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Blog FP: Um torneio que não deixa saudades

Quem está acostumado a acompanhar os torneios domésticos argentinos dificilmente irá discordar: o Apertura 2011 foi um dos certames mais desinteressantes da história do país. Certamente há fatores estruturais envolvidos nisso (êxodo, má administração dos clubes, etc.). Mas mesmo com esses fatores tivemos torneios muito mais empolgantes em anos recentes. Aqui vão algumas particularidades do último Apertura que o tornaram tão particularmente esquecível:

1) Não houve disputa pelo título. Desde aproximadamente a metade do torneio ficou claro que só um milagre tiraria o título do Boca Juniors. Muito rapidamente a pergunta deixou de ser “se” o Boca seria campeão, mas “quando” isso aconteceria. Dois dados absolutamente inéditos ilustram o fato. Primeiro: o torneio terminou com quatro vice-campeões (Vélez, Colón, Racing e Belgrano), superando o recorde do Apertura 1995 e Clausura 2000, com 3 vices. Segundo: os xeneizes terminaram o torneio com 12 pontos de vantagem sobre os vice-líderes, algo inédito nos campeonatos curtos (o recorde anterior era de 9 pontos, estabelecido pelo River Plate no Apertura 1996 e igualado pelo Boca Juniors no Apertura 1998). Unindo os dois dados fica claro que o Boca passeou de forma histórica no Apertura, e o torneio terminou sem que sequer fosse definido quem era o principal candidato a perseguidor.

2) Ausência do River Plate. Mesmo tendo se acostumado nos últimos torneios à condição de figurante, é incontestável que a presença do Milo fortalece o campeonato. Pela primeira vez em 80 anos de futebol profissional argentino não tivemos Boca e River disputando a primeira divisão do país ao mesmo tempo. E pela primeira vez desde meados dos anos 80 não tivemos os cinco grandes disputando a divisão principal.

3) Pequenos sem força. Nas últimas temporadas, as dificuldades dos grandes foram em boa parte compensadas pela ascensão de equipes pequenas. Algumas sempre estiveram em boas posições, como Estudiantes, Vélez, Newell’s e Lanus. Outras tiveram crescimento meteórico, como Banfield e Argentinos Jrs., que surpreenderam e levaram os dois títulos da temporada 2009/10. Neste Apertura isso não aconteceu. Para se ter uma idéia, Vélez e Estudiantes (que tem mantido uma sequencia de bons torneios) somados chegaram a 51 pontos, a pior marca desde o Clausura 2006.

4) Descenso de clubes pequenos tradicionais. As divisões de acesso do futebol argentino estão repletas de clubes pequenos tradicionalíssimos, com torcidas vibrantes e longa trajetória de boas campanhas na elite. Além do River Plate estão na B Nacional vários outros ex-campeões argentinos: Huracán, Ferrocarril, Chacarita Jrs., Quilmes e o tradicionalíssimo Rosário Central. Grandes torcidas do interior, como o Talleres e o Instituto de Córdoba também estão de fora.

5) Ausência de Clássicos. Um charme especial do futebol argentino é o grande número de clássicos. Quase todos os clubes têm rivalidades especiais com algum outro clube, da mesma cidade (no caso do interior) ou vizinhança (no caso da Grande Buenos Aires). Esta temporada sobrou apenas um clássico entre grandes: Independiente x Racing. Além dele, temos Banfield x Lanus, All Boys x Argentinos Jrs. e Unión x Colón, o único clássico interiorano da atual primeira divisão. Além da irreparável ausência do superclássico entre Boca x River, não tivemos outros confrontos muito tradicionais, como Newell’s x Rosário Central, San Lorenzo x Huracán, Talleres x Belgrano e Estudiantes x Gimnasia.

É importante ressaltar que nada do que foi dito aqui pretende diminuir a importância do título conquistado pelo Boca. A equipe comandada por Julio Cesar Falcioni fez uma campanha histórica e teve todos os méritos na conquista. Não teve culpa alguma de que seus adversários não estavivessem à altura de disputar o título, e venceu os adversários que teve. Apenas cabe notar que é importante que no próximo torneio o bom time xeneize tenha rivais de nível mais forte, para que os que gostam de bom futebol possam acompanhar um torneio mais interessante.

Tiago de Melo Gomes

Tiago de Melo Gomes é bacharel, mestre e doutor em história pela Unicamp. Professor de História Contemporânea na UFRPE. Autor de diversos trabalhos na área de história da cultura, escreve no blog 171nalata e colunista do site Futebol Coletivo.

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