Seleção

90 anos de um tumultuado Brasil-Argentina na Copa América

A final da Copa América de 1925 chega a ser descrita como o primeiro capítulo violento na rivalidade entre Brasil a Argentina. Foi de um tempo que deu margem a lendas, reforçadas pelo fato de que as duas seleções só voltariam a se enfrentar doze anos depois. O livro Deuses da Bola – 100 Anos da Seleção Brasileira chega a falar em arremessos de pedras e sacos de água na delegação brasileira e que a imprensa noticiou a partida como “A Guerra do Barracas”, em alusão ao Sportivo Barracas, clube forte da época (mas hoje na 4ª divisão) cujo estádio sediou o jogo. Contudo, registros da época dão uma outra impressão, ainda que não desmintam totalmente os momentos de tensão.

O jogo de noventa anos atrás foi histórico, a princípio, pela enorme concentração de jogadores do Boca. Em nenhuma outra partida a seleção usou tantos atletas auriazuis de uma vez: foram sete. A razão é que naquele momento haviam duas associações argentinas, cada uma com seus próprios clubes e campeonatos, em cisão que durou de 1919 a 1926. A associação que era reconhecida pela FIFA tinha Boca e Huracán como principais equipes. River, Independiente, Racing e San Lorenzo estavam na outra e por isso não tiveram jogadores na Albiceleste no dito período. O Boca, que vinha de consagradora excursão à Europa naquele 1925, era o principal celeiro, com oito dos quatorze convocados – ou mais, se considerarmos a inclusão anedótica de Kanichi Hainai, japonês nativo que era massagista xeneize e acabou aproveitado pela Albiceleste também.

A Argentina que enfrentou o Brasil no natal: o massagista japonês Kanichi Hanai, Médici, Bidoglio, Vaccaro (que era do Argentinos Jrs), Tesorieri, Fortunato e Muttis; Tarasconi, Cerrotti, Seoane, De los Santos (ambos do El Porvenir) e Bianchi (do Progresista). Em negrito, os do Boca

Um dos grandes ídolos do Independiente naqueles tempos, porém, fez-se presente. Foi o atacante Manuel El Negro Seoane. Sua presença foi possível porque ele estava suspenso de sua associação após esbofetear um juiz que lhe expulsara. Continuou jogando, mas na associação “oficial”, pela equipe do El Porvenir (hoje um clube de quinta divisão, completou cem anos neste 2015). Ele, inclusive, havia reforçado pontualmente o Boca naquela excursão europeia, embora já não estivesse no clube na Copa América. Além de Seoane, outro do El Porvenir era Alejandro de los Santos, de fato um afro-argentino. Ele inclusive aparece na imagem que abre essa matéria, observando dividida entre Juan Bianchi e Nascimento.

Enquanto a Argentina desfilava um negro, o Brasil tinha dois paraenses consigo, algo não exatamente incomum nas duas primeiras décadas da seleção brasileira: a Belém da Borracha já era passado, mas existira a tempo de já praticar football antes de Charles Miller trazê-lo a São Paulo. A decadência do ciclo borracheiro a partir de 1912, em outra via, levava os filhos da elite local a se enraizarem na capital. Tio da atriz Rosamaria Murtinho, o centroavante Nilo Murtinho, filho do capitão do porto de Belém, se criara no Fluminense. O lateral Pamplona, nascido no Marajó, até chegara a defender o Remo antes da carreira militar transferir este caboclo ao Rio, onde serviu sobretudo o Botafogo. Eles dois até iriam juntos à Copa de 1930 ao lado de outro paraense, Ivan Mariz, também criado no Fluminense. E, ao virem à Argentina naquele 1925, corrigiam uma injustiça na edição sediada por Buenos Aires em 1921, na qual a falta de fundos da CBD inviabilizou a viagem de Suíço, convocado diretamente do Paysandu para o torneio.

O Brasil no natal de 1925: Hélcio, Pamplona, Tuffy, Pennaforte, Rueda, Nascimento e o técnico Ramón Platero; Filó (que curiosamente completou 20 anos de idade no dia seguinte), Lagarto, uma mascote, Friedenreich, Nilo e Moderato

O Brasil da Copa América de 1925 era mesmo basicamente composto por egressos do torneio carioca, com enxertos do Paulistano, como o mitológico Arthur Friedenreich e outro nome de história, Filó – que nove anos mais tarde viria a ser o primeiro brasileiro a vencer uma Copa do Mundo, sendo reserva na seleção italiana de 1934, na qual fora registrado como Anfilogino Guarisi. Outra exceção foi o goleiro Tuffy, do Sírio & Libanês. Eram outros tempos: ele, que chegaria a jogar amistosos por um “brasileiro” San Lorenzo em 1933, e o volante Floriano participariam da competição também como bandeirinhas. E o treinador era um estrangeiro, o uruguaio Ramón Platero. Ironicamente, ele seria o único uruguaio em uma edição marcada pela ausência da Celeste Olímpica.

O futebol uruguaio vinha também por um cisma recente, que isolou o Nacional na liga “oficial” e o Peñarol em outra, razão pela qual ninguém do Peñarol participara da conquista olímpica de 1925. A temporada de 1925 marcava justamente a reunificação do futebol celeste e, para a Associação Uruguaia, era mais atrativo financeiramente agendar para o fim de ano a aguardadíssima volta dos Superclásicos da dupla de gigantes após anos de hiato. Sem que o Chile também topasse visitar Buenos Aires, pela primeira vez houve turno e returno na Copa América, em um triangular entre brasileiros, argentinos e paraguaios.

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O carrasco Seoane fez quatro gols no Brasil naquela Copa América. Integrara em 1925 a excursão europeia do Boca, que repercutiu também na imprensa brasileira

O nome mais ilustre das escalações paraguaias era de Manuel Fleitas Solich, que se consagraria entre ambos os adversários, como jogador do Boca no fim daquela década e como técnico do segundo tricampeonato carioca do Flamengo (nos anos 50). Sua Albirroja foi logo deixada para trás: os dois primeiros jogos a envolveram, com o Paraguai perdendo de 2-0 para a Argentina e por 5-2 para o Brasil. Jornais da época retratavam que os brasileiros haviam sido recebidos com muita hospitalidade, com banquetes e passeios pelo delta do Paraná em Tigre. Isso se voltou contra após a partida seguinte. Em um gol descrito como inesperado pela própria imprensa brasileira, Nilo abriu o placar para os visitantes, mas os argentinos terminaram virando para 4-1.

Aquela era a pior derrota do Brasil para o vizinho até então. “Na opinião de uns telegramas, reside no colapso da linha média a razão da sova; a crer em outros, a surra resultou de ‘pichotadas’ de Tuffy, na segunda metade do embate” foram alguns comentários do jornal O Imparcial, que prosseguiu com expressões curiosamente atuais em meio ao palavreado da época: “A verdade, porém, é que ontem, na roda do paredros, corria como certo que (…) muitos dos componentes da esquadra representativa do nosso país haviam ‘caído na farra’ – como se diz em gíria carioca – prejudicando não só o treinamento regular da équipe como – é incrível! – comprometendo a coragem, a resistência, a técnica do combinado que, no dia decisivo, viu-se impotente para honrar a tradição do football brasileiro, deixando-se abater com facilidade de um 2º team vulgar”.

Cena do Argentinoa 2-0 Paraguai, em cabeceio de Irurieta sob marcação do paraguaio Díaz

A derrota abalou a delegação, com notas mencionando que a delegação se submeteria a uma disciplina rígida. No primeiro jogo do segundo turno, o Brasil bateu o Paraguai por 3-1. A seguir, a Argentina venceu os guaranis pelo mesmo placar, enquanto os brasileiros mantinham o ritmo em Rosario, onde ficaram no 1-1 em amistoso com o Newell’s Old Boys. Assim, naquele natal de 1925 bastava o empate aos anfitriões, reconhecidamente os favoritos para a taça. Mas o brasileiros começaram melhor, abrindo um 2-0 com meia hora, gols de Friedenreich e Nilo. Mas a reação hermana não tardou: Cerrotti diminuiu ainda no primeiro tempo e Seoane fez o gol do empate (e do título) logo aos dez minutos do segundo. Para além da estatística, muita história aconteceu.

“O pesquisador Ivan Soter, no livro Enciclopédia da Seleção, relata que Friedenreich e o argentino Muttis se agrediram, iniciando um briga generalizada no campo de Barracas. ‘A multidão invadiu o gramado aos gritos de macaquitos, e meteu pau nos jogadores brasileiros. Por causa disso, houve passeatas na Avenida Rio Branco (Rio) contra a Argentina, e o Itamarati chegou à conclusão que o futebol não aproximava os povos’, escreveu Mário Filho no livro O negro no futebol brasileiro” são dizeres desta matéria do Globo Esporte sobre aquela partida. Alguns dos eventos, de fato, constam em fontes da época. Mas não exatamente desta forma.

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Mais à esquerda, recortes sobre o 4-1 no primeiro turno. As demais colunas se referem ao 2-2 no natal

A peleja de Friedenreich e Mutis realmente aconteceu e segundo A Gazeta foi reforçada por outros. Mas segundo a própria GazetaO Imparcial, Correio da Manhã e O Paiz, jornais que reproduziam reportagens tanto de correspondentes como de associações internacionais, os demais jogadores e o árbitro na realidade logo pressionaram que os brigões se abraçassem. “O incidente, assim, foi dado por encerrado”, explicou O Imparcial. “O gesto simpático do juiz e a maneira cordial com que os referidos jogadores atenderam à sua solicitação foram largamente aplaudidos pela assistência”, ressaltou O Paiz.

Segundo A Gazeta, a briga de Friedenreich e Mutis incitou a plateia a invadir, mas a polícia e o exército impediram-na. A invasão que realmente aconteceu ocorrera antes da briga. O Correio da Manhã informa que alguns jogadores acabaram agredidos, mas atribui a culpa a uma incitação de Friedenreich. Segundo as outras fontes, os jogadores foram prontamente protegidos pela polícia, que logo permitiu o reinício da partida. Relatos das partidas anteriores informaram diversas invasões de campo, especialmente após gols, mas ao menos até então a notícia foi dada de forma neutra, sem escandalização.

Cenas do Argentina 4-1 Brasil: Fortunato (futuro técnico do Botafogo) interceptando passe a Filó e o artilheiro Seoane marcado por Pennaforte

Não houve qualquer menção a pedradas ou ao termo macaquitos. E ele não era nada desconhecido dos repórteres: uma busca pela hemeroteca virtual da Biblioteca Nacional (clique aqui) mostra diversos registros desde o século XIX, mas nenhum deles atrelado àquela final. Ao fim, O Imparcial registrou que na maior parte do tempo a partida transcorreu com calma, incluindo até momentos de “desinteresse”. E considerou “honroso” o empate. A Gazeta disse que “a contagem da partida foi considerada injusta, pois com o seu desenvolvimento no 2º tempo a vitória deveria ter sido dos argentinos”.

Uma busca por “Guerra do Barracas”, termo que segundo o livro Deuses da Bola – 100 Anos da Seleção Brasileira teria sido usado em “editoriais de jornais nacionais”, mostra como resultados na Hemeroteca Virtual tão somente propagandas de gincanas que incluiriam “cabo de guerra e barraca da sorte”. As razões da derrota, para A Gazeta, deveram-se aos brasileiros: “não queremos insistir na deficiência de ordem moral que permitiu as farras dos jogadores etc etc, apenas fazemos questão de afirmar que o Brasil deixou de ser campeão do continente, em 1925, não porque lhe faltassem, no campo da luta, manejadores hábeis da pelota, mas somente porque a eficiência destes não foi criteriosamente empregada, não foi aproveitada como devia”.

Invasão de campo no natal de 1925. Bate-boca e tensão, mas sem o patamar de quebra-pau tão divulgado

Para O Paiz, “não obstante a indevida intervenção do povo no desenrolar do match de ontem, mister se faz reconhecer que o quadro argentino venceu o Campeonato Sul-Americano de maneira brilhante. Seu forte quadro, que possui jogadores de categoria, se não foi o mais pujante do campeonato, foi pelo menos o mais coeso e disciplinado. O PAIZ, como sempre imparcial e justo nas suas observações, não regateia aplausos à nobre falange platina e saúda com entusiasmo os valentes campeões sul-americanos de 1925″.

A matéria do Globo Esporte também menciona que, como resultado da confusão, Brasil e Argentina teriam ficado doze anos sem se enfrentar. É uma estatística real, mas enganosa: o Brasil não participou das Copas América de 1926, 1927, 1929 e 1935, privando-se naturalmente de encontros não só com os argentinos, mas com outros vizinhos. Até retornar à Copa América, em 1937 (perdida para uma Argentina treinada pelo mesmo Seoane, aliás), viajou ao exterior apenas às Copas do Mundo de 1930 e 1934, além de uma excursão pelo Uruguai em 1932. E só: não buscou jogos nem contra Chile ou Paraguai também. Nesse período todo, chegou a enfrentar o Sportivo Barracas (em 1929, quando o hoje decadente clube também rumou a uma excursão europeia, chegando a vencer o Barcelona, Milan, Lazio e Napoli: saiba mais) e o River (em 1935), mas no Rio de Janeiro. O problema, mais do que jogar contra argentinos, pareceu ser jogar fora de casa de uma forma geral.

Agradecimentos ao Leandro Stein, do Trivela, por sugerir esta matéria.

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Manchetes de jornais brasileiros

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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