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Blog FP: Yes, nós temos enganches

Há muitos anos o Brasil desistiu de criar armadores talentosos. Mas recentemente descobrimos que eles fazem muita falta ao nosso futebol. E passamos a importá-los da Argentina, país que ainda os produz em quantidade. E curiosamente os enganches argentinos estão começando a se parecer com a picanha argentina: só são bem vindos no Brasil.

No país vizinho a carne é cortada de forma muito diferente, e a paixão nacional chamada “picanha” não existe por lá. Mas para se adequar ao mercado brazuca, a indústria da carne argentina passou a produzir esse corte, abastecendo o mercado brasileiro. Assim nasce o paradoxo: só existe picanha argentina no Brasil.

Algo semelhante vai acontecendo com os enganches. Nos anos 80-90 o Brasil desistiu de produzir talentosos meias armadores capazes de pensar o jogo. É um tipo de jogador que sequer produzimos hoje em dia. Mas acabamos nos dando conta de que esses jogadores são essenciais. Conca, desprezado na Argentina, se transformou no melhor jogador dos gramados brasileiros em 2010. A versão futebolística da picanha: algo que não interessa aos argentinos mas é sucesso garantido no Brasil. Que o digam o próprio Conca, Montillo e outros.

No mundial de 2010 A Argentina tinha um meio campo absolutamente vazio, no qual ninguém pensava o jogo. Hoje a albiceleste não tem enganches ou qualquer tipo de meia armador. Joga com 3 volantes e 3 atacantes. Aquilo que para os brasileiros é o melhor do futebol argentino está perdendo cada vez mais espaço no futebol do país vizinho. O enganche vai se transformando em uma versão futebolística da picanha. Algo que os argentinos produzem melhor do que ninguém mas não querem. E para eles há mercado de sobra no Brasil, que não consegue produzir equivalentes nacionais.

Tiago de Melo Gomes

Tiago de Melo Gomes é bacharel, mestre e doutor em história pela Unicamp. Professor de História Contemporânea na UFRPE. Autor de diversos trabalhos na área de história da cultura, escreve no blog 171nalata e colunista do site Futebol Coletivo.

View Comments

  • André, enganche é como os argentinos chamam os jogadores que flutuam entre o meio campo e o ataque, parando a bola, pensando o jogo, fazendo assistências e eventualmente marcando gols. Riquelme foi o grande enganche argentino dos tempos recentes. Conca, por exemplo, é um deles

  • Andrés

    Às vezes eu penso nessa mesma pergunta que voce fez. Já pensei em varios motivos, mas me parece que infelizmente os argentinos estao fazendo hoje a mesma opção que os brasileiros fizeram ha uns 20 anos, e estao substituindo os enganches por meias-atacantes, mais rapidos e potentes do que propriamente cerebrais. Nos clubes isso esta acontecendo tambem

  • O colombiano Gio Moreno, do Racing, é considerado um enganche?
    Aproveito pra perguntar: ele já se recuperou de lesão?

    No Brasil, temos um grande jogador que se enquadro neste perfil: Paulo Henrique Ganso.
    Mas é verdade, quase não vemos jogadores com estas características. Uma pena.

    Abraço!

    • Sim, Artur, o Gio é um enganche. Ele ainda não se recuperou de lesão. Está no período de fisioterapia e sempre está viajando com o time. Enganche é aquele número 1 que o Zagallo sempre falava. É uma espécie de armador, ao estilo do PH Ganso.

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