60 anos de Ricardo Gareca: antes de um grande técnico, um grande jogador

No time do coração, o Vélez, empatando aos 43 do segundo em 3-3 jogo que perdia por 3-0 em 1990

“Minha carreira esportiva teve muito de tudo: muitos aplausos, muitos gols e muitos insultos. Consegui que se colocassem de acordo os torcedores de Boca e River: me xingaram os dois. Também me vaiaram na minha estreia com a seleção. De todo modo, há coisas que terminam te fazendo mais forte; para mim, todas as experiências servem e através dos anos você vai curtindo”.

“Não, embora tenha vivido desencontros em certos momentos, sou uma pessoa que acredita em mim mesmo”.

As duas declarações acima foram dadas em 2009 por Ricardo Alberto Gareca, então técnico que dera o primeiro título do Vélez em quatro anos (naquela tumultuada “final” com o Huracán). Foi em entrevista à saudosa El Gráfico, em nota nomeada com outra frase: “sou campeão e não sei se chego ao fim do ano [no emprego]”, resignado com as constantes mudanças de marés na função de treinador. Não só ficou como comandou o clube do coração até 2013, com o time iniciando queda vertiginosa desde então. A primeira frase respondia à indagação inicial sobre uma auto-avaliação. A outra, em contraponto aos diversos louros como treinador, dizia respeito a sentir-se ou não um tremendo pé frio como jogador. Há margens para isso, como relembraremos agora, no sessentinha de El Tigre, focando na sua trajetória de centroavante no futebol argentino.

No início, era El Flaco (“O Magro”) mesmo. E não atacante, e sim goleiro – “dizem que era bom no gol, e até o San Lorenzo veio me buscar”, afirmou naquela entrevista. Mas quando enfim foi fazer testes em um clube, foi no Boca e já na função de centroavante, após sair-se bem improvisado assim na ausência de outro jogador em uma pelada de bairro na qual seu pai havia lhe levado. Se dependesse do coração, o time seria outro; com dez anos, saboreou com o pai o primeiro título argentino do Vélez. “Meu velho não quis me levar ao Gasómetro (onde ocorreu a partida do título) e a escutei pelo rádio. Em Tapiales, os únicos torcedores do Vélez éramos nós e engolia cada gozação bárbara. Nessa vez, fui à forra”.

Outros dez anos depois, estreava no time adulto do Boca, em 20 de setembro de 1978, em vitória por 1-0 fora de casa sobre o Rosario Central já na reta final do Torneio Metropolitano no qual os auriazuis, recém-campeões mundiais (em julho, em jogos válidos pela edição de 1977), ficariam no vice para o Quilmes. Desconsiderando amistosos, jogou mais quatro partidas naquele ano, nenhuma delas no bicampeonato da Libertadores, e mais cinco ao longo do ano seguinte. Em 1980, foram seis, rendendo também, enfim, os primeiros gols, três. A falta de continuidade levou o clube a empresta-lo no início de 1981 ao Sarmiento. Treinado por Roberto Perfumo, o time de Junín iria estrear na primeira divisão. Os inexperientes alviverdes ficaram a dois pontos do rebaixamento.

No Boca, teve média de meio gol por jogo quando foi titular. Incluindo nos Superclásicos, onde aparece à direita entre os amigos Ruggeri e Jorge Vázquez, além do oponente Tarantini

Se o Sarmiento não caiu, foi por causa de Gareca: marcou treze vezes, incluindo em duelos contra os grandes San Lorenzo (ambos no 2-0), Independiente (duas vezes em um 3-3) e Racing (1-1, em Avellaneda), além dos dois em empate em 2-2 fora de casa contra o vice-campeão, o Ferro Carril Oeste. O FCO terminaria vice exatamente por um ponto a menos que o campeão, exatamente o Boca do reforço Maradona. Aí morou uma primeira ironia: no único título argentino que o Boca levou durante a estadia de Gareca no clube, o atacante não estava presente. Mas ele valorizou a passagem pelo Sarmiento (“a equipe que relançou minha carreira. Mudou minha vida. Terminei perdendo o título, mas a decisão de ir ao Sarmiento foi das mais acertadas que tomei”).

Foi no Sarmiento que El Flaco recebeu um apelido menos “generalizado”: El Tigre. O Boca logo o requisitou de volta e, pouco depois do retorno, Gareca estreou pela seleção, em outubro de 1981. Foi logo titular, mas não foi feliz: em casa, os hermanos foram derrotados pela Polônia. O novato foi mal, substituído no início do segundo tempo, e muito vaiado. Foi o único teste de Gareca antes da Copa de 1982, para a qual terminou não convocado. O retorno ao Boca foi bom individualmente, com Gareca desembestando a marcar gols, especialmente nos Superclásicos. Em oito disputados pelos auriazuis no campeonato argentino, marcou quatro, incluindo dois em um 5-1 em pleno Monumental em 1982.

Ao todo, foram quatorze duelos contra o River e oito gols, incluindo os três em 3-0 amistoso em 1984. No geral, foram 182 jogos e 83 gols, próximo do meio por partida e com muitas das primeiras delas abaixando a média; considerando só os números a partir de 1981, quando virou titular fixo, foram 80 gols em 162 jogos. O bom desempenho daquele atacante potente, de boa resistência e jogo aéreo, e os reiterados gols no rival lhe faziam um ídolo xeneize. Por outro lado, o clube logo sofreu efeitos financeiros colaterais da aventura de buscar em dólares o empréstimo de Maradona (logo vendido ao Barcelona em 1982). Nos desmandos econômicos da ditadura, a moeda ianque se valorizou em 240%.

De início, a perda de Maradona pesou mais do que a contratação; faltava aquele “algo a mais” no Boca, mas a azul y oro seguia fazendo boas campanhas. O time foi terceiro colocado no Metropolitano de 1982, no qual Gareca foi vice-artilheiro. No Torneio Nacional de 1983, caiu apenas na prorrogação para o Argentinos Jrs do técnico Ángel Labruna e do goleiro Ubaldo Fillol – Gareca foi, outra vez, vice-artilheiro do campeonato. Em maio de 1983, ele fez sua segunda partida pela seleção, novamente como titular, rendendo o primeiro gol, em 2-2 contra o Chile em Santiago. Foi levado à Copa América e nela anotou um dos gols mais emblemáticos do ciclo pré-Copa do novo treinador, Carlos Bilardo: o único na partida contra o Brasil, encerrando o maior jejum argentino no clássico, a perdurar treze anos.

Na seleção, fez os dois gols mais emblemáticos da era Bilardo antes da Copa de 1986: o que encerrou jejum de 13 anos contra o Brasil e o que classificou a Argentina ao mundial

E ele seguia na seleção apesar de em 1984 o lado econômico já ser mais gritante nos descaminhos do Boca. No Nacional, eliminação na fase inicial em um grupo de só quatro clubes. No Metro, 16º de 19 times, só não brigando com o rebaixamento graças aos promedios, instalados no ano anterior. Se esportivamente havia a segurança contra uma queda, economicamente o clube esteve à beira da falência, com La Bombonera inclusive sendo fechada – com o Boca alugando o próprio Monumental para jogar como mandante de um Superclásico naquele ano, simbolicamente marcado pela pior goleada sofrida pelo time: o 9-1 para o Barcelona pelo Troféu Joan Gamper.

Gareca não estava nessa derrota exatamente por servir à seleção. Ele e o zagueiro Oscar Ruggeri eram quem se salvavam naquela pindaíba boquense. “Eu creio que se me calhasse outra época no Boca, poderia ter sido um dos ídolos mais importantes. Ao voltar ao Boca, andei muito bem, mas o clube era um desastre”, declarou o Flaco naquela entrevista. De fato, “representou” o clube em uma série humorística de fotos naquele 1984 em que alguns jogadores posaram como “Os Intocáveis”. Mas, ao fim do ano, os jogadores do Boca fizeram greve. O presidente do arquirrival viu a deixa para contratar diretamente dos auriazuis, algo já por si inédito. Pinçou exatamente Gareca e Ruggeri, trocando-os pelos subaproveitados Julio Olarticoechea e Carlos Tapia e algum dinheiro.

“No dia que colocamos a camisa do River para a El Gráfico, eu olhava Oscar, ele me olhava e não entendíamos nada. ‘Vão nos matar’, dizíamos com o olhar”. Ambos, de ídolos xeneizes, passaram a eternos judas. Para Gareca, a cantoria da antiga torcida era “Gareca tem câncer, tem que morrer”. Como millonario, durou apenas seis meses, com quatro gols. Em paralelo, seguia na seleção e, na única das 26 partidas que fez na qual não foi titular, terminou autor de um outro gol emblemático: o da classificação à Copa do Mundo, nos minutos finais contra o Peru, que mesmo no Monumental vencia por 2-1 e por pouco não roubou a vaga mundialista tal como em 1969.

Gareca já tinha 27 anos e, após rechaçar no início da carreira ofertas europeias (chegou a posar com a camisa do Torino e segundo ele na entrevista também foi sondado por Sevilla e Atlético de Madrid, além da amizade com Maradona iniciada no Boca render lobby de Diego pelo Tigre junto ao Barcelona) em tempos nos quais não havia desnível técnico e econômico com o Velho Continente, topou ir ao América de Cali após duas partidas pelo River no campeonato de 1985-86, que seria ganho pelo Millo. O América nadava no dinheiro do narcofútbol, ainda que com discrição, conforme retratado em Narcos: “os Rodríguez Orejuela comigo se portaram de modo sensacional, mas eu não vi nunca nada incomum. Nunca nos faltou nada, cumpriam sempre a palavra. Só havia relação dirigente-jogador”Ainda em 1985, Gareca bateu na trave, já pelo América, de ganhar a Libertadores. 

Causou comoção ao ir com Ruggeri ao River em 1985. A transferência só lhe serviu para despertar ódio onde antes era ídolo: “Gareca tem que morrer, Gareca tem câncer”

Na final, foi derrotado nos pênaltis pelo Argentinos Jrs. Em 1986, sofreu a decepção de, apesar daqueles gols emblemáticos, não ir à Copa do Mundo: “estava no Chile, concentrado com o América. Os meios colombianos já me colocavam dentro da lista, mas não me ligava ninguém da Argentina. Em um momento, entrei no refeitório e todos os muchachos fizeram um silêncio… vieram e me contaram. Depois fui ao quarto e chorei como um condenado. Creio que se tivesse estado na Argentina, teria me respaldado mais, ao sair fiquei meio desprotegido. Me dava bronca ter bancado a pior etapa, quando havia que dar a cara para sustentar um processo, porque o Bilardo era questionado por todos os lados, e depois ficar de fora. Na lista apareceram jogadores que nunca haviam estado antes, como Enrique, Borghi, Almirón, Tapia, outros que haviam renunciado…”.

Nos quatro jogadores envolvidos naquele troca-troca entre Boca e River, foi justamente o único ausente. Como se não bastasse, 1986 também rendeu um bivice na Libertadores, justo contra os ex-colegas do River. Foi ali que começou a ser vaiado também pela torcida millonaria, ao circular boatos de que estaria disposto a usar por baixo do uniforme americano a camisa do Boca – os barrabravas xeneizes teriam lhe ofertado que caso fizesse isso e fosse campeão, seria perdoado. O River não só venceu os dois jogos como Gareca ainda foi expulso no início do segundo tempo da segunda final, no Monumental. O bivice viraria tri em 1987, na derrota mais dolorosa: Gareca foi o artilheiro daquela Libertadores, mas sofreu uma distensão em meio às finais e viu do banco o Peñarol marcar no último minuto da prorrogação o gol do título.

Seguiu no América até 1989. Já com 31 anos, o coração pesou para enfim defender o clube do coração, vindo ao Vélez. Oficialmente, foram 24 gols em 113 jogos, números baixos que, segundo o Diccionario Velezano, tiveram a ver exatamente com o lado torcedor de uma equipe que não era campeã desde aquele título pioneiro de 1968: Gareca tentava em campo realizar funções além das que lhe eram esperadas e acabava terminando por ser um atacante contraproducente. Ainda assim, ao longo de três anos e meio marcou gols sobre Boca (em duas partidas, incluindo um aos 43 do segundo tempo para empatar em 3-3 jogo em que o Fortín perdia de 3-0), River, Independiente e em dois Clásicos del Oeste contra o Ferro Carril Oeste, que então tinha mais títulos.

O Independiente terminou indo atrás dele no início de 1993. Eis a ironia final na carreira de jogador, que havia levado àquela indagação respondida na introdução: o ausente do Boca campeão de 1981 e o ausente do River campeão de tudo em 1986 também viria a ser o ausente do vitorioso ciclo velezano iniciado exatamente no primeiro campeonato após a saída do Tigre. No Independiente, não passou de um reserva útil. Mas marcou seus golzinhos, incluindo dois no River e um no próprio Vélez. No Rojo, enfim esteve do início ao fim em um elenco campeão no futebol argentino, com os títulos em 1994 no Clausura e na Supercopa – onde participou de quatro jogos, sempre entrando a partir dos 20 minutos finais no lugar de Gustavo López, Sebastián Rambert ou Albeiro Usuriaga. 

No Vélez, o clube do coração, foi novamente colega de Ruggeri (à direita). Na outra foto, disputa o clássico com o Ferro Carril Oeste, na época em que o rival vinha melhor

Gareca pendurou as chuteiras ainda na 12ª rodada do Apertura 1994, em 13 de novembro. Saiu às lágrimas em função de um acidente de carro matar, quatro dias antes (no dia em que o Independiente venceu a Supercopa), o amigo Jorge Vázquez, ex-colega de Boca e Vélez que havia virado seu agente. Já vinha fazendo o curso de técnico. Na nova função, antes do sucesso na seleção peruana, experimentou de tudo. Iniciou-se no interior, primeiro no San Martín de Tucumán e dali para o Talleres, seu primeiro sucesso: primeiramente, por encerrar com um 5-0 um jejum de quinze anos sem vitória no Clásico Cordobés com o Belgrano em 1997. Dali voltou ao Independiente para substituir César Menotti, que havia sido vice-campeão argentino. Não manteve o êxito do antecessor e voltou ao Talleres, para novo grande capítulo: o título da segundona de 1998 garantido exatamente em final com o arquirrival.

Para quem era traidor no Boca, Gareca chegou inclusive a ser sondado para treina-lo antes da escolha por Carlos Bianchi. Seguindo em La T, obteve, sobre o CSA, a Copa Conmebol em 1999. O “Talleres de Gareca” também lutou pelo título do Apertura 2000, a um ponto do vice e a cinco do campeão Boca, classificando-se pela primeira vez à Libertadores – que seria a edição 2002. Mas El Tigre não seguiu em Córdoba até lá: em janeiro de 2001, rumou ao Colón, com os ex-comandados sofrendo: ficaram em último no Apertura. Não brilhou em Santa Fe e parou na segunda divisão para treinar o Quilmes. Em seguida, no Argentinos Jrs, também não teve resultados significativos. Acabou voltando a outra velha casa: “nããão, pelo contrário. Aquele América fez história no futebol colombiano. Voltei à Colômbia em 2005, após 16 anos sem pisar em Cali. Quando cheguei ao aeroporto, vi bandeiras vermelhas, uma multidão, e pensei que havia um protesto. Não. Eram 1.500 pessoas dando-me boas vindas”.

A frase acima respondeu naquela entrevista indagação se aquele América trivice da Libertadores era ridicularizado no país. Mas ele não conseguiu o mesmo sucesso de jogador e também não foi além no Santa Fe. O relançamento da carreira outrora promissora viria no Peru; não ainda na seleção, mas no Universitario, campeão em 2008. Isso o credenciou a voltar ao Vélez, o que não o livrou de desconfianças, assumindo ser uma aposta. Respondeu com o primeiro título em quatro anos do clube, naquele Clausura 2009, dedicado ao recém-falecido pai e sendo um troco pessoal no Huracán, que havia impedido na infância de Gareca um título quase ganho dos fortineros em 1971.

O resto é a história mais conhecida: Gareca virou o segundo treinador mais vencedor do clube do coração, abaixo apenas de Carlos Bianchi, com outros três títulos nacionais dali até 2013, quando saiu. História de quem superou novo fracasso, no Palmeiras em 2014, retomando o prestígio da seleção peruana, exorcizando o carma mútuo pendente de 1985 para irem juntos a uma Copa do Mundo, a primeira do Peru desde 1982. “Se não se classificares contra esses jogadores de rúgbi, se mate”, gracejou o velho companheiro Ruggeri em referência à repescagem contra a Nova Zelândia…

Suas outras camisas argentinas: Sarmiento, onde deslanchou, e do Independiente: disputa com Galván (futuro Atlético Mineiro) um clássico com o Racing e se despede às lágrimas pela morte do amigo Jorge Vázquez

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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