Há 110 anos, no 1º Brasil x Argentina da Copa América, o gol hermano foi de um espectador negro
Originalmente publicado nos cem anos, em 1916 – e revisto, ampliado e atualizado
Virou lugar-comum desde a última Copa do Mundo: para os haters, a Argentina exterminou o grosso dos negros e recusa sobreviventes, daí a falta de espaço deles na Albiceleste, na contramão das outras seleções do mundo – especialmente quanto até o Japão tem um mestiço em Zion Suzuki. Já o duelo com Cabo Verde reforçou uma munição a quem minimiza o inegável racismo estrutural argentino: esse segmento, que já usava o caso do campeão mundial Héctor Baley, invocou em peso o antecedente de Ramos Delgado, filho de cabo-verdiano que ascendeu a afro capitão da seleção em 1964, quando a “civilizada” Europa ainda colonizava a África e os “civilizados” EUA ainda segregavam brancos e negros. Quem vai mais além também relembra Alejandro de los Santos, campeão da Copa América de 1925 antes de qualquer seleção europeia aceitar negros, exceto o caso isolado do escocês Andrew Watson no século 19. De los Santos costuma ser apontado como o primeiro afro-argentino na seleção, o que é incorreto. Em 1916, José Manuel Durand Laguna foi usado na curiosa situação descrita no título da nota.
Se hoje Brasil x Argentina é um confronto que envolve muita rivalidade e pompa, nos primórdios o encontro tinha outros ares. O que não mudava era o equilíbrio. Os primeiros dois jogos ocorreram em 1914, com uma vitória para cada lado. O primeiro duelo estava marcado para 20 de setembro, pela primeiríssima Copa Roca. Mas o atraso da chegada do navio brasileiro fez os hermanos concordarem em transformar em amistoso o jogo contra os cansados visitantes, vencidos por 3-0. O segundo duelo sim valeria a taça e foi disputado uma semana depois: e deu Brasil, que em 27 de setembro se impôs com 1-0 em Buenos Aires. Detalhe: os próprios alvicelestes pediram a anulação de um gol deles, reconhecendo a irregularidade a um árbitro que não a percebera, e erguerem o goleiro tupiniquim.
Já o terceiro duelo foi o retratado acima. Foi um empate em circunstâncias ainda mais pitorescas – já explicadas no título – do que o uniforme usado pelos brasileiros, com o verde-e-amarelo em listras verticais na camisa e calção branco. Em julho de 1916, a Argentina, que celebrava o centenário de sua declaração de independência, sediou a primeira Copa América. Foi um quadrangular de turno único que a envolveu com Brasil, Chile e Uruguai no campo do Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires (que já sediara os dois Brasil x Argentina de 1914), clube da classe alta portenha – sediado no fino bairro de Palermo, é mais conhecido pela sigla GEBA e persiste como um prestigiado clube social embora tenha desativado seu time de futebol competitivo após o rebaixamento em 1917. Como o Gimnasia mais expressivo do futebol argentino viria a ser o de La Plata, algumas fontes errôneas atribuem que ele teria sido a sede.

O torneio foi aberto com duas goleadas. Ao dia 2 de julho, o Uruguai venceu por 4-0 o Chile em uma partida histórica para além das estatísticas: os chilenos protestaram contra a escalação de dois negros entre os celestes – um dos quais, Isabelino Gradín, marcou dois gols. O protesto não foi aceito e Gradín, que também marcaria sobre o Brasil, terminaria artilheiro da primeira Copa América. Que teve gol também de outro afro, mas para argentinos, o do citado José Laguna. Em outras versões, principalmente na imprensa paraguaia, seu sobrenome completo é Laguna Durand; e em outras a grafia é Durán ao invés de Durand.
Nascido em La Viña, cidadezinha da província de Salta, ele mudou-se com a família a Buenos Aires em 1906. Os primeiros chutes portenhos se deram no clube Gloria de Mayo. Em 1907, a família se instalou no bairro de Parque de los Patricios, onde Laguna juntou-se aos primórdios do clube local: o Huracán, do qual foi o primeiro presidente formalizado. A equipe já existia desde antes do 1º de novembro de 1908 datado como de sua fundação (desde 1903, pelo menos), e Laguna costumava comparecer aos jogos inicialmente como espectador.
O Huracán já havia se desmanchado outra vez e após uma derrota esse pensamento fez novamente a cabeça dos cabisbaixos jogadores. Laguna os chamou a uma reunião na esquina da Garay com Paseo Colón e os demoveu da ideia. Houve mais reuniões até aquela de 1º de novembro no qual o Huracán foi reorganizado e oficialmente fundado; na ata, redigida só em 1909, não constam nenhum dos fundadores, exceto Laguna como presidente e Alberto Rodríguez como secretário. Foi presidente huracanense até 1911 e, como tal, deixou marca na identidade do clube: o distintivo de balão – ou Globo em castelhano, daí um dos apelidos do clube.

É que ainda em 1908 o pioneiro da aviação argentina, Jorge Newbery, virou fenômeno nacional ao voar sobre três países a bordo do balão coincidentemente chamado El Huracán, “O Furacão”. Se atribui a Laguna o contato feito para que Newbery autorizasse o time a adotar o balão como escudo. Como contamos aqui, Newbery, o Santos Dumont argentino, não só adorou a ideia como apadrinhou o clube, utilizando seus contatos para facilitar a filiação huracanense na associação argentina de futebol; enquanto ela ainda era recusada, Laguna chegou a se juntar provisoriamente ao Independiente, em 1912. Justamente na primeira temporada do Rojo na primeira divisão, o time inclusive triscou o título imediatamente, embora terminasse vice em polêmica definição com o Porteño (hoje um clube voltado ao rúgbi).
Laguna voltou ao Huracán a tempo de participar também da temporada de estreia do clube na elite, já em 1914. Na estreia, fez dois gols no 4-2 no Ferro Carril Oeste, na casa adversária. Também fez em 1914 o primeiro gol do primeiro estádio do clube, no 1-0 sobre o River. E, em 1915, foi dele o primeiríssimo gol da história dos clássicos com o San Lorenzo, ainda que o rival terminasse vencendo de virada por 3-1. Naquele mesmo ano, em outro embate com o River, polemizou: “futebol não é para os mais fortes, e sim para que os que põem mais picardia ou engano em suas jogadas e deslocamentos”, respondeu às reclamações do adversário José Morroni após fingir-se de lesionado para em seguida marcar um gol.
Àquela altura, ele já participava de treinos da seleção, mas sem jogar. Veio então a primeira Copa América, organizada naquele 1916 como festejo do primeiro centenário da conclusão da independência argentina. Em 6 de julho, Laguna foi espectador de um momento simbólico: a Argentina estreou com 6-1 no Chile. Dois desses gols, ambos de pênalti, foram os últimos da família Brown pela Albiceleste, convertidos pelo zagueiro Juan Brown. Ele era primo de outros cinco Brown, quinteto de irmãos que estrelavam os tempos ainda britânicos do futebol argentino.

Esses seis Brown jogavam pelo Alumni, vencedor de dez títulos argentinos entre 1900 e 1911 e natural celeiro dos primórdios da seleção. O sucessor do Alumni como bicho-papão foi o Racing, hepta seguido entre 1913 e 1917 e que, trajado nas cores argentinas e com jogadores latinos, “argentinizou” o campeonato. Os outros quatro gols foram anotados por dois racinguistas, Alberto Ohaco, até hoje o máximo artilheiro do clube, e Alberto Marcovecchio.
Para o duelo contra o Brasil, as alterações se resumiriam à troca do zagueiro Armando Reyes (outro racinguista, aliás) por Arturo Chiappe, do River; e do ponta-esquerda Juan Perinetti (também do Racing) por Claudio Bincaz, do San Isidro, vice-campeão do Racing em 1915 e que, assim como os citados Gimnasia de Buenos Aires, Porteño e Alumni, se voltaria ao rúgbi. Bincaz também jogou este outro esporte bretão, que fez da cidade de San Isidro a capital hermana da bola oval: o clube se dividiria em dois, conhecidos pelas siglas CASI e SIC, justamente os maiores campeões portenhos de rúgbi.
De última hora, porém, Ohaco também não poderia jogar naquele 10 de julho de 1916. Para suprir sua ausência dele, Laguna foi “convocado” diretamente das arquibancadas: ele, que já passara dos 30 anos, apenas pretendia assistir a partida; fora dos campos, era reconhecido como um personagem elegante, sempre impecável de paletó e chapéu. Bincaz teria sido chamado nas mesmas circunstâncias, para a vaga de outrem, mas o desdobramento do jogo deixaria no grosso da memória coletiva somente o caso de Laguna.

El Negro Laguna estreou ali pela Argentina, virando o segundo jogador do Huracán na seleção – o primeiro fora Pedro Martínez, também presente na partida e exatamente quem sugerira a escalação de seu presidente, sabendo que estava na plateia. Laguna não só pegou o bonde andando (ou quase saindo, dependendo da interpretação) como tratou de logo sentar na janela, abrindo o placar com apenas dez minutos. Na metade do primeiro tempo, porém, o Brasil empatou.
Quem se aproveitou foi o Uruguai. Adiante, os celestes bateriam os brasileiros (que haviam levado o empate do Chile no finzinho no dia 8), tirando-os de vez do páreo. O dia 16 reservaria então o clássico do Rio da Prata pela rodada final. Mas naquela data a partida durou só cinco minutos no estádio do GEBA, suspensa por problemas com a superlotação; prosseguiu no dia seguinte, usando-se no lugar o antigo campo do Racing. Os orientales jogaram pelo empate contra a Argentina e seguraram o 0-0 em Avellaneda, sagrando-se assim os primeiros campeões sul-americanos.
Laguna voltaria a jogar pela Argentina apenas em 1919, para outras quatro partidas (e três gols) contra o Paraguai, em um 5-1 e três 2-1 a favor da Albiceleste em excursão pelo país vizinho. O contato com os paraguaios rendeu-lhe uma passagem pelo Olimpia em 1920. Voltou ao Huracán para participar dos primeiros títulos argentinos do clube, em 1921 e 1922. Só jogaria uma vez mais por ele, em 1924, em improviso similar ao da primeira Copa América, para que o time não entrasse em campo com dez jogadores. Foram ao todo 59 gols em 113 jogos pelo Globo.

Ele ainda jogou pelo Olimpia novamente, entre 1925 e 1927, enquanto se alternava como técnico da seleção paraguaia – chegando a comanda-la contra o próprio Huracán, em excursão feita em 1925 pelo clube a Assunção: 2-2 em 11 de abril e 0-0 em 15 de abril. Com renome, dirigiu combinados regionais de Tucumán e Bahía Blanca e como técnico voltou a ser campeão no Huracán, em 1928, em campeonato argentino finalizado já em meados de 1929.
Quase cem anos depois, aquele título argentino válido por 1928 segue sendo a penúltima conquista quemera na primeira divisão. A última viria só em 1973. Até hoje, somente Laguna venceu a primeira divisão como jogador e também como técnico no Huracán. O outro único campeão no clube jogando e treinando foi Carlos Babington, craque naquela conquista de 1973 e comandante nas conquistas de segunda divisão em 1990 e em 2000. Ambos também são os únicos que serviram ao clube como jogador, como técnico e como presidente, coisa rara no futebol como um todo.
Ainda em 1929, Laguna treinou o Paraguai na Copa América, sediada novamente na Argentina. Acabou mantido no cargo na ocasião da primeira Copa do Mundo, no ano seguinte. Intercalou a tarefa com o seu Huracán, onde trabalharia nas divisões de base e ocasionalmente como técnico, função que no bairro de Parque de los Patricios exerceu pela última vez em 1951. El Negro faleceu em Assunção, em 16 de julho de 1959. Sobre ele e os numerosos afro-argentinos do futebol, já dedicamos este outro Especial.



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