145 anos do pai da seleção argentina de futebol. E do rúgbi argentino!

Primeiro jogo da Argentina: O bandeirinha Chevallier Boutell, Duggan, Leslie, W. Buchanan e o árbitro Rudd; Morgan, Moore, Anderson, Dickinson e Jorge Brown; Ernesto Brown, Buruca Laforia e C. Buchanan

Quem no seio do rúgbi adore enaltecer diferenças de valores com o futebol deveria conhecer a introdução dos dois esportes na Argentina. Naqueles primórdios de prática quase que exclusiva na comunidade britânica local, houve um sem número de jogadores que praticaram ambos os esportes bretões. Em 18 de março de 1872, um ano antes da criação da primeira federação de rúgbi (a inglesa), nascia James Oswald Anderson. Ou Juan Osvaldo Anderson, como também ficou conhecido quem impulsionou a seleção argentina de futebol e o primeiro campeonato portenho de rúgbi.

Os próprios argentinos deveriam conhecer melhor esse lado da história. Há referências a Anderson em duas obras riquíssimas de ambas as modalidades: Quién es Quién en la Selección Argentina, livro publicado em 2010 por Julio Macías, a apresentar perfis de todos os que defenderam oficialmente a Albiceleste até aquele ano desde o jogo inaugural de 1902; e no livro oficial do centenário da UAR, a Unión Argentina de Rugby, publicado em 1999. O detalhe é que nenhum faz referências às atividades de Anderson no esporte “contrário”. Eis em três parágrafos a descrição de Macías, que chega a mencionar até a prática de outro esporte bretão na vida de Anderson: 

“ANDERSON, James Oswald. Centreforward. 1 partida (1902). 1 gol. Era descendente de ingleses e, ao mesmo tempo que futebolista, era muito bom jogador de críquete. Disputou a primeira partida internacional da seleção argentina e marcou um dos gols naquela tarde de julho de 1902, no desparelho campo de Paso Molino em Montevidéu contra o Uruguai. A rigor da verdade, a ele se deve bastante, porque sua foi a proposta para o primeiro enfrentamento oficial entre os rivales del Plata.

Um ano antes, teve uma ideia similar e a equipe que concorreu a jogar na capital uruguaia se chamou ‘J.O. Anderson XI Team’, pelo que não cabe considerar internacionalmente oficial o cotejo de 1901, ainda que muitos historiadores (de um e do outro lado do Rio da Prata) o façam. Anderson cumpria, ainda, funções diretivas na Argentine Association Football League (AAFL): primeiro foi secretário e, mais tarde, vice-presidente. Era um dos que acreditava que este jogo seria praticado por toda a juventude em pouco tempo. Não se equivocou.

O BAFC campeão em 1900. Os três no chão seriam presidentes da UAR: Anderson; John Bellamy e Maurice Gilderdale. Em pé, ao centro, o primeiro: Leslie Corry Smith, de bigode e boina

Para aquele encontro de 1902, foi o encarregado de selecionar os integrantes da equipe e ele mesmo se colocou no centro do ataque. Alguns assinalam a ele como o capitão do primeiro selecionado, mas os dados não são coincidentes. Como futebolista, sobressaía por seu sólido e firme jogo aéreo. O consideravam um representante da velha escola inglesa, de posições mais fixas e poucas surpresas”. Já segundo perfil dele na revista Caras & Caretas de 31 de agosto de 1912, ele já tinha experiência prévia em jogos das copas inglesa e galesa. A mesma revista, na edição de 5 de dezembro de 1903, ao noticiar seu casamento com uma certa Mary Jacobs, informou que ele também era diretor da The Review of the River Plate, revista financeira que durou de 1891 a 1995.

No futebol argentino, Anderson atuava pelo primeiro bicho-papão do campeonato argentino (iniciado em 1891, sendo o mais antigo no mundo fora do Reino Unido): o Lomas Athletic, que venceu seus cinco títulos entre as seis edições travadas entre 1893 e 1898. O domínio lomense era tão grande que a única edição não ganha pelo Athletic foi conquistada justamente pela sua virtual equipe B, chamada Lomas Academy, em 1896 – ano em que Anderson foi o artilheiro do campeonato. O time já não seria o mesmo no século XX e largou o futebol em 1909. Anderson ficou como o único atleta lomense a ter defendido a seleção.

Ele também era sócio do primeiro clube argentino a praticar os dois esportes, o Buenos Aires Football Club, que completará 150 anos nesse 2017. Naqueles primórdios, football também poderia designar o rúgbi e foi esse o código que o BAFC resolveu adotar, nos anos 1880, tendo seu epílogo no futebol justamente no campeonato inaugural de 1891 (onde foi lanterna). Aí, entram os dados fornecidos pelo livro do centenário da UAR, cuja antecessora direta, a The River Plate Rugby Union, foi fundada em 1899 com Anderson mencionado na ata de fundação como “secretário honorário”.

Nos anos 1890, o rúgbi argentino resumia-se a encontros anuais entre o BAFC (atual Buenos Aires Cricket & Rugby Club) e outro a fazer 150 anos em 2017, o Atlético del Rosario (então Rosario Athletic), e alguns jogos esparsos de outros. O tal livro do centenário então explica que “na assembleia do Buenos Aires de 1898, seu sócio J.O. Anderson, a quem muitos consideram, e com razão, o inspirador histórico do nascimento do que hoje é a Unión Argentina de Rugby, propôs que se jogasse um campeonato. Após discutir-se sua moção, prevaleceu a ideia de que antes havia que consultar outras instituições, e se comissionou para esta missão o citado e W.R.S. Baikie”.

Anderson como presidente da UAR. Ao lado, a ata de fundação, em inglês – seu nome aparece como “J.O. Anderson” perto do meio. À direita, uniformizado por outro esporte bretão, o críquete

Prossegue o livro que “na assembleia de 1899, Anderson insistiu com sua proposta e agregou, ainda, que sendo o Buenos Aires Football Club o mais antigo dos que jogavam rúgbi, deveria tomar a iniciativa de comunicar os capitães e secretários das outras instituições que praticavam rúgbi no Rio da Prata. O secundou e o apoiou Baikie e sua moção foi aceita com uma só modificação: que se consultasse somente os capitães. Assim se fez e três dias depois, em 10 de abril de 1899, formou-se o Comitê Organizador de um campeonato, dando origem a que, após várias mudanças de nomes, que já se verão, é hoje a Unión Argentina de Rugby”.

A ata de fundação já informava a conclusão de um calendário para o campeonato, prevendo que dois clubes mais distantes entrariam já nas semifinais – o Rosario Athletic e o Montevideo Cricket (o mais antigo time no mundo fora do Reino Unido) a ter rúgbi, mas os uruguaios declinaram o convite. Os clubes pioneiros acabaram sendo, além do BAFC e do Rosario, o próprio Lomas Athletic, o Belgrano Athletic e o Flores Athletic. Os quatro últimos seguiam praticando futebol, com o Belgrano sendo o campeão argentino dessa modalidade naquele 1899.

Já o Lomas, outrora a força dominante com bola no pé, foi justamente o primeiro campeão da bola oval, no torneio inaugural de rúgbi naquele ano. Anderson seguiu praticando futebol no Lomas e rúgbi no Buenos Aires, logo campeão cinco vezes seguidas entre 1900 e 1904, feito que lhe renderia de forma definitiva a taça em jogo – mas o clube, cavalheiro, recusou. E Anderson se alternava: Em 1901, como explicado no livro de Macías, formulou um combinado argentino de futebol para o que a AFA considera ser o primeiro jogo da seleção. Para a FIFA, vale o de 1902, também impulsionado por Anderson. Em 1904, virou o terceiro presidente da história da UAR.

Não era algo incomum. O livro do centenário da UAR assinala sobre aquele ano de 1904 que “o início do campeonato se atrasou vários dias para permitir que os aficionados que também jogavam futebol pudessem integrar suas equipes para enfrentar o conjunto britânico Southampton, que nos visitava”. Afinal, foi a primeira visita de um clube britânico de futebol no país. Muitos dos primeiros jogadores da seleção argentina praticavam os dois esportes.

Alumni campeão de futebol de 1910. Arnoldo Watson Hutton, o artilheiro, é o 3º sentado (Jorge Brown é o 4º em pé, Juan Brown é o 6º em pé e Ernesto Brown é o 2º agachado)

Na época, a nova força dominante do futebol era o Alumni, dez vezes campeão entre 1900 e 1911 (até hoje, só foi superado pelos “cinco grandes”: Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo), quando o clube, que não era autossustentável, deixou os gramados. Era o clube de duas famílias escoto-argentinas, os Watson Hutton e os Brown. Alexander Watson Hutton era o imigrante escocês que criara o colégio que originara o Alumni, e seu filho Arnoldo, artilheiro do campeonato de 1910, chegou à seleção por méritos próprios. Nesse ano festivo de centenário da Revolução de Maio, foi campeão de futebol pelo Alumni e de rúgbi pelo Belgrano Athletic.

Já os Brown forneceram cinco irmãos (Jorge, Carlos, Alfredo, Eliseo, Ernesto, dos quais só Carlos não chegou a ser artilheiro do campeonato) e um primo (Juan) à seleção argentina, sendo até hoje a família mais presente na Albiceleste. O Alumni ainda não praticava rúgbi, mas os Brown sim, havendo registros de jogarem a bola oval pelo Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires, outra instituição pioneira nos dois esportes (sede do primeiro Brasil x Argentina e da primeira Copa América no futebol, o GEBA foi o primeiro clube “latino” campeão no rúgbi, em 1909, e pressionou para publicação em espanhol do estatuto oval). Jorge Brown, considerado o “patriarca”, parecia de fato um jogador de rúgbi ao defender já nos anos 20 o futebol de sua época:

“O futebol que eu cultivei era uma real demonstração de dureza e energia. Um jogo mais brusco, porém viril, bonito, vigoroso. O futebol moderno está enfraquecido por um excesso de passes próximo ao gol. É um jogo que está mais fino, talvez mais artístico, até aparentemente mais inteligente, mas perdeu seu entusiasmo primitivo. É importante manter em mente que o futebol não é um esporte delicado… é um jogo violento e forte”. Os Brown e os Hutton eram maçons, assim como Wilfred Stocks: cunhado de Arnoldo Watson Hutton, jogou futebol pelo Belgrano e uma partida pela seleção em 1906, participando também do primeiro jogo da seleção argentina de rúgbi, em 1910, como bandeirinha.

Stocks também praticava futebol no Rosario Athletic. Lá foi campeão de rúgbi em 1905 junto com vários jogadores que no futebol ganharam três Copas Competencia, embriões da Libertadores entre clubes portenhos, rosarinos e uruguaios nos anos 1900. A mistura chegou também a não-britânicos; o mais notável foi Claudio Bincaz, com uma única participação pela seleção no futebol (contra o Brasil na primeira Copa América, em 1916) e integrante ativo do recorde de treze campeonatos seguidos vencidos pelo maior campeão do rúgbi hermano, o San Isidro (vice de futebol em 1915), entre 1917-30.

Já Anderson teve um fim incerto. O livro da UAR não o menciona após 1905, quando virou presidente (o terceiro, como já dito) para substituir Chevallier Boutell (bandeirinha do primeiro jogo da seleção de futebol), apenas que de 1909 a 1919 seu nome batizou um troféu que doou para torneios de chutes de rúgbi. E o de Macías não conseguiu dados sobre o falecimento do pioneiro.

Muitos dos primeiros campeões argentinos de futebol migraram para o rúgbi. Saiba mais nesta seção do site.

Belgrano Athletic campeão de rúgbi em 1910. Arnoldo Watson Hutton, de perfil, é o primeiro na fila do meio. O terceiro é o cunhado Stocks

About the Author

Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer
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