Título anterior do Feyenoord no Holandesão teve artilharia de um argentino: Julio Cruz

A espera chegou à maioridade, mas enfim terminou em Roterdã: Feyenoord campeão holandês, algo que não ocorria desde a temporada 1998-99. Ocasião em que o artilheiro do elenco na Eredivise foi um argentino: o pouco badalado Julio Ricardo Cruz. El Jardinero virou De Tuinman (tradução literal do seu apelido ao holandês) e tornou-se o primeiro que a seleção importou da liga laranja.

Contamos há cerca de um mês e meio (clique aqui) um pouco da carreira doméstica de Cruz, nos vinte anos de um momento negativo: em sua estreia pela seleção, a Argentina perdeu para a Bolívia em La Paz com direito a muito tumulto, com o atacante nocauteado em um lado do rosto para depois aparecer com um corte feito no lado oposto. Ele sempre alegou inocência na situação nunca esclarecida, que lembrava a do goleiro chileno Rojas contra o Brasil em 1989. 

Cruz havia chegado à seleção depois de um grande segundo semestre de 1996 no River, com dez gols no vitorioso Apertura. Antes, havia somado dez gols na temporada 1995-96 inteira, mas por um Banfield fraquíssimo que terminara em penúltimo no Apertura 1995 e em antepenúltimo no Clausura 1996. Surgiu lá de improviso após destacar-se em um rachão, outrora chegando a aparar o gramado banfileño, daí o apelido de jardineiro. O escândalo contra os bolivianos não chegou a tira-lo da seleção nem do radar europeu: foi à Copa América e, ainda antes do fim do Clausura 1997, foi ao Feyenoord.

Cruz chegou fazendo gols. Foi o artilheiro do elenco já na primeira temporada: 19 gols em todas as competições, incluindo os dois de uma vitória por 2-0 sobre a Juventus na Liga dos Campeões (a equipe italiana seria vice-campeã). Mas os Rotterdammers ficaram a léguas até mesmo do vice PSV. Na época, havia uma disputa ferrenha com a equipe de Eindhoven pela segunda colocação em títulos na Eredivisie, posto que era isolado do Feyenoord até 1990. O PSV igualou em 1991 e superou no ano seguinte.

Em 1993, os de Roterdã reigualaram. Mas o PSV se colocou novamente à frente em 1997. A conquista de 1999 serviu para reigular ambos pela última vez. 

Cruz com o trator onde “El Jardinero” aparava o gramado do Banfield; formando o ataque do River com Ortega e Francescoli; e a polêmica estreia na seleção

Mas não foi um mar de rosas. A língua nada próxima do espanhol era uma barreira natural não só no relacionamento extracampo, ainda que o elenco contasse com o também argentino Patricio Graff e o uruguaio Fernando Picún, ambos reservas. Esse assunto foi bem explorado em documentário lançado em janeiro deste ano (no vídeo ao fim, entre os 14 e os 19 minutos), com direitos a elogios dos colegas Peter van Vossen (“genial. Depois, lamentamos”), Jean-Paul van Gastel (“fazia tudo muito bem”) e do técnico Leo Beenhakker (“um grande homem, e um grande jogador”).

Beenhakker, ex-técnico do Real Madrid na ocasião, foi de grande valia. “O fato de ele falar espanhol foi um sopro de ar”, assumiu Cruz no documentário – o colega Paul Bosvelt (a admitir que a relação “foi gradual”) chegou a dizer que certa vez, o argentino parecia acabado, não entendendo pedidos de acompanhar companheiros de posse da bola .

“Eu ainda era jovem nesse momento. Meu passo depois pela Itália foi muito diferente, já havia aprendido todas as coisas”, exaltou o argentino sobre a experiência. Além dos quinze gols, foram cinco assistências em uma campanha contundente com quinze pontos de vantagem para o vice, o Willem II. O PSV teve os dois artilheiros do torneio, com Ruud van Nistelrooy anotando mais que o dobro do argentino (31) e o belga Luc Nilis fazendo 24, mas a equipe de Eindhoven também teve a pior defesa entre os oito primeiros colocados, sofrendo 55 gols contra 38 levados pelos campeões.

O primeiro gol de Cruz veio na 5ª rodada, o da vitória de virada sobre o PSV em Eindhoven (2-1). Outros dois na 6ª, no 3-2 sobre o vice Willem II, um jogo complicado em que os Rotterdammers tiveram um a menos por quarenta minutos – Cruz abriu o placar e aos 42 minutos do segundo tempo anotou o 2-1; o seguinte demoraria até a 12ª rodada, o segundo do 3-0 sobre o MVV em Maastricht. Dali, embalou de vez: assistência no 4-1 sobre o Fortuna Sittard na 13ª; o segundo e o terceiro no 4-0 sobre o Cambuur na 14ª; o da vitória aos 43 do segundo tempo no 2-1 em dérbi local com o Sparta, na 15ª.

Cruz com o troféu: superação

Voltou a marcar na 17ª, fazendo o segundo, após dar assistência ao primeiro, no 5-0 em Walwijk sobre o RKC. Outros viriam na 20ª, com dois no 3-1 em novo clássico com o PSV. Após três jogos em branco, teve seu desempenho mais lembrado, com dois em um 5-1 fora de casa no Cambuur, um deles encobrindo a 40 jardas um goleiro adiantado, colocando no ângulo (“Leo me disse: ‘viste? Tenho que te dizer as coisas para que entendas o que podes fazer?'”, declarou Cruz sobre o lance). 

No jogo seguinte, o vice Willem II impôs um 4-1, mas Cruz recuperou o Feyenoord na rodada posterior, marcando os dois no 2-0 em Alkmaar sobre o AZ, seguido por um 1-0 no dérbi com o Sparta com assistência do argentino para Jon Dahl Tomasson. Deu outra assistência na partida seguinte, um 4-2 complicado com o Utrecht, que abrira 2-0 dentro do De Kuip em Roterdã – o lance serviu para empatar. Por fim, anotou mais um gol na 29ª rodada, no 2-2 com o NAC Breda. Foi o jogo do título, assegurado com com cinco rodadas restantes. Nela, o argentino contribuiu com uma assistência na última, o 2-1 no Vitesse. Em junho de 1999, veio o retorno à seleção após dois anos.

A reestreia teve direito ao primeiro gol pela Argentina, no 2-2 amistoso com o México em Chicago. Era sua sexta partida pela Albiceleste. Só que na seguinte os hermanos caíram para a ainda incipiente seleção dos EUA em Washington… Cruz terminou de fora da Copa América, voltando a ser ocasionalmente chamado por Marcelo Bielsa entre novembro de 2000 e fevereiro de 2002, já como jogador de um Bologna que brigava contra o rebaixamento e que quase chegou às copas europeias.

A convocação à Copa do Mundo não veio, apesar do gol no 1-1 sobre o País de Gales em Cardiff em fevereiro de 2002. Mas Cruz acertou em 2003 com a Internazionale, começando a fase mais conhecida da carreira. El Jardinero deve ter apreciado o fim de semana: seus dois clubes argentinos ganharam dos rivais na rodada de clássicos (Banfield 1-0 Lanús, River 3-1 sobre o Boca em La Bombonera) e a equipe que o projetou na Europa enfim voltou a erguer a bandeja de prata de Kampioen van Nederland

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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