Cabo Verde, terra ancestral de muitos dos afro e luso-argentinos do futebol
O duelo de Argentina e Cabo Verde na Copa recoloca em evidência aquela que talvez seja a mais tradicional comunidade afro-argentina. Cabo-verdianos compõem justamente uma diáspora singular: diferentemente dos africanos escravizados tão numerosos até o século 19, o fluxo migratório vindo do arquipélago foi voluntário, sendo notado desde a década de 20 do século passado. No futebol, correspondem à maioria dos argentinos de sobrenome português que puderam se notabilizar, e a muitos de fenótipo negro ou pardo.
Essa ligação que poderia ter feito Ayrton Costa enfrentar a própria terra natal agora, caso ele topasse a sondagem de naturalização feita em outubro de 2025 (já após a classificação dos Tubarões Azuis ao Mundial, diga-se) e renegada aos risos em novembro: “meu avô era de lá, eu sou argentino”, pontuou contundentemente o zagueiro do Boca em declaração com característico sotaque portenho.
Sem Costa, a principal relação da seleção cabo-verdiana nessa Copa com o futebol argentino reside na estrela Vozinha. É que ele, nascido em 3 de junho de 1986, só veio a se chamar Josimar porque o cartório recusou o nome originalmente escolhido pelo pai do goleiro: Valdano, o elegante argentino que na véspera marcara o primeiro gol da campanha bicampeã mundial da Albiceleste. Entendam o pai de Vozinha: além do primeiro, naquele 2 de junho Valdano marcou também o terceiro nos 3-1 sobre a Coreia do Sul.

Ayrton Costa é egresso do Independiente, de Avellaneda, e nascido em Quilmes, duas cidades do sul da Grande Buenos Aires. Foi por essas bandas da região metropolitana, a abrangerem também cidades como Banfield, Lanús (cujos clubes de mesmo nome travam justamente o Clásico del Sur), Lomas de Zamora, Temperley, ou Dock Sud, que mais abrigou a comunidade: se pode perfeitamente notar o escudo auriazul do Docke nos vídeos feitos na cobertura jornalística feita sobre a confraternização realizada pela comunidade após o empate com a Espanha, na estreia histórica em Mundiais. E é mesmo de equipes ligadas a essas cidades que os nomes listados aqui despontaram, via de regra.
Lomas de Zamora, por exemplo, tem como representante no futebol o modesto Los Andes, apelidado de Milrayitas (“Mil Listrinhas”) pela identidade de sua camisa, e inclusive é o rival original do Banfield. Uma das tribunas de seu estádio leva o nome de “Familia Da Graca”. É em referência a três gerações de um sobrenome que perdeu o cedilha (inexistente no castelhano) da forma original “Da Graça”. Avô, pai e filho protagonizaram diferentes conquistas de subidas de divisão por ali. Se tornaram célebres também por simbolizarem o processo de embranquecimento dos argentinos de origem negra.
Ontem, o historiador Esteban Bekerman reforçou em seu programa Barullo que essa família tem mesmo origem em Cabo Verde, terra do pai de Manuel Da Graca. Este, por sua vez, nasceu já em Lanús, em 25 de setembro de 1912. Jogou na equipe local, com direito a uma estreia auspiciosa: abriu com um gol de bicicleta o placar sobre o Huracán, pela 12ª rodada da primeira divisão de 1936, embora sem evitar derrota de 4-3 para o futuro vice-campeão do torneio.

Da Graca também marcou no jogo seguinte, anotando o gol de honra na derrota de 3-1 para o Ferro Carril Oeste. Mas só jogou mais duas vezes pelo Granate, ainda pela 14ª e 16ª rodadas, quando se retirou lesionado no 5-1 sofrido perante o Racing; dentre seus colegas, os futuros flamenguistas Luis Villa e Agustín Valido. A lesão limitou Manuel a trilhar divisões de acesso e em clubes do interior. Havia já defendido também o Dock Sud antes de aparecer no Los Andes em 1937. E foi a figura e goleador da campanha vencedora, naquele ano, da 3ª divisão.
Também nascido em Lanús (em 20 de maio de 1944), Abel Da Graca, filho mulato de Manuel, igualmente se formou com os grenás. Com eles, participou da campanha campeã da 2ª divisão de 1964. E, embora não tivesse a mesma potência do pai e do filho, pode dizer que foi mais longe: é que com o Los Andes ele logrou acesso à 1ª divisão, em 1968. Tinha habilidade para cabeceio e assistências, tendo como gol mais recordado um sobre o Belgrano naquele ano, chapelando um adversário antes de concluir às redes. Ele passaria os anos 70 no no lucrativo futebol colombiano e voltaria mais de uma vez ao Los Andes após parar de jogar, tanto como auxiliar técnico como também como treinador.
Além do acesso em 1968, naquele ano Abel comemorou o nascimento do filho Hernán Da Graca, nascido branco em Buenos Aires em 28 de março. Como o pai e o avô, é duas vezes um rival do Banfield, pois igualmente se formou no Lanús. E, em outro time das redondezas sulistas do conurbano, o Arsenal, logrou um primeiro acesso de 3ª à 2ª divisão, em 1992. Dois anos depois, repetiu esse êxito, mas dessa vez no Los Andes.

De modo cinematográfico, foi inclusive de Hernán o gol que valeu esse acesso às Milrayitas. Enquanto a Argentina amargava naquela mesma data a queda na Copa de 1994 para a Romênia, a família estava em festa: Abel comentou “nesse dia fui ao campo com meu pai e ambos nos abraçamos chorando quando Hernán fez o gol e essa foi a alegria maior que me deu o futebol; em pouco tempo o velhinho nos deixou, mas pôde ver seu neto ganhar um acesso igual ao que eu e ele ganhamos”.
Lanús e Banfield, por sua vez, tiveram em comum um ídolo do Santos de Pelé. Nascido em Quilmes, José Manuel Ramos Delgado era filho de um imigrante de Cabo Verde. Como nos países colonizados pela Espanha o costume é de registrar o sobrenome paterno antes do materno, inversamente ao que se faz nos de língua portuguesa, El Negro era “Ramos Delgado” e não “Delgado Ramos”.
O zagueiro se formou entre os grenás, indo à Copa do Mundo de 1958 ainda na esteira da grande campanha de 1956, em que um elenco apelidado de Los Globetrotters fez La Forteleza aspirar pela primeira vez ao título argentino. Amostra do prestígio é que ele, em 26 partidas feitas pela seleção, foi capitão em nada menos do que quinze delas, notavelmente na conquista da Copa das Nações – um torneio que celebrou em 1964 os cinquenta anos da CBD e se mostrou como principal glória mundial da Albiceleste até a Copa de 1978, ao incluir dentro do Pacaembu um 3-0 dos hermanos para cima de Pelé e colegas.

Embora esquecido pelo tempo, aquele triunfo surpreendente sobre os então bicampeões seguidos da Copa do Mundo repercutiu o suficiente para que o zagueiro viesse a reforçar em 1967 o maior time do planeta. Antes de vir ao Brasil, Ramos Delgado esteve ainda no páreo por um lugar na Copa de 1966 já como jogador banfileño. Inclusive ele é o único que a seleção usou de ambos os rivais, embora valha contextualizar que na época as torcidas do Granate e do Taladro ainda eram amigas.
Foi desde o Banfield que ele terminou importado pelo Santos, para repor a saída da lenda Mauro Ramos de Oliveira. Cumpriu com louvores, se tornando o estrangeiro com mais partidas pelo Santos, até hoje; mesmo já veterano, foi reconhecido como um dos melhores zagueiros que já passaram pelos praianos. Nas quatro vezes em que a Placar elegeu o time santista dos sonhos (1982, 1994, 2006 e 2025), Ramos Delgado sempre colheu alguns votos. Se não para ser eleito entre os titulares, ao menos é dos mais votados para compor o honroso quadro reserva do elenco ideal.
Ramos Delgado ainda viveu a tempo de acompanhar os primeiros títulos de Lanús e Banfield na primeira divisão argentina (respectivamente em 2007 e em 2009), ainda com a lucidez preservada na alegria grená antes do Alzheimer avançar até levá-lo em 2010. Já dedicamos ao zagueirão este outro Especial.

Contemporâneo dele, Alberto Arcángel Britos Ramos foi outro filho de cabo-verdianos, outro defensor e outro com vida em rivais no Sul da Grande Buenos Aires: nascido em Avellaneda (em 24 de março de 1931), começou nos juvenis do Racing. Após a temporada sub-15 em 1946, atravessou o quarteirão e se integrou ao vizinho Independiente. Até então, se alternava entre volante central e meia armador; foi já na categoria sub-17 que foi recuado, inicialmente como zagueiro. Foi nessa posição que ele foi promovido ao time adulto, em 1952.
A partir de 1954, ele foi então reposicionado para lateral. Elogiado pela verstailidade defensiva, calhou de viver em tempos de vacas magras na antiga Doble Visera, que não recebeu troféus entre os anos de 1948 e 1960. Mas, mesmo sem títulos por um clube tão apelidado de Rey de Copas, foi eleito em 2011 entre os cem maiores ídolos do Rojo, em edição especial da revista El Gráfico. Desconsiderando-se amistosos, foram 156 partidas de Britos pelo clube, entre 1952 e 1959. Ele foi negociado com o América de Cali justamente antes de começar a temporada em que o jejum seria finalizado.
Britos também defendeu rapidamente o Estudiantes, que o repatriou em 1963. Seus pais provavelmente se chamavam Joaquim Brito e Ângela Ramos quando viviam no antigo Império Português, mas se tornaram Joaquín Britos (ídolo do San Lorenzo anos anos 30, o brasileiro Petronilho de Brito, por exemplo, virou “Britos” também) e Ángela Ramos para o registro civil argentino. Eles tiveram outros oito filhos além de Alberto, pontuou aquela El Gráfico.

Cidade natal de Ramos Delgado, em Quilmes também nasceram afro-argentinos mais reconhecidos pelo sobrenome italiano, mas com ancestralidade paralela em Cabo Verde. Edgar Manuel Giordano foi figura querida no sumido Argentino de Quilmes, clube local que se orgulha de ter sido a primeira equipe “latina” do futebol argentino, fundada em 1899 em meio a uma cena ainda restrita à comunidade britânica. Pelo Argentino (que inclusive adotou camisa alviceleste antes mesmo da seleção), foram diferentes ciclos entre 1962 e 1972, nas mais variadas posições: atacante, meia e até zagueiro.
Edgar Giordano ainda dirigente no Argentino após pendurar as chuteiras; daquelas redondezas do sul, havia jogado também no Temperley. Na primeira divisão, pôde fazer alguns jogos pelo Gimnasia em 1968. Curiosamente, acabou menos famoso nacionalmente do que um irmão que não viveu do futebol – Roberto Giordano prosperou como empresário do setor de moda, sendo um dos mais célebres cabelereiros da Argentina.
Quilmes veio a parir também o meia Fernando Tissone, cujo outro sobrenome é Rodrigues. Ele passou pela base de três clubes do Sul (Quilmes, Lanús e Independiente) antes de peregrinar por times italianos nos anos 2000, especialmente Udinese, Atalanta e Sampdoria, além de passar pela fase forte que o Málaga teve no início da década passada. Em 2012, Tisso até comemorou publicamente o maior feito de Cabo Verde até então, a inédita classificação à Copa Africana de Nações. A terra do avô materno até poderia ter sido defendida por Cristian Tissone, irmão caçula de Fernando. Sua carreira peregrinou por pequenas equipes portuguesas, o suficiente para ser convidado em 2016. Agradeceu mas, como Ayrton Costa, se disse “100% argentino”.

Ainda mais ao sul, a ponto de não pertencer à Grande Buenos Aires, a cidade de La Plata também teve gente da comunidade. O jornal cabo-verdiano Expresso das Ilhas ao menos aponta que o meia Facundo Silva, platense de nascença, também pertence a ela. Ele defendeu muitos clubes dos arredores citados, mesmo que sem maior relevo: Arsenal de Sarandí, Los Andes e Quilmes estiveram dentre eles, além do Defensa y Justicia – cuja municipalidade de Florencio Varela se situa precisamente entre Quilmes e La Plata.
La Plata também foi onde se estabeleceu o mais ilustre nativo de Cabo Verde a trilhar carreira de futebol na Argentina. Adriano Tomás Custódio Mendes emigrou ainda com passaporte português, em 1973, dois anos antes da independência. Se estabeleceu em La Plata e foi profissionalizado pelo Estudiantes. Diferentes meios se referem a ele como o primeiro africano do futebol argentino; mais correto seria o primeiro a jogar profissionalmente no país, pois na “era britânica”, nos primórdios do amadorismo, houve imigrantes brancos nascidos na África do Sul colonial.
Foi precisamente no sul da Grande Buenos Aires onde Custódio Mendes mais fez sucesso: foram três passagens pelo Temperley entre 1985 e 1998, radicando-se definitivamente na Argentina embora a carreira lhe levasse a clubes do Paraguai, Chile, Uruguai, Venezuela e até ao Marítimo da “vizinha” Ilha da Madeira.

Em outubro de 2025, ele foi bastante procurado para depor a respeito das emoções contrastantes que vivia: no espaço de poucos dias, lamentou a perda de Miguel Ángel Russo (no dia 8), seu colega no Estudiantes campeão do Torneio Nacional de 1983, ao passo que vibrou com a inédita classificação da terra natal (no dia 15) à Copa do Mundo.
E ele, claro, tornou a ser solicitado pela mídia tão logo ficou definido o duelo desses 16-avos-de-final. Víctor Hugo Morales, o narrador célebre pela mais famosa narração do segundo gol de Maradona na Inglaterra, conseguiu ontem a seguinte declaração de Custódio: “eu não esperei ter vida para ver Cabo Verde jogar um Mundial. E menos que chegasse a uma instância na que está. E que lhe calhe justamente a Argentina, o que me parte o coração em dois pedaços. Que seja o que deva acontecer, mas Cabo Verde já ganhou. Creio que depois de ver Cabo Verde, os milagres existem. É um encontro de fraternidade, porque a Argentina toda a vida amparou a todos os cabo-verdianos. Para mim, é algo difícil”.
Além dos nomes acima, de reconhecida ancestralidade cabo-verdiana (ou mesmo nascença, no caso de Custódio), vale citar a possibilidade quanto a outros cujos traços africanos e sobrenomes permitem alguma solidez a essa especulação. Manuel Miranda foi um lateral-direito ligado essencialmente ao Gimnasia, que o lançou no time adulto em junho de 1951, meses após ele consagrar-se ainda como jogador amador com a seleção olímpica (então restrita a amadores) vencedora da primeira edição dos Jogos Pan-Americanos.

Miranda pôde vencer a segunda divisão em 1952, mas uma lesão no joelho limitou-o a menos de quinze jogos por ano até pendurar de vez as chuteiras em 1957. Foi técnico tanto do time principal do Lobo, como em 1968, como dos juvenis, nos anos 70. É possível encontrar no twitter depoimento de gente que qualifica Miranda como “o melhor formador que conheci”.
Já uma foto do Huracán de 1970 alinha lado a lado dois afro-argentinos. Um foi o zagueiro Alberto Dopacio, mas o mais chamativo para essa nota é o atacante Oscar Nogueira (em castelhano, não existe o sobrenome Nogueira e sim o equivalente Nogales), ainda que ele não tenha se firmado muito sob os holofotes: foram só quatro joguinhos pelo Globo entre 1970 e 1971. Manteve-se ativo sobretudo no futebol da província de La Pampa, com o Racing de Castex ou o All Boys de Santa Rosa.
Sentiu falta de matérias alusivas à Áustria, Argélia ou Jordânia? Quanto à primeira, em 2019 já havíamos enumerado os diversos de ancestralidade germânica. Quanto às outras, contamos em 2022 sobre os numerosos jogadores de origem árabe, que seguirá válida caso a Albiceleste eventualmente enfrente o Egito na próxima fase – a outra adversária em potencial oitavas-de-final é a Austrália, cujo intercâmbio com hermanos também mereceu Especial em 2022. Mas será preciso antes confirmar o favoritismo contra o Vozinha que quase foi Valdanozinho…


