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Conheça os argentinos de sangue croata no futebol

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Bilos tinha chances de ir à Copa 2006 pelas duas seleções, mas preferiu a menos realista, a da Argentina natal

País cosmopolita, a Argentina também têm muitos descendentes de croatas, dois dos quais foram até sondados pela seleção xadrez. E outro seria Maradona! No embalo do jogo contra a Croácia, lembremos os mais jogadores argentinos com origens por lá.

A colônia croata no Cone Sul é mais expressiva no Chile, na verdade. O ex-presidente argentino Néstor Kirchner é filho de uma croato-chilena, María Ostoić Dragnić (ele também é ex-governador da província fronteiriça de Santa Cruz, já governada também por Jorge Cepernić). Do país vizinho, o zagueiro Lukas Tudor veio jogar no Newell’s de Marcelo Bielsa em 1991; o atacante Milovan Mirošević, no Racing na década passada; e o goleiro Nicolás Perić foi o titular do terceiro e último título de elite do Argentinos Jrs, em 2010. E a única Libertadores vencida por um chileno, a do Colo-Colo em 1991 (clube mais populardos vizinhos, presidido por Peter Dragićević), veio sob o comando de Mirko Jozić, que treinara a Iugoslávia campeã mundial sub-20 no próprio Chile em 1987 e enfrentou muitos ex-comandados pela Intercontinental 1991, contra o Estrela Vermelha.

Mas a Argentina (onde cabe lembrar também o sucesso de Manuel Fleitas Solich, paraguaio que brilhou no Boca e teve extensa trajetória como técnico no Brasil) também recebeu significativa colônia também. Darío Cvitanich, então bem no Ajax, teve sua naturalização anunciada quase que como contratação de clube: “em 2009, o técnico Slaven Bilić foi a Amsterdã me ver e me contar seu projeto. Me haviam visto desde o Banfield (…). Tivemos uma reunião, me disse que queria que jogasse para eles e em pouco tempo me deram o passaporte. Mas o problema surgiu porque depois se resolveu que não deixariam jogar futebolistas naturalizados graças a parentescos muito distantes”, contou em 2011.

“No meu caso, eu consegui ser croata porque meu bisavô, o pai do meu avô, havia nascido na Croácia. Com isso se colocaram restritos e foi uma pena. Durante essas eliminatórias houve um jogo contra a Inglaterra em Londres e se dizia que talvez eu pudesse jogar, mas no fim não deu em nada”. Antes dele, Daniel Biloš já havia sido convidado, mas recusou. Curiosamente, se tivesse aceitado era provável que enfrentasse (e vencesse) a terra natal em 3-2 amistoso pré-Copa que as duas seleções fizeram em 2006 – precisamente o jogo em que Messi marcou pela primeira vez pela Argentina.

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Ivanissevich, já como político. O goleiro Yustrich, que não é o flamenguista e sim o do Boca. E Marinovich no Gimnasia LP de 1962

O jogo de 2006 foi o terceiro e último até agora entre a seleção alviceleste e a quadriculada, em retrospecto bem equilibrado: uma vitória europeia (aquela, na Suíça), um 0-0 no primeiro jogo entre elas, em amistoso pré-Copa 1994 em Zagreb; e uma vitória argentina, 1-0 na Copa de 1998, em Bordeaux. Mas os croatas é que chegariam mais longe na França, inclusive na artilharia: Gabriel Batistuta e o italiano Christian Vieri, com 5 gols cada, eram os artilheiros até caírem nas quartas-de-final, onde não marcaram. Davor Šuker marcou um gol nas quartas, um na semifinal e somou seu sexto na partida pelo bronze, ultrapassando o argentino e o italiano na artilharia isolada.

A imigração croata não deixou de ter sua faceta sórdida: simpático ao nazismo, o governo de Perón abrigou Dido Kvartenik e Ante Pavelić, líderes da Ustaše, o governo pró-Hitler na Croácia durante a Segunda Guerra – por fazer a saudação desses fantoches, Josip Šimunić foi virtualmente cortado pela FIFA da Copa 2014. Mas a comunidade de Sebastián Crismanich (único argentino medalha de ouro nas últimas Olimpíadas, no taekwondo) e Juan Vucetich (o homem que introduziu o uso de impressões digitais) é mais antiga que esse lamentável passado, como mostram alguns dos jogadores abaixo:

Oscar Ivanissevich: exatamente um dos ministros de Perón na época da Segunda Guerra, chegou a ser embaixador nos EUA, ministro da educação e é apontado como um dos autores da Marcha Peronista. Mas antes de enveredar para a política jogou amadoramente na zaga direita do Estudiantes de Buenos Aires, então clube forte mas hoje na terceirona. E por ele chegou a ser usado uma vez na seleção argentina – justamente contra o Chile, em 1916.

Julio Yustrich: um dos maiores goleiros do Boca, arrojado e ágil, brilhou no bi de 1934-35. Teve bons momentos também no Lanús (pelo qual fez seu único jogo pela Argentina, em 1940) e Gimnasia LP. Na época, jogava no Flamengo um certo Dorival Knipel, também goleiro e que acabou apelidado de Yustrich por conta do argentino. O Yustrich brasileiro também foi técnico, lembrado pela truculência: foi quem fez o clube mandar Doval embora em 1971. Também nos anos 40 brilhou no San Lorenzo um certo Mierko Blažina, mas o mais provável é que fosse de origem eslovena – era de Trieste.

Hugo Zarich: meia que jogou por Boca e River, mas sem continuidade em nenhum, e também no Racing. Defendeu a seleção olímpica nos Jogos de 1960.

José Marinovich: lateral revelado no Boca nos anos 50, se afirmou mais no Gimnasia LP, integrando o elenco que lutou pelo título no campeonato de 1962.

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Maradona com Šuker no Sevilla e os primos Jorge Gabrich, no Barcelona, e Iván Gabrich, no Newell’s vice da Libertadores 1988

Luis Kadijevich: um dos que mais jogaram no Defensores de Belgrano, onde foi goleiro por cinco anos seguidos entre o fim dos anos 70 e início dos 80. Antes, passara rapidamente pelo San Lorenzo e pelo futebol da Grécia, país em que nasceu seu filho Maximiliano Kadijevich, que também jogou no Defensores.

Tomás Carlovich: lenda do futebol rosarino mesmo com a carreira desenvolvida nas divisões inferiores, especialmente no Central Córdoba. Brilhou em amistoso pré-Copa 1974 em que a seleção nacional levou de 3-1 do combinado de Rosario, o que fez o técnico da Albiceleste implorara a substituição de El Trinche no intervalo. Os exaltados chegam a comparar sua habilidade com a de Maradona, mas a excessiva boemia de Carlovich o impediu de ir mais longe. Saiba mais.

Diego Maradona: o maior nome do futebol argentino tem fenótipo indígena e sobrenome galego, mas teria sangue também croata a partir de um tataravô materno, Matej Kariolić. O mais insólito é que há quem afirme que por conta desse antepassado El Diez seria descendente do aventureiro Marco Polo! Fato é que Kariolić vinha da região da Dalmácia (de onde veio a raça canina dálmata) e por conta disso sua neta, mãe de Diego, foi batizada de Dalma. Maradona escolheu este mesmo nome para uma de suas filhas. Mais célebre jogador croata, Davor Šuker, artilheiro da Copa 1998, já contou que se aprimorou observando Maradona quando ambos foram colegas no Sevilla – mesmo com Dieguito já decadente. Eles se enfrentaram naquele 0-0 entre suas seleções em 1994.

Oscar Craiyacich: zagueiro titular do Rosario Central campeão nacional de 1980.

Luis Cvitković: lateral-esquerdo do Nueva Chicago campeão da segundona em 1981.

Iván Gabrich e Jorge Gabrich: são primos. O primeiro foi promessa não-lapidada do Newell’s vice da Libertadores 1988 (marcou o gol quase decisivo na final com o Nacional). O outro disputou o mundial sub-20 de 1983 e chegou a pertencer ao Barcelona. Também não vingou.

Fabián Cancelarich: goleiro reserva de Goycochea no vice da Copa de 1990 e nos títulos da Copa América 1991 e Copa das Confederações 1992. Apesar das convocações, jamais defendeu a seleção oficialmente. De carreira mais ligada ao Ferro Carril Oeste.

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Mohamed no Huracán e Abdala pela Palestina: mais famosos pela origem árabe. E Markić levantando com Riquelme, seu ex-colega na base do Argentinos Jrs, a taça mundial sub-20 de 1997

Antonio Mohamed e Pablo Abdala: ambos são mais notórios pela origem árabe, tanto que o primeiro, maior ídolo da fase decadente do Huracán (tirou-o da segundona como artilheiro em 1990 e como técnico em 2007, é notoriamente fanático pelo clube), é apelidado de El Turco e o outro defendeu a seleção palestina. Mas eles também têm sangue croata: o outro sobrenome de Mohamed (que treinou também o Independiente campeão da Sul-Americana sobre o Goiás em 2010 e o Tijuana que quase eliminou o Atlético-MG na vitoriosa Libertadores 2013 do Galo) é Matijevich e o outro de Abdala é Kovasević.

Juan Vojvoda: zagueiro que passou sete anos no Newell’s entre 1995 e 2002, mas jamais se firmou na titularidade.

Diego Markić: meia campeão mundial sub-20 em 1997, foi uma das promessas do Argentinos Jrs campeãs ali, como Cambiasso. Mas não chegou a vingar.

Mirko Šarić: volante, era uma promessa do San Lorenzo na virada do século. Se afirmou em 1999, quando o novo técnico, Oscar Ruggeri, apostou nos garotos da base (como também Walter Erviti e Leandro Romagnoli) em detrimento dos medalhões. Mas Šarić parecia sofrer de depressão. E duas lesões graves no joelho, que lhe afastaram por meses dos gramados, fizeram-lhe dar cabo da própria vida. Seu irmão Martín Šarić também virou jogador, com carreira pela Croácia.

Daniel Gojmerac: lateral-direito apelidado de El Polaco, passou onze anos da carreira no Estudiantes de Buenos Aires, onde foi campeão da terceira divisão em 2000.

José María Buljubasich: revelado no Rosario Central e goleiro titular do River campeão em 2003, notabilizou-se mais exatamente no futebol chileno – na Universidad Católica, em 2005, passou cerca de 1.350 minutos sem sofrer gols, o que é a quarta maior invencibilidade registrada a nível mundial.

Nicolás Pavlovich: ex-Banfield como outros abaixo, foi revelado no Newell’s na virada do século. Atacante mediano, esteve no terceiro e último título do Argentinos Jrs na elite, em 2010.

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A suicida promessa Šarić, ex-San Lorenzo. Buljubasich, goleiro recordista na Universidad Católica. E Cvitanich, artilheiro do Banfield que quase jogou pela Croácia

Luciano Pocrnjić: goleiro reserva do Newell’s campeão em 2004.

Daniel Biloš: volante do belo Banfield do início do novo século e que em três anos saiu da segundona às quartas-de-final da Libertadores, em 2005. Após o torneio, ele e o colega Rodrigo Palacio foram ao Boca. Biloš destacou-se no time bicampeão argentino em 2005 e 2006, faturando também uma Sul-Americana e sendo sondado para jogar a Copa 2006 pela Croácia. Mas preferiu tentar uma vaga na Argentina, pela qual jogou três vezes – a última, contra o Brasil em 2006. Uma lesão já no San Lorenzo, que o adquirira como um dos medalhões para o centenário do clube, em 2008, abreviou sua carreira.

Darío Cvitanich: outro ídolo recente do Banfield, pelo qual foi artilheiro do campeonato de 2008 com direito a dois gols na maior goleada dos clássicos com o Lanús, um 5-0 em plena casa rival. Resolveu aceitar a oferta da seleção croata, mas a naturalização foi barrada pela FIFA, que tornou mais rígida seus critérios na época – senão teria feito curiosa dupla ofensiva “brasentina” com Eduardo da Silva. Fez sucesso também no Ajax e, como Biloš, também jogou no Boca: acertou uma bola na trave no último lance contra o Corinthians na Bombonera em 2012, jogada que poderia ter mudado os rumos daquela final de Libertadores.

Agustín Vuletich: atacante da seleção no mundial sub-20 em 2011 quando ainda era da base do Vélez, atualmente joga na elite defendendo o Olimpo.

Santiago Gentiletti: a Lazio comprou este zagueiro recentemente do elenco do San Lorenzo campeão argentino ano passado e que acaba de livrar o clube da pecha de único grande argentino sem Libertadores. Seu outro sobrenome é Selak.

Leonardo Pisculichi: meia-armador revelado no Argentinos Jrs e com longa trajetória no futebol asiático, foi redescoberto em 2014, já aos 30 anos, desempenhando bom papel atual no River.

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Vuletich no mundial sub-20 de 2011. Gentiletti com a primeira Libertadores do San Lorenzo. E Pisculichi, figura atual no River

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer