Os Campeões desconhecidos: Club Sportivo Dock Sud

Na noite da última segunda-feira, uma caravana de carros, bicicletas e inúmeras pessoas, quase todas vestidas de amarelo e azul, tomaram as ruas de um tradicional bairro portuário nas proximidades de Buenos Aires. Atrás do cortejo chegavam sobre um caminhão de bombeiros os responsáveis pela festa que apenas começava. Eram os jogadores do Club Sportivo Dock Sud, que voltavam da cancha do Ituzaingó com uma vitória de 3 a 1 e com o sonhado título da 1ª D, a quita divisão do futebol argentino. A alegria se travestia de inúmeras nuances, manifestações e despojamento. Mas, no meio disso, algo especial chamava a atenção: o uníssono coro de “El Dock se fue de la D”.

É curioso que um time que acaba de ascender a uma divisão maior em vez anunciá-la em seus cantos prefira cantar a despedida da divisão em que estava. Compreender isso não é fácil; antes é preciso que se compreenda o verdadeiro “inferno” que significa para os clubes metropolitanos argentinos jogarem a 5ª divisão de seu futebol. Há clubes tradicionais que caíram para esta categoria e que não retornam há 15 anos. Ficar em último lugar no torneio é o mesmo que ser destituído da AFA e ser jogado no amadorismo.  Além disso, os jogos são, em geral, com torcida única em estádios apertados e com campos cuja irregularidade do gramado faz supor que qualquer um dos cinco grandes da Argentina talvez não vencesse ao último colocado do torneio da Primeira D.

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E foi da cancha de um desses “nanicos”, cheios de brio que El Dock saiu campeão e ascendeu à 4ª com um jogo de antecipação. Saiu da “divisão da morte” apenas três anos após ser rebaixado da “C”. Sua campanha foi magistral. Das 33 partidas realizadas ganhou 22, empatou nove e perdeu apenas três. Estamos falando da maior campanha entre todos os campeões, até aqui, de todas as divisões do futebol argentino.

Mas não é por acaso que El Dock chegou ao feito de que falamos. Trata-se de um pequeno organizado e com planejamento. Não é a toa que há dois anos buscaram o excelente goleiro Pablo Hourcade, justamente para a posição em que o time vinha sofrendo havia muito tempo. O desacreditado goleiro virou um dos maiores jogadores do elenco e finalmente herói da atual conquista. Pouco antes de o árbitro apitar o final do jogo, na cancha do Ituzaingó, ele já soltava lágrimas feito uma criança. Uma emoção que seria depois compartilhada por toda a gente do curioso bairro de Dock Sud.

O lugar está cerca de 10 minutos da Capital Federal, em Avellaneda, quase expulso do mapa. Embora esteja próximo do requintado Puerto Madero, vive uma realidade bem diferente. Seus moradores são vizinhos de um Pólo Petroquímico desde a construção das primeiras casas. Trata-se de um vizinho rico em um bairro de pobres. Para muitos, se trata também de um vizinho indiferente e cruel. No bairro falta água potável e sobra dejetos químicos para se respirar.  Mas há também o Club Sportivo Dock Sud, a paixão de famílias inteiras, o seu motivo de orgulho. Quando há jogo do time as pessoas nãos se preocupam tanto com as inundações, comuns no bairro, em vez disso, abraçam felizes ao Inundado, apelido do clube. Nesses dias, em que milhares de torcedores vão aos estádios reverenciar, com justiça, aos seus grandes de Buenos Aires, as pessoas do Dock só têm sua atenção voltada para o amarelo e azul de seu bairro. Vestem suas roupas coloridas, ocupam as ruas e se acomodam em seu modesto estádio para prestigiar o que para muitos é um mero desconhecido, mas que para eles se trata de uma de suas maiores paixões.

A festa da conquista já está marcada para o próximo sábado 14/05/2011, no estádio e nas ruas do Dock, quando o clube encerra sua participação jogando em casa frente ao Barracas Bolívar. E mais uma vez deixo a advertência ao leitor que vai a Buenos Aires por esses dias e queira participar da dos festejos do campeão. Será bem recebido por certo, mas trate de chegar com antecedência, pois o estádio com capacidade para 7.000 pessoas, estará lotado com ao menos duas horas antes do início da partida.