Argentina na Copa de 2002: o fracasso da seleção de Bielsa

A Argentina na Copa de 2002 escalava Verón, Batistuta, Ortega, Simeone, Zanetti e Samuel, e mesmo assim não passou da primeira fase.

 

Sorín, Cavallero, Pochettino, Placente e Samuel; Claudio López, Zanetti, Simeone, Batistuta, Ortega e Verón. O time da boa estreia na Copa

Dez anos atrás, em 12 de junho de 2002, a franca favorita ao título Argentina caía ainda na primeira fase da Copa do Mundo, eliminada pelo empate com a Suécia. O treinador da equipe era Marcelo Bielsa, que, no entanto, continuou por mais dois anos no comando técnico.

Ele mal havia chegado ao Espanyol (seis jogos apenas) quando recebeu o convite de Julio Grondona para suceder Daniel Passarella, após a Copa do Mundo de 1998. A primeira opção do presidente da Associação do Futebol Argentino era por Carlos Bianchi, por tudo o que El Virrey fizera no Vélez Sarsfield naquela década, mas este declinara, preferindo começar a trabalhar no Boca Juniors (e ganhando para sempre a inimizade do mandatário da AFA, que nunca mais lhe repetiria a oferta).

Antes de chegar ao primo pobre do Barcelona, Bielsa havia sido campeão argentino com o próprio Vélez, no Clausura 1998, impondo sua obsessão tática a um time acostumado ao pragmatismo combinado com espontaneidade permitidos por Bianchi. Mas consagração, mesmo, o atual técnico do Athletic de Bilbao tivera no Newell’s Old Boys, onde esteve à frente entre 1990 e 1992. Fora a sua primeira experiência treinando um clube profissional, o mesmo pelo qual torce e, nos anos 70, chegara a jogar brevemente como (um medíocre) zagueiro.

Levando jogadores oriundos da casa leprosa a dois títulos argentinos que, em anos seguidos, igualaram o número dos quatro já obtidos pelo arquirrival Rosario Central, e a um vice-campeonato na Libertadores bastaram-lhe para ser considerado o melhor técnico da história do NOB, que inclusive nomeou oficialmente o Coloso del Parque como Estádio Marcelo Bielsa.

Mesmo que os rubronegros já viessem de um título nacional em 1988 e, neste mesmo ano, de outro vice na Libertadores, foi sob ele que viraram candidatos fortes ao posto de sexto grande time argentino – Maradona não aceitou à toa a proposta de ir para a Lepra em 1993 (o que para meia Rosario é um título simbólico, mesmo com a passagem curta e desempenho aquém que Diego teve); ela ainda respirava seu auge, não se imaginando que uma nova conquista, ainda a última, só fosse vir no Apertura 2004.

Alguns dos jogadores lapidados por El Loco estariam presentes no elenco argentino de 2002: Mauricio Pochettino, Gabriel Batistuta (trabalhado ainda na base, tendo saído antes que Bielsa treinasse a equipe principal) e Walter Samuel (que, por sua vez, ainda estava na base quando o técnico deixou o Ñuls). Roberto Sensini poderia estar ali se fosse um pouco mais jovem – teria 36 anos à época do mundial, mas foi usado até 2000, ano em que outro ex-pupilo, Eduardo Berizzo, teve a última convocação.

Treinando a Argentina rumo à Copa, Bielsa deu grande consistência, chamando um grupo muito bom e reduzido. Foram apenas 28 jogadores utilizados em campo durante as eliminatórias. Além de Sensini e Berizzo, só não chamou à Ásia o zagueiro Nelson Vivas por este ter lesionado gravemente o joelho às vésperas da competição. Os atacantes Bernardo Romeo, Marcelo Delgado e Julio Cruz, vistos como reservas de reservas no setor mais badalado, tombaram pela duríssima concorrência.

Quanto a Javier Saviola, Bielsa já dera sinais nas próprias eliminatórias de que El Conejo não era necessariamente seu atacante preferido, só o utilizando em uma partida, em 2000. Embora tenha sido escalado em dois amistosos preparatórios em 2002, vindo de uma bela temporada de estreia no Barcelona e contando com apoio popular (destacou-se muito no título do mundial sub-20 de 2001, realizado na Argentina), foi sacado para a entrada de alguém que o técnico resolveu redescobrir justamente naqueles testes pré-Copa: o veteraníssimo Claudio Caniggia. Sebastián Saja, Juan Román Riquelme, Luciano Galletti, Santiago Solari e Facundo Quiroga foram outros avaliados apenas nos amistosos imediatamente prévios ao embarque para o Japão (três) e descartados.

O outro aprovado neles, além de Caniggia, foi o defensor José Antonio Chamot, até então sumido desde 1998. O jogador do Milan juntou-se aos goleiros Germán Burgos, Pablo Cavallero e Roberto Bonano, os defensores Roberto Ayala, Diego Placente e Javier Zanetti, os volantes Diego Simeone, Matías Almeyda, Kily González, Juan Pablo Sorín e Claudio Husaín, os meias Pablo Aimar, Gustavo López, Ariel Ortega, Juan Sebastián Verón e Marcelo Gallardo e os atacantes Claudio López e Hernán Crespo, fora os citados Pochettino, Samuel, Batistuta e Caniggia.

A grande polêmica foi a ausência do jovem Riquelme, deslumbrante na época por seu Boca Juniors (de… Carlos Bianchi) nas vitoriosas Libertadores de 2000 e 2001 e Intercontinental de 2000. Utilizado apenas na seleção caseira testada na Copa América de 1999 e no primeiro amistoso pré-Copa, Román não participou de um jogo sequer das eliminatórias, com Bielsa preferindo Aimar, Verón e Gallardo para o posto de meia armador (enganche). No jogo festivo que marcou a despedida de Maradona pela Argentina, em 2001, na Bombonera, Riquelme só esteve porque atuou na seleção internacional, e não na de Bielsa.

Simeone, Kily González e Crespo comemorando a vitória de virada sobre o Brasil de Euller nas eliminatórias (2 a 1 no Monumental de Núñez)

O único jogador daquele Boca (que, fora seu camisa 10, de fato tinha mais força pelo conjunto do que por verdadeiros talentos individuais) convocado para o mundial foi Samuel, que já estava na Roma desde depois da Libertadores de 2000. Além dele, só Delgado fora aproveitado na campanha. Já do River Plate, Husaín e Ortega viajaram como os únicos vindos do futebol argentino.

O desempenho arrasador nas eliminatórias ajudou a dar uma atenuada nas reclamações: apenas uma derrota, em 2000, para o Brasil. A classificação foi assegurada com rodadas e rodadas de antecedência, com treze vitórias e quatro empates nos demais compromissos e doze pontos de vantagem para o segundo classificado, o Equador, em jogos caracterizados pelo domínio da bola e pressão constante exercida nos rivais mesmo quando fora de casa.

E aquela seleção ostentava um desenho tático absolutamente revolucionário para a época, o 3-3-1-3. Os defensores (na Copa, Samuel, Pochettino e Placente) jogavam muito avançados, pois como a equipe marcava muito a frente, essa era a única forma de não deixar espaço entre as linhas. À frente, vinha outra linha de três, formada por dois alas (Zanetti e Sorín) e um volante mais centralizado (Simeone). Verón atuava como um típico enganche argentino, livre entre o meio de campo e o ataque.

À frente, uma novidade, que em parte apenas retomava um conceito então praticamente esquecido: os três atacantes. Mas era um trio ofensivo distinto dos tempos do 4-3-3 ou do 4-2-4. Os ponteiros (na Copa, Ortega e Claudio López foram utilizados, ainda que Aimar e Kily González tenham se alternado com eles) eram peças essenciais na marcação sufocante proposta por Bielsa, fortemente em cima da saída de bola do rival e, se necessário, voltando para marcar os laterais.

Aquela grande equipe da Argentina contava com uma de suas melhores safras e sem aparentes rachas naquele enxuto elenco, o que só ampliava o enorme favoritismo que dividiam com outra futura decepção de 2002, os franceses. Na estreia, o sistema funcionou perfeitamente. Os argentinos sufocaram os nigerianos com sua marcação avançada, mantiveram a bola no campo de ataque o tempo todo. O magro 1 a 0, com um gol de Batistuta, não fez justiça à superioridade da Albiceleste.

O último gol de Batistuta pela Argentina. Os outros dois argentinos na foto, curiosamente, também são oriundos do bielsista Newell’s Old Boys: Samuel e Pochettino

Mas, contra a Inglaterra, as coisas não ocorreram bem. Apesar do sistema funcionar, e a bola ficar mais tempo nos pés argentinos, que tiveram maior protagonismo ofensivo, os ingleses souberam explorar o grande defeito do bielsismo: o grande espaço nas costas dos defensores. Em um contra-ataque, foi marcado um pênalti, convertido por Beckham, que se vingava da expulsão provocada por Simeone (que ali defendia a Argentina pela última vez) na partida disputada no mundial anterior, quando a Argentina eliminou a Inglaterra nos pênaltis.

Para piorar, Verón atuou muito mal (tanto que começaria no banco no jogo seguinte), e Batistuta também não rendeu muito, sendo substituído por Crespo no início do segundo tempo (contra a Nigéria, isso só ocorrera nos últimos dez minutos) – uma das outras grandes críticas feitas a Bielsa era a de não ter tentado usá-los juntos, algo que já não ocorria também sob a direção de Passarella.

Os resultados paralelos obrigavam a Argentina a vencer a Suécia, do contrário estaria fora antes do pensado. A falta de nervos ficou exposta na esdrúxula expulsão de Caniggia no início do segundo tempo, com a partida ainda sem gols – sem sequer ter entrado em campo no Japão, recebeu o vermelho em pleno banco de reservas por insultar o árbitro (“o que Caniggia foi fazer na Copa?” foi outra reclamação, pois, além da idade elevada, vinha lesionado; outro mistério foi como Bielsa poderia usar integralmente as 7 mil fitas de vídeo que levou para o Oriente). Anders Svensson piorou ao abrir o placar em cobrança de falta aos 15 minutos, um minuto após nova substituição de um apagadíssimo Batistuta por Crespo.

Um insuficiente empate só viria aos 43, na base de duas malandragens: Ortega se jogou, mas convenceu e o árbitro marcou o pênalti. Magnus Hedman espalmou a cobrança do próprio Burrito, mas Crespo completou para as redes, em um lance que deveria ter sido invalidado – ele invadira a área irregularmente, antes da bola ser tocada na cobrança. Os quatro pontos não bastaram ante os cinco obtidos pelos escandinavos e pelos britânicos.

Era de se esperar que Bielsa saísse, mas a falta de um grande culpado e a eliminação na mais dura chave da Copa permitiram que seguisse. Mais do que uma grande falha individual (que não chegou a haver), a Argentina chegara à Copa sem o fôlego das eliminatórias, com alguns dos principais jogadores sem as melhores condições físicas: Ayala sequer pôde jogar, após machucar-se no aquecimento para a estreia. Verón já vinha de uma temporada decepcionante no Manchester United por conta do tendão.

Ibrahimović e demais suecos comemorando a classificação incólumes ao caído Claudio López

Os próprios Batistuta e Crespo haviam balançado as redes por, respectivamente, Roma e Lazio com menos frequência do que antigamente. Simeone não estava com o melhor de seus joelhos, tendo entrado em uma recuperação recorde para ser convocado, ainda assim em estado aquém das exigências do torneio. Além de El Cholo, outros que tiveram encerrado o ciclo na seleção ali foram Batistuta (fato que deu gatilho para este especial lançado mais cedo neste dia) e os não-utilizados Bonano, Burgos, Husaín e Caniggia.

No próprio Japão, Bielsa dirigiu a primeira partida da Albiceleste pós-Copa, contra a seleção local, pela amistosa Copa Kirin (vitória por 2 a 0). Nos vinte jogos até o início da Copa América de 2004 (sete deles, já valendo pelas eliminatórias para a Copa de 2006), foram doze vitórias, cinco empates e três derrotas. Na competição, vitórias por 6 a 1 (Equador), 4 a 2 (Uruguai) e 3 a 0 (semifinal, contra a Colômbia) iam cicatrizando o orgulho ferido, até a dramática perda do título para uma seleção B do Brasil, ao final de julho.

As Olimpíadas começariam em apenas duas semanas aproximadamente, permitindo-lhe o salvo-conduto para tentar obter uma conquista ainda inédita para os argentinos. Com jogadores juvenis já bem conhecidos do grande público – Carlos Tévez, Andrés D’Alessandro e Javier Mascherano inclusive receberam a medalha de prata em Lima em 25 de julho, assim como César Delgado (autor do gol quase decisivo sobre os brasileiros), Lucho e Mariano González e Luciano Figueroa – acompanhados pelos mais experientes Kily González, Gabriel Heinze e Roberto Ayala, Atenas foi vencida em um passeio.

Já na estreia, um 6 a 0 sobre a Sérvia e Montenegro – curiosamente, o mesmo placar que as duas seleções teriam em dois anos, na Copa da Alemanha – seguidos de vitórias tranquilas sobre Tunísia e Austrália. Outro adversário de mais prestígio, a Itália, levou de 0 a 3 na semifinal, depois de a Costa Rica sair do caminho com um 0 a 4. Na final, o magro 1 a 0 decretado por Tévez (a grande estrela da campanha olímpica) aos 16 do primeiro tempo não expôs a ausência de perigo proporcionada pelos paraguaios.

Com a forra, El Loco já podia despedir-se em paz. Comandou a Argentina por mais um jogo, um 3 a 1 sobre o Peru em Lima pelas eliminatórias. Dizendo-se esgotado – e, segundo outras versões, a pedido de uma família cansada de ser ricochetada pelas críticas que Bielsa nunca deixara de receber desde 2002 -, mas podendo sair por cima e não como um perdedor, entregou o cargo.

Ele tiraria três anos sabáticos até aceitar voltar a treinar uma equipe (diz-se que, inclusive, recusando oferta do Boca Juniors): o Chile, que, no mundial da África do Sul, voltou a uma Copa depois de doze anos e onde houve quem o quisesse para presidente da nação – mesmo com toda a rivalidade entre os vizinhos, repleta de conflitos fronteiriços que estiveram perto de resultar em guerra em 1978.