Semana encerrada com celebração em Lanús: dez anos do 1º título argentino dos grenás

À esquerda, Acosta pula em Sand. O último à direita é Velázquez: os três, dez anos depois, também foram finalistas da Libertadores

É claro que poderia ter sido melhor, por outras razões. Mas o sábado a encerrar a semana que passou teve, sim, espaço para celebrações no Lanús. Completava-se dez anos de que os grenás “compreendiam que tudo era possível”, vivendo “o ponto de partida mais notável da nossa história”, demonstrando “a todos que neste clube não há metas impossíveis de cumprir”, nas palavras da primeira divulgação oficial a respeito do décimo aniversário da conquista do Apertura 2007. Dentre os membros daquela conquista (ofuscada no Brasil pelo rebaixamento do Corinthians, no mesmo dia), três ainda relevantes na atualidade do vice-campeão da Libertadores: Lautaro Acosta, Maxi Velázquez e, sobretudo, José Sand, autor de 15 gols em 16 partidas da primeira campanha granate campeã da elite, encerrada naquele 2 de dezembro de 2007.

Apesar dos gols de Sand, quem na época foi visto como o nome mais diferenciado era o meia-direita Diego Valeri. El Conde destacava-se tanto por desempenhar-se bem em qualquer função do meio campo e pelos bons passes e arremates como também por mostrar-se fluente em alemão e nas obras de Nietzsche e Kafka, sendo assediado na época por Juventus e Atlético de Madrid – mas vindo a vingar no exterior somente nos EUA. Superava um período de um ano parado por rompimento nos ligamentos do joelho, para, sob a aposta do técnico Ramón Cabrero, ganhar espaço enfim naquele ano. Fez seis gols. 

Valeri terminou como vice-artilheiro do elenco. Se ele era o nome, era porque o artilheiro era Pepe Sand, ainda visto como um notável refugo do River, sem ninguém para imaginar no que ele se transformaria tardiamente. Ele era o maior goleador da história das categorias de base millonarias, mas desde que subira ao futebol adulto custava a ter média de 0,3 gols por jogo na maior parte dos clubes que defendera, incluindo aí o Vitória no Brasil. Já tinha 27 anos e chegara a defender também o rival lanusense, o Banfield. Chegou aos grenás para aquele campeonato para fazer 44% dos gols do clube, que teve o melhor ataque do Apertura (média de 1,78 gols por jogo).

Sem falsa modéstia, Maxi Velázquez, outro já com boa rodagem (já estava no nono ano de carreira adulta), classificou em 2016 que o time de 2007 foi o melhor em que jogou: “nos últimos seis jogos desse Torneio Apertura, saíamos a campo e sabíamos que ganharíamos, pelo nosso futebol e nosso alto astral. Entrávamos e nos divertíamos”, afirmou o futuro recordista de partidas pelo clube. Não era exagero: nos cinco jogos finais, foram três vitórias, dois empates, 11 gols a favor e só três contra… e, ainda mais veterano que Maxi era Carlos Bossio, primeiro goleiro da seleção no ciclo de Daniel Passarella (1994-98), mesmo defendendo na época um time da segunda divisão (o Estudiantes).

Na época, a grande estrela era Diego Valeri. Comemora seu gol no 4-0 no Gimnasia LP, penúltimo compromisso do campeão

“Ver as pessoas mais velhas, sujeitos de 90 anos, chorando e abraçando a cada um que passava e lhes agradecendo. São essas imagens que te emocionam e te marcam. Incrível que me acontecesse isso nessa idade e no Lanús. Ficamos na história. Daqui a cem anos se seguirá lembrando”, exaltou o goleiro-capitão, titular da posição depois consagrada pelo ainda reserva Agustín Marchesín. Dos demais nomes, destaque especial às seguintes promessas de um elenco cuja média de idade era de apenas 22 anos, e com 23 dos 32 componentes vindo das inferiores: o lateral Agustín Pelletieri, o outro único a estar presente também no título argentino seguinte, nove anos depois (junto de Sand, Velázquez e Acosta, mas dessa vez sem a mesma participação); e os meias Lautaro Acosta e Sebastián Blanco, cada um com dois gols, suficientes serem os terceiros na artilharia do elenco.

Se Acosta dispensa apresentações, Blanco seria por sua vez o regente da campanha quase campeã no Clausura 2009 – todos lembram de um torneio disputado por Vélez e Huracán e nem tanto que os grenás estiveram bem no páreo até a penúltima rodada. Blanco, ainda como jogador do clube, chegou a estar na lista de pré-convocados de Maradona para a Copa do Mundo de 2010, ainda que, como Valeri, não tenha decolado como prometia (é inclusive colega dele hoje no Portland Timbers). Por fim, duas curiosas nacionalidades na delegação: um brasileiro, Jadson Viera, que desenvolvera a carreira no futebol uruguaio; e um massagista importado do Turcomenistão (!!!!): Vasiliy Bogdanov.

Ele chegou à Argentina nos anos 90, com passagem paga pelos agradecidos diretores de uma companhia energética local que eram argentinos e pais de crianças que Bogdanov salvara de uma tempestade de areia. Ele inicialmente empregou-se na Argentina como preparador físico de basquete, esporte ao qual se dedicava na terra natal, e nessa função havia chegado ao Granate. Em três anos, já era fluente em espanhol, repetindo com frequência “laburo” (trabalho), “quilombo” (confusão) e “viste?” para concluir suas frases, tudo segundo essa matéria da El Gráfico. Assim como ele, o técnico também era de outro continente: Ramón Cabrero nascera na Espanha, mas criou-se desde cedo na Argentina e havia defendido o time dos anos 60, no festejado elenco apelidado de Los Albañiles, “Os Pedreiros”, pelas paredes (como os argentinos chmam as jogadas de tabelas) que faziam.

Aquele Lanús já havia aprontado um ano antes. Na rodada final, havia ganho em plena La Bombonera do então líder Boca, a quem o empate bastava para ser campeão, mas que acabou precisando jogar uma partida extra com o Estudiantes (na qual perderia de virada um torneio que parecia ganho). E seria na própria Bombonera que, em 2 de dezembro de 2007, os grenás garantiriam seu próprio título. Algo que parecia improvável no início: o time não venceu nas três rodadas iniciais. Na estreia, o campeão perdeu de 5-3 para o Independiente do artilheiro do torneio, Germán Denis (atualmente, reserva do próprio Lanús); empatou em casa em 1-1 com o Huracán; e perdeu de virada por 2-1 para o Colón, na partida do primeiro gol de Sand, de pênalti.

Capitão, o goleiro Carlos Bossio, ex-seleção, comanda a festa em plena Bombonera

Na quarta rodada, enfim uma vitória, mas sofrida. Foi em casa, e derivada de um gol contra do Olimpo aos 43 minutos do segundo tempo. Quem fazia um bom torneio era justo o rival Banfield. O Clásico del Sur nunca foi tão forte como naquele período entre 2007 e 2009, em que ambos conseguiram seus primeiros títulos. A conquista lanusense de 2007 terminou ofuscado o ótimo torneio banfileño, onde os vizinhos terminaram com o bronze. Os alviverdes, após derrota na estreia de 3-0 para o Estudiantes, engataram três vitórias seguidas (1-0 fora de casa no Racing, 1-0 no Vélez e notáveis 4-0 fora no Arsenal, que naquele semestre venceria a Sul-Americana), mas no compromisso seguinte, a quinta rodada, caíram em casa no dérbi. 

Foi de virada: de pênalti, o goleiro Christian Lucchetti (um Rogério Ceni argentino) abriu o marcador, mas Sand fez valer a lei do ex, anotando ainda no primeiro tempo os dois gols da virada. Não se sabia, mas foi o ponto de inflexão da temporada: o Lanús só perderia mais uma vez. E terminou o campeonato com seis pontos de diferença para o vizinho: na fria matemática, uma derrota ali teria feito ambos terminaram empatados na liderança com 35 pontos. Em vez disso, o Lanús acumulou 38 enquanto seu vice foi outro nanico surpreendente, o Tigre, com 34.

Após vencer o clássico, o Lanús ganhou do Gimnasia de Jujuy (2-0), empatou fora de casa com o Newell’s (0-0) e teve um maluco 4-3 sobre o San Lorenzo: nos dez minutos finais do primeiro tempo, abriu 3-0, com Sand, Valeri e Acosta. Depois, chegou a estar vencendo por 4-1 no segundo, mas os azulgranas, campeões do campeonato anterior, assustaram encostando no placar marcando duas vezes nos últimos quinze minutos. Depois dessa montanha russa, veio a última derrota, no 3-1 para o River no Monumental. Sand fez novamente valer a lei do ex, marcando o gol de honra e pedindo silêncio às vaias que ouvia desde que pisara em campo. Nascia de vez a relação de ódio com os millonarios, a ganhar um capítulo especial dez anos depois.

Embora tenha sido a última derrota, não necessariamente o Granate desembestou. Os pontos obtidos foram inicialmente sofridos: 1-0 no Estudiantes com gol de Roberto Jiménez aos 47 do segundo tempo; 1-1 na visita ao Racing, com Sand empatando nos vinte minutos finais; magros 2-1 no Vélez (segurando um resultado aberto nos primeiros 15 minutos, com dois gols do onipresente Sand) e 1-0 fora no Arsenal (segurando o resultado aberto aos 8 minutos, de novo por Sand…). Veio em seguida um 2-0 no San Martín de San Juan para então o time receber o Tigre, numa verdadeira final antecipada com quatro rodadas em aberto.

Três nacionalidades incomuns em um time campeão argentino: Jadson Vieira, do Brasil, o massagista Vasiliy Bogdanov, do Turcomenistão (!), e o técnico Ramón Cabrero, espanhol

Ainda foi difícil. Os rubroazuis empataram perto do fim do primeiro tempo o placar aberto por Sand. Mas Matías Fritzler assegurou o importante triunfo, já aos 15 do segundo tempo. Com a confiança em alta, veio a grande exibição do campeão: um 4-1 no Rosario Central. Dentro do Gigante de Arrroyito. Blanco, Walter Ribonetto, Sand e Valeri (esses, de forma relâmpago aos 32 e 34 do segundo tempo) anotaram os gols visitantes. Um pouco de água fria veio na rodada seguinte, ao não sair-se de 0-0 em casa com o Argentinos Jrs em 25 de novembro. Restavam duas rodadas. O Lanús deveria pegar o Boca como penúltimo compromisso, em 2 de dezembro, e depois o Gimnasia LP, uma semana depois.

Só que o Arsenal, que em paralelo decidiria a Sul-Americana no dia 5, pediu o adiamento de sua partida contra o Gimnasia. Ela seria no dia 2 e passou para o ano de 2008. Nem Arsenal nem Gimnasia disputavam nada, mas a AFA resolveu no pacote alterar também os jogos de quem tinha chance de título: os compromissos de Lanús e Tigre na última rodada foram antecipados para 28 de novembro. O Tigre não se descuidou: em casa, arrancou uma virada por 2-1 sobre o Boca, com dois gols nos quinze minutos finais. E o Granate encantou de novo: 4-0 no Gimnasia, com dois de Sand, um de Valeri e outro de Nelson Benítez.

Três pontos separavam vice e líder. O Tigre visitaria o Argentinos Jrs precisando vencer e torcer para o Lanús perder diante do Boca; assim, seria necessário um jogo-desempate, já pré-agendado para apenas 48 horas depois, em 4 de dezembro (dá-lhe AFA!). O Tigre havia acabado de voltar da segundona após décadas, mas não conseguiu o feito incrível de um título imediato na elite (e até hoje jamais foi campeão nela). Faltou fazer a própria parte, derrotado por 1-0. Pois o Grana, por sua vez, de fato não venceu em La Bombonera. Mas não perdeu e até começou ganhando, graças a Sand. Palermo empatou, mas foi incapaz de aguar a festa em cor de vinho dos visitantes.

Ontem foi o décimo aniversário daquela conquista. E, por tabela, foi o décimo aniversário do “dia do torcedor do Lanús”, como ficou oficialmente marcado cada 2 de dezembro. Infelizmente, ontem ela não foi tão completa como poderia. Falamos em “razões” na introdução não apenas pela perda da Libertadores, pois com ou sem ela a festa já teria a ausência sentida de Ramón Cabrero, falecido há poucas semanas, horas depois justamente daquele épico 4-2 sobre o River. Foi justamente seu rosto o escolhido para estampar as palavras oficiais que traduzimos também na introdução.

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Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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