Félix Loustau, o Chaplin do Futebol

Loustau em 1955

Há exatamente 10 anos, em 5 de janeiro de 2003, faleceu um dos maiores ponta-esquerdas do futebol. Neste especial, relembraremos dele, Félix Loustau, nascido há pouco mais de 90 anos, no dia de natal de 1922 em Avellaneda. Ele ficou eternizado na mais célebre linha ofensiva do grande River Plate dos anos 40, conhecido como La Máquina.  Foi a última peça a se juntar.

Surgiu no decorrer da campanha do título de 1942. Vinha das categorias de base, depois de ter tentado o futebol também no Racing, de sua Avellaneda natal, e no Sportivo Dock Sud. Neles, ainda se considerava um defensor. O físico esmirrado (que, juntamente com um bigode que ostentou certa vez, lhe apelidou para sempre como Chaplin) não convenceu o especialista Renato Cesarini, que lhe diagnosticou no River: “usted tiene que jugar de wing izquierdo, hágame caso que le va a ir fenómeno”.

Loustau acatou a ordem do técnico, cumprindo-a com maestria. Não se restringia ao ataque: roubava a bola do volante adversário e se mandava adiante, dosando piques com freios para confundir rivais. Alfredo Di Stéfano, seu futuro colega, disse que “Félix foi completo. Tinha capacidade, temperamento, sacrifício, força, técnica. Era um jogador do campo inteiro”. De fato, os companheiros lhe recordam por colaborar na defesa e também ao servir um colega livre no ataque.

“Por isso”, já disse Loustau, “rio quando escuto dizerem que antes éramos vagos, que não corríamos. Sempre terminava as partidas com 3 ou 4 quilos a menos”. O próprio técnico Cesarini lhe dava um dia extra de folga para recuperar o peso. “Joguei com jogadores que viveram todas. Por exemplo, fui só um par de vezes a um cabaré, algo que naqueles tempos era um ritual inevitável. Mas não para mim, que com meu físico pequeno tinha que me cuidar muito. Não poderia me permitir nenhum excesso”.

A mais famosa imagem do quinteto, na célebre ordem Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau. Ela também é utilizada na entrada do museu do River

“Gostaria que hoje em dia existissem mais pontas. (…) Grande parte da culpa é dos técnicos, que dão prioridade somente ao resultado. (…) Só para ganhar pontos, mandam seus jogadores ficarem na marcação em vez de obriga-los a olhar o gol de frente. Essa velha frase de que não há melhor defesa do que um bom ataque é a pura verdade” e “Quase não há lugar para a parte criativa. O objetivo parece ser um só: destruir (…). Prefiro ir pescar” foram outras declarações do Loco ou Pistola, outros apelidos.

Quando estreou, o ataque millonario estava consolidado desde o ano anterior, onde também fora campeão, com Juan Carlos Muñoz, José Manuel Moreno, Adolfo Pedernera, Ángel Labruna e Aristóbulo Deambrosi. E foi logo Deambrosi quem sugeriu uma chance ao reserva “por um par de partidas, para ganhar uns pesos”. Quem menos jogava, naturalmente, era pior remunerado. Ao menos na época.

“Meu bom gesto significou ver os jogos de fora (do campo). De qualquer forma, Félix não me fez ficar mal”, Deambrosi diria bem-humorado. Os dois inclusive participaram juntos da volta olímpica de 1942, realizada em plena La Bombonera em empate com dez homens com o arquirrival Boca após derrota parcial por 0x2; Loustau como dono da posição e o ambidestro Deambrosi no lugar do lesionado Muñoz.

A recordada linha Muñoz-Moreno-Pedernera-Labruna-Loustau, ironicamente, jogou apenas 18 vezes oficialmente junta (nunca na seleção), sobretudo em 1943 e 1944, quando o campeão foi o Boca. Ainda em 1944, Moreno foi ao México, do qual só retornou em meados de 1946. No ano seguinte, Pedernera aceitou proposta chamativa do Atlanta. Os títulos vieram em 1945, com Alberto Gallo no lugar de Moreno; e 1947, com Di Stéfano ocupando o posto de Pedernera e Hugo Reyes, o do lesionado Muñoz.

“Félix Loustau, jovem ponta do River, que está se desempenhando com muito acerto”, diz a El Gráfico da esquerda, de novembro de 1942, quando ele se afirmou. A outra é de 1946

Em 1948, então, ocorreu uma greve de jogadores que paralisou o futebol argentino. Não-atendidos, muitos foram ao exterior. Do River, saíram Moreno (Universidad Católica), Di Stéfano, Néstor Rossi, Hugo Reyes e Luis Ferreyra (Millonarios de Bogotá, juntamente com Pedernera). Loustau esteve bem perto de ir para o atrativo futebol colombiano da época, recebendo em mãos 20 mil dólares – quantia das mais tentadoras para um jogador, ali – do Deportivo Cali, que já levara os riverplatenses Roberto Coll, Manuel Giúdice e Eduardo Rodríguez.

“Os tive em minhas mãos, os contei centenas de vezes”, referiu-se aos dólares. Mas, sem se sentir na melhor forma física na época, negou. “Outra das causas foi que eu era uma espécie de patrimônio do River. E a terceira foi que Nicolini – ministro do governo peronista -, que era interventor da AFA, teria movido céu e terra para impedir que emigrasse um cidadão de Avellaneda…”. Loustau ficou e, junto com Labruna, foi o remanescente dos anos 40 na ainda mais dourada década seguinte.

O título argentino de 1947 fizera do River o maior campeão profissional argentino. As taças da década de 50, após cinco anos de seca em razão dos desfalques, o fizeram se distanciar ainda mais. O clube, em seis anos, obteve cinco campeonatos nacionais, os últimos antes de um jejum de 18 anos. E Loustau esteve presente em todos estes títulos, principalmente os três primeiros, em 1952, 1952 e 1955. La Máquina dera lugar a La Maquinita. Inicialmente, com Santiago Vernazza, Eliseo Prado, Walter Gómez, Labruna e Loustau no ataque, além do mítico Amadeo Carrizo afirmado desde 1948 entre as traves.

Fora os títulos em série, o conjunto ficou lembrado por vencer todos os clássicos contra o Boca em dois anos seguidos (1950-51) e pelo primeiro triunfo argentino em terras inglesas, em uma turnê pela Europa em 1952 (uma derrota em 14 jogos) que incluiu um 4-3 no Manchester City, na época sem disparidades com o United; e um 3-3 com gol de Loustau em um combinado de Milan e Internazionale.

Pela seleção e pelo Estudiantes

Loustau esteve doente em 1955 e, já com 33 anos, foi perdendo lugar para outro ponta histórico do River, Roberto Zárate. Em 1956, jogou somente dez vezes e em 1957, apenas uma, justamente um Superclásico na Bombonera (2-2). Naquele ano, depois de uma década e meia, se despediu de Núñez com 365 jogos oficiais e 101 gols (seis no Boca). O mais folclórico deu-se em Tucumán. O estádio estava tão cheio que a cavalaria de segurança estava praticamente nos limites do campo. “Em uma jogada, passei por debaixo de um cavalo que havia entrado, chutei no arco e marquei”.

Com oito títulos argentinos (1942-45-47-52-53-55-56-57), foi por muito tempo o segundo maior campeão com a banda roja, só superado pelo colega Labruna, que venceu também o de 1941. Nacionalmente, apenas um os superou: Leonardo Astrada, também do River, com dez, mas a maioria obtida na era dos campeonatos curtos (com dois torneios por ano), introduzidos nos anos 90.

Loustau prosseguiu a carreira no Estudiantes, em 1958, com um ataque bem lembrado em La Plata: Perfecto Rodríguez, Rubén Koroch, Ricardo Infante (mundialista em 1958), Héctor Antonio e ele. Por problemas de pagamento, deixou o Pincha ao fim do ano, terminando a carreira no pequeno Cemento, da liga regional de Azul, vencida com ele por três anos seguidos. O Chaplin do futebol também destacou-se na seleção argentina, ainda que privado de uma Copa do Mundo, em parte por conta da Segunda Guerra Mundial. Foi considerado o sucessor de Enrique Chueco García, do qual falamos aqui.

Depois da guerra, porém, o presidente Perón vetou a participação nas eliminatórias para as de 1950 e 1954, temendo um vexame sem os astros exilados com a greve de 1948. Ainda assim, a passagem de Loustau pela Albiceleste foi um fenômeno: 27 partidas, 10 gols e só 2 derrotas. Marcou na estreia (5×2 no Paraguai, em 1945) e no último jogo (3×1 em Portugal, em Lisboa, em 1952). E, dos somente cinco presentes em todo o tri seguido nas Copas América de 1945-46-47 (ainda um recorde continental; retratado aqui), ele foi o único titular absoluto, invicto em todos os 17 dos 18 jogos que iniciou.

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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