Argentina na Copa América: a história dos títulos

A Argentina na Copa América começou perdendo em casa, em 1916, e só levantaria a primeira taça cinco anos depois.

A Argentina, ao lado do Uruguai, é a maior vencedora da Copa América, a mais antiga competição entre seleções do mundo. Esta é a história completa dessa relação, do vice-campeonato na primeira edição, em 1916, aos títulos da era Basile e às finais perdidas para o Brasil nos anos 2000.

Surgido como Campeonato Sul-Americano de Futebol, o torneio teve início em 1916 na própria Argentina, como parte das celebrações pelo centenário de sua declaração de independência.

1916 a 1921: o vice na estreia e o primeiro título

Com formato de disputa em que todos os times jogavam entre si, que perduraria até 1967, o Sul-Americano de 1916 teve como favorito o próprio time argentino. No entanto, acabou com o vice-campeonato ao empatar sem gols com o Uruguai, que com o resultado sagrou-se campeão. Foram necessárias mais três edições para que finalmente a albiceleste obtivesse o título sul-americano pela primeira vez, em 1921. Anteriormente, a Argentina já havia sido mais duas vezes vice-campeã, sempre ficando atrás do Uruguai.

Disputado novamente na Argentina, o Campeonato Sul-Americano de 1921 contou pela primeira vez com o Paraguai, que acabara de se filiar à FIFA. E a campanha argentina naquele torneio foi perfeita: três vitórias em três jogos. No último jogo veio a vitória mais desejada, contra o Uruguai, numa revanche pelo Sul-Americano de 1917: 1 a 0, gol do artilheiro Julio Libonatti, que, ao lado do goleiro Américo Tesoriere, foi o destaque na primeira conquista sul-americana da Argentina.

1925 e 1927: a briga com o Brasil e o primeiro título fora de casa

Apesar da vitória e dos bons jogadores que atuavam naquela época, como Onzari, o autor do primeiro gol olímpico, e Orsi, primeiro argentino a ser campeão mundial, a Argentina precisou esperar mais quatro anos para levantar novamente o caneco. Depois de perder novamente para o Uruguai em duas edições, 1923 e 1924, a Argentina voltou a sediar o campeonato em 1925.

Mesmo com as ausências do então campeão olímpico Uruguai e do Chile, o torneio recebeu as seleções do Brasil e do Paraguai. Com apenas três países, foi disputado num sistema de turno e returno. Como era de se esperar, tanto argentinos quanto brasileiros derrotaram os paraguaios com facilidade. Assim, os dois jogos entre Argentina e Brasil seriam decisivos.

No primeiro jogo, um massacre argentino: 4 a 1, com uma grande exibição de Manuel Seoane, coroada por três gols. No segundo jogo, o do título, os argentinos perdiam por 2 a 0 quando Friedenreich e Muttis trocaram gentilezas e deram início a uma briga generalizada no campo. Acalmados os ânimos, os argentinos chegaram ao empate e conquistaram de forma invicta seu segundo título sul-americano.

Em 1926, o Uruguai voltou a participar e conquistou seu sexto título. A Argentina, mais uma vez, foi vice-campeã. No ano seguinte, o Peru sediou pela primeira vez o campeonato e não foi páreo para argentinos e uruguaios. No jogo decisivo entre os vizinhos, vitória argentina por 3 a 2 e mais um título garantido, sendo esse o primeiro conquistado fora de seus domínios.

1929: o bicampeonato e a revanche olímpica

Em 1929, uma vez mais o Campeonato Sul-Americano foi realizado na Argentina e, pela primeira vez na história, a albiceleste ganhou pela segunda vez consecutiva. Um ano antes, a equipe perdera a final olímpica para o Uruguai. Logo, aquele campeonato seria a grande oportunidade para a revanche. E ela aconteceu, com uma bela vitória por 2 a 0 sobre os então bicampeões olímpicos. Manuel Nolo Ferreira foi o grande nome da conquista argentina.

Os anos 1930: o hiato e o domínio uruguaio

Por motivos econômicos e devido às pressões para a instauração do profissionalismo no futebol da Argentina, que ocorreu em 1931, do Brasil e do Uruguai, a Conmebol deixou de organizar o Campeonato Sul-Americano por cinco anos. Nesse meio-tempo, a albiceleste disputou as duas Copas do Mundo até então realizadas, perdendo a final para o Uruguai em 1930 e sendo eliminada pela Suécia ainda na primeira fase em 1934.

No começo de 1935, o Peru sediaria uma edição do Campeonato Sul-Americano que seria qualificada como extraordinária, já que não foi organizada pela Conmebol. Outra vez os uruguaios levaram a melhor sobre os argentinos. Jogando com camisas vermelhas, o selecionado charrúa venceu por 3 a 0 e reafirmou seu domínio no futebol da América do Sul. A Argentina teve Masantonio, grande atacante do Huracán, como artilheiro daquela competição, com quatro gols.

Em 1937 a Argentina novamente ganhou o direito de sediar o Sul-Americano. Após 12 anos sem enfrentar o Brasil, a albiceleste decidiu o título em duas partidas recheadas de polêmicas com os brasileiros. No primeiro jogo, em que a Argentina precisaria vencer para forçar uma partida de desempate, o time platino venceu por 1 a 0, gol de García. Ao final do encontro, os brasileiros protestaram veementemente contra a arbitragem, esquentando ainda mais o clima para a próxima partida. No segundo e decisivo jogo, muitas brigas, pontapés e paralisações. Ao final, a Argentina venceu por 2 a 0 e reconquistou o título após oito anos.

Dois anos após aquela final eletrizante houve outra edição do Sul-Americano. E, pela primeira vez desde 1916, a Argentina não compareceu ao torneio, por desavenças com a Conmebol.

1941 e 1945: a geração de Pedernera e Moreno

Em 1941, outra edição extraordinária do Sul-Americano foi realizada, dessa vez no Chile. A Conmebol havia parado com todas as suas competições por conta da Segunda Guerra Mundial. Já contando com jogadores como Salomón, Pedernera, Sastre e Moreno, a Argentina chegou ao seu sexto título continental numa campanha impecável: quatro vitórias em quatro jogos.

Após ver mais uma vez o Uruguai levar o título em 1942, a Argentina entraria numa grande fase nos Campeonatos Sul-Americanos. Pela primeira e única vez na história do torneio, uma seleção venceria por três vezes seguidas.

A história da supremacia argentina no continente começou em 1945, no Chile. Novamente o país andino sediou uma edição extraordinária do Sul-Americano, e a Argentina pôde desfilar craques como Pedernera, Muñoz, Boyé, Martino e Loustau. Empatou por 1 a 1 com o Chile, fez 4 a 0 na Bolívia, 4 a 2 no Equador e 9 a 1 na estreante Colômbia. Depois de uma belíssima vitória sobre o Brasil por 3 a 1, os argentinos derrotaram os uruguaios no último jogo por 1 a 0.

1946: a batalha campal no Monumental

No ano seguinte, Pedernera e sua turma prosseguiram o show argentino. Jogando em casa, o time tinha por obrigação defender o título sul-americano, já que era grande favorito, assim como o Brasil. E, como era de se esperar, o último e decisivo jogo seria contra o scratch.

Mais de 80 mil pessoas viram aquele Argentina x Brasil no Monumental de Núñez entrar tristemente para a história. Naquele dia, um simples jogo de futebol transformou-se numa batalha campal.

Um ano antes, o zagueiro Battagliero fraturara a perna num lance com Ademir de Menezes pela Copa Roca. A contusão gerou comoção na Argentina, e o cheiro de vingança estava no ar quando os brasileiros entraram em campo. Tão logo o árbitro apitou, as duas seleções já travavam disputas ríspidas. Aos 28 minutos do primeiro tempo, após um lance em que o zagueiro argentino Salomón quebrou a perna, jogadores brasileiros e argentinos começaram uma briga generalizada no gramado.

A seleção brasileira se retirou de campo e ficou nos vestiários, decidida a não retornar. O chefe do policiamento local solicitou aos brasileiros que voltassem ao gramado, pois não poderia responder pela segurança do estádio. Ante as dúvidas, alguns jogadores argentinos foram ao vestiário e finalmente convenceram os brasileiros a voltar.

Mais de uma hora depois do início dos incidentes, os jogadores de Argentina e Brasil retornaram a campo e continuaram a partida. No final, a Argentina venceu por 2 a 0 e assegurou o bi. Mas as relações com os brasileiros ficaram estremecidas. A CBD romperia relações com a AFA e as duas equipes ficariam sem se enfrentar por dez anos.

1947: o tricampeonato inédito

Em 1947, o Equador recebeu pela primeira vez uma edição do Campeonato Sul-Americano. E, confirmando o poder da grande seleção que montou, a Argentina faturou seu terceiro título consecutivo, totalizando nove conquistas sul-americanas. A albiceleste fez 7 a 0 na Bolívia, 6 a 0 no Paraguai e na Colômbia e ganhou seis das sete partidas disputadas. Marcou 28 gols em sete jogos, e seu ataque era formado por Boyé, Méndez, Pontoni, Moreno e Loustau. Nomes consagrados como Pedernera, De la Mata e Martino nem foram convocados, e os jovens Rossi e Di Stéfano ficaram no banco de reservas. Não havia como o tri escapar com tantos jogadores fora de série.

Mal sabiam os argentinos que o último jogo daquele Sul-Americano foi também o último de uma geração talentosa a serviço da seleção. No ano seguinte, uma greve de jogadores contra uma lei aprovada pelo governo ganhou grandes proporções, levando à paralisação do campeonato argentino e ao êxodo de alguns dos principais jogadores locais para o futebol colombiano. Assim, não houve como a Argentina defender seu título em 1949. Na edição seguinte do torneio, realizada em 1953, a albiceleste também não compareceu, pelos mesmos problemas.

1955: o retorno com o ataque inteiro do Independiente

Oito anos após disputar e vencer o Sul-Americano, finalmente a seleção argentina pôde voltar para a disputa da 22ª edição do torneio, sediada no Chile. Utilizando pela primeira vez em competições oficiais uma linha de ataque de um só clube, o Independiente, a Argentina chegou ao seu décimo título continental com facilidade. Derrotou com maestria Paraguai por 5 a 3, Equador por 4 a 0 e Chile por 1 a 0, e aplicou uma surra histórica no Uruguai, fazendo 6 a 1. Mesmo tendo estado ausente por um tempo, a força argentina na América do Sul ainda era bem grande.

1956: o troco uruguaio e o fim de um tabu

Após vencer brilhantemente o Sul-Americano de 1955, no ano seguinte a Argentina iria defender no Uruguai seu título. E mais uma vez o torneio ganhou o caráter de extraordinário, sem a disputa do troféu do campeonato. Mesmo assim, os donos da casa estavam mordidos pelo desastroso resultado no torneio anterior e quiseram dar o troco nos argentinos, que vieram para o Uruguai com a mesma base que conquistara o Sul-Americano e um jovem atacante chamado Omar Sívori.

Os uruguaios não decepcionaram sua torcida e foram campeões invictos. Já os argentinos ficaram somente em terceiro lugar, numa pobre participação. Nesse torneio houve uma interessante quebra de tabu: após 34 anos, a Argentina perdeu do Brasil em Campeonatos Sul-Americanos.

1957: os Carasucias de Lima

Se em 1956 a Argentina ficou devendo futebol, no ano seguinte a albiceleste mostraria a todos um grande selecionado. O Sul-Americano daquele ano foi realizado no Peru e, para apagar a má impressão deixada no Uruguai, o técnico Guillermo Stábile procurou mesclar jogadores experientes com jovens talentos.

O artifício deu resultado e estava formada uma das melhores seleções argentinas da década, com os legendários Carasucias de Lima. Comandados por Maschio, Sívori e Angelillo, os argentinos passearam: fizeram 8 a 2 na Colômbia, 3 a 0 no Equador, 4 a 0 no Uruguai, 6 a 2 no Chile e um categórico 3 a 0 no Brasil, que contou com vários jogadores que seriam campeões mundiais no ano seguinte, como Gylmar, Djalma Santos, Didi e Pepe. Mesmo perdendo o último jogo para o Peru por 2 a 1, a Argentina conquistou seu 11º título sul-americano.

1959: o consolo depois do vexame da Copa

O torneio voltaria a ser realizado em 1959, na Argentina. Mas um ano antes os argentinos tiveram uma grande decepção. A albiceleste foi eliminada ainda na primeira fase da Copa do Mundo e sofreu a maior goleada da sua história, um 6 a 1 para a Tchecoslováquia.

Com isso, os argentinos promoveram uma caça às bruxas, culpando os jogadores por corpo mole, os dirigentes por terem concordado com o êxodo dos Carasucias para a Europa e sua consequente ausência da Copa, e o técnico Stábile por ter montado o time com jogadores contundidos e fora de forma. A absoluta desorganização da AFA na Copa de 1958 deu início a um processo de renovação e reestruturação na seleção argentina.

Nesse contexto, o Campeonato Sul-Americano tinha como grande favorito o Brasil, que era o atual campeão mundial. Mesmo com todo o favoritismo, a equipe verde-amarela venceu quatro jogos e empatou um. A Argentina surpreendentemente ganhou seus cinco jogos e assim tinha a vantagem do empate no último confronto do campeonato, justamente contra o Brasil. Um empate por 1 a 1 num lotado Monumental de Núñez garantiu o título e foi um consolo para os argentinos, ainda ressentidos pelo vexame de 1958.

Os dois Sul-Americanos de 1959

A cidade equatoriana de Guayaquil inaugurou um novo estádio e solicitou à Conmebol autorização para organizar um novo Sul-Americano. A Conmebol referendou e assim, pela primeira e única vez na história, dois Sul-Americanos aconteceram no mesmo ano. E, como não poderia deixar de ser, esse campeonato também teve o status de extraordinário.

A Argentina chegou ao Equador com a base do San Lorenzo, que havia conquistado o título nacional. Começou vencendo o Paraguai por 4 a 2 e apenas empatou com o Equador por 1 a 1. Na sequência, uma humilhante derrota para o Uruguai por 5 a 0 e uma vitória sobre o Brasil, representado por um combinado de jogadores de Pernambuco, por 4 a 1. Com isso, os argentinos ficaram com o vice-campeonato.

1963 e 1967: o time juvenil e o fim de uma era

Um novo Campeonato Sul-Americano voltaria a ser organizado somente quatro anos depois, e pela primeira vez coube à Bolívia a tarefa de sediar a competição. A seleção argentina decidiu enviar ao país altiplano um time juvenil, acompanhando uma decisão da CBD, que levou a seleção de Minas Gerais, campeã do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Mesclando boas e más atuações, a Argentina terminou em terceiro lugar, e a Bolívia conquistou o título pela primeira e única vez na sua história.

Em 1967, o Uruguai realizou mais uma edição do Sul-Americano, que seria a última a levar essa denominação e também a última com o sistema de disputa em que todos os times jogavam entre si. Para esse torneio, a Argentina levou um time com jogadores consagrados como Rattín, Artime e Marzolini. Venceu o Paraguai por 4 a 1, a então campeã Bolívia por 1 a 0, a estreante Venezuela por 5 a 1 e o Chile por 2 a 0. Assim, bastava um empate com o Uruguai para voltar a conquistar a América do Sul. Mas um gol solitário de Pedro Rocha acabou com as esperanças argentinas e deu o título aos uruguaios, que festejaram mais uma conquista em casa.

1975: nasce a Copa América e o 11 a 0 na Venezuela

A partir da edição de 1975, o Sul-Americano passou a ser chamado de Copa América. O sistema de disputa também foi alterado: a partir dessa edição não houve sede fixa, e nove seleções foram divididas em três grupos com três equipes cada, em que todos jogariam entre si em partidas de ida e volta. Os campeões de cada grupo se juntariam ao campeão vigente e fariam as semifinais, também em jogos de ida e volta. Na final, os dois times também jogariam duas partidas de ida e volta, mas uma terceira poderia ser realizada para desempatar a série. Além disso, ficou decidido que a Copa América seria disputada de quatro em quatro anos.

A Argentina ficou no Grupo 1, ao lado do Brasil e da Venezuela. Para a disputa dessa competição, o técnico César Luis Menotti convocou apenas jogadores dos selecionados de Rosário e de Santa Fé, com atletas do Rosario Central, do Newell’s, do Colón e do Unión. Estreou goleando os venezuelanos por 5 a 1 em Caracas e depois foi derrotada pelo Brasil por 2 a 1 em Belo Horizonte.

No jogo contra a Venezuela em Rosário, um recorde que perdura até hoje: vitória por inacreditáveis 11 a 0. Como o Brasil havia vencido os venezuelanos por apenas 6 a 0, os argentinos tinham a vantagem do empate para vencer o grupo e ir à semifinal. Mas a Argentina encontrou muitas dificuldades para vencer a defesa brasileira e se descuidou. Num contra-ataque, o armador Danival, do Atlético Mineiro, fez o gol da vitória brasileira, decretando a eliminação da Argentina.

1979 e 1983: o pior desempenho da história

Na edição de 1979, novamente Argentina e Brasil se encontrariam no mesmo grupo. Com status de atual campeã mundial, a Argentina era tida como a grande favorita para ir à semifinal. Mas, diferentemente da edição anterior, a Bolívia fez companhia aos dois gigantes e deu muito mais trabalho que a Venezuela.

No jogo inaugural do grupo, a Argentina foi derrotada de forma surpreendente pelos bolivianos, por 2 a 1. Depois, no jogo contra o Brasil, nova derrota pelo mesmo placar. Na volta contra a Bolívia, a primeira vitória, por 3 a 0. E, precisando de mais uma vitória para passar à semifinal, a Argentina novamente não conseguiu passar pelo Brasil. O empate por 2 a 2 eliminou os argentinos, aumentando para 20 anos a falta de títulos sul-americanos e fazendo com que a albiceleste ficasse em oitavo lugar na classificação geral, configurando seu pior desempenho na história dos Campeonatos Sul-Americanos.

Quis o destino que Brasil e Argentina ficassem pela terceira vez seguida no mesmo grupo, na Copa América de 1983, que seria a última sem sede fixa e, consequentemente, a última com o sistema de jogos de ida e volta. O Equador completou a chave e endureceu logo na estreia com os argentinos, empatando por 2 a 2.

Na sequência, a Argentina derrotou o Brasil por 1 a 0, quebrando um tabu de 13 anos e 13 jogos sem vencer o mais tradicional rival. Mas mesmo essa vitória acabou não sendo suficiente para classificar a equipe. Jogando em casa, empatou novamente com o Equador por 2 a 2. Dessa forma, precisaria vencer o Brasil fora de casa. A equipe platina não conseguiu jogar um bom futebol, empatou por 0 a 0 e deu adeus a mais um campeonato continental.

1987 e 1989: campeã do mundo, mas não da América

Apesar de a Copa América voltar a ter uma sede fixa na edição de 1987, o sistema de disputa permaneceu o mesmo: três grupos com três seleções cada, com os campeões de cada grupo se juntando ao campeão vigente nas semifinais.

A Copa América de 1987 criou grandes expectativas nos torcedores argentinos, pois seria o primeiro torneio oficial que a Argentina disputaria após a conquista do bimundial obtido no México. Com o Peru e o Equador no Grupo A, a Argentina só empatou com os peruanos por 1 a 1 e derrotou o Equador por 3 a 0, classificando-se à semifinal. Com um futebol muito aquém do mostrado na Copa, foi derrotada pelo Uruguai por 1 a 0 e depois pela Colômbia por 2 a 1. Mesmo sendo a campeã mundial de então, a Argentina não vencia uma Copa América havia 28 anos.

Após 40 anos, em 1989 a Copa América foi sediada no Brasil, e a Conmebol faria novas alterações. Ela passaria a ser realizada de dois em dois anos e o sistema de disputa foi novamente mudado: agora seriam dois grupos compostos por cinco seleções, com os dois melhores de cada um se classificando para um quadrangular em que todos se enfrentariam. A equipe que obtivesse maior pontuação seria a campeã.

A Argentina ficou no Grupo B, ao lado de Uruguai, Chile, Equador e Bolívia. Venceu chilenos e uruguaios por 1 a 0 e empatou sem gols com equatorianos e bolivianos. Com a primeira colocação garantida, juntou-se a Brasil, Paraguai e Uruguai no quadrangular final. Ao contrário da primeira fase, o aproveitamento na fase final foi ruim. A Argentina estreou perdendo para o Brasil por 2 a 0 e depois perdeu novamente por 2 a 0, dessa vez contra o Uruguai. Num jogo que não valia mais coisa alguma, empatou sem gols com o Paraguai e despediu-se melancolicamente da Copa mais uma vez.

1991: o fim do jejum de 32 anos com Basile

Após a Copa de 1990, em que a Argentina perdera a final para a Alemanha Ocidental, o técnico Carlos Bilardo manteve a promessa e não renovou seu contrato com a seleção. A AFA passou a verificar opções para substituir o Narigón e chegou ao nome de Alfio Basile. O Coco tinha bom relacionamento com a imprensa e foi contratado para dirigir a seleção até a Copa de 1994. Seu primeiro desafio seria a conquista da Copa América de 1991, no Chile.

A Argentina ficou no Grupo 1, ao lado dos anfitriões, do Paraguai, do Peru e da Venezuela, e não tomou conhecimento de nenhum adversário. Ganhou todos os seus jogos e partiu para a disputa do quadrangular junto com Brasil, Colômbia e Chile.

No primeiro jogo da fase final, uma grande vitória sobre o Brasil por 3 a 2, num jogo muito violento e truncado. Após a duríssima partida, os argentinos empataram sem gols com o Chile e venceram a Colômbia por 2 a 1. Com isso, a albiceleste venceu pela 13ª vez a Copa América, após um jejum de 32 anos. De quebra, teve o artilheiro da competição: um jovem chamado Gabriel Batistuta, que marcou cinco gols.

1993: o bicampeonato e as mãos de Goycochea

Dois anos depois, a Argentina veio ainda mais forte para a disputa da Copa América no Equador. A equipe comandada por Basile estava havia 23 jogos sem perder e adquirira um estilo ofensivo e vencedor, difícil de ser batido.

Essa edição da Copa teve uma novidade: a inclusão de duas seleções da Concacaf, o México e os Estados Unidos. Assim, a Copa América seria disputada por 12 seleções, divididas em três grupos de quatro equipes. Classificavam-se às quartas de final as duas melhores de cada grupo, mais os dois melhores terceiros colocados. A partir de então, disputa de jogos eliminatórios até a partida final, que seis anos depois voltaria a acontecer.

A Argentina entrou no Grupo C, ao lado de Colômbia, México e Bolívia. Acabou em segundo lugar, pois os colombianos marcaram um gol a mais, o que a obrigou a entrar em campo na manhã de um domingo ensolarado. A Argentina enfrentaria o Brasil, que também havia ficado em segundo no seu grupo.

Após um empate por 1 a 1 no tempo normal, a estrela de Goycochea, que brilhara na Copa de 1990, voltou a aparecer na disputa dos pênaltis. Goyco pegou o pênalti de Boiadeiro e classificou a Argentina para a semifinal. No jogo contra a Colômbia, outro empate no tempo normal e novamente, nos pênaltis, o goleiro argentino defendeu uma cobrança.

A Argentina ia para a disputa do bicampeonato contra o México, que havia se classificado como um dos melhores terceiros colocados. Na final, vitória por 2 a 1 e a 14ª conquista da Copa assegurada. E 31 jogos de invencibilidade no cartel de Alfio Basile. A Argentina mandava na América com sobras.

1995: do céu ao inferno, e os pênaltis de Taffarel

Em 1995, o Uruguai foi o escolhido para sediar a Copa América. A Argentina, entre uma edição e outra, foi do céu ao inferno. Tinha um dos melhores e mais bem entrosados times do mundo, e isso deu plena confiança aos comandados de Alfio Basile. Porém, duas derrotas para a Colômbia, sendo uma delas uma impiedosa goleada de 5 a 0 sofrida em Buenos Aires, deixaram a Argentina muito perto da eliminação para a Copa do Mundo de 1994.

Com a volta de Maradona à seleção, a Argentina voltou a jogar bem, mas acabou eliminada da Copa pela Romênia. Com isso, Basile deixou o comando da albiceleste e em seu lugar veio o linha-dura Daniel Passarella, que, entre outras coisas, proibiu que seus jogadores usassem cabelos compridos.

Com a missão de defender o bi, o selecionado argentino ficou no Grupo C, ao lado de Bolívia, Chile e Estados Unidos. Venceu a Bolívia por 2 a 1 e o Chile por 4 a 0. Bastava um empate contra os Estados Unidos para que a Argentina fosse a primeira de seu grupo. No entanto, a derrota por 3 a 0 obrigou os comandados de Passarella a mudar os planos de viagem e a enfrentar o Brasil já nas quartas de final.

Após o conturbado empate por 2 a 2, em que o atacante Túlio marcou um gol depois de ajeitar a bola com o braço, brasileiros e argentinos decidiriam a vaga para a semifinal nos pênaltis. E, se em 1993 Goycochea decidiu, em 1995 foi a vez de Taffarel. Ele defendeu as cobranças de Simeone e de Fabbri, tirando a chance de um novo tri da Argentina na Copa América.

1997 e 1999: as prioridades e os três pênaltis de Palermo

A Bolívia teve a honra de sediar pela segunda vez na sua história a Copa América, em 1997. A Argentina priorizou a disputa das eliminatórias da Copa do Mundo e enviou uma seleção com muitos reservas. A equipe ficou no Grupo A, junto com Chile, Equador e Paraguai. Estreou com um empate sem gols com o Equador, venceu os chilenos por 2 a 0 e empatou com os paraguaios por 1 a 1.

Com a segunda colocação, a Argentina enfrentaria o Peru, que também poupara seus principais jogadores para as eliminatórias e havia enviado um time reserva à Bolívia. Assim, a surpresa foi geral quando o Peru venceu por 2 a 1, eliminando a Argentina da competição. Para Passarella, não fez muita diferença.

Dois anos após a edição boliviana, foi a vez de o Paraguai receber a Copa América. A Argentina, que havia contratado Marcelo Bielsa para o lugar de Daniel Passarella, caiu no Grupo C, ao lado de Colômbia, Equador e Uruguai. O time dirigido por Bielsa apresentava diversas caras novas, como Ibarra, Sorín, Palermo e Riquelme, que atuavam na Argentina. A convocação dos jogadores locais foi explicada pela polêmica que se formou em torno da não convocação dos que atuavam no exterior, que, segundo alguns meios, preferiam ficar de férias a atuar pela seleção.

Alheio às polêmicas, o selecionado argentino estreou com uma boa vitória contra o Equador por 3 a 1. Já a derrota por 3 a 0 para a Colômbia no segundo jogo entrou para a história. Essa foi a célebre partida em que Palermo perdeu três pênaltis.

Mesmo derrotando o Uruguai por 2 a 0 no último jogo, a Argentina se classificou em segundo lugar no seu grupo, e o cruzamento previsto no torneio indicava como adversário, mais uma vez, a seleção brasileira. Mesmo jogando uma boa partida e criando mais chances que o adversário, a Argentina perdeu por 2 a 1, com direito a mais um pênalti desperdiçado, dessa vez por Ayala, e voltou mais cedo para casa, novamente nas quartas de final.

2004: a primeira final entre Brasil e Argentina

Após ter se ausentado da Copa América realizada na Colômbia em 2001, alegando motivos de segurança, a Argentina voltou a participar da competição em 2004. Na ocasião, o Peru sediou a Copa e o selecionado argentino ficou no Grupo B, ao lado de Equador, México e Uruguai.

A estreia não poderia ter sido melhor: um 6 a 1 em cima do Equador. Mas novamente no segundo jogo a albiceleste perdeu, dessa vez para o México por 1 a 0. No último jogo, uma boa vitória sobre o Uruguai por 4 a 2. Com isso, a Argentina se classificou às quartas de final em segundo lugar e enfrentou a seleção anfitriã. Mesmo não jogando tão bem, venceu por 1 a 0 e, depois de 11 anos, voltou a uma semifinal de Copa América. Nessa fase, finalmente os argentinos reencontraram o bom futebol e bateram facilmente os colombianos por 3 a 0.

E finalmente a final chegou, contra uma equipe praticamente reserva do Brasil, que chegara à decisão com uma campanha irregular. Pela primeira vez na história da competição, brasileiros e argentinos decidiriam um torneio sul-americano numa partida final.

Mais de 40 mil pessoas foram ao Estádio Nacional de Lima e viram um grande jogo de futebol. Um empate em 2 a 2, conseguido pelos brasileiros no apagar das luzes, obrigou a partida a ser decidida nos pênaltis. E, para grande decepção dos argentinos, D’Alessandro teve sua cobrança defendida e Heinze chutou por cima do gol. Como todos os brasileiros converteram seus chutes, o Brasil venceu por 4 a 2 e sagrou-se campeão. À Argentina restou a lamentação pelas chances perdidas para liquidar a partida e por não haver conseguido ter mais posse de bola quando o resultado lhe era favorável.

2007: o favoritismo e o 3 a 0 em Maracaibo

A partir da edição de 2007, a Conmebol decidiu que a Copa América voltasse a ser disputada de quatro em quatro anos. Além disso, para evitar conflitos de interesses com outras competições internacionais, decidiu que o torneio sempre fosse disputado no ano seguinte ao da Copa do Mundo. E em 2007, pela primeira vez na história, a Venezuela sediou uma Copa América.

A Argentina ficou no Grupo C, ao lado de Colômbia, Estados Unidos e Paraguai. Diferentemente das edições mais recentes, dessa vez a Argentina passeou no seu grupo. Comandada por Riquelme e Messi, venceu os três jogos e se classificou com facilidade para as quartas de final. Nessa fase, outro jogo tranquilo: a vitória por 4 a 0 sobre o Peru credenciou definitivamente os argentinos ao favoritismo. E o favoritismo foi confirmado com outra belíssima vitória na semifinal, contra o México, por categóricos 3 a 0, que levariam a equipe a mais uma final contra a seleção brasileira.

Tal como acontecera três anos antes, a seleção do Brasil chegou à final jogando um futebol irregular, perdendo um jogo na primeira fase e se classificando somente depois da disputa por pênaltis. Mas, quando a bola rolou em Maracaibo, o que se viu foi uma inversão dos estilos de jogo praticados até o momento: enquanto o Brasil fechava os espaços e fazia o que queria na partida, os argentinos corriam com desespero para tentar marcar o seu gol e assim voltar para o jogo.

No entanto, mesmo a correria não foi suficiente para impedir a dura derrota por 3 a 0. Como em 2004, mais uma vez os jogadores argentinos, alguns deles chorando, se dirigiram à tribuna para receber suas medalhas de vice-campeão. Vida que segue.

2011 a 2016: o vexame em casa e as duas finais perdidas para o Chile

Em 2011 a Argentina sediou a Copa América pela nona vez, com Messi já consolidado como o melhor jogador do mundo e a expectativa de encerrar um jejum que durava desde 1993. Não encerrou. A Albiceleste empatou na estreia com a Bolívia, empatou com a Colômbia, venceu a Costa Rica e caiu nas quartas de final para o Uruguai, nos pênaltis, em Santa Fé. Os uruguaios seriam os campeões.

O capítulo seguinte foi mais doloroso, porque a Argentina chegou perto duas vezes seguidas e perdeu do mesmo adversário, do mesmo jeito.

Na Copa América de 2015, no Chile, a Albiceleste chegou à final e enfrentou os donos da casa em Santiago. O jogo terminou sem gols e foi para os pênaltis. O Chile venceu por 4 a 1 e conquistou o primeiro título de sua história.

No ano seguinte houve uma edição extraordinária, a Copa América Centenário, disputada nos Estados Unidos para marcar os cem anos do torneio. A Argentina fez uma campanha arrasadora e chegou novamente à final contra o Chile, em East Rutherford. Novamente 0 a 0. Novamente pênaltis. Dessa vez o Chile venceu por 4 a 2, e Messi foi um dos que erraram a cobrança.

A imagem de Messi chorando em campo correu o mundo. Dias depois, ele anunciou que deixaria a seleção, decisão que voltaria atrás semanas mais tarde.

2019: o bronze no Brasil

Na Copa América de 2019, disputada no Brasil, a Argentina teve início irregular na primeira fase mas avançou e eliminou a Venezuela nas quartas. Caiu na semifinal para os anfitriões, em Belo Horizonte, em partida marcada por reclamações argentinas sobre lances não revisados pelo árbitro de vídeo.

Venceu o Chile na disputa pelo terceiro lugar. O Brasil seria campeão sobre o Peru, no Maracanã.

2021: o fim do jejum de 28 anos, no Maracanã

A Copa América de 2021 foi disputada no Brasil, em meio à pandemia, sem público e depois de a Conmebol trocar a sede duas vezes. Para a Argentina, foi a edição da redenção.

O elenco misturava veteranos como Messi, Ángel Di María e Nicolás Otamendi com uma geração nova que incluía Rodrigo De Paul, Cristian Romero e o goleiro Emiliano Martínez.

Foi justamente o Dibu Martínez quem decidiu a semifinal contra a Colômbia, defendendo três cobranças na disputa de pênaltis, em uma atuação que misturava competência técnica e um jogo psicológico sobre os batedores que daria o que falar.

A final foi contra o Brasil, no Maracanã, em 10 de julho de 2021. Um gol de Di María, no primeiro tempo, deu à Argentina a vitória por 1 a 0 e o décimo quinto título continental.

Era o fim de um jejum de 28 anos, o primeiro título de Messi pela seleção principal e o começo do ciclo que levaria a Albiceleste ao título mundial no Catar, no ano seguinte.

2024: o bicampeonato e a liderança isolada

Em 2024, a Copa América voltou a ser disputada nos Estados Unidos, com a Argentina chegando como campeã continental e mundial.

A campanha levou a equipe outra vez à final, desta vez contra a Colômbia, no Hard Rock Stadium, em Miami Gardens, em 14 de julho. O jogo foi para a prorrogação, e Lautaro Martínez marcou o gol da vitória por 1 a 0. Foi o quinto gol dele no torneio, o que lhe garantiu também a artilharia.

Era o décimo sexto título argentino na Copa América. Com ele, a Albiceleste quebrou o empate histórico com o Uruguai, que tem quinze, e passou a ser a maior vencedora isolada do torneio mais antigo do mundo.

Com as conquistas de 2021, da Copa do Mundo de 2022 e da Copa América de 2024, a Argentina se tornou a primeira seleção a vencer três competições de máximo nível de forma consecutiva.

Os números da Argentina na Copa América

A Argentina é hoje a maior vencedora isolada da Copa América, com dezesseis títulos, um a mais que o Uruguai.

Até a edição de 2007, fechamento do texto original desta série, eram 173 jogos disputados, com 111 vitórias, 31 empates e apenas 31 derrotas. A seleção havia marcado 422 gols e sofrido 166, um aproveitamento em torno de 70% em um torneio com quase um século de história.

Os dezesseis títulos

1921, 1925, 1927, 1929, 1937, 1941, 1945, 1946, 1947, 1955, 1957, 1959, 1991, 1993, 2021 e 2024.

O retrospecto revela um padrão curioso: as épocas de maior sucesso continental argentino nem sempre coincidiram com as melhores fases da seleção em Copas do Mundo. Entre 1959 e 1991 não houve um único título, período que inclui os mundiais de 1978 e 1986. E o jejum seguinte, entre 1993 e 2021, cobre toda a era de Batistuta, Verón e boa parte da carreira de Messi.

Nota de edição

Este especial reúne as duas partes da série “Argentina e Copa América: uma relação de muitas vitórias”, publicadas pelo Futebol Portenho em 2011, em um único texto. Nenhum trecho foi cortado.

Sobre os capítulos finais: o texto original foi escrito às vésperas da Copa América de 2011 e a narrativa ia até a edição de 2007. Os capítulos que cobrem de 2011 a 2024 foram escritos agora, para que o especial chegue até o presente.