão Preto: uma vitória (5-3 em amistoso de 1971) e uma derrota (1-2 em amistoso de 1962).

Corinthians: três derrotas (0-5 em amistoso de 1961; 1-3 na Libertadores 91; e 0-3 na Mercosul 2000) e um empate (1-1 na Libertadores 2012).

Cruzeiro: uma vitória (2-1 na Libertadores 94), três derrotas (0-1 na Libertadores 77;  0-1 na Supercopa 97; 1-2 na Libertadores 2008) e um empate (0-0 na Supercopa 96).

Flamengo: uma vitória (4-1 em amistoso de 1958) e duas derrotas (0-4 em amistoso de 1961; 0-3 na Libertadores 91).

Fluminense: uma vitória (2-1 na Libertadores 2012) e uma derrota (0-1 na Libertadores 2012).

Grêmio: uma vitória (4-1 em amistoso de 1959) e três derrotas (0-1 na Supercopa 88; 0-2 na Supercopa 89; 0-3 na Libertadores 2007).

Internacional: uma vitória (2-1 na Sul-Americana 2008) e duas derrotas (2-4 na Sul-Americana 2004; 1-4 na Sul-Americana 2005).

Juventus: uma derrota (1-4 em amistoso de 1956).

Palmeiras: uma derrota (1-2 na Libertadores 94) e quatro empates (1-1 em amistoso de 1959;  1-1 na Mercosul 98; 2-2 na Libertadores 2000; 0-0 na Libertadores 2001).

Paysandu: uma vitória (1-0 na Libertadores 2003).

Santos: duas vitórias (2-1 na Libertadores 63; 4-3 em amistoso de 1964), duas derrotas (1-2 em amistoso de 1961; 0-2 na Libertadores 2003) e um empate (1-1 em amistoso de 1968).

São Paulo: duas vitórias (5-1 em amistoso de 1961; 3-2 na Supercopa 95), quatro derrotas (0-1 na Copa Ouro 93; 0-2 na Supercopa 94; 1-2 na Recopa 2006; 1-2 na Sul-Americana 2007) e um empate (1-1 em amistoso de 1961).

Vasco da Gama: duas derrotas (0-2 em amistoso de 1961; 0-3 na Libertadores 2001) e três empates (2-2 e 1-1 em amistosos de 1958; 2-2 na Mercosul 2001).

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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