Os clubes argentinos de futebol e rugby vêm de uma raiz comum: o football medieval e a cisão de 1863, que separou os dois esportes na Inglaterra.
Entre setembro e novembro de 2011, o Futebol Portenho publicou dez textos sobre os clubes argentinos que nasceram praticando futebol e rúgbi ao mesmo tempo, antes de escolher um dos dois. Este especial reúne os dez na íntegra.
Os clubes que fundaram os dois esportes
Buenos Aires Cricket and Rugby Club
O melhor site brasileiro de futebol argentino pede licença para falar de rúgbi nesta série de especiais, elaborados não sem propósito: muitas das primeiras potências futebolísticas da Argentina passaram a dedicar-se, por vezes exclusivamente, a este esporte, cujo mundial só perde em audiência global para a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
A própria El Gráfico, mais prestigiada revista argentina sobre futebol, não raro deixa espaço para matérias sobre rúgbi, e fez um miniguia da Copa do Mundo dele deste ano. Pois, se o brasileiro em geral tem, dentre os esportes com bola, apreço também por vôlei, basquete e tênis além do futebol, para o argentino a situação muda um pouco: permanecem o baloncesto de Ginóbili, Scola, Oberto, Delfino e Nocioni e os raquetazos de Vilas, Sabatini, Gaudio, Del Potro e Nalbandian, mas sai o vóley e entra este irmão do futebol.
"Irmão", pois futebol e o rúgbi têm raízes em comum, no football medieval, nome genérico (e não propriamente um esporte único) para diferentes gincanas que ocorriam no interior da Grã-Bretanha, com regras variando de vilarejo para vilarejo. Aqui, entra um breve histórico: com o passar do tempo, os diversos footballs foram se organizando paulatinamente, com pessoas da ilha inteira reunidas em colégios, onde iam uniformizando regras diversas para entenderem-se nas partidas.
Eventuais jogos intercolegiais também foram exigindo acordos para que as partidas se dessem com alguma organização. No início da segunda metade do século XIX, então, as principais correntes de rules já eram apenas duas: a da escola de Cambridge e a da escola de Rugby. Esta última resistia em favor do uso das mãos, e não apenas dos pés, por todos os jogadores.
Os principais membros da corrente de Cambridge fundaram em 1863 a Associação de Futebol. Uma das escolas participantes da reunião, a Backheath, discordando do consenso estabelecido ali, retirou-se. Acabou seguida por outras escolas que preferiam as regras de Rugby, cujas origens modernas devem-se à corrida com a bola em mãos de um certo William Webb Ellis, que hoje batiza o troféu da Copa do Mundo, em jogo de 1823 na escola homônima.
Com isso, o esporte permaneceu dividido no "futebol da Associação" e o "futebol de Rugby", que teve a sua versão da Associação (a União de Futebol de Rúgbi) formada em 1871. Ambas as modalidades se espalharam mundialmente pelos britânicos, que, donos da então mais desenvolvida potência global, possuíam negócios em todos os continentes, além de um vastíssimo império colonial e a maior marinha mercante do mundo, liderando com relativa folga o comércio exterior.
Com isso, cidadãos seus se espalharam por todo o planeta, propagando consigo, juntamente com outros hábitos culturais, os esportes que praticavam, dentre os quais os footballs. Em certos países, a versão do futebol que acabou mais popular virou sinônimo do próprio termo; na maioria deles, foi a da Associação.
Em outros, onde prevaleceu a de Rugby ou derivados dela, o futebol da Associação passou a ser mais comumente referido como soccer ou cognatos desse termo, que teria sido cunhado, ainda na Grã-Bretanha, de uma contração da palavra Association. Os Estados Unidos são o caso mais famoso desse uso, mas isso ocorre, oficialmente ou não, também no Canadá, na Irlanda, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e alguns outros; mesmo na Grã-Bretanha, essa palavra não é incomum, vide o nome da revista World Soccer.
Desde a sua independência, a Argentina recebeu dezenas de milhares de britânicos. Os súditos da Rainha Vitória se divertiam em Buenos Aires em alguns clubes e dentre eles estava o Buenos Aires Cricket Club. Adeptos do críquete, como o nome indica, seus sócios organizaram o primeiro jogo de futebol em solo argentino, ocorrido em 1867.
Tal fato levou à criação do Buenos Aires Football Club no mesmo ano e na mesma sede onde o clube de críquete já funcionava, no bairro de Palermo, apenas dez anos depois da fundação do Sheffield Football Club, o mais velho do planeta. Os dois esportes conviviam harmoniosamente no mesmo espaço, como reza a boa educação inglesa.
O futebol praticado no Buenos Aires FC, na época, ainda era uma mistura das regras da Associação com as de Rugby. Foi então que, em 7 de maio de 1874, dois sócios, os senhores Menzies e Coghlan, sugeriram que fossem adotadas as regras da União de Futebol de Rúgbi.
Assim, na manhã do dia 14 de maio de 1874, os times do “Senhor Trench” e do “Senhor Hogg”, compostos por sócios do Buenos Aires FC, se reuniram por volta das 11h30 no campo do Flores Athletic Club, no bairro de Caballito. Esse lugar era conhecido como Old Polo Ground e ficava acerca de três quilômetros de onde atualmente se localiza o estádio do Ferro Carril Oeste. Com aquele dia sendo um feriado por causa da abertura dos trabalhos do Congresso Nacional argentino, os jornais da época registraram ótima presença de públicos de sócios e não-sócios para o que foi a primeira partida de rúgbi na Argentina.
O número de praticantes do rúgbi no clube e no país aumentou e em 1886 o Buenos Aires FC participou da primeira partida oficial desse esporte disputada por dois clubes diferentes. O oponente foi o Rosario Cricket Club (posteriormente, Rosario Athletic Club e, atualmente, Club Atlético del Rosario), na cidade do adversário, que foi o vitorioso. Na revanche, deu Buenos Aires.
O rúgbi, porém, aparentemente permaneceu desconhecido da maior parte da população, pois em 1890 integrantes das duas equipes chegaram a ser presos em Rosário, no que a polícia local entendeu como alguma violenta baderna entre uniformizados. Estas duas equipes pioneiras haviam passado a travar festivos duelos anuais, com ares de celebração britânica: jogadores e público compartilhavam chá, uísque e tortas preparadas pelas senhoras e moças presentes. Estas confraternizações entre adversários após os jogos (o chamado "terceiro tempo") já eram e continuam a ser um elemento bastante importante do rúgbi.
Como primeiro clube de futebol no país, o Buenos Aires foi convidado para participar da primeira edição da Liga Argentina do Futebol da Associação, realizada em 1891. Três anos antes da chegada oficial do futebol ao Brasil, por Charles Miller (o menos conhecido é que ele apresentou o rúgbi aos brasileiros ainda antes, em 1888; o São Paulo Athletic Club, fundado por Miller e primeiro clube de futebol no Brasil, ainda joga o rúgbi, sendo o maior campeão nacional), no país vizinho já ocorria um campeonato – por sinal, o mais antigo do mundo fora do Reino Unido, atrás apenas do inglês (iniciado em 1888), do escocês e do irlandês (ambos em 1890).
Os números demonstram que o futebol já não parecia uma prioridade no Buenos Aires FC: venceu apenas uma partida e perdeu as outras sete que disputou, marcando 6 gols e sofrendo 23. O segundo campeonato de futebol demorou dois anos para ser realizado, e nesta segunda edição o clube já não se fez presente, nem nas seguintes. Em 1899, fundou, juntamente com Belgrano Athletic, Flores Athletic, Lomas Athletic e Rosario Athletic – todos ainda praticantes de futebol -, a União de Rúgbi do Rio da Prata, que organizou já naquele ano o primeiro campeonato da bola oval na Argentina.
Ali, o Buenos Aires mostrou-se como a primeira grande potência, sendo campeão em seis das dez primeiras edições. Natural que fosse a equipe mais presente quando uma Seleção Argentina de Rúgbi foi reunida pela primeira vez, em 1910, com oito jogadores, mais da metade dos quinze que defenderam-na ali: A. Donnelly, Oswald St. John Gebbie (o capitão), W.H. Hayman, F. Henrys, Frank Heriot, Carlos Mold, Alvan Reid e Frederick Sawyer haviam, no ano anterior, ajudado o BAFC a somar seu sétimo título em onze campeonatos.
Cinco daquelas conquistas haviam sido de forma seguida, o que garantiria ao Buenos Aires a posse definitiva do troféu então ofertado ao campeão. O clube, em ato de grande cavalheirismo, devolveu a taça, para que ela continuasse a ser repassada entre os vencedores, só reclamando o direito de tê-la definitivamente para si no caso de as disputas de rúgbi cessarem. Mesmo assim, a União voltou a deixar o troféu da época com o Buenos Aires em 1933, para adotar outro.
Ali, o time já não era tão vencedor. Desde aquela primeira década, ganhou o campeonato apenas mais quatro vezes – o de 1909, 1915 e um bi seguido em 1958 e 1959. Em 1926, já não era mais o maior campeão, ultrapassado por um eneacampeonato consecutivo do San Isidro (que chegaria a treze conquistas em série; este foi outro a ter jogado futebol).
As duas últimas conquistas do pioneiro ocorreram com o clube já tendo o nome atual, de Buenos Aires Cricket and Rugby Club. Dez anos antes, as instalações do Buenos Aires CC sofreram um incêndio que levou consigo boa parte da documentação histórica dele e também do Buenos Aires FC. Então formalmente separadas, as duas instituições decidiram unir-se oficialmente. Formaram em 1951 o BACRC, já identificando em seu nome a prática exclusiva de rúgbi dentre as modalidades de futebol – até porque, na Argentina, fútbol também virara sinônimo do esporte da FIFA.
Outra mudança foi no endereço: o time deixou a capital federal e passou a mandar seus jogos em Don Torcuato. A despeito da falta de títulos depois daquele bicampeonato, o Buenos Aires – que atualmente manda seus jogos na cidade de San Fernando – ainda é o quarto maior vencedor do torneio da URBA (o mais valorizado do país), a União de Rúgbi de Buenos Aires, sucessora da do Rio da Prata.
Outros pioneiros clubes do futebol argentino, dentre os quais muitos dos primeiros vencedores do campeonato de futebol, também atualmente dedicam-se somente (ou primordialmente) ao rúgbi, e serão tratados nos especiais seguintes, a serem publicados conforme os jogos dos Pumas na Copa do Mundo de 2011.
A saber, o primeiro desses jogos ocorreu no último sábado, dia 10 de setembro, em um clássico contra a rival Inglaterra. O sul-americanos estiveram em vantagem na maior parte da partida, chegando a estar à frente por 9 a 3, com todas as pontuações vindas de gols (que valem três pontos). Todavia, descuidaram-se a treze minutos do fim, permitindo aos europeus obter de uma vez sete pontos: cinco por um try, a jogada mais valorizada (quando um time consegue chegar com a bola até a linha de fundo adversária), e dois válidos pelo acerto do chute de conversão, lance de bola parada sempre oferecido ao time que alcança o try.
Os britânicos ainda conseguiram mais um gol, dando números finais ao jogo, encerrado a seu favor por 13 a 9. O placar poderia ter sido maior para ambos os lados: Jonny Wilkinson (veterano astro inglês que chegou à sua quarta Copa) e Martín Rodríguez chutaram cada um sete penais na partida e só acertaram dois. Felipe Contepomi, outro a somar agora quatro mundiais, fez o outro gol argentino – ele também errou outro penal.
Argentina: Martín Rodríguez, Horacio Agulla, Gonzalo Tiesi (Juan José Imhoff), Santiago Fernández, Gonzalo Camacho, Felipe Contepomi (Marcelo Bosch), Nicolás Vergallo, Juan Martín Fernández Lobbe, Juan Manuel Leguizamón (Mariano Galarza), Julio Farías Cabello (Alejandro Campos), Patricio Albacete, Manuel Carizza, Juan Figallo (Martín Scelzo), Mario Ledesma (Agustín Creevy) e Rodrigo Roncero. Técnico: Santiago Phelan.
Inglaterra: Ben Foden, Chris Ashton, Manu Tuilagi, Mike Tindall, Delon Armitage, Jonny Wilkinson, Richard Wigglesworth (Ben Youngs), Nick Easter, James Haskell, Tom Croft, Courtney Lawes, Louis Deacon (Tom Palmer), Dan Cole, Stephen Thompson (Dylan Hartley) e Andrew Sheridan (Matt Stevens). Técnico: Martin Johnson.
Club Atlético Lomas
Lomas de Zamora é um partido (algo como um distrito intermunicipal) da Província de Buenos Aires, abarcado por toda a Grande Buenos Aires, ao sul da capital federal. Seu time de futebol na ativa mais destacado é o pequeno Banfield, da cidade homônima, campeão argentino uma vez (no Apertura 2009). Ele realiza o chamado Clásico del Sur com o Lanús, da cidade e partido vizinhos também chamados Lanús.
Isto porque os demais times do partido de Lomas têm porte ainda menor; o Temperley, da cidade de mesmo nome, chegou a conseguir um vice-campeonato em 1924 e, já no profissionalismo, um terceiro lugar no Nacional de 1983, mas hoje se encontra na Primera B Metropolitana (equivalente à terceira divisão).
E o Los Andes (da própria cidade de Lomas de Zamora, capital do partido ), justamente contra quem o Banfield realizava seu clássico original (na mesma época, o Lanús tinha seu clássico com o Talleres de Remedios de Escalada – equipe do seu partido de Lanús -, antes que as torcidas de Taladro e Granate, que eram aliadas, redirecionarem suas rixas uma à outra ante a pequenez de seus então rivais), jamais teve campanha de maior destaque, encontrando-se hoje na mesma divisão do Temperley.
Se seus três times de futebol são historicamente fracos, principalmente o da capital, no início das disputas do campeonato argentino, a situação foi diferente para Lomas de Zamora – tanto para o partido quanto, sobretudo, para a cidade. O responsável foi o Lomas Athletic Club, time argentino de maior sucesso no esporte antes do século XX. Assim como muitos clubes argentinos pioneiros, ele teve origem na comunidade britânica.
Foi fundado em 1891 como Lomas Academy Athletic Club, como o clube de alunos e ex-alunos da Lomas Academy, escola anglo-argentina da região. O primeiro campeonato argentino ocorreu ainda naquele ano, mas o clube, já com o nome reduzido, só veio a competir em 1893 (no que foi a segunda edição do torneio, a primeira delas organizada pela associação que deu origem à atual Associação do Futebol Argentino, a AFA).
Logo ali, sagrou-se campeão. Thomas Bridge, P. Bridger, Alexander Buchanan, Patricio Rath, W. Cowes, F. Jacobs, C. Reynolds, F. Carter, Guillermo Leslie, Henry Anderson, William Leslie (artilheiro e irmão de Guillermo) e Luis Nóbili (o único não-britânico) formavam o conjunto vitorioso, treinado por A. Leslie. Outros dois títulos viriam em série, fazendo da equipe tricolor a primeira bi e tricampeã nacional seguida. O domínio era tão forte que o vice-campeão no tri, em 1895, foi o estreante time de futebol da própria Lomas Academy, virtualmente uma equipe B do Athletic.
Em 1896, a mesma Academy conquistaria o título, com quatro pontos diferença para o quarto colocado, em um campeonato bastante equilibrado; logo depois, deixou seu lugar vago, com a debandada de oito de seus titulares: três deixaram a escola após concluírem seus estudos e outros cincos deixaram o futebol para focarem-se na vida acadêmica, dois destes na Europa.
Os demais jogadores campeões pela escola foram enfim integrados ao Athletic, que obteve o bicampeonato nas duas edições que se seguiram. De certa forma, a instituição foi hexacampeã consecutiva, algo que só seria igualado (e depois superado) pelo hepta obtido pelo Racing na década de 10, feito este que rendeu à equipe de Avellaneda a alcunha de La Academia.
Os outros times que foram vices do Lomas foram o Flores Athletic (1893 e em 1896, neste para a Academy), Rosario Athletic (1894), Lanús Athletic (1897) e Lobos Athletic (1898). Natural que, enquanto reinou, a equipe tenha feito alguns artilheiros do campeonato: além de Leslie, James Oswald Anderson (em 1896; irmão de Henry Anderson e de outro membro do time, Arthur) e William Stirling (1897, incluindo o gol do título) também se sagraram goleadores máximos do torneio.
Porém, nas onze edições seguintes ao quinto (ou sexto) título no futebol, obteve no máximo dois vice-campeonatos – em 1900 e 1906, neste último por benefício do regulamento: em vez de um certame de pontos corridos, como vinha ocorrendo até então, o torneio dividiu os onze competidores em duas chaves, uma com as cinco equipes mais fortes e outra (a do Lomas) com as fracas. Ele venceu o seu grupo e pôde postular a taça com o seu sucessor no domínio do futebol argentino, o Alumni.
Em outras seis dessas edições posteriores ao seu último título, ficou em penúltimo, até uma última colocação em 1909, fruto de uma medíocre campanha de apenas uma vitória, seis empates e onze derrotas, terminar por finalmente rebaixá-lo e praticamente decretar o fim do futebol no clube, que no mesmo ano chegou a sofrer derrota de 0 x 18 para o Estudiantes de Buenos Aires (até hoje, é a maior goleada do futebol argentino). Ainda houve um epílogo efêmero, com uma participação na terceira divisão argentina de 1911.
O enfraquecimento de seu futebol deveu-se em partes à escolha feita em 1899, por dar prioridade ao rúgbi, sendo um dos fundadores da União de Rúgbi do Rio da Prata juntamente com o Buenos Aires FC (clube pioneiro no futebol e no rúgbi argentinos, visto no especial anterior, que abriu esta série), o Belgrano Athletic, o Flores Athletic e o Rosario Athletic.
Justamente neste mesmo ano, o Lomas sagrou-se campeão do primeiro campeonato argentino do esporte e teve a sua série de conquistas no de futebol interrompida. É de se notar que, em ambos, ele foi campeão logo no primeiro torneio que disputou em cada um. Dos jogadores presentes no jogo do título de futebol de 1898, alguns estiveram no jogo do título de rúgbi em 1899, casos de Arthur Anderson, Henry Anderson, Frederick Jacobs e Frank John Chevallier Boutell.
O clube, porém, não teria tanto sucesso na nova modalidade, com a primeira década do século XX sendo dominada pelo Buenos Aires no campeonato. O segundo título só viria em 1913, já com o Lomas dedicando-se exclusivamente ao rúgbi. Ainda assim, foi também a última conquista no esporte. Talvez pela falta de mais troféus, ele trocou novamente de prioridade, com o hóquei sobre grama (também popular na Argentina, cuja seleção feminina – Las Leonas – é bastante prestigiada) passando a ser na década de 30 a modalidade predominante. Ainda assim, diferentemente do futebol, o rúgbi permaneceu ativo no clube, que ainda hoje disputa os torneios argentinos.
Apesar da decadência futebolística após o título de 1898, o Lomas ainda mostrou certa importância no futebol, mais especificamente na figura de seu atacante James (Juan) Oswald Anderson, o artilheiro de 1896. Ele, que também era um bom jogador de críquete, foi quem organizou aquela que é oficialmente reconhecida pela atual Associação do Futebol Argentino como a primeira partida da Seleção Argentina, em 16 de maio de 1901, contra o Uruguai. Na partida, curiosamente, quem jogou de celeste foram os argentinos (o Uruguai só adotaria tal cor em 1910 e a Argentina, as listras alvicelestes, em 1908).
A validade desse jogo (3 a 2 para a Argentina, com Anderson tendo marcado um dos gols) é bastante contestada, todavia; quem partilha desta opinião (como o RSSSF e a IFFHS) se sustenta no fato de que o adversário era composto pelo clube uruguaio Albion (cujo uniforme rubroazul, por sinal, vestiu os charruas e em cujo estádio se deu a partida) reforçado com dois jogadores do Nacional, e não um selecionado organizado pela Associação Uruguaia de Futebol. No ano seguinte, em 20 de julho, houve novo encontro e este, sim, teria sido de fato a primeira partida válida entre ambas as seleções. Foi novamente no campo do Albion e terminou em nova vitória argentina, desta vez por 6 a 0 e com Anderson marcando outro gol, no que foi seu último jogo pela Argentina.
Dois anos depois da goleada, ele, que era secretário da Liga Argentina de Futebol da Associação (da qual chegou a ser também vice-presidente), se tornou o terceiro presidente da União de Rúgbi do Rio da Prata, a qual dirigiu no biênio 1904-05. Se for considerado apenas o jogo de 1902, Anderson é o único jogador do Lomas a ter defendido a Argentina no futebol; já no de 1901, ele atuou ao lado do goleiro Roberto Rudd e do ponteiro Guillermo Leslie. William Leslie, ex-colega deles no século XIX, esteve nas duas partidas, mas como jogador do Quilmes. Walter Buchanan, um dos campeões da Lomas Academy, estivera no de 1902 como atleta do Alumni.
Anderson também foi importante no rúgbi argentino, ainda antes de ser presidente do órgão regulador local: ele era sócio do Buenos Aires FC e em 1898 propusera, em assembleia do clube, a realização de um campeonato de rúgbi, levado a cabo no ano seguinte.
Como outra curiosidade do Lomas, está a história das cores da equipe: o verde e o dourado passaram a ser usados no início do século passado por indicação do atleta Barry Fairy Heatlie, imigrante do Cabo, uma das colônias britânicas que em 1910 dariam origem à África do Sul. Antes mesmo do país surgir, uma seleção sul-africana já reunia esportivamente as colônias do Cabo, Natal, Rio Orange e Transvaal. Ela costumava usar o uniforme da equipe em que atuava seu capitão e, quando Heatlie assumiu este posto, ela passou a vestir tais cores, que eram as do clube em que ele jogava, o Old Diocesan.
Como com elas os Springboks (apelido que teria sido idealizado por ele, em referência a uma espécie de gazela sul-africana) venceram pelas duas primeiras vezes os British and Irish Lions (a seleção de rúgbi que reúne Grã-Bretanha e Irlanda, para festejadas turnês de amistosos), acabaram adotadas de forma fixa. Posteriormente, cores e apelido representariam também a seleção sul-africana, reconhecidamente uma das potências desse esporte.
Além de ter jogado seis vezes pela terra natal, Heatlie também realizou uma partida pela Argentina – por sinal, também contra os Lions, em 1910, exatamente no primeiro jogo realizado pela Seleção Argentina de Rúgbi (no que foi uma celebração do centenário da Revolução de Maio, o movimento de 1810 que desencadeara a independência platina). Ela ganharia a alcunha de Pumas justamente em uma série de jogos pela África do Sul (e pela vizinha Rodésia, atual Zimbábue), na década de 60. Heatlie, por sua vez, foi justamente o único lomense naquela partida de 1910.
A despeito de já não disputar competições no futebol há mais de um século, o Lomas Athletic (que posteriormente nacionalizou o nome para Club Atlético Lomas) ainda é o nono maior vencedor do campeonato argentino, empatado em cinco títulos com o Huracán e o Newell's Old Boys. Se for considerado o título da Lomas Academy, ele se torna o oitavo, ao lado das seis conquistas do Estudiantes de La Plata (que teve seu sexto título somente em 2010), ficando atrás somente dos cinco grandes (justamente, os cinco maiores campeões), do Vélez Sarsfield (sétimo e que só veio ultrapassar o Lomas em 2009, quando a ausência chegou aos cem anos) e do time que será objeto do próximo especial: o Alumni.
No último jogo da Argentina na Copa, venceu bem e sem maiores dificuldades a fraca Romênia (43 a 8) e, na madrugada de sábado para domingo (às 4:30 da manhã), enfrentará a Escócia (que venceu o mesmo adversário por apenas 34 a 24). Será praticamente o jogo decisivo pelo segundo lugar do grupo; depois, na última rodada, os argentinos enfrentam a Geórgia (não tão forte) enquanto os escoceses (que venceram os georgianos por somente 15 a 6) têm pela frente a rival Inglaterra. Os Pumas têm boas chances de seguirem para as quartas-de-final.
Argentina: Lucas González Amorosino, Gonzalo Camacho (Juan José Imhoff), Marcelo Bosch, Martín Rodríguez, Horacio Agulla, Santiago Fernández (Nicolás Sánchez), Nicolás Vergallo (Alfredo Lalanne), Juan Martín Fernández Lobbe, Juan Manuel Leguizamón [Genario Fessia (Mariano Galarza)], Julio Farías Cabello, Patricio Albacete, Manuel Carizza, Juan Figallo, Mario Ledesma (Agustín Creevy) e Rodrigo Roncero (Martín Scelzo). Técnico: Santiago Phelan.
Romênia: Iulian Dumitraș (Florin Vlaicu), Mădălin Lemnaru, Minya Csaba Gál, Constantin Gheară, Ionel Cazan, Ionuț Dimofte, Florin Surugiu (Valentin Calafeteanu), Daniel Carpo (Silviu Florea), Ovidiu Tonița, Mihai Macovei (Daniel Ianuș), Cristian Petre (Valentin Popîrlan), Valentin Ursache, Paulică Ion, Marius Tincu e Mihăiță Lazăr. Técnico: Romeo Gontineac.
Club San Andrés
Antes de tudo, cabe um pedido de desculpas por não estarmos falando aqui do Alumni, como prometido no especial "futebol e rugby" anterior. O motivo é que, nesta madrugada, a Argentina enfrentou a Escócia na Copa do Mundo. Então, nada mais condizente para que fosse abordado neste dia um clube cujo nome evidencia suas origens escocesas, pois Santo André é o padroeiro da Escócia, cuja bandeira carrega sua cruz em formato de X. Ainda mais quando o time em questão se trata do primeiro campeão argentino de futebol.
A St. Andrew's Scots School, ainda ativa, fora criada na década de 30 do século XIX pela comunidade escocesa em Buenos Aires. Foi natural que, além do ensino da língua, costumes e religião das raízes, fossem ensinados e praticados esportes britânicos, dentre os quais o futebol. Em 1891, a recém-fundada Liga Argentina de Futebol da Associação realizou então o primeiro campeonato local do esporte.
Entre abril e setembro, cinco times, dentre os quais o Buenos Aires FC (que abriu esta série, aqui ) e o de St. Andrew's, realizaram partidas de turno e returno entre si. Ao fim, este e o Old Caledonians (curiosamente, outro time de nome referente à Escócia, chamada de Caledônia pelos antigos romanos) terminaram na frente, empatados em pontos após obtiverem os mesmos números de vitórias (seis), empates (um) e derrotas (uma).
Embora o Old Caledonians tivesse saldo de gols e número de gols pró mais favoráveis, não havia previsão de critérios de desempate e ambos foram considerados campeões. Coincidentemente, o mesmo ocorrera na Escócia, que também em 1891 finalizou o seu primeiro campeonato futebol; ali, o título foi dividido entre Dumbarton e Rangers, em torneio iniciado no ano anterior.
Todavia, como a associação argentina só possuía fundos para comprar medalhas suficientes para uma equipe, requisitou um jogo extra para decidir com quem elas ficariam. Foi uma verdadeira final escocesa, não só pelas origens dos dois postulantes, mas também porque seus elencos, incluindo os reservas, eram de fato inteiramente compostos por imigrantes da Escócia.
Naquele tirateima, o St. Andrew's venceu por 3 a 1, com seus três gols marcados por Charles Douglas Moffatt. Os demais dez jogadores titulares da equipe vencedora daquele jogo eram F. Carter, L. Penman, W. Waters, F. Francis, H. Barner, A. Buchanan, J. Caldwell, A. Lamont, E. Morgan e J. Buchanan. Por causa dessa vitória, é largamente aceito nos dias atuais que ela foi a única campeã do primeiro torneio. A partida completou recentemente 120 anos, tendo sido realizada em 13 de setembro de 1891.
Uma segunda edição do campeonato deveria ter ocorrido no ano seguinte, mas discussões emperraram-na, sucumbindo com a própria associação. Uma nova Associação Argentina de Futebol da Associação então surgiu, sob orientação de Alexander Watson Hutton, da Buenos Aires English High School, considerado o patrono do futebol argentino. O segundo campeonato foi realizado em 1893.
Watson Hutton, que era escocês, fora anteriormente da St. Andrew's Scots School, mas ela só veio a retornar na edição seguinte, a terceira, em 1894. Terminou em penúltimo e não voltou mais. A atual Associação do Futebol Argentino (a AFA), sucessora direta daquela nova associação, por sua vez, não reconhece oficialmente o pioneiro torneio de 1891 (bem como tal antecessora) e, com isso, a conquista do St. Andrew's.
No futebol, o resquício para além das estatísticas deixado pelo clube está no uniforme do Independiente. O primeiro deles era o mesmo de um certo Plate United, onde jogara um dos fundadores do Rojo (que só em 1908 viria a usar camisa vermelha e assim ganhar tal apelido). A roupa do Plate, por sua vez, era baseada na de St. Andrew's: camisa branca levando no peito o brasão da escola, que remete diretamente aos símbolos escoceses – a Cruz de Santo André branca sobre fundo azul envolta em cardos, a flor nacional da Escócia – e calções e meias em azul marinho (mantidos assim mesmo após a troca para a camisa vermelha).
O primeiro escudo do então Independiente Football Club (mais tarde, Club Atlético Independiente) consistia justamente em uma bandeira escocesa com a sigla IFC. Na última década, isto foi relembrado diversas vezes, com o time de Avellaneda utilizando camisas reservas brancas e/ou em azul marinho (cor-símbolo da Escócia) com o antigo distintivo. Entre elas, a usada no segundo jogo da final da última Copa Sul-Americana, contra o Goiás, no Estádio Libertadores de América.
Paralelamente aos primórdios dos diablos, em 1911, ex-alunos da St. Andrew's Scots School fundaram o Club San Andrés, para manter seus vínculos com a antiga escola. O rúgbi seria um dos esportes adotados, embora a afiliação na União de Rúgbi do Rio da Prata só ocorresse em 1941. Exatos cem anos depois de sua criação, o San Andrés obteve apenas títulos de acesso. O futebol também é praticado, mas de forma amadora, com a equipe distante até das divisões inferiores. Logicamente, eles também se vestem de azul marinho, como as seleções escocesas.
Na Copa passada, a Argentina bateu a Escócia por 19 a 13 nas quartas-de-final, em jogo que obrigou a mudança de horário de nada menos que um Boca x River tamanha a expectativa. Quanto ao jogo disputado neste dia 25, os Pumas impediram de forma dramática a revanche dos Thistles ("Cardos"). Os sul-americanos não estiveram tão bem como nas suas duas partidas anteriores do grupo e o primeiro tempo encerrou-se com parcial vitória adversária por 6 a 3, de virada. No segundo, chegaram e empatar, mas os britânicos não demoraram a abrir 12 a 6 de vantagem.
Apenas o setor defensivo argentino funcionava bem, impedindo o oponente de converter um try, a jogada mais valorizada – no rúgbi, quem chega com a bola à linha de fundo adversária obtém cinco pontos para a sua equipe e ainda consegue o direito de obter mais dois pontos no chute de bola parada (a conversão) sempre oferecido a quem alcança o try; os demais gols, de bola parada ou rolando, valem três.
E foi através dela, alcançada por Lucas González Amorosino a sete minutos do fim, que os argentinos se salvaram. Encostaram ali no placar, fazendo 12 a 11, para em seguida virarem a partida, ao acertarem o chute de conversão. No tempo restante, os escoceses estiveram perto de efetuar um try, mas o resultado não se alterou mais, encerrando-se em 13 a 12 para nossos vizinhos, que assim passam a estar em situação confortável para avançar às quartas-de-final – na última rodada, enfrentam no dia 2 de outubro a Geórgia, enquanto a Escócia terá pela frente a arquirrival Inglaterra.
Argentina: Martín Rodríguez (Lucas González Amorosino), Gonzalo Camacho, Marcelo Bosch, Felipe Contepomi, Horacio Agulla, Santiago Fernández, Nicolás Vergallo, Juan Martín Fernández Lobbe (Genaro Fessia), Juan Manuel Leguizamón, Julio Farías Cabello, Patricio Albacete, Manuel Carizza, Juan Figallo, Mario Ledesma (Agustín Creevy) e Rodrigo Roncero (Martín Scelzo). Técnico: Santiago Phelan.
Escócia: Chris Paterson, Max Evans, Nick De Luca, Graeme Morrison, Sean Lamont, Ruaridh Jackson (Dan Parks), Rory Lawson (Mike Blair), Kelly Brown (Richie Vernon), John Barclay, Ally Strokosch, Jim Hamilton, Richie Gray (Nathan Hines), Geoff Cross, Ross Ford (Doug Hall) e Allan Jacobsen (Alasdair Jackson). Técnico: Andy Robinson.
Asociación Alumni
Finalmente, hoje – dia em que a Argentina enfrenta às 21 horas a Geórgia na Copa do Mundo – será falado da trajetória do Alumni, que, dentre aquelas pioneiras equipes "britânicas" do futebol argentino, acabaria por ser a mais importante (acima, o distintivo do antigo Alumni Athletic Club, e à direita, o do atual Asociación Alumni).
Suas origens estão ligadas à Buenos Aires English High School, fundada em 1884, no bairro de Belgrano, pelo escocês Alexander Watson Hutton. Este é considerado o pai do futebol argentino: foi fundador da nova Liga Argentina de Futebol da Associação, que em 1893 retomou a disputa de um campeonato de futebol – a liga anterior, homônima, sucumbira com a não-realização de seu campeonato de 1892. Além de inscrever a equipe de sua escola no certame, Watson Hutton participou dela como árbitro.
A primeira participação da BAEHS, porém, foi fraca, com seu time terminando em quarto entre cinco participantes, com apenas uma vitória, dois empates e cinco derrotas, chegando até a desistir de participar de seu último jogo. O elenco foi desfeito no ano seguinte, e a instituição acabou não participando do campeonato de 1894. Alguns de seus ex-jogadores atuaram nele defendendo outros clubes, como o Lanús Athletic e o Lobos Athletic. No ano seguinte, a equipe da English High School foi retomada e voltou ao campeonato, o que fez o próprio Lobos retirar-se, mas a escola terminou novamente em último. Ela, outra vez, desistiu de participar do campeonato posterior – para o qual retornou o Lobos, que foi inclusive o vice-campeão de 1898.
Naquele ano, então, Watson Hutton fundou o English High School Athletic Club, constituído não só por alunos, mas também por professores, ex-alunos e, mais raramente, parentes de outras pessoas ligadas à escola. Para voltar a disputar o campeonato principal, o novo clube teve de passar pela recém-criada segunda divisão, em 1899. O vice-campeonato, a um ponto do campeão Banfield, garantiu-lhe o acesso e entusiasmo.
O vice da primeira divisão foi outra vez o Lobos, de cidade homônima situada a 102 quilômetros de Buenos Aires. No ano seguinte, a liga, por reclamações de outras equipes, estabeleceu que dela só poderiam participar clubes situados em raio de 50 quilômetros da capital federal.
O Lobos então dissolveu-se e muitos de seus jogadores vieram a reforçar o retorno à elite dos colegiais, que enfim tiveram uma campanha bastante diferente: de forma invicta, com cinco vitórias e um empate, destronaram com duas rodadas de antecedência o Belgrano Athletic (campeão anterior) e o Lomas Athletic, o grande time da década que se encerrava naquele ano. No mesmo ano, o clube foi eleito pelo The Buenos Aires Herald, o anglófono jornal da comunidade britânica, como o mais popular da capital federal.
No ano seguinte, a equipe teve de renomear-se por uma exigência da liga, que proibiu o uso de nomes de institutos educacionais (o caso do time) e empresas comerciais, entendendo-os como uma indevida propaganda que atentaria contra o espírito desportivo. Foi aí que se adotou o nome Alumni Athletic Club, proposto pelo atleta Charles Bowers e calorosamente aprovado por Watson Hutton. Seria uma referência às Alumni Associations comuns nos Estados Unidos – associações que alguns ex-alunos de determinadas escolas criavam para manter seus vínculos com as mesmas; o Club San Andrés, objeto do especial "futebol e rugby" anterior, surgiria em 1911 exatamente sob este espírito em relação à St. Andrew’s Scots School, da qual Watson Hutton também fez parte.
O que não mudou foi o desempenho dos alvirrubros: naquele 1901 e nos dois anos que se seguiram, o título foi deles, sempre de forma avassaladora e por antecipação: nos somados 22 jogos dessas três campanhas, a equipe só conheceu uma derrota. Foi, já com o tetracampeonato assegurado, para o Belgrano Athletic, equipe que vinha se mostrando a principal rival. De certa forma, Alumni e Belgrano foram os primeiros grandes rivais de bairro em Buenos Aires, hoje repleta de clássicos assim. O Belgrano interromperia a série do Alumni em 1904, deixando-o no vice-campeonato. Paralelamente, em 1901 e 1903, o time da BAEHS faturou também a Copa Competencia, torneio que reunia clubes rosarinos e das associações argentina e uruguaia, vencendo nas duas ocasiões o Rosario Athletic – que lhe derrotou na final de 1902.
A série de conquistas na liga, por sua vez, foi retomada já em 1905, culminando em um tri consecutivo, com o time conhecendo apenas três derrotas em 34 jogos – metade destes apenas no campeonato de 1907, o mais expandido (onze concorrentes) até então, e logo nesse o título veio de forma invicta. O clube já era ali o maior vencedor do país, ultrapassando as conquistas do decadente Lomas Athletic (vencido por ele na final de 1906). Em 1905 e 1906, foi finalista da Copa de Honor, similar à Competencia, mas com decisão em jogo único em Montevidéu. Em ambas as ocasiões, decidiu contra o Nacional.
Os uruguaios venceram a primeira e foram derrotados na segunda. Depois dela, o Alumni decidiu não disputar mais este torneio em razão da rispidez com que fora tratado por jogadores e torcedores adversários, que não se coadunavam com o britânico espírito fair play da equipe. Em 1906, houve certa "tríplice coroa", pois o clube ganhou também a Copa Competencia, humilhando o Belgrano com um 10 x 1 na final. O mesmo torneio foi conquistado em 1907, sobre o CURCC (time que deu origem ao Peñarol). Já a conquista nacional deste ano foi das mais avassaladoras, com um ataque que produziu 25 gols a mais que o segundo time mais goleador, e uma defesa que sofreu 12 gols a menos que a segunda menos vazada.
Em 1908, o arquirrival de bairro voltou a interromper a série, deixando o Alumni com o vice. E, novamente, os alvirrubros responderiam com outro tricampeonato. No ínterim, ganharam também a Copa Competencia em 1908 (sobre o Montevideo Wanderers, vencedor da Copa Honor daquele ano) e 1909 (sobre o CURCC). A liga de 1910, por sua vez, teve o sabor especial de comemorar o centenário da Revolução de Maio; a comunidade britânica de Buenos Aires, da qual os membros do Alumni faziam parte, presenteou a cidade com uma torre-relógio no bairro de Retiro, popularmente conhecida como Torre de los Ingleses (e, oficialmente, Torre Monumental, desde a Guerra das Malvinas).
Uma das poucas derrotas do período ocorreram no ano do segundo tricampeonato, em 1911: foi para o recém-ascendido Racing (em um dos dois confrontos que as duas equipes travaram em suas histórias), que naquela década se tornaria o outro gigante do amadorismo argentino e simbolizaria, até por trajar-se com as cores argentinas, a ascensão do estilo criollo (como era chamado o descendente do colonizador espanhol) sobre o britânico.
Esta nova supremacia deveu-se em boa parte à drástica decisão do Alumni de retirar-se das disputas futebolísticas em 1912. O elenco, que raramente contava com pessoas de fora da BAEHS, estava envelhecido, e o clube passava por problemas de despesa. Depois de não comparecer aos três primeiros jogos, foi desafiliado. Alguns de seus jogadores foram integrar no decorrer do campeonato o Quilmes. Então em último, o cervecero (também um clube surgido na comunidade britânica e que apenas posteriormente abriu-se aos criollos ) deu uma grande arrancada e sagrou-se campeão; só o seria outra vez em 1978.
Até a sua saída de cena, o Alumni vinha sendo o primeiro celeiro da Seleção Argentina, que teve seu jogo inaugural em 1901 ou 1902 (há discordâncias, tratadas no especial dedicado ao Lomas ). E ninguém simbolizou melhor esta simbiose (a seleção, antes de adotar em 1908 a tradicional camisa alviceleste, chegou a usar o uniforme do Alumni em alguns jogos anteriores) que a família escoto-argentina dos Brown, composta nos gramados pelos irmãos Alfredo, Eliseo, Jorge, Ernesto e Carlos e pelo primo Juan; os três primeiros foram ainda artilheiros do campeonato argentino, assim como Spencer Leonard, Carlos Lett, Ernesto Lett e Arnold Watson Hutton, filho de Alexander.
Na foto ao lado, os já ex-jogadores Juan e Jorge Brown, que formaram a primeira pareja célebre do futebol argentino, em capa para uma El Gráfico de 1923 – até exatamente aquele ano, Juan foi o recordista de jogos pela Argentina (sendo superado então por Pedro Calomino, do Boca Juniors); ele foi também o único dos Brown que chegou a disputar uma Copa América – justamente a primeira delas, em 1916, como jogador do Quilmes.
Por sua vez, Jorge, o mais velho e mais emblemático de seus irmãos, foi o primeiro grande ícone da Albiceleste, sendo inclusive apelidado de El Patriarco. Se os Brown foram ao Quilmes, Arturo Jacobs e Arnold Watson Hutton passaram ao rival Belgrano Athletic depois de 1911. Hutton, aliás, já jogava ali antes: praticava futebol no Alumni e rúgbi no Belgrano.
O ambiente familiar do Alumni tinha também outras fontes além dos Brown e dos Watson Hutton: os irmãos Eugenio e Juan José Moore (os únicos gêmeos que defenderam a Argentina) e Guillermo e Heriberto Jordan; o referido Jacobs e Carlos Buchanan (cunhados); e, ainda, o fato de muitos dos integrantes do elenco serem maçons: foi o caso de, pelo menos, Buchanan, Carlos Lett, Patricio Browne, os Moore e cinco dos seis Brown (Carlos foi o único sem comprovação).
Todos esses jogadores, exceto os irmãos Jordan, jogaram pela Argentina, assim como seus colegas Walter Buchanan (sem parentesco com Carlos), José Buruca Laforia, Alfredo Dickinson (curiosamente, seus irmãos Carlos e Jorge atuavam no Belgrano e jamais jogaram juntos com ele também na seleção), Tomás González, Héctor Henman, Henry Lawrie, Lionel Peel Yates, Guillermo Ross, Heriberto Simmons, Maximiliano Susán e Gottlob Weiss.
Ainda hoje, exatos cem anos depois de sua última participação, o Alumni, com suas dez conquistas, é o maior vencedor do campeonato argentino depois dos cinco grandes, que só o ultrapassaram já no profissionalismo. O Boca Juniors o igualou em 1940 e o superou em 1943; o Racing (quem mais chegou perto dele no amadorismo, com nove ali) o igualou em 1949 e o superou no ano seguinte; o River Plate, respectivamente em 1953 e 1955; o Independiente, respectivamente em 1971 e 1977; e o San Lorenzo, em 1974 e 1995.
Vale ressaltar que todos estes, e também os dois times que se encontram mais perto de alcançá-lo em curto prazo – Vélez Sarsfield, com oito (tem possibilidade de superá-lo ao fim de 2012, caso consiga vencer seguidamente os três semestrais campeonatos argentinos a ocorrerem até lá, incluindo o atual), e Estudiantes de La Plata, com seis -, tiveram certo benefício dos períodos de dois campeões por ano, seja nos tempos de duas ligas separadas (como ocorreu nos anos 10, 20 e 30), seja nos de dois campeonatos distintos (como há atualmente, desde 1991, e como já ocorrera também entre as décadas de 60 e 80).
O Estudiantes (criado em 1905), por sinal, baseou-se integralmente no uniforme do Alumni para criar o seu. Outra herança deixada pelo time da BAEHS no que diz respeito a uniformes está nas seleções uruguaias. A de futebol foi a adversária contra quem a Argentina, cheia de atletas do Alumni, realizara 22 de seus primeiros 25 jogos – em três deles, com oito alvirrubros; em sete deles, com sete; em três, com seis; no restante, normalmente com cinco, e no mínimo, com três.
O prestígio do time era tão grande que a célebre camisa celeste acompanhada de calças e meias pretas passaram a ser utilizadas pelo selecionado charrua em homenagem ao River Plate uruguaio (fora o nome, sem ligação com o atual River Plate de lá, que ironicamente tem uniforme parecido com o do Alumni, e com o argentino, que inclusive é mais novo), que usou tal vestimenta ao derrotar o clube em 1910. Essa roupa acabaria adotada pelos demais selecionados uruguaios, e com o de rúgbi (segundo sul-americano mais forte) não foi diferente.
Depois de 1911, além da história, o Alumni vinha vivendo apenas como uma associação de veteranos ex-alunos da Buenos Aires English High School, exatamente como as Alumni Associations estadunidenses que lhe inspiraram o nome. Quarenta anos depois, então, o setor de esportes do colégio pediu autorização à chamada Asociación Alumni para utilizar este nome nos gramados – desta vez, nos de rúgbi.
O pedido teve aprovação imediata e unânime, em reunião presidida pelo mesmo Charles Bowers que cinquenta anos antes propusera ao time de futebol da escola chamar-se de tal maneira (Bowers, por sinal, presidira a própria União Argentina de Rúgbi entre 1941 e 1943). Inicialmente disputando categorias juvenis, o agora Asociación Alumni voltou às disputas entre equipes adultas em 1960, na terceira divisão do rúgbi argentino, conquistada já naquele ano. Em 1969, logrou-se o acesso à elite.
No novo esporte, reeditou os clássicos contra o Belgrano Athletic, que já se dedicava ao rúgbi desde 1899 (sendo um dos fundadores da então União de Rúgbi do Rio da Prata); desde então, houveram 44 jogos, com 26 triunfos do Alumni e 14 do Belgrano, clube a ser objeto do próximo especial desta série.
Os primeiros títulos do Alumni no rúgbi de elite só viriam a partir de 1989: foram, até o momento, cinco no Torneio da URBA, quatro deles consecutivos entre 1989 e 1992 (o quinto veio em 2001), e dois deles com o especial sabor de conquistar sobre o arquirrival. O último título foi em 2002, no torneio nacional (que, apesar do nome, é menos valorizado que o provincial, da URBA, do qual é o sexto maior vencedor).
Ainda hoje, a instituição Asociación Alumni defende princípios de seus fundadores britânicos em relação ao amadorismo e ao fair play – este, tanto por parte dos jogadores quanto também dos torcedores, que não devem criticar os atletas e arbitragem, nem dirigir-se à torcida adversária. "O objetivo imediato de uma equipe do Alumni nunca é ganhar, e sim jogar bem. (…) Mais que desejar a vitória de sua equipe, a torcida do Alumni espera que seja merecida", informa o site oficial do clube.
Belgrano Athletic Club
Manuel Belgrano é um dos principais nomes da história argentina. Foi um dos líderes do movimento pela independência do Vice-Reino do Rio da Prata (o território espanhol que deu origem à Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia) e um dos membros da Primera Junta governamental da Argentina; hoje, ele jaz em um mausoléu no átrio da Basílica de Nuestra Señora del Rosario, igreja situada no bairro portenho de Monserrat.
Naturalmente, seu nome batizou diversas coisas na Argentina, e o esporte não foi exceção; duas delas estiveram de certa forma na mídia recentemente: o Belgrano, equipe da cidade de Córdoba, provocou em junho o inédito e tumultuado rebaixamento do River Plate, cujo estádio, o Monumental de Núñez, situa-se na realidade no bairro portenho de Belgrano, e não no vizinho Núñez; também no bairro de Belgrano (que fora originalmente uma cidade separada), há o pequeno Excursionistas, que tem como rival o também pequeno Defensores de Belgrano – que, em situação inversa à riverplatense, encontra-se de fato em Núñez.
Mais antigo do que todos esses (e também que o time de rúgbi Club Manuel Belgrano) é o objeto deste especial: o Belgrano Athletic Club, fundado em 1896 no bairro que lhe deu o nome como fusão do Saint Lawrence's Football Club e do time da Buenos Aires and Rosario Railway (equipe que competira nos campeonatos de 1891, 1893 e 1894). No mesmo ano, disputou seu primeiro campeonato argentino de futebol; ficou em quarto lugar dentre cinco participantes, mas somente quatro pontos atrás da campeã Lomas Academy, em um torneio bastante equilibrado.
No certame seguinte, disputou com um time A e um B, à semelhança do que o Lomas Athletic fizera anteriormente (como visto no especial "futebol e rugby" dedicado a tal clube, a Lomas Academy era um time B deste). Este concorrente seria o campeão, com um ponto à frente do time A do Belgrano. O time B ficou em penúltimo, não durando para o campeonato seguinte, novamente vencido pelo Lomas.
Em 1899, dois fatos marcaram. No futebol, o Belgrano enfim quebrou a série de conquistas lomenses, faturando o campeonato argentino. O primeiro conjunto vencedor foi formado pelos titulares R.D. Barker; A.C. Addecott, G.L. Macfarlane, J.W. Baldock, Eduardo Duggan, E. Roy; Jorge e Carlos Dickinson (irmãos), F.C. Wibberley, Percy Hooton (artilheiro do certame) e G. Stalker, em um empate sem gols que lhes favoreceu diante do Lobos Athletic, o outro postulante ao título e que com o resultado permaneceu dois pontos atrás; o empate com o Lobos somou-se a cinco vitórias nas cinco partidas anteriores que fizeram do Belgrano um campeão invicto.
Além de obter tal conquista, em 1899 ele também fundou a União de Rúgbi do Rio da Prata, ao lado do mesmo Lomas, do Rosario Athletic e do Flores Athletic (outros que também praticavam simultaneamente o futebol) e do Buenos Aires FC (já um clube exclusivo de rúgbi, apesar do nome; foi o objeto do primeiro especial desta série ).
Nos dois esportes, todavia, os torneios argentinos foram sendo dominados por outras equipes no início do novo século: o Buenos Aires empilhava os de rúgbi, enquanto os de futebol iriam para o Alumni, rival de bairro do Belgrano Athletic: este outro clube, tratado no especial "futebol e rugby" anterior, era o da Buenos Aires English High School, escola situada em Belgrano.
Essa rivalidade com o Alumni, embora dotada de cavalheirismo britânico, inaugurou uma tendência a ser seguida por outras equipes portenhas, com novos clássicos se originando por conta da vizinhança em um bairro ou entre bairros próximos. As rixas de Boca Juniors e River Plate, por exemplo, iniciaram-se por conta de os dois terem sido fundados no bairro de La Boca, bem antes de essas duas equipes – coincidentemente – tornarem-se poderosas e as mais influentes da Argentina (mais detalhes disso neste outro especial do Futebol Portenho ).
Em 1900, o Belgrano tornou-se o primeiro time argentino (e sul-americano) a obter um título internacional. Naquele ano, clubes das associações argentina e uruguaia e alguns rosarinos mediram forças na primeira edição da Copa Competencia, torneio de caráter eliminatório promovido por Francis Chevallier Boutell (por isso, a competição era oficialmente chamada Competencia Chevallier Boutell), presidente da associação argentina (e, posteriormente, também da União de Rúgbi do Rio da Prata).
Na campanha, superou o Lomas nas quartas-de-final, os uruguaios do Albion (time que promoveria no ano seguinte o primeiro Argentina x Uruguai, em jogo de validade contestada; a AFA, entretanto, o reconhece como o primeiro da seleção argentina, em questão melhor abordada no referido especial do Lomas) em Montevidéu nas semifinais e, na decisão, bateu por 2 x 0 o Rosario Athletic.
Este adversário devolveria nos dois anos seguintes, eliminando-o nas semifinais. No campeonato argentino, as taças iam se acumulando na galeria do Alumni. Para piorar, na Copa de 1903, os arquirrivais de bairro enfrentaram-se nas quartas-de-final, com o Belgrano caindo por 1 x 6. O time também foi eliminado no jogo inicial da Copa de 1904, para o Barracas Athletic. Em compensação, naquele ano interrompeu a série de conquistas do Alumni na liga, obtendo, e novamente de forma invicta, o seu segundo troféu nacional no futebol.
O endereço, a concorrência, a origem britânica e as convocações para a Seleção Argentina não eram os únicos fatores que aproximavam ambos: o ponta-esquerda belgranense Wilfred Stocks era casado com a irmã de Arnold Watson Hutton, atacante do Alumni que posteriormente viria a jogar futebol no Belgrano, após seu time se extinguir em 1912 (o volante Arturo Jacobs também veio ao Belgrano após o fim do futebol no Alumni); cada rival também contava com um irmão Dickinson: Alfredo era alvirrubro e Carlos, auricastanho. Ambos defenderam a Argentina, mas curiosamente também jamais jogaram juntos por ela.
Além disso, alguns adversários antes e depois de suas disputas nos clássicos tratavam-se como irmãos no interior de lojas maçônicas, no que foi comprovado em relação ao mesmo Stocks, Arturo Forrester (futuro presidente do Belgrano), Haroldo Grant e Jorge Howard, assim como muitos membros do Alumni.
Também jogaram pela Argentina, como todos estes mencionados jogadores acima, Eduardo Duggan, A. Addecot, Jorge e Carlos Dickinson, Harold Ratcliff (que estiveram naquele jogo de 1901, fazendo do Belgrano Athletic a equipe mais presente entre os argentinos ali; os quatro primeiros eram integrantes do time campeão de 1899), Pablo Frers, Ángel Mallen, Martín Murphy, J. Penco, J.B. Sheridan, Horacio Vignoles (curiosamente, um uruguaio), Charles Whaley e Juan Wood.
Whaley foi outro a ter se sagrado artilheiro (em 1906), assim como também Herbert Dorning (1901). E, como o arquirrival, o Belgrano também reunia famílias: E. e F. Wibberley, E. e T. Ibbetson, Arturo e Norman Forrester e A. e Pablo Frers foram outros pares de irmãos presentes em elencos do Athletic, além dos mencionados Carlos e Jorge Dickinson.
Em 1905, o time B logrou o acesso à elite, onde competiria como Belgrano Athletic Extra. No mesmo ano, um novo torneio internacional foi criado: a Copa Honor, similar à Competencia, mas com final em jogo único em Montevidéu – o que fez sua conquista ser mais valorizada pelos competidores do lado ocidental do Rio da Prata.
Após anos de decepções (o Extra logo foi rebaixado, o Alumni emendou novos títulos na liga argentina e goleou o rival por 10 a 1 na final da Competencia de 1906), em 1907 o Belgrano venceu a Copa Honor sobre o CURCC (Central Uruguayan Railway Cricket Club, o time que deu origem ao Peñarol), e faturou seu primeiro campeonato de rúgbi. No ano seguinte, conseguiu seu terceiro campeonato argentino, com o especial sabor de garantir o título com uma vitória sobre o Alumni no campo do rival.
No rúgbi, o Belgrano obteve novo título em 1910, com o gosto a mais de ser no ano em que a Revolução de Maio (movimento que desencadeou a independência do Vice-Reino do Rio da Prata) completava seu centenário, homenageado pela comunidade britânica de Buenos Aires, da qual os membros do clube faziam parte, com a torre-relógio do bairro de Retiro (conhecida popularmente como Torre de los Ingleses e, desde a Guerra das Malvinas, oficialmente como Torre Monumental).
Entre os campeões, haviam aqueles que também praticavam futebol: os cunhados Stocks e Watson Hutton (que, neste esporte, ainda jogava pelo Alumni, que só viria a praticar rúgbi décadas mais tarde). Stocks foi ainda árbitro auxiliar do primeiro jogo da Seleção Argentina de Rúgbi, também ocorrido em 1910. Do Belgrano, o selecionado chamou para a partida inaugural os jogadores L. Gribbell, C.J. MacCarthy, J.F. Saffery e W.A. Watson, que seriam campeões com o clube semanas mais tarde.
Já no futebol, a última alegria foi aquela de 1908; o time não conseguiu mais postular seriamente aos títulos dos torneios que se seguiram, com más campanhas se sucedendo, seja por colocações medianas no campeonato argentino, seja por eliminações precoces nas Copas. Até que a penúltima colocação na liga de 1916 resultou no rebaixamento do Belgrano. Semelhantemente ao que ocorrera com o Lomas Athletic em 1909, o descenso decretou o fim da equipe de futebol.
E, também da mesma forma que quanto aos lomenses, isso não veio a significar títulos em série no rúgbi: a equipe teve nos anos seguintes dura concorrência com o Club Universitario de Buenos Aires e, principalmente, com o San Isidro (outro oriundo do futebol). A imagem acima mostra as duas El Gráfico em que o Belgrano Athletic (identificado pelas calças brancas) esteve na capa, com cada uma retratando justamente disputas com estes dois oponentes.
Com isso, o Belgrano ficou tendo conquistas bissextas na URBA (entidade sucessora da União de Rúgbi do Rio da Prata). Até hoje, foram dez no total, a última em 1968, dividida com o CUBA. Ainda é o quarto maior vencedor do torneio. Curiosamente, dois anos após seu último título, passou a reeditar, no rúgbi, os seus clássicos contra o Alumni. O arquirrival detém mais vitórias nos encontros diretos, mas ainda possui metade das taças reunidas pelo Belgrano.
Do clube, que se dedica também ao hóquei sobre grama, saíram as duas maiores personalidades argentinas de cada esporte: Lisandro Arbizu, ex-capitão e recordista de jogos pelos Pumas (87 entre 1990 e 2005 e participante das três Copas do Mundo realizadas na década de 90) e Magdalena Aicega (capitã das Leonas, a celebrada seleção feminina de hóquei).
A instituição, hoje sediada na cidade de Virrey del Pino (no partido de La Matanzas, a oeste da capital federal), foi co-fundadora também das associações argentinas de tênis, críquete, boliche e squash, onde também mantém atividades.
Sobre o último jogo dos Pumas, o selecionado entrou em campo com a Geórgia já praticamente classificado: o adversário já se encontrava eliminado e o principal concorrente argentino pela segunda e última vaga do grupo, a Escócia, já havia sido derrotada pela arquirrival Inglaterra. Depois de um susto ao fim do primeiro tempo, quando os georgianos empataram a partida no minuto final com um try e o chute de conversão do mesmo (deixando o placar em 7 a 7), a Argentina aniquilou a equipe do Cáucaso sem maiores dificuldades na segunda etapa.
O escore final terminou em 25 a 7 para nossos vizinhos, no que selou sua classificação às quartas-de-final. O problema é que nela irão encarar a favoritíssima Nova Zelândia, equipe mais temida do esporte e sedenta por um título que não lhe vem há 24 anos, e que ainda por cima é a anfitriã desta edição da Copa do Mundo.
Argentina: Lucas González Amorosino (Martín Rodríguez), Horacio Agulla, Marcelo Bosch, Felipe Contepomi (Agustín Gosio), Juan José Imhoff, Santiago Fernández, Nicolás Vergallo (Alfredo Lalanne), Leonardo Senatore (Genaro Fessia), Juan Manuel Leguizamón, Julio Farías Cabello, Patricio Albacete, Mariano Galarza (Tomás Vallejos), Juan Figallo (Martín Scelzo), Mario Ledesma (Agustín Creevy) e Marcos Ayerza. Técnico: Santiago Phelan.
Geórgia: Malkhaz Urjukashvili (Merab Kivirikashvili), Lekso Gugava (Lasha Malaguradze), Davit Kacharava, Tedo Zbzibadze, Aleksandre Todua, Lasha Khmaladze, Irakli Abuseridze (Bidzina Samkharadze), Mamuka Gorgodze, Viktor Kolelishvili, Giorgi Chkhaidze, Vakhtang Maisuradze (Ilia Zedginidze), Levan Datunashvili (Giorgi Nemsadze), Davit Kubriashvili, Akvsenti Giorgadze (Jaba Bregvadze) e Vasil Kakovin (Goderdzi Shvelidze). Técnico: Richard Dixon.
Club Atlético Porteño
Assim como os prognósticos da Seleção Argentina na Copa do Mundo (às 4:30 da manhã, pelo horário de Brasília, os Pumas enfrentarão a anfitriã Nova Zelândia pelas quartas-de-final com amplíssimo favoritismo para os All Blacks, em jogo a ser transmitido pela ESPN), esta série de especiais vai se aproximando do fim. Este falará do Club Atlético Porteño, o último time argentino atualmente dedicado ou que oferece mais prioridade ao rúgbi que chegou a ser campeão nacional no futebol.
Apesar da expressão espanhola, o então Porteño Athletic Club também teve raiz britânica, bem como as demais equipes pioneiras do futebol argentino. No seu caso, em 1895, por jovens de sobrenomes O'Farrell, Gahan, Kenny, Cavanagh, Geoghegan, Feliberg, Tyrrel, Dogerthy, Aneil, Rath, Bowes, MacLean e Dillon, membros da comunidade irlandesa (a Irlanda foi totalmente britânica até 1922 e mesmo a porção independente da ilha continua bastante influenciada por seus antigos patrícios) na capital federal. O time foi fundado justamente como Capital Athletic Club.
O novo nome também poderia se referir à cidade de Buenos Aires ( porteño é o gentílico em castelhano para ela), mas a razão para a mudança foi outra: apreciadores também de um turfe, os fundadores do Capital costumavam se encontrar no Hipódromo Argentino, no bairro portenho de Palermo. A escolha do novo nome deu-se exatamente em função de um desacreditado potro, chamado Porteño, em que tiveram sucesso ao apostar no Gran Premio Nacional.
Uma inesperada vitória do equídeo em questão (apenas 300 dos 19.000 bilhetes vendidos confiaram nele naquele páreo) rendeu aos membros do clube dinheiro suficiente para arranjar um jogo de uniformes e uma bola; por motivo parecido, o pequeno mas tradicional Platense, onde surgiu David Trezeguet, escolheu ainda o incomum marrom como sua cor. As cores do Porteño, por sua vez, eram o azul e o branco, em listras na camisa – antes mesmo da própria seleção adotá-las (isto se daria em 1908).
Obteve o acesso à elite com o vice-campeonato na segunda divisão de 1906. Com isso, em 1907 debutou não apenas na primeira divisão, como também nas Copas Competencia e Honor (torneios eliminatórios entre times rosarinos e das associações argentina e uruguaia; enquanto a Competencia tinha uma decisão internacional realizada em duas partidas, na Honor ela ocorria em jogo único em Montevidéu).
Nas Copas, a primeira impressão foi desastrosa, caindo em ambas no primeiro confronto (e por 1 x 5 frente ao San Isidro e um 0 x 8 contra o Alumni, time já visto nesta série ). Já no campeonato, a equipe obteve uma razoável sexta colocação, conseguindo mais da metade dos pontos que disputou. Com isso, já naquele ano houve a primeira convocação de um jogador do Porteño à Seleção Argentina, o ponta-direita Ricardo Pertino.
No ano seguinte, houve uma pequena mudança: no campeonato, o Porteño ficou em sétimo e caiu na Copa Competencia já no primeiro confronto, em um 0 x 5 contra o Belgrano Athletic. Mas, na Copa Honor (mais valorizada pelos argentinos em razão de sua maior dificuldade), esteve bem perto de chegar à decisão; passou pelo Estudiantes de Buenos Aires, pelo mesmo San Isidro que lhe goleara no ano anterior e pelo Newell's Old Boys, caindo na final argentina (que antecedia a internacional) por 1 x 2 frente ao Quilmes.
O Teño voltaria a ter campanha marcante em 1910, quando ficou atrás apenas do grande time do Alumni no campeonato argentino, terminando com quatro pontos a menos que o campeão. No ano seguinte, ambos concorreram de forma ainda mais acirrada, terminando o certame empatados, forçando um jogo extra entre eles. Mais experientes, os adversários venceram, ainda assim por apenas 2 a 1.
Antonio Piaggio terminou o campeonato como um dos artilheiros; seria o único jogador do Porteño a conseguir ser o máximo goleador da elite argentina. No mesmo 1911, o time voltou a cair na final argentina da Copa Honor, desta vez em um 2 x 3 contra o Newell's.
Em 1912, houve uma cisão na associação. O Porteño juntou-se ao Estudiantes de La Plata e ao Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires e formou a Federação Argentina de Futebol, juntamente com algumas equipes que pertenciam à segunda divisão – dentre elas, o Atlanta e o Independiente. Houve então dois campeonatos, o da associação e o dissidente, da federação.
Neste, bastante equilibrado, o Porteño voltou a terminar o torneio como um dos líderes, empatando na ponta desta vez com o Independiente, ambos com três pontos de diferença para o quinto colocado, o Argentino de Quilmes. Na realidade, a equipe de Avellaneda teria sido a campeã, ao golear o próprio Argentino na última rodada (5 a 0), mas propôs a anulação do resultado em razão de o adversário ter escalado um time muito fraco e um tirateima com o Porteño, com quem acabou ficando igualado em razão do cancelamento do título.
Essa verdadeira final acabaria não jogada até o fim: o jogo extra estava empatado em 1 x 1 até os 42 do segundo tempo, quando os Rojos reclamaram de um gol seu que deveria ter sido validado, resolvendo então retirar-se do campo, em protesto. O "tapetão" decidiu que o título deveria então ficar com o time de Palermo, que ali conseguia seu primeiro troféu de elite. Naquela inacabada decisão, jogaram por ele Juan José Rithner; H. Viboud, R. González; V. Abadía, Pedro Rithner (autor do gol), B. Berisso; M. Genoud, Antonio Piaggio, A. Galup Lanús, A. Márquez e F. Ramos.
Apesar da escalação pouco britânica, o Porteño, em razão das origens, foi de certa forma o último campeão argentino não- criollo; o vencedor daquele ano no campeonato da associação foi o Quilmes, equipe também fundada por britânicos (é, por sinal, o mais velho clube de futebol ainda em atividade na América). Pois, em 1913, os campeões nacionais seriam o Estudiantes de La Plata (na federação) e o Racing (na associação), ambos criados por argentinos além de tal comunidade. Naquele ano, o Teño decepcionou, terminando em oitavo dentre dez participantes. Isto foi bem compensado em 1914.
Sem jamais deixar a ponta superior da tabela, o clube obteve, de forma invicta, o seu segundo título. Em 1915, as duas ligas reunificaram-se. A quem poderia esperar uma campanha mais fraca (os times da ex-federação eram tidos como secundários), o Teño respondeu intrometendo-se nas primeiras colocações, conseguindo um quarto lugar entre 25 competidores naquela que foi a primeira edição a reunir, com a chegada do San Lorenzo na elite, todos os que ficariam conhecidos como os grandes do futebol argentino (o River Plate estreara nela em 1909; o Racing, em 1911; o Independiente, em 1912, na FAF; o Boca Juniors, em 1913 e o Huracán, em 1914, ambos na associação).
Mais do que isso, também em 1915 o Porteño conquistou a fase argentina da Copa Competencia, e sobre o Racing – o grande time da década, onde seria heptacampeão nacional seguido (fato jamais igualado na Argentina). Tal etapa já valia um troféu, chamado Copa Competencia Jockey Club. Martín Garat e Carlos Izaguirre fizeram os gols da vitória sobre La Academia racinguista. A decisão internacional, porém, foi perdida em casa para o Nacional.
As campanhas que se seguiram foram em sua maior parte medianas, exceções feitas a novo troféu Competencia Jockey Club (vencendo o River Plate na final), em 1918 (a decisão internacional foi novamente perdida em casa, agora para o Montevideo Wanderers); e a um quarto lugar em 1920, no torneio da Associação Argentina de Futebol – no ano anterior, havia ocorrido nova dissidência, com a maior parte das equipes formando a chamada Associação Amadora.
O Porteño remanesceu na AAF, onde os principais times eram o Boca Juniors e o Huracán, e, em um torneio sem rebaixamentos, salvou-se do descenso mesmo ficando em último lugar em três ocasiões: isso ocorreu em 1921, 1923 e 1926. A decadência ficou refletida nos elencos que a Argentina enviou às Copas América anualmente realizadas entre 1922 e 1926: apenas jogares de clubes da AAF foram selecionados, e em nenhuma destas ocasiões escolheu-se alguém do Porteño.
Nas edições anteriores, a história fora outra: na primeira Copa América, de 1916, foi chamado Juan José Rithner (jogador do Teño que mais atuou pela seleção, com dez jogos); em 1917, Edwin Clarcke; no terceiro, em 1919, o mesmo Clarcke (vice-artilheiro ali) e também Carlos Izaguirre, Emilio Sande e Eduardo Uslenghi; em 1920, o mesmo Uslenghi e Juan Salvador Presta, que foi o único chamado em 1921 – quando a Albiceleste enfim sagrou-se, pela primeira vez, campeã.
Também defenderam a seleção, como jogadores do Porteño, os atletas Eugenio Cacopardo, Emilio Goín, Roberto González Escarrá (cuja única participação foi no primeiro Argentina x Brasil, em 1914), A. Márquez, os já mencionados Ricardo Pertino e Antonio Piaggio, Pascual Polimeni, J.B. Sheridan (o único comprovadamente de raízes irlandesas, como os fundadores do clube; jogou também no Belgrano, objeto do especial anterior desta série) e Nicolás Vivaldo.
Em 1927, por pressão do próprio presidente argentino, Marcelo Torcuato de Alvear, houve nova reunificação das ligas. Ambas reuniam 50 times, mas acertaram realizar um torneio mais enxuto, com 34. Incluído nele, o Porteño foi ainda um dos clubes beneficiados com uma regra que suspenderia seu descenso na primeira ocasião em que terminasse em posição de rebaixamento, a partir dali.
Isto o livrou de uma queda já naquele ano, em que terminou exatamente em último, com 30 derrotas em 33 jogos. A colocação se repetiu em 1928 (agora com 27 derrotas em 35 partidas) e desta vez a equipe não se livrou. Ela esteve perto de retornar no ano seguinte: foi a vice-campeã da segunda divisão de 1929, mas só o primeiro colocado (ali, o Honor y Patria) podia ascender. Na segundona de 1930, já ficou em penúltimo.
Em 1931, o profissionalismo instalou-se oficialmente no futebol argentino. Ele já vinha ocorrendo informalmente na década anterior, inclusive na liga daquela que se denominava Associação Amadora. Sem forças para encarar a nova competitividade, o decadente Porteño resolveu manter o clube ativo, mas no rúgbi, até hoje restrito apenas a equipes amadoras na Argentina.
Na realidade, a discussão profissionalismo x amadorismo já havia dividido o próprio rúgbi: ainda no século XIX, na Grã-Bretanha, clubes defensores do profissionalismo, normalmente ligados aos operários, desvincularam-se da União de Rúgbi e formaram a atual Liga de Rúgbi. Nela, foram criando diferenças nas regras que praticamente formaram um novo esporte, mais semelhante ao futebol americano, a partir do rúgbi original (que não deixou de ser a modalidade mais popular no resto do mundo e cuja Copa do Mundo vem ocorrendo neste momento).
Atualmente, o chamado Rugby Union também admite o profissionalismo, assim como o seu dissidente Rugby League (mais popular no norte da Inglaterra, onde foi originado, e também na Papua Nova Guiné e na Austrália – que tem a principal seleção da modalidade, cuja Copa do Mundo foi vencida pelos Kangaroos em 9 das 13 edições). Esta mudança ainda não foi implementada na Argentina, justamente o único país do alto escalão do Rugby Union a manter firmemente o amadorismo, e já em 1932 o Porteño afiliou-se à União de Rúgbi do Rio da Prata.
A entrada no rúgbi, por sua vez, provocou pequena alteração no uniforme do Porteño: listras azuis escuras passaram a ser alternadas, no lugar das brancas, com o tom de azul mais claro já presente. A nova cor era uma referência ao então Sportive Française (atual Deportiva Francesa), clube da comunidade franco-argentina de onde haviam chegado reforços para o Teño; a camisa reserva, por sua vez, carrega o verde irlandês. Em 1935, ascendeu à segunda divisão, conseguindo em 1951 um lugar na primeira.
Porém, nunca obteve maior destaque na elite, jamais conseguindo nestes exatos sessenta anos que se passaram algum título na URBA (a União de Rúgbi de Buenos Aires, sucessora da do Rio da Prata e cujo torneio, apesar de provincial, é mais valorizado do que o próprio nacional), sendo caracterizado pelo sobe-e-desce nas divisões; atualmente, encontra-se na quarta, a mais baixa. A instituição, desde 1971, está sediada na pequena cidade de San Vicente, no limite sudoeste da Grande Buenos Aires.
San Isidro
Após esta série abordar os cinco times do rúgbi argentino que chegaram a ser campeões nacionais de futebol e, antes deles, sobre o próprio clube pioneiro no país nos dois esportes, a partir de agora se direcionará àqueles que lograram ao menos um vice-campeonato argentino com a bola primordialmente nos pés.
Nada mais apropriado então que iniciar com aquele que, neste item, obteve maior número de vices (três). Ainda mais quando tal instituição posteriormente dividiu-se em duas, com ambas sendo justamente as maiores vencedoras e rivais do rúgbi na Argentina. Para completar, o fato de Che Guevara ter atuado, ainda que brevemente, por uma delas. Este especial, então, será dedicado aos dois times de San Isidro (distintivos acima), capital do rúgbi argentino e onde não por acaso encontra-se o Museu do Rúgbi nacional (na Juan B. de Lasalle, 653, com entradas francas).
San Isidro é uma pequena cidade ao norte de capital federal. É a capital do partido também chamado San Isidro, em que o único clube de futebol na ativa é o minúsculo Acasusso, fundado em 1922, que está no equivalente à terceira divisão. Mas, no início do século passado, ali, em um terreno de um gentil senhor chamado Manuel Aguirre, uma equipe de ingleses (San Isidro Athletic Club) e uma criolla (Club de Foot Ball de San Isidro) compartilhavam suas práticas, decidindo então por fundir-se em 1902, sob o nome dos britânicos.
Após três anos na segundona estando perto de obter o acesso, o San Isidro Athletic Club conseguiu-o o quando a Associação Argentina de Futebol resolveu, para a primeira divisão de 1906, estabelecer um alargamento do número de participantes, que saltaram de sete para onze, no que atraiu maior interesse de público. Debutante na elite, o San Isidro teve um ano de aprendizado: nas Copas internacionais, já abordadas anteriormente nesta série de especiais, caiu no primeiro confronto em ambas (para o Argentino de Quilmes na Honor e, na Competencia, por um 1 x 6 contra o Belgrano Athletic).
Já no campeonato, até então sempre disputado por pontos corridos, houve uma inovação: os cinco times mais fortes ficaram em um grupo, com outro reunindo os restantes. Os vencedores de cada chave disputariam a taça em uma final. Isso possibilitou que o decadente Lomas Athletic, outrora o grande conquistador do torneio, pudesse postular o título com o seu "sucessor", o Alumni (estes dois já foram abordados na série, respectivamente aqui e aqui ). O San Isidro ficou apenas em quarto no grupo dos "fracos", o do Lomas.
Em 1907, ano em que nacionalizou o nome, o novato já demonstrou notável evolução. Caiu na semifinal da etapa argentina da Copa Honor (em um 1 x 2 contra o Quilmes) e, no campeonato (novamente por pontos corridos), terminou em terceiro. Nos campeonatos seguintes, obteve colocações inferiores, mas conseguia grande desempenho nas Copas internacionais: na Copa Honor de 1909, passou por Quilmes, Porteño ( abordado no especial anterior desta série ) e, na decisão da fase argentina, goleou o Estudiantes de Buenos Aires com um 8 a 1.
Foi o primeiro troféu do San Isidro, pois a etapa nacional já valia uma taça, chamada Copa Honor Municipalidad de la Ciudad de Buenos Aires. Na decisão internacional, vendeu caro uma derrota de 2 x 4 para o CURCC (Central Uruguayan Railway Cricket Club, o time que deu origem ao Peñarol). Já na Copa Competencia do mesmo ano, caiu na semifinal argentina em um duro 2 x 3 contra o futuro vencedor Alumni.
Em 1911, então, teve seu melhor ano até aquele momento: foi outra vez o terceiro colocado no campeonato argentino, em que Ricardo Malbrán, um dos fundadores do clube, se tornaria seu único jogador a terminar a competição como artilheiro. O San Isidro obteve ainda a etapa argentina da Copa Competencia, que rendeu-lhe a taça Copa Competencia Jockey Club.
Curiosamente, na campanha desse título, foi eliminando os mesmos adversários daquela edição de 1909 na Copa Honor: Porteño, Quilmes, e, na decisão, o Estudiantes de Buenos Aires (que perdeu desta vez por 2 x 4). Porém, na decisão internacional, foi derrotado em casa para o Montevideo Wanderers, que venceu por 2 x 0.
Mas o desempenho do ano seguinte foi ainda mais notável, talvez o melhor do San Isidro no futebol. A consagração internacional finalmente veio, na Competencia. Depois de tirar do caminho o Argentino de Rosario, o Estudiantes de La Plata, o Tiro Federal e o Quilmes, obteve o torneio para si ao derrotar o Nacional pelo placar mínimo. No campeonato, ficou no vice da liga mais forte (outras equipes, dissidentes, fundaram uma federação que realizou um campeonato paralelo), quatro pontos atrás do campeão Quilmes, bem reforçado por jogadores do recém-extinto Alumni.
Em 1913, novamente o San Isidro esteve no páreo. Na liga, foi o melhor time de seu grupo, deixando o segundo colocado, o Boca Juniors (debutante na elite), cinco pontos atrás. Decidiu o título com o melhor time do outro grupo, o Racing. A três dias do ano-novo, o time de Avellaneda obteve com um 2 x 0 aquele que seria o primeiro de seus sete títulos argentinos seguidos na década (ainda um recorde na Argentina). As duas equipes decidiram também a etapa argentina da Copa Competencia. Pelo mesmo placar, foi o San Isidro quem levou a melhor, mas acabou recebendo o troco do Nacional na final internacional.
Em 1915, as ligas reunificaram-se e, em um torneio de 25 times disputando o título em pontos corridos, San Isidro e Racing terminaram o campeonato empatados na ponta superior da tabela, com 46 pontos, forçando um jogo extra entre ambos. Já bicampeão, o adversário impediu a revanche do San Isidro com um solitário 1-0 obtido aos 6 minutos de jogo, no estádio do Independiente, já em 6 de janeiro do ano seguinte. Detalhe: o San Isidro teria sido o campeão se o tapetão não tivesse entrado em cena, ao retirar os pontos do Independiente pela vitória dele por 2-1 no Clásico de Avellaneda (o primeiro da elite argentina, precisamente) e entrega-los à Academia após suposta escalação irregular de um jogador do Rojo.
Os racinguistas tiveram ainda mais três partidas depois do dérbi e calharam de vencer todas, forçando aquele desempate, curiosamente no campo do próprio Independiente. O terceiro vice-campeonato foi a última vez que o San Isidro chegou tão perto do título nacional no futebol: no torneio de 1916, ficou em 13º enquanto o carrasco obtinha o tetracampeonato seguido. Nas edições que se seguiram, que chegaram a envolver novas ligas separadas, o melhor desempenho sanisidrense foi um quarto lugar, em 1918. O segundo melhor já foi um oitavo (1923). Nas Copas, a equipe também já não chegava longe mesmo nas fases nacionais.
Em 1931, o profissionalismo instalou-se oficialmente no futebol argentino, embora clubes resistentes tenham continuado a disputar paralelamente um campeonato amador até 1934. O San Isidro (antepenúltimo em 1930) inicialmente se colocou entre estes, participando das quatro primeiro rodadas. Com um empate e 3 derrotas, desafiliou-se; não para ingressar na liga profissional, e sim para retirar-se do futebol, onde sua trajetória estava inversa à que vinha obtendo no rúgbi – ainda um esporte que prezava o amadorismo.
Justamente a partir de 1916, ano em que seu desempenho no futebol passou a decair, o San Isidro evoluía magistralmente no rúgbi, cujas práticas haviam começado ali dez anos antes, embora só em 1917 o esporte fosse realmente efetivado. Nele, o clube trocou a camisa azul celeste pelas listras horizontais alvinegras que o deixariam célebre.
Aproveitando-se de que as equipes rivais estavam desfalcadas de muitos de seus jogadores, que haviam ido ao Velho Continente lutar na Primeira Guerra Mundial (enquanto o futebol já se popularizara entre os criollos, o rúgbi ainda era mais acolhido entre as comunidades de imigrantes europeus), o San Isidro conseguiu vencer nada mais do que treze títulos seguidos entre 1917 e 1930 (a edição de 1919 não foi realizada), exatamente seu último ano de participação plena no futebol. O suficiente para ser, já ali, o maior vencedor do rúgbi argentino, ultrapassando em larga escala os então oito títulos do Buenos Aires FC (antigo recordista e que obteve somente mais dois títulos desde então).
Na imagem ao lado, uma El Gráfico de 1922 mostra justamente estas duas equipes. O San Isidro, ali, já somava cinco conquistas no rúgbi, já se encostando nas oito do Buenos Aires. Por sinal, a primeira vez que a revista dedicou uma capa ao rúgbi, também envolveu o San Isidro: foi em edição de 1920, que retratava partida sua contra o Belgrano Athletic; tal capa encontra-se no especial dedicado a esta outra equipe, outra que trilhou futebol e rúgbi na Argentina.
Nenhum atleta simbolizou tão bem o contraste entre esses dois esportes no San Isidro quanto Claudio Bincaz. Nascido na própria cidade, participou de oito daquelas treze conquistas seguidas. No futebol, jogou apenas uma partida pela Argentina, contra o Brasil, no Sul-Americano de 1916. Multiesportista, Bincaz dedicou-se ainda ao remo e ao iatismo, representando neste esporte o seu país nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, sendo inclusive posteriormente presidente do clube Náutico de San Isidro. Ele poderia ter ido aos Jogos também de 1924, pela seleção de rúgbi (inativa entre 1910 e 1927), caso as condições econômicas tivessem permitido a viagem à Paris – ele seria o único a ter defendido a Argentina nas duas modalidades.
Além de Bincaz, outros jogadores do San Isidro a terem ido a Sul-Americanos de futebol pela Albiceleste foram, também ao de 1916, Gerónimo Badaracco e Carlos Tomás Wilson (recordista de jogos pela Argentina como atleta do clube, com 25, sendo ainda o primeiro goleiro a defender um pênalti por ela) e, para o de 1919, J.G. Shilley.
Por sua vez, também defenderam a Argentina como jogadores de futebol do San Isidro os atletas Inocencio Alzúa, Juan Anunziatta, Juan José Bello, Elías Fernández (primeiro jogador do River Plate na seleção, em 1909), Juan Gil, Manuel Malbrán, Ricardo Malbrán (o mencionado artilheiro de 1911), Alfredo Meira, José Morroni, Alberto Olivari (que foi ainda medalhista de ouro no tiro nos primeiros Jogos Pan-Americanos, em 1951, meses antes de morrer), Humberto Recanatini (integrante do elenco vencedor do Sul-Americano de 1927, mas ali já como jogador do Almagro), Juan Rossi, Eduardo Rothschild (da célebre família judaica banqueira), Amadeo Vernet e Luis Cilley – este também praticava rúgbi, esporte que ficou ligado à sua família (conforme a próxima imagem).
O maior concorrente nas competições de rúgbi do San Isidro surgiria da própria instituição. Em 1935, um novo presidente, Julio C. Urien, indicou o novo diretor da subcomissão de rúgbi do clube sem realizar uma eleição entre os jogadores, como era feito até então. Alguns foram inclusive suspensos por demonstrarem seu descontentamento com tal fato após uma derrota para o Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires (outra equipe a ter praticado futebol), insatisfação esta que aumentou ao não serem autorizados sequer para treinar e disputar amistosos. Muitos jogadores se solidarizaram com os punidos e recusaram-se a jogar; a nova direção manteve-se firme mesmo com nove derrotas seguidas, algo inédito na história do time de rúgbi (que vinha sendo representado por juvenis). Naquele ano, acabou em sexto.
Os renegados do San Isidro passaram a jogar amistosos sem identificarem-se como jogadores dele. O estopim para decidirem fundar seu próprio clube partiu de declaração neste sentido do próprio Urien, que, apesar da situação, foi reeleito. Cinco meses depois daquela derrota para o Gimnasia, 440 antigos sócios, incluindo todas as jogadoras de hóquei feminino do Club Atlético de San Isidro, fundaram o San Isidro Club.
A luta para ser o melhor representante local, tão comum em rivalidades de outras cidades argentinas ou de bairros portenhos, teve aí um ingrediente a mais bastante raro no futebol argentino, uma vez que, nesta, a disputa estende-se aos nomes dos arquirrivais, ambos carregando o nome da pequena San Isidro. Para evitar confusões, as equipes passaram a ser referidas por suas siglas. Se, no futebol, o Superclásico argentino é travado entre Boca Juniors e River Plate, no rúgbi isso se dá entre CASI e SIC.
Já nos dois primeiros anos de existência, o SIC logrou dois acessos seguidos, passando da terceira divisão para a elite, fazendo seu primeiro confronto contra o CASI em 1937: venceu por 3 x 0. A "matriz" demorou a recompor-se do grande êxodo de membros, só voltando a ser campeã em 1943, oito anos depois da cisão – período em que o SIC obteve dois títulos na elite da URBA, o primeiro deles em 1939 (ano desta capa da El Gráfico, com o atleta Jorge Cilley).
Atualmente, o CASI ainda é o maior vencedor deste campeonato que, embora provincial, é mais valorizado que o próprio nacional; tem 33 títulos, nove a mais que o SIC, segundo maior vencedor. Porém, se for contabilizado apenas os títulos pós-ruptura, é este quem foi mais vezes campeão: 24 vezes (incluindo a do último campeonato, em 2010) contra 18 do CASI. Para reforçar o fato de San Isidro ser a capital do rúgbi argentino, seus dois times obtiveram 57 dos 112 campeonatos da URBA, exatamente um a mais que a metade.
A URBA foi, até 1997, disputada em pontos corridos, e o título tinha de ser sempre dividido quando duas ou mais equipes terminavam empatadas na ponta superior; curiosamente, isto jamais ocorreu entre os dois maiores arquirrivais argentinos. A partir de 1998, então, o campeonato passou a ser disputado com fases eliminatórias e uma grande final.
O Superclásico decidiu duas vezes a URBA, com uma vitória para cada lado. O SIC venceu a de 2003 por 20 a 9 e levou o troco dois anos depois, em que um gol de penal no final da partida deu um título dos mais dramáticos ao CASI, que venceu por 18 a 17, no que representou ainda a quebra de um jejum de exatas duas décadas sem títulos no torneio e de uma sem qualquer título – o clube faturara o nacional de 1995, seu único, enquanto o SIC possui quatro nesta competição (disputada desde 1993), sendo seu segundo maior vencedor (atrás somente dos cinco títulos do Hindú). Por outro lado, o CASI tem maior número de triunfos nos Superclásicos: 59 contra 44 do rival em 113 disputados.
A despeito da grande rivalidade, a mesma se dá de forma confraternizada, como é comum no rúgbi, sendo bastante raros episódios de violência. Apesar disso, nos primeiros anos de separação, houveram histórias em que avôs torcedores do CASI que não permitiam visita de netos que torcessem pelo SIC. Atualmente, a rixa continua dividindo famílias, mas de forma mais tranquila (e racional). Embora não seja tão raro jogadores terem atuados nos dois rivais, apenas um foi campeão em ambos: J.S. Morganti, que esteve naquela conquista de 1943 do CASI e, cinco anos depois, faturou a URBA com o SIC.
Um outro folclore deste clube está no fato de Che Guevara ter atuado por ele. De fato, ele era um apreciador da prática multidesportiva: gostava ainda de natação, montanhismo, futebol (se dizia torcedor do Rosario Central, de sua cidade-natal), tênis de mesa; era exímio enxadrista e foi caddy no golfe; além de se divertir também nos saltos ornamentais, boxe, hipismo, beisebol, basquete – e, convenientemente a um guerrilheiro, o tiro. Ele, que foi ainda repórter fotográfico nos Pan-Americanos de 1955, levava à loucura a família, que temia que os ataques de asma que frequentemente acometiam Ernesto fizessem-no sucumbir durante alguma atividade física.
Seus pais costumavam justamente impor a retirada dele dos clubes em que ele se metia, e com o SIC, onde seu pai fora um dos fundadores, não foi diferente. Ali, Guevara ainda não era Che, e sim Chancho. Martín Martínez Castro, tio postiço (era casado com María Luisa Guevara Lynch de Martínez Castro, tia biológica de Che), foi o segundo presidente do clube. Ele, já uma celebridade da Guerra Fria, retornou em 1961 secretamente à Argentina para conversar com o governo de seu país natal – visita que realmente ocorreu, com direito a permissão para visitar o casal de tios, pois María Luisa já padecia de câncer terminal.
Uma lenda urbana dessa visita também se relaciona à bola oval: o guerrilheiro estava disfarçado, de modo a não ser reconhecido nem mesmo por seu motorista, que sabia apenas que iria conduzir algum figurão da política global. Che teria então indagado a este sobre como estariam o CASI e o SIC, no que o condutor, desinformado ou nervoso, não soube na hora do que se tratava. Foi no rúgbi, por sinal, que Guevara conhecera o amigo Alberto Granado, com quem fizera a famosa viagem retratada no filme Diários de Motocicleta, do brasileiro Walter Salles.
Sobre o jogo ocorrido neste domingo, a Nova Zelândia confirmou o seu franco favoritismo, vencendo por 33 a 10, resultado que não traduz como foi a partida. A forte defesa argentina conseguia impedir os All Blacks de alcançarem um try, obtido aos 32 minutos do primeiro tempo por Julio Farías Cabello para os Pumas (que os deixou, com o acerto também do chute de conversão deste jogada, momentaneamente à frente no placar, com 7 a 6, silenciando o Eden Park). O adversário teve que recorrer aos gols (jogada secundária) para retomar a dianteira no escore, aproveitando a excelente pontaria de Piri Weepu, que converteu os sete penais que chutou.
Até os vinte minutos finais, a partida estava equilibrada, com os anfitriões vencendo parcialmente os sul-americanos por 15 a 10. Mas, para impedir um try neozelandês a centímetros de ocorrer, Nicolás Vergallo cometeu falta e foi expulso. A cobrança da penalidade foi convertida e o placar ficou parcialmente em 18 a 10. Com um a mais, os locais não demoraram a impor-se de maneira mais firme. Dez minutos depois, com a disputa ainda em aberto, enfim efetuaram seu primeiro try, abrindo 23 a 10, praticamente selando sua classificação mesmo perdendo o chute de conversão. Ainda conseguiram um gol, estabelecendo um 26 a 10 e, no penúltimo minuto, um novo try (agora com sucesso na conversão), sobre os nossos já desiludidos vizinhos.
O jogo marcou a aposentadoria de Mario Ledesma, camisa 2 na foto abaixo, dos gramados. Ele, substituído às lágrimas pouco após o primeiro try do oponente, é, com somadas 18 partidas em quatro edições do torneio, o rugbier argentino com mais jogos em Copas do Mundo, quatro atrás do recordista inglês Jason Leonard (com 22 entre as quatro de 1991 a 2003). Só Felipe Contepomi, o camisa 12 na mesma foto, esteve com Ledesma no elenco argentino nestas últimas quatro Copas, tendo alcançado os 17 jogos; o técnico deles neste mundial, Santiago Phelan (por sinal, um emblema do CASI, onde atuara entre 1992 e 2003), jogou com ambos nas de 1999 e 2003. Martín Scelzo e Lucas Borges foram outros a se despedir da seleção hoje.
Os algozes terão pela frente na semifinal a arquirrival Austrália, que vencera mais cedo a África do Sul (detentora do título), no que será uma verdadeira final antecipada, apimentada pelo fato de que os australianos, mesmo preferindo a modalidade league do rúgbi (explicada no já referido especial do Porteño; a Copa que vem ocorrendo neste momento é a da modalidade union, a mais popular mundialmente), possuírem dois títulos nas Copas: além de serem os maiores campeões da menos badalada Copa de league, dividem com os sul-africanos o posto de maiores vencedores da Copa do union.
A Nova Zelândia, por sua vez, ainda tem somente um título. Sua seleção, após vencer a edição inaugural do torneio (1987, onde fora igualmente a sede), não conseguiu mais exercer nele a sua tradicional supremacia no esporte, em decepções que já incluíram duas derrotas, justamente também em semifinais, para os Wallabies; do lado rival, o fato de terem perdido a final da Copa de league mais recente (2008) exatamente para os neozelandeses, que gostam mais até de críquete do que desta modalidade de rúgbi.
É contra estes três países que, a partir do ano que vem, a Argentina medirá forças no agora Torneio Quatro Nações (até então, logicamente, Três), tradicional competição anual a reunir as seleções de rúgbi mais fortes do hemisfério sul e que deverá aprimorar ainda mais o selecionado argentino, na opinião dos próprios All Blacks – que também realçaram após a partida as grandes dificuldade a que foram impostos e a paciência que lhes foi necessária, afirmando ainda que também terão o que aprender com os argentinos no Quatro Nações.
Os neozelandeses reconheceram ainda os Pumas como o adversário mais difícil que já enfrentaram nesta Copa; vale ressaltar que os anfitriões já jogaram nesta edição contra a boa seleção de Tonga e a sempre forte (mais expressiva, inclusive historicamente, que no futebol) França (que, após eliminar a arquirrival Inglaterra nas quartas, pegará na outra semifinal o País de Gales, que tirou a Irlanda).
Argentina: Martín Rodríguez (Lucas González Amorosino), Gonzalo Camacho, Marcelo Bosch, Felipe Contepomi, Horacio Agulla (Juan José Imhoff), Santiago Fernández, Nicolás Vergallo, Leonardo Senatore, Juan Manuel Leguizamón, Julio Farías Cabello, Patricio Albacete, Manuel Carizza (Alejandro Campos), Juan Figallo (Martín Scelzo), Mario Ledesma (Agustín Creevy) e Rodrigo Roncero (Marcos Ayerza). Técnico: Santiago Phelan.
Nova Zelândia: Mils Muliaina (Isaia Toeava), Cory Jane, Conrad Smith, Ma'a Nonu, Sonny Bill Williams, Colin Slade (Aaron Cruden), Piri Weepu (Jimmy Cowan), Kieran Read, Richie McCaw (Victor Vito), Jerome Kaino, Sam Whitelock (Ali Williams), Brad Thorn, Owen Franks (John Afoa), Keven Meleamu (Andrew Hore) e Tony Woodcock. Técnico: Graham Henry.
Club Atlético del Rosario
Os Pumas já deram adeus à Copa, mas esta série ainda terá sua pequena sobrevida, agora sobre as equipes argentinas de rúgbi que já lograram ao menos um vice-campeonato nacional no futebol. Depois de o especial anterior ter sido dedicado àquela que alcançou mais vezes este quesito (três), este irá tomar partido daquela que, além de ainda ter conseguido três títulos em um torneio mais importante (ainda que já extinto), é a instituição clubística mais antiga ainda existente na Argentina e uma das fundadoras da liga de rúgbi do país. Aqui abordaremos o antigo Rosario Athletic Club, atual Club Atlético del Rosario.
Foi fundado como Rosario Cricket Club, em 27 de março 1867, no mesmo ano do Buenos Aires Football Club – criado em agosto daquele ano e extinto em 1951 juntamente com o Buenos Aires Cricket Club (que existia desde a década de 30 do século XIX e de quem era oficialmente separado) para dar origem ao atual Buenos Aires Cricket and Rugby Club, como visto no primeiro especial desta série.
As semelhanças com o Buenos Aires FC, com quem por sinal travou as primeiras partidas de rúgbi na Argentina (a partir de 1886), vão além do mesmo ano de fundação e da criação a partir de um time de críquete; o Rosario também surgiu no seio da comunidade britânica. Suas cores, com azul celeste e grená na camisa e branco nos calções, são uma combinação comum na Inglaterra, onde vestem, das equipes mais conhecidas, o Aston Villa, o West Ham United e o Burnley.
Futebol também era praticado, e aí teve-se alguma diferença: o Buenos Aires FC (com quem também fez a primeira partida argentina entre dois clubes neste esporte, em 1887; um ano depois, com o críquete perdendo a preferência para os novas modalidades recém-praticadas, o Rosario renomeou-se como um Athletic Club) participou do primeiro campeonato argentino, em 1891, para nunca mais voltar a competições futebolísticas e dedicar-se apenas ao rúgbi. O Rosario, por sua vez, também disputou apenas um campeonato argentino.
Essa participação deu-se no de 1894 e, ao contrário de seu primeiro rival (que fora o último em sua única participação), fez uma bela campanha mesmo utilizando no futebol os mesmos jogadores que praticavam rúgbi: terminou no vice-campeonato, dois pontos atrás do detentor do título e que ali obteve o bicampeonato, o Lomas Athletic. Foi o primeiro clube de Rosario a participar da competição; o time da Buenos Aires and Rosario Railway, presente naquela edição e também nas de 1891 e 1893, era portenho e em 1896 originou o Belgrano Athletic.
Se ele não retornou às edições seguintes, não foi para focar-se apenas no rúgbi, o motivo do Buenos Aires FC: o futebol remanesceu, mas desafiliado da liga argentina, ficando restrito aos jogos em Rosario. Isto seria alterado em 1900. Logo antes, em 1899, o clube fundou a União de Rúgbi do Rio da Prata, ao lado do Buenos Aires, do Lomas, do Belgrano e do Flores Athletic.
As disputas de futebol com as equipes da Grande Buenos Aires retornaram no ano seguinte por meio da Copa Competencia, primeiro torneio de futebol interclubes realizado de forma regular na América, a reunir equipes das associações argentina e uruguaia e algumas rosarinas. Daquela primeira edição até a de 1905, o Rosario Athletic fez bonito, chegando à final em todas estas seis, conquistando a metade delas, incluindo as duas primeiras com decisão internacional.
Após um bivice-campeonato inicial, obteve a de 1902 sobre o Alumni, o grande time argentino daquela década, de forma das mais árduas. A final terminou empatada em 1 a 1, requisitando então uma nova partida. Nesta, o resultado se repetiu em três horas de disputa, só interrompida com o anoitecer. Duas semanas depois desta, com um 2 a 1, o Rosario sagrou-se pela primeira vez campeão, conseguindo após um total de quase sete horas em três jogos a revanche sobre a equipe que lhe derrotara na decisão anterior.
O primeiro elenco de um título rosarino (e também santafesino e de todo o interior argentino) no futebol foi formado por F. Boardman, Ricardo Le Bas e J. Middleton; F. Warner, Eduardo Jewell e C. Parr; Alfredo Le Bas, H. Middleton, Alberto Le Bas, J. Parr e G. Topping. Jewell e seu irmão Carlos haviam doado um terreno para o clube construir sua sede, que em homenagem a eles chama-se Plaza Jewell; o endereço do site oficial do clube é www.plaza.org.ar.
Em 1904 e 1905, então, o Rosario (que levara o troco do Alumni na final de 1903) emendou um bicampeonato vencendo nas duas finais o CURCC (Central Uruguayan Railway Cricket Club), o ferroviário time uruguaio que originou o Peñarol alguns anos mais tarde. Na segunda destas decisões, os aurinegros conseguiam empate em 3 a 3 e abandonaram o campo assim que levaram o quarto gol, no início da prorrogação, protestando contra a arbitragem, da qual já haviam reclamado na final anterior. O autor do tento, Wilfred Stocks, iria no ano seguinte à capital federal para jogar no Belgrano Athletic (que vencera sua equipe na decisão de 1900), de onde chegaria já em 1906 à Seleção Argentina.
Nenhum jogador do Rosario chegou a atuar em jogos válidos (contra outras seleções oficiais) pela Argentina vindo do clube; já em amistosos não-oficiais, o selecionado nacional recrutou em 1904 Eduardo Jewell e F. Boardman para partida contra a equipe inglesa do Southampton, de visita ao país naquele ano. Foram os dois primeiros que a seleção convocou de uma equipe rosarina, embora tal primazia seja atribuída a Zenón Díaz (jogador do Rosario Central), que debutaria em 1906, mas em jogo considerado válido, contra o Uruguai.
Em 1905, outros dois fatos marcaram além do tricampeonato na Competencia. O Rosario Athletic obteve seu primeiro título de rúgbi, a ser emendado com um bi no ano seguinte, e fundou a Liga Rosarina de Futebol, juntamente com o Rosario Central, o Newell’s Old Boys e o Argentino (clube sem relação ao Argentino de Rosario atual; daria origem em 1914 ao Gimnasia y Esgrima de Rosario, outro time de futebol que passou a praticar rúgbi).
O time campeão de rúbgi continha alguns campeões da Competencia daquele ano: E. Le Bas, Ricardo Le Bas, Wilfred Stocks e o capitão Henry Talbot, que cinco anos mais tarde estaria presente no primeiro jogo da Seleção Argentina de Rúgbi, sendo ali o único jogador do interior. Talbot, posteriormente, seria também o primeiro presidente da União de Rúgbi da província de Santa Fe.
No torneio rosarino, por sua vez, o três vezes campeão internacional e uma vez vice argentino, ironicamente, não lograria sucessos. Na primeira edição do campeonato local, que contou também com o Provincial (que ainda pratica futebol e rúgbi) e o futuro Central Córdoba (ainda como time da Córdoba and Rosario Railway), ficou em penúltimo. Conseguiu apenas um único vice-campeonato, em 1913, um ponto atrás do campeão Newell’s. O Athletic também decaiu na Competencia. Além deixar de disputá-la algumas vezes – ausentou-se entre 1910 e 1912 e na de 1914 -, caiu quatro vezes logo no primeiro confronto, duas delas por W.O.
Em 1915, então, o decano dos clubes argentinos teve o seu canto do cisne no futebol, justamente no torneio que o consagrou. Caiu nas semifinais para o futuro campeão (da etapa argentina do torneio) Porteño após eliminar os rivais rosarinos Newell's e Tiro Federal. Naquele ano, disputou também a Copa Honor (similiar à Competencia, mas com final em jogo único, em Montevidéu), demonstrando sua decadência ao cair na primeira eliminatória, e por um 0 x 5 contra o Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires. Foi apenas a segunda vez que disputou este outro torneio, realizado desde 1905 e mais valorizado pelos argentinos em razão de sua maior dificuldade; em 1913, também fora eliminado no primeiro confronto, contra o San Isidro.
Em 1916, após uma penúltima colocação na liga rosarina, o já Rosario Atlético Club, que posteriormente veio a adotar a forma atual do nome nacionalizado, se desafiliou da mesma e retirou-se do futebol. Apenas em 1939 é que outros clubes rosarinos (Rosario Central e Newell’s Old Boys) viriam a disputar o campeonato argentino, quarenta e cinco anos depois da participação única da equipe azul e grená. Neste quase meio século de intervalo, o torneio, apesar do nome, permaneceu restrito a equipes situadas entre a Grande Buenos Aires e La Plata.
O clube ainda é o time do interior argentino (e, por conseguinte, da província de Santa Fe e da cidade de Rosario) com maior quantidade de títulos internacionais no futebol, com suas três Copas Competencia; depois dele, Rosario Central e o Talleres (da cidade e província de Córdoba e recente objeto deste excelente especial, fora desta série, de Joza Novalis) obtiveram uma Copa CONMEBOL cada um, já na década de 90 do século passado.
Já uma equipe mais direcionada ao rúgbi, o Atlético, neste esporte, também realizou um caminho parecido; fundou em 1928 a União de Rúgbi de Rosario e teve uma trajetória de idas e vindas entre ela e a de Buenos Aires (sucessora da do Rio da Prata, co-fundada por ele em 1899). Em 1936, um ano após obter seu terceiro título nesta (no mesmo torneio que provocou a cisão do San Isidro, objeto do especial anterior desta série ), desafiliou-se da mesma pela primeira vez, mas algumas voltas (e novas saídas) ocorreriam até que chegou a estar exclusivamente na de Rosario entre 1955 e 1985, ano em que completou treze títulos locais seguidos. Convidado a retornar à URBA neste mesmo ano, resolveu desligar-se ali da URR.
Na URBA, conquistou ainda as edições de 1996 e 2000, sendo o sexto maior vencedor do torneio da mesma (mais valorizado que o próprio torneio nacional de clubes, já vencido pelos rosarinos Duendes e Jockey Club, mas ainda não pelo Atlético), ao lado do Alumni, um de seus antigos rivais no futebol. Além destes dois esportes, é ligado a outros, alguns em cujas associações também foi fundador. Isto se deu no tênis, na associação argentina e na federação santefesina; na natação, nas associações santafesina e rosarina; e no hóquei sobre grama, na associação santafesina. A prática sempre amadora de sua quase sesquicentenária história de atividades desportivas diversas continua a ser motivo de orgulho da instituição.
Na primeira semifinal desta Copa do Mundo, a França, após eliminar a arquirrival Inglaterra nas quartas-de-final, teve pela frente outros súditos da Rainha, os do País de Gales. Tais britânicos (os únicos que haviam restado neste mundial) não faziam uma Copa tão boa desde a primeira, em 1987, quando chegaram à terceira colocação. Posto que poderão até repetir, pois, embora tivessem a vitória ao alcance em uma exibição em que souberam segurar os favoritos Bleus mesmo atuando quase desde o início com um a menos (justamente o capitão Sam Warburton foi expulso, ao exagerar na dose de um tackle, executando praticamente um pilão sobre Vincent Clerc), perderam por 8 x 9 em uma dramática noite onde tiveram péssima pontaria.
Isto porque, além de perderem o chute de conversão do try que fizeram (o único do jogo, com Mike Phillips fechando ali o escore da partida ainda antes dos vinte últimos minutos), desperdiçaram três de seus quatro penais, um deles a cinco minutos do fim. Os pontos adversários vieram justamente de três penais, todos convertidos, por Morgan Parra. Com isso, a primeira finalista a ser conhecida, mesmo jogando mal, não foi a seleção galesa, e sim a gaulesa.
Os franceses, depois de dois vice-campeonatos (em 1987 e 1999), tentarão seu primeiro título na Copa, que seria também o primeiro de um competidor não-anglófono.
A outra semifinal reuniu o clássico entre a anfitriã Nova Zelândia e sua rival e carrasca em Copas (a eliminou duas vezes, também em semifinais) Austrália. A partida também iria opor os até então únicos invictos no torneio (a França já havia perdido na primeira fase para a própria Nova Zelândia e para Tonga; Gales, para a África do Sul). Os locais enfim devolveram os reveses passados.
A partida não poderia ter se encerrado de forma mais simbólica, com Quade Cooper, neozelandês que joga pelo arquirrival (e naturalmente vilificado onde nasceu), sendo pressionado pelos antigos compatriotas a colocar-se involuntariamente com a bola além da linha lateral e assim permitir ao juiz decretar o fim do jogo. Nele, a Nova Zelândia agiu inversamente ao que fizera nas quartas-de-final, contra a Argentina, tendo errado mais da metade de seus chutes a gol, em uma noite mais fraca de Piri Weepu (que acertara todos os sete penais que chutou diante dos argentinos).
O que faltou em pontaria, todavia, foi muitíssimo bem compensado em segurar o ímpeto do oponente (o que não ocorrera diante dos Pumas ) desde o início. A segunda semifinal também só teve um try, concluído em jogada fulminante já aos 6 minutos da partida, por Ma'a Nonu. Os All Blacks praticamente não deixaram os Wallabies pensarem e, após a vitória por 20 a 6 (que poderia ter sido bem mais elástica não fossem os numerosos desperdícios nos chutes), estarão de volta a uma final depois de 16 anos, quando foram derrotados pela anfitriã África do Sul (cujo título ali foi belissimamente retratado no filme Invictus, de Clint Eastwood). Terão a chance de obter uma conquista que não vem há 24 – sua única ocorreu na primeira Copa do Mundo, onde também foram sede.
Curiosamente, a decisão naquela Copa de 1987 também foi contra os franceses, e o jogo pelo terceiro lugar dela envolveu exatamente Gales e Austrália, como o que se verá nas duas partidas restantes deste mundial. Será a grande chance dos neozelandeses de igualarem os arquirrivais, e também os sul-africanos, no posto de maiores campeões do torneio (estes têm ambos dois títulos), justamente onde não vinham impondo a supremacia que tradicionalmente sempre tiveram no rúgbi.
A final de 2011 reunirá precisamente as duas seleções que mais avançaram às fases decisivas da competição: contando com esta edição, Nova Zelândia e França chegaram às semifinais em seis dos sete mundiais, passando à decisão três vezes; na Copa passada, os Bleus, anfitriões de 2007, foram justamente os primeiros a impedir a estadia dos All Blacks entre os quatro melhores, eliminando-os nas quartas-de-final (uma inesperada derrota francesa para a Argentina na primeira fase provocara o precoce choque de potências ali) com um 20 a 18.
Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires
Certos ideais e noções estéticas da Antiguidade Ocidental Clássica, reavivados no Renascimento, voltaram a ganhar força ao fim do século XVIII. Inicialmente nas artes, por meio dos neoclássicos e dos árcades, posteriormente tiveram grande difusão também pela crescente prática de atividades físicas nas classes mais ricas. Esta parte deu-se a partir da segunda metade do século XIX, culminando na primeira edição moderna dos Jogos Olímpicos (em 1896). Sob este signo, e de certa forma também devido à paralela preocupação higienista deflagrada com a nascente microbiologia (Louis Pasteur formulou em 1862 a teoria dos micróbios, descobertos por ele, como causadores de doenças), o cuidado com o corpo teve sua importância redescoberta.
Assim, práticas desportivas vieram a ganhar popularidade para além do lazer, constituindo parte integral da formação educacional das pessoas. Pedagogos, cientistas, militares e pensadores em geral concordavam quanto à utilidade e necessidade de exercícios físicos, para moldar adequadamente corpo (prevenindo assim doenças) e espírito (contra "desvios de conduta") – e, na face sórdida, também a "raça" (a eugenia estava igualmente em voga na época).
Em Buenos Aires, isto levou a surgimentos de diversos clubes dedicados a um ou mais esportes (praticados também nas escolas), em muitos casos com incentivos estatais. Dentre eles, a Sociedad Hípica Argentina, o Tiro Federal Argentino, a Unión Velocipédica Argentina e o Tenis Club Argentino, instalados na nobre zona norte da cidade. Próximo a eles, no bairro de Palermo, foi fundado em 1880 o Club de Gimnasia y Esgrima (denominação original). Como indica o nome, ele foi criado para a prática de ginástica e esgrima, então considerados os esportes por excelência da elite criolla. Será justamente o único clube criado pelos hispânicos a ter um especial para si nesta série.
Trata-se de uma instituições desportivas mais antigas da Argentina. Seu sucesso inspiraria propostas semelhantes em todo o país: já em 1885 alguns entusiastas seus na recém-fundada La Plata (inaugurada em 1882 após planejada criação para ser a capital da província bonaerense, dois anos após a cidade de Buenos Aires ser alçada a distrito federal) começaram as discussões acerca da criação de um clube similar local; em 1887, estava fundado o Gimnasia y Esgrima de La Plata, que acabaria sendo, dentre seus homônimos, o mais ilustre no futebol, além de também ter trilhado o rúgbi (como se verá no próximo e último especial da série),
Outros GyE foram então se espalhando pelo país. Além do portenho e do platense, hoje eles abrangem desde aqueles que também já disputaram a elite do futebol argentino, como os de Jujuy e Mendoza, passando pelos de Ituzaingó, Rosario (estes, de maior presença recente no rúgbi; o rosarino já jogou futebol também), Comodoro Rivadavia, Lanús, Pedernera Unidos de San Luis (mais dedicados ao basquete; o lanusense também já passou por futebol e rúgbi), Chilvilcoy, Concepción del Uruguay, Santa Fe, Tandil e até outros existentes na capital federal, nos bairros de Flores, Vélez Sarsfield, Villa del Parque (outro mais dedicado à bola ao cesto) e Villa Devoto, fora outros semelhantemente obscuros.
Muitos deles vieram a adotar também distintivo e uniforme (de cores branco e azul celeste, tal qual a bandeira da Argentina) similares aos do pioneiro. Na imagem, a camisa e escudo originais do Gimnasia de Buenos Aires, obtidos no Amateurismo in Colores (que reproduz as vestimentas de equipes argentinas de futebol extintas ou desativadas, muitas dos quais já objetos desta série de especiais). Posteriormente, foi acrescentado ao emblema, além de adereços relativos às atividades em que se dedicava originalmente, o famoso verso do poeta romano Juvenal, mens sana in corpore sano (“mente sã em corpo são”, em latim), que bem exprime as inspirações por trás da criação do clube. A abreviação mens sana se tornaria uma alcunha de muitos Gimnasias.
O futebol e o rúgbi, por sua vez, ainda eram esportes mais restritos à comunidade britânica, seja em seus clubes (o Buenos Aires Football Club e o Porteño, por sinal, eram seus vizinhos de bairro, também sediados em Palermo), escolas ( St. Andrew's Scots School, Lomas Academy e Buenos Aires English High School, por exemplo) e empresas (como a Buenos Aires and Rosario Railway ), só vindo a encantar os criollos em maior escala já no início do século XX. E o GEBA experimentou um sucesso meteórico em ambos. No futebol, venceu a terceira divisão em 1906 e a segunda em 1909, ano em que venceu também a segundona do rúgbi logo em seu debute ali. Afiliado na União de Rúgbi em 1908, foi a pedido dele que ela passou a publicar suas atas e regramentos também em espanhol, além do inglês.
No futebol de elite em 1910, o Gimnasia obteve uma razoável sexta colocação em sua estreia e, no mesmo ano, chegou às fases decisivas das copas internacionais, a Honor e Competencia (torneios eliminatórios com equipes rosarinas e das associações argentina e uruguaia). Na primeira, caiu nas semifinais, e, na segunda, alcançou a decisão da etapa argentina. A equipe não voltaria a ir tão longe nelas. Aquela final da Competencia de 1910, curiosamente, reuniu um Gimnasia e um Estudiantes. Mas não os hoje mais famosos homônimos de La Plata, e sim os de Buenos Aires, atualmente mais obscuros (e que nunca tiveram rivalidade entre si). O adversário levou a melhor, por 3 a 1.
O GEBA, após nova sexta colocação argentina em 1911 (ano em que sua equipe de rúgbi obteve seu primeiro título na URBA, sendo a primeira criolla campeã lá), liderou a cisão que provocou a realização de dois campeonatos argentinos separados em 1912 (ano em que o rúgbi da instituição foi bicampeão). Entendendo que seus sócios tinham o direito de usufruir livremente de suas instalações, o clube não aceitou cobrar ingressos deles, contrariando a Associação Argentina de Futebol. Ele, o Porteño e o Estudiantes de La Plata fundaram a Federação do Futebol Argentino, trazendo consigo alguns clubes da segunda divisão, dentre os quais o Atlanta e o Independiente.
Os três torneios da FAF (as duas ligas se reunificariam em 1915) foram os campeonatos de elite em que o Gimnasia y Esgrima portenho teve suas melhores colocações, disputando os títulos nos dois primeiros. No de 1912, ficou em quarto, a dois pontos dos líderes Porteño e Independiente. No de 1913, foi o vice-campeão, três pontos atrás do Estudiantes (desta vez, o de La Plata mesmo, surgido por sinal em 1905 por ex-membros do próprio Gimnasia de lá, descontentes com a suspensão da recém-iniciada prática de futebol neste). No seguinte, ficou em quinto, para depois ocupar a 12ª posição no primeiro campeonato reunificado.
Os campeonatos de 1916 e 1917 seriam os últimos em que o GEBA disputou no futebol. Marcaram também os dois únicos encontros oficiais nele com o xará platense, que debutou na elite no primeiro destes. O GELP venceu ambos, respectivamente por 1 a 0 e 2 a 1. Após ganhar apenas quatro partidas, empatar outras quatro e perder as doze restantes no campeonato de 1917, os gimnasistas da capital argentina encerraram o certame em vigésimo, à frente apenas do Banfield, e foram rebaixados. Logo, o futebol foi desativado. Os únicos troféus acabaram sendo aqueles da terceira e segunda divisão.
Apesar da duração fugaz no futebol, o Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires teve tempo para entrar na história sul-americana deste esporte. Em 1914, o seu estádio foi o local da realização dos dois primeiros Brasil x Argentina (que marcaram também os primeiros jogos unanimemente tidos como válidos da Seleção Brasileira, até então reunida apenas para amistosos contra clubes e combinados), pela primeira Copa Roca, disputa reativada neste ano de 2011 sob o nome de Superclássico das Américas.
Três jogadores do GEBA estiveram na primeira partida – Arturo Reparaz, Aquiles Molfino e Santiago Sayanes (presente também no segundo). O Futebol Portenho, em sua série de especiais sobre a Copa Roca, naturalmente dedicou um ( aqui ) à inaugural, incluindo fotos dos dois selecionados antes do jogo, em que Molfino foi capitão e autor de um gol na vitória por 3 a 0 dos anfitriões.
A cancha deste Gimnasia foi ainda sede de cinco dos seis jogos da primeira Copa América, em 1916. Também neste ano, o clube teve seu único artilheiro na primeira divisão argentina: Marius Hiller. Além de ter atuado três vezes pela sua Alemanha natal (assim como um tio seu, Arthur, outro a ter jogado pela Nationalmannschaft ), Hiller também defendeu a Argentina.
Por ela, jogou apenas duas vezes, ambas naquele 1916, contra o Uruguai (em vitórias por 3 a 1 e 7 a 2), mas marcando quatro – até hoje, sua média de dois gols por partida é a melhor da história da Seleção Argentina. Apenas Guillermo Stábile a igualou, com seus oito tentos em quatro jogos (todos na Copa do Mundo de 1930, onde El Filtrador foi o artilheiro). Hiller foi também, por muito tempo, o estrangeiro que mais vazou as redes adversárias pela Albiceleste, sendo superado somente por Gonzalo Higuaín (que nasceu na França).
Além do alemão e daqueles três que estiveram na primeira peleja contra os brasileiros, Antonio Apraiz, Antonio Bruno, Emilio Fernández, Santiago Gallino, Eduardo Rothschild (da célebre família judaica banqueira) e Amadao Vernet também defenderam a seleção vindos do clube de Palermo. Os dois últimos jogaram ainda no San Isidro, outro objeto desta série de especiais.
Se o futebol hoje em dia é praticado apenas na forma soçaite no GEBA, o rúgbi continua na ativa ali, embora sem tanto destaque na URBA. Além do bicampeonato de 1911 e 1912, o clube obteve outros dois títulos (em 1932 e 1939), sendo o sétimo maior vencedor do mais valorizado torneio argentino deste esporte, em que ele originou nada menos que três dissidentes: Pucará, Deportiva Francesa e Curupaytí (curiosamente, todos rubroazuis). O primeiro fez mais sucesso: venceu a URBA em 1946 e 1950 e hoje figura na elite provincial mais respeitada do país.
O Gimnasia, atualmente, também está na primeira divisão da URBA, mas veio a entrar em decadência a partir da década de 50. Ainda assim, seu estádio era o mais utilizado pelos Pumas até o final dos anos 60. O último jogo da Seleção Argentina de Rúgbi (que hoje prefere o campo do Vélez Sarsfield) disputado ali foi em 1993. Outro fator que o liga ao selecionado é o fato de que foi do GEBA a ideia de uma camisa com listras alvicelestes horizontais de dez centímetros cada. Até essa sugestão, em 1927, a Argentina jogava rúgbi ou de camisas totalmente brancas ou totalmente azuis.
Atualmente, o Gimnasia de Buenos Aires vem tendo maior sucesso recente no hóquei sobre grama (bastante popular entre as mulheres na Argentina, cuja seleção feminina – Las Leonas – é uma das maiores forças da modalidade), tendo sagrado-se vencedor dos três últimos torneios metropolitanos e dos dois últimos nacionais. É outro das dezenas e dezenas de esportes praticados na instituição, que veio a formar muitos dos atletas olímpicos do país.
A partida pelo terceiro lugar marcou a despedida de Shane Williams por seu País de Gales. Tratava-se do maior tryman em atividade em jogos de seleções. Antes do torneio, já somava 56 tries: 54 por Gales e dois pelos British and Irish Lions, estando nesta história atrás apenas de Daisuke Ohata (aposentado neste ano e que somou 69 pelo Japão) e David Campese (retirado em 1996 após conseguir 64 pela Austrália). Nesta Copa, Williams, de 33 anos, efetuou mais dois, incluindo um nesta partida. O lance colocou a seleção do dragão momentaneamente à frente do placar, vencendo parcialmente ali os australianos por 8 a 7.
Os Wallabies, porém, não tardaram a virar e conseguiram o bronze com um 21 a 18 – isto somente porque os britânicos, em outra noite de má pontaria (erraram três penais e um chute de conversão, contra duas penalidades desperdiçadas pela Austrália), conseguiram nos acréscimos da partida novo try. Na foto, Williams é cumprimentado pelo jovem David Pocock, zimbabuano de nascença que foi eleito o melhor jogador australiano em 2010.
A final opôs a anfitriã Nova Zelândia e a França, que já haviam se enfrentado na primeira fase, com arrasadora vitória neozelandesa por 37 a 17 sobre os reservas franceses. No primeiro tempo da decisão, os All Blacks esboçaram um novo triunfo sem maiores dificuldades. O discreto Tony Woodcock aproveitou enorme buraco na defesa adversária e conseguiu um try aos 15 minutos, ao receber a bola em lateral próximo à linha de fundo dos europeus. A conversão foi perdida por Piri Weepu, que tivera diante dos Pumas argentinos a sua última exibição boa no que se refere a chutes. Ele, que não fora bem também nas semifinais contra a Austrália, desperdiçou ainda três penais na etapa inicial. Os locais abriram 8 a 0 no início do segundo tempo justamente com um penal cobrado por outro jogador, Stephen Donald.
Donald, por sinal, só foi integrado ao elenco nas semifinais, após as lesões de dois jogadores de sua posição, entrando no decorrer da final depois da contusão de outro deles, Aaron Cruden. Fora de forma e de fato visto como decadente antes do torneio, acabaria como outro herói improvável, pois seu acerto se mostraria decisivo: um minuto depois, o capitão dos Bleus, o incansável Thierry Dusautoir, conseguiu um try, com François Trinh-Duc acertando na conversão e deixando os europeus com apenas um ponto de desvantagem.
Ainda com mais de meia hora pela frente, a Nova Zelândia resolveu segurar o escore, arrastando dramaticamente a partida. O resultado final (que ficou nos 8 a 7) poderia ter sido outro se o mesmo Trinh-Duc e também Dimitri Yachvili convertessem outros chutes franceses, que, após uma Copa irregular, receberiam com justiça a Taça Webb Ellis caso vencessem o derradeiro jogo – Dusautoir, inclusive, foi eleito o melhor em campo.
Os neozelandeses, mesmo jogando feio, conseguiram o que lhes era mais importante: a vitória, o título, a quebra de um jejum de 24 anos sem conquistas nas Copas e a igualdade com a rival Austrália e a África do Sul entre os maiores vencedores da competição. Exatamente os três países que a Argentina passará a enfrentar três vezes anualmente cada um, a partir do ano que vem, no Torneio Quatro Nações, a reunir as melhores seleções de rúgbi do hemisfério sul.
Nova Zelândia: Israel Dagg, Cory Jane, Conrad Smith, Ma'a Nonu (Sonny Bill Williams), Richard Kahui, Aaron Cruden (Stephen Donald), Piri Weepu (Andy Ellis), Kieran Read, Richie McCaw, Jerome Kaino, Samuel Whitelock (Ali Williams), Brad Thorn, Owen Franks, Keven Meleamu (Andrew Hore) e Tony Woodcock. Técnico: Graham Henry.
França: Maxime Médard, Vincent Clerc (Damien Traille), Aurélien Rougerie, Maxime Mermoz, Alexis Palisson, Morgan Parra (François Trinh-Duc), Dimitri Yachvili (Jean-Marc Doussain), Imanol Harinordoquy, Thierry Dusautoir, Julien Bonnaire, Lionel Nallet, Pascal Papé (Julien Pierre), Nicolas Mas, William Servat (Dimitri Szarzewski) e Jean-Baptiste Poux (Fabien Barcella). Técnico: Marc Lièvremont.
Outros clubes
Após nove especiais sobre a trajetória futebolística de clubes argentinos hoje mais dedicados ao rúgbi – o primeiro, sobre o pioneiro nos dois esportes; os cinco seguintes, sobre os que foram campeões argentinos no futebol; e os três anteriores, aos que foram ao menos vice nacionais nele -, este décimo, para fechar redondamente a série no dia em que a final da última Copa do Mundo completou exato um mês, terá outro enfoque: as equipes de futebol que experimentaram o rúgbi, mas (geralmente) sem o êxito das já abordadas. A maioria das que serão comentadas aqui, por sinal, não se fixaram nele, por diversos motivos.
Para começar, nada mais apropriado do que pegar o mais antigo e que inclusive foi um dos cinco fundadores da União de Rúgbi do Rio da Prata, o primeiro órgão do rúgbi argentino. Bem antes das redondezas do bairro de Flores abrigarem o pequeno Deportivo Español e, mais recentemente, o San Lorenzo (que se fixou lá há 20 anos, mas não deixou de ser identificado com o bairro próximo de Boedo – embora fundado no de Almagro, vizinho a este), nele o Flores Athletic Club teve suas origens, apesar de se fixar no de Caballito, ao lado.
Como outro dos pioneiros clubes dos britânicos, dedicava-se a esportes característicos desta comunidade. Na sua existência, praticou também críquete, atletismo e polo. Foi justamente no campo de polo de Flores, posteriormente utilizado pela equipe (que teria sido fundada por volta de 1890-91), que se deu em 1874 o primeiro jogo de rúgbi na Argentina, entre sócios do Buenos Aires FC. Foi também nele que se deu o jogo extra entre St. Andrew's e Old Caledonians que, na visão atual, decidiu o primeiro campeonato argentino de futebol, em 1891.
Neste esporte, o Flores participou de sete campeonatos, sendo um dos times fundadores da Liga Argentina de Futebol da Associação que daria origem à atual Associação de Futebol Argentino. Seis de suas participações no torneio deram-se entre 1893 e 1898. Foi duas vezes vice-campeão, ambas para lomenses. A primeira, já na estreia, para o Lomas Athletic. A segunda, três anos depois, para a Lomas Academy (equipe B do Athletic). Seu conjunto no primeiro campeonato incluía os atletas Brown; Gordon e Syer; Gahan, Goddard e Murphy; Fothergill, Jordan, Allen, Bartman e Wilson. A equipe fez ainda dois artilheiros do certame: James Gifford, em 1894, e T.F. Allen, em 1896.
Em 1899, o Flores desafiliou-se da Associação Argentina de Futebol para dedicar-se ao rúgbi, onde também foi time fundador da entidade que daria origem ao atual órgão nacional regulador: co-fundou a então União de Rúgbi do Rio da Prata com o Buenos Aires FC, o Belgrano Athletic e o Rosario Athletic, além do Lomas. Todavia, disputou apenas a inaugural edição daquele ano. Por isso, costuma ser esquecido: é comum, mesmo na mídia argentina, a percepção de que as atuais URBA e UAR tiveram quatro, e não cinco, clubes pioneiros. Elas mesmas costumam inclusive divulgar que seus fundadores foram somente os outros quatro.
Alguns sócios do Flores retomaram o time de futebol em 1903, aceito na liga sem precisar passar pela segunda divisão. Mas a equipe perdeu as dez partidas que disputou, não marcando gols e sofrendo 20, 12 deles em goleada em casa para o Alumni. Não voltou mais. O clube fechou pouco tempo depois, com seu patrimônio sendo comprado em 1907 pelo Ferro Carril Oeste, seu vizinho em Caballito desde 1904, quando fora fundado. Este foi, por sinal, também outro time de futebol (ou, melhor dizendo, com futebol ) a ter se aventurado no rúgbi.
O Ferro tem destaque nacional exatamente por seu enorme sucesso em esportes diversos (talvez o maior da Argentina), tendo nos anos 80 a sua década dourada: nela faturou seus dois troféus na primeira divisão argentina de futebol (em 1982 e 1984), ficando aí por nove anos à frente do arquirrival, o Vélez Sarsfield. No basquete, onde revelou Luis Scola, obteve no mesmo decênio três títulos sul-americanos (1981, 1982 e 1987), um deles contra os brasileiros do São José e outra sobre os do Monte Líbano; apenas o Sírio e o Franca têm mais títulos continentais que ele na bola ao cesto. Também nesse período, conquistou dois sul-americanos e dois mundiais de vôlei (em 1987 e 1988) e inúmeros títulos locais nessas e em outras modalidades esportivas. Em 1988, seu valor foi destacado até pela UNESCO.
Já no rúgbi, ele não logrou louros tão altos. Embora com diversos britânicos entre os fundadores do clube, a instituição resolveu filiar-se apenas em 1932 na União de Rúgbi do Rio da Prata, exatamente um ano depois de sua equipe de futebol se incluir entre as adeptas do profissionalismo – algo ainda não aceito no rúgbi argentino. Por conta disso, o departamento de rúgbi do clube
formou um time oficialmente independente, o Ferro Carril Oeste Rugby Club. O novo representante de Caballito no esporte durou mais tempo que o antecessor, mas sem destaque (obteve apenas títulos de acesso), e saindo vexaminosamente: em 1960, foi desafiliado após a União Argentina de Rúgbi concluir que a independência do Ferro RC era apenas de fachada.
Ainda assim, os Pumas utilizaram regularmente o polidesportivo estádio dos verdolagas, o Arquitecto Ricardo Etcheverri (famoso por, dada a localização de Caballito no centro geográfico da capital federal, ser regularmente alugado por outros times portenhos quando estes não podem dispor de sua própria cancha ), entre as décadas de 70 e de 2000, "sucedendo" o campo do Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires, que era a casa principal da seleção até o fim dos anos 60. O último jogo da Argentina no Templo de Madera já completou dez anos: foi em 14 de julho de 2001, contra a Itália. Desde então, o José Amalfitani, El Fortín de Liniers, o campo do rival Vélez, vem sendo o preferencialmente usado.
A exigência do amadorismo também impediu que o River Plate fosse aceito. Os millonarios foram outros que requisitaram filiação em 1932, recusada por conta dessa restrição. Com isso, o time de Núñez acabou nem chegando a competir no rúgbi. Na época ainda uma equipe pouco vencedora no futebol (tinha na primeira divisão apenas o título de 1920), logo desandaria a ganhar troféus nele a partir daquela década – incluindo um já naquele ano -, esquecendo o rúgbi.
O Racing foi o único grande do futebol argentino que de fato jogou oficialmente com a bola oval, em 1911. Curiosamente, repetiu (ou tentou) o caminho da instituição parisiense que lhe inspirou o nome, o polidesportivo Racing Club de France, de tradição supercentenária nos dois esportes e em outros, apesar das recentes décadas sem títulos tanto no futebol (que já teve Enzo Francescoli e Rubén Paz, que depois jogaria – muito bem – no homônimo argentino) quanto no rúgbi (cuja equipe, a contar atualmente com Sébastien Chabal, é oficialmente chamada de Racing Métro 92).
Assim como o River ainda não era El Más Grande quando tentou algo no rúgbi, o time de Avellaneda ainda não era La Academia, que faturaria sete campeonatos argentinos de futebol seguidos (ainda um recorde no país) entre 1913 e 1919: foi afiliado e desafiliado há exatos cem anos da União, uma vez que foi expulso ainda no ano da estreia. O motivo foi uma confusão que seus jogadores promoveram em uma partida contra o Belgrano Athletic, em baderna compreendida como incompatível com o cavalheiro espírito rugbier.
Outro time de futebol a ter participação de apenas um ano no rúgbi foi o Quilmes. Fundado em 1887, é o mais antigo time de futebol profissional ainda em atividade na Argentina (e na América); o Gimnasia y Esgrima La Plata, criado no mesmo ano mas com alguns meses de antecedência, só viria a praticar futebol já no século XX, em situação similar à que ocorre no Brasil entre o Flamengo (fundado em 1895 como um clube de regatas) e o Rio Grande (surgido em 1900 já praticando futebol).
O Quilmes foi outro dos clubes criados na comunidade britânica, e por certo tempo foi restrito a ela. Isso inclusive motivou a criação de seu arquirrival, com os quilmenhos criollos fundando em 1899 um clube apropriadamente chamado Argentino de Quilmes (atualmente na quinta divisão, mas de grande competitividade nas duas primeiras décadas do século passado), exatamente o primeiro time de futebol no país a trajar-se com as cores da bandeira argentina e em listras horizontais alvicelestes, antes mesmo da seleção. O próprio Racing, que despontaria como o primeiro grande clube dos hispânicos, lhe pediu na época autorização para também poder vestir-se de forma parecida.
Abrindo-se apenas posteriormente aos latinos, o então Quilmes Athletic Club (Quilmes Atlético Club desde 1954) se filiou na União de Rúgbi em 1908. Ao contrário da maior parte das equipes "britânicas", que foram migrando para o rúgbi enquanto o futebol era abraçado pelos criollos, porém, os cerveceros continuaram com o balompié. No rúgbi, seu único registro é a participação na segunda divisão de 1909. Sabe-se apenas que o campeão ali foi o igualmente estreante Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires.
Em 1912, foi a vez de Atlanta e Estudiantes de La Plata se afiliarem na União. Os bohemios de Villa Crespo logo se retirariam, quando não conseguiram formar uma equipe para disputar a segunda divisão de 1913. Já os pincharratas, como o River e o Ferro, desligaram-se por conta do profissionalismo, sendo registrados pela última vez em ata da União em 1929. O arquirrival pincha, o Gimnasia y Esgrima platense, também teve de enfrentar situação parecida. Sua trajetória, porém, foi outra, justamente a de maior sucesso entre estes clubes.
Os triperos, de certa forma seguindo os passos do seu homônimo portenho (que, como também já mostrado no especial anterior, disputava os torneios de rúgbi já na primeira década do século passado), filiaram-se em 1924. Foi justamente diante de uma equipe secundária do Gimnasia de Buenos Aires que o GELP disputou seu primeiro jogo oficial de rúgbi, na terceira divisão de 1925, perdendo por 0 x 34.
O acesso à segunda divisão veio em 1929, exatamente no mesmo ano em que o Lobo conseguiu seu único título argentino de futebol na elite até hoje. Ganhando 27 dos 28 jogos, foi campeão também na terceirona do rúgbi. Três anos mais tarde, conseguiu novo acesso neste esporte, agora à primeira divisão. Outro ano depois, a União informou que o clube deveria ser desafiliado, por força das diretrizes antiprofissionais da International Rugby Board.
A subcomissão de rúgbi do Gimnasia La Plata, então, à semelhança do que faria a do Ferro Carril Oeste, formou um clube independente. Mas, ao contrário do time de Caballito, isto de fato se efetivou, após um breve período de transição em que o então Gimnasia y Esgrima La Plata Rugby Club contou com o apoio da instituição-mãe. Já em 1934, o novo clube adotaria o nome de La Plata Rugby Club. O uniforme gimnasista ainda seria usado por algum tempo, sendo trocado em 1939 pela vestimenta auriazul, utilizada até hoje.
O La Plata obteve apenas um título na URBA. Foi justamente em 1995, talvez o ano mais forte do esporte platense como um todo: o Estudiantes, de Verón e Palermo, faturou a Primera B Metropolitana, retornando à elite do futebol argentino já um ano depois de seu rebaixamento. E o belo time de Noce, Sanguinetti e dos gêmeos Barros Schelotto só não foi campeão da elite por um desastre – na última rodada, o líder Gimnasia perdeu no seu Bosque para um time misto do Independiente, vendo o troféu ir para o San Lorenzo (que estava dois pontos atrás e há mais de duas décadas em jejum), que venceu fora de casa o Rosario Central com um gol a treze minutos do fim. O La Plata tem também em sua galeria um torneio nacional de clubes, o de 2007.
Outros GyE passaram pelos dois esportes. O de Lanús, no futebol, venceu a terceira divisão de 1929, e esteve perto de novo acesso seguido, agora para a elite, na segundona de 1930: ficou em quarto, com os três primeiros (Temperley, All Boys e Nueva Chicago) empatados entre si na sua frente por dois pontos de diferença e com isso decidindo o campeonato em um triangular, a ser faturado pelo Chicago. A bola no pé acabou arrefecendo pouco depois neste Gimnasia, com o clube passando a dar prioridade ao basquete, o que o faz até hoje, sob o nome de Club Social Lanús. Ainda como Gimnasia y Esgrima de Lanús, filiou um time de rúgbi na União em 1956, mas sem maiores sucessos.
Já o de Rosario participou dos campeonatos rosarinos até 1922 (o campeonato argentino, apesar do nome, continuaria restrito à Grande Buenos Aires e La Plata até 1939), vencendo o de 1912 (quando o clube ainda chamava-se Argentino, sem ligação com o atual Argentino de Rosario) e inclusive fornecendo alguns jogadores à seleção: o goleiro Emilio Araya e o meia-direita Atilio Badalini foram os únicos que atuaram pela Albiceleste vindos dele. Este último o fez ainda aos 17 anos, sendo um dos mais jovens estreantes do selecionado, e marcou o gol da vitória em jogo de 1916 contra o Uruguai.
Outro, de sobrenome Faivre, chegou a ser convocado para o Sul-Americano de 1919, embora não tenha jogado. Badalini também esteve em um Sul-Americano (o de 1920), mas ali já como atleta do Newell's Old Boys – é o segundo maior artilheiro dos leprosos, com 112 gols. Já Araya, em uma de suas três partidas por ela, foi o capitão.
O GER implantou a bola oval em 1927 (tal fato é lembrado em seu distintivo) e, com ela, venceu três vezes o torneio da União de Rúgbi de Rosario e dois Torneios do Litoral (estes reúnem equipes das Uniões de Rosario, Santa Fe e Entre Ríos por um lugar no Torneio do Interior, classificatório para o Nacional de Clubes). O rúgbi é um dos diversos esportes praticados no Gimnasia rosarino, que ainda tem um departamento de futebol – mas para sêniors sócios, naturalmente amadores.
Se o profissionalismo restringiu a prática oficial de rúgbi em muitos clubes, o mesmo não se deu no pequeno Sportivo Barracas. Afinal, esta instituição permaneceu amadora após 1931, sendo inclusive a campeã argentina do torneio amador de 1932 (hoje, encontra-se na Primera C Metropolitana, equivalente à quarta divisão), no que foi a antepenúltima edição deste.
O motivo para o Sportivo ter se retirado do rúgbi dois anos depois, em 1934, foi na verdade similar ao do Racing. Assim diz a ata daquele ano da União do Rúgbi do Rio da Prata, onde estava afiliado desde 1927: "a comissão diretiva lamenta profundamente ter que levar ao conhecimento da Assembleia que se viu obrigada, em salvaguarda aos melhores interesses do jogo e da correção que tem sido tradicional dentro do mesmo, a expulsar de seu seio o Club Sportivo Barracas, como também a suspender pelo período de um ano os clubes Deportivo Central Argentino e San Fernando, por conduta contrária aos regramentos e espírito do jogo".
O mesmo San Fernando, por sinal, foi outro que viera do futebol, tendo se afiliado igualmente em 1932, como o Barracas, o Ferro e também o Porteño. Deixara a bola redonda com o rebaixamento na primeira divisão amadora, no ano anterior. Com ela, chegou a ser campeão da terceira divisão em 1918, chegando à primeira em 1922, e a fornecer quatro jogadores à seleção: o ponta-esquerda Benjamín Delgado (que, já pertencendo ao Boca Juniors, esteve no Sul-Americano de 1926), os volantes Jorge Alonso e G. Méndez e o lateral-direito L. Pérez. Hoje, está na segunda divisão e desde os anos 70 é vizinho do Buenos Aires FC, que se mudou para a cidade de San Fernando.
Atualmente, o time argentino mais expressivo a dedicar-se aos dois esportes é outro Gimnasia: o Gimnasia y Tiro, de Salta. Fundado em 1902 como Club Atlético Salteño, renomeou-se no ano seguinte indicando seus esportes originais: ginástica e tiro. Outro ano mais tarde, começaram ali as práticas de futebol. Campeão dezoito vezes do campeonato saltenho, teve seus momentos de maior expressão nacional na década de 90. Depois de figurar nos campeonatos nacionais de 1979 e 1981, o clube obteve dois títulos de acesso na Primera B Nacional, estando na elite argentina nas temporadas 1993-94 e 1997-98.
Hoje, está no Torneo Argentino A (equivalente à terceira divisão). Ainda é o único time de sua província a ter participado da primeira divisão argentina de futebol. No rúgbi, praticado desde 1942, por sua vez, sua força, mesmo regional, é menor. Participa do Torneio do Noroeste, que reúne times das províncias de Tucumán, Salta, Jujuy e Santiago del Estero e é um dos principais do interior argentino. Ali, ainda não obteve títulos, alcançados apenas do campeonato local de Salta.
O GyT, na realidade, é um dos clubes mais ricos da Argentina, mas as duas modalidades boleiras são deixadas em segundo plano em relação a outros esportes praticados nele. Além dele, outros pequenos clubes também praticam futebol e rúgbi: Atlético Ledesma de Jujuy (onde Ariel Ortega deu seus primeiros passos, antes de rumar ao River Plate), Universitario de Córdoba (onde Claudio López estava antes de passar à base do Racing, formou também Juan Carlos Heredia, depois ídolo no Barcelona e naturalizado pela seleção espanhola), Jorge Newbery de Laprida, Provincial de Rosario, Estudiantes de Paraná e Huracán de Tres Arroyos, o mais recente na elite futebolística – esteve na temporada 2004-05, quando o próprio Huracán principal, o portenho de Parque Patricios, encontrava-se na segunda divisão.
A equipe lapridense, por sua vez, leva o nome do pioneiro da aviação argentina, que curiosamente também foi um jogador de rugby: integrou com o irmão Eduardo o time da Faculdade de Engenharia (o primeiro formado por criollos na Argentina) que alcançou as semifinais de 1904, quinta edição do campeonato da União de Rúgbi do Rio da Prata.
A quem passou a se interessar por rúgbi por conta desta série e deseja conhecer mais este esporte, eis alguns sites em português: o Blog do Rugby, o Rugbier, o Blog Rugby Brasil, o blog do Rouget Maia na ESPN, o Falando sobre Rugby, o Mão de Mestre, o site do Martoni, diretor da Confederação Brasileira de Rúgbi e o da própria CBRu, o Rugby de Calcinha, o Rugby Futebol Clube, o Rugby Mania e o Rugby Spirit (de Fernando Portugal, atleta da Seleção Brasileira). Também merecem menção as páginas oficiais da URBA, da UAR e do Museu do Rúgbi Argentino, bem como a da Copa do Mundo.
Para encerrar, uma sucinta explicação de como funciona o rúgbi argentino, com informações repassadas a nós por Victor Ramalho, editor do Blog do Rugby. Nacionalmente, é administrado pela União Argentina de Rúgbi, a UAR. Historicamente não muito integrado, o rúgbi argentino viveu exclusivamente de torneios provinciais e regionais até 1993, ano do primeiro torneio nacional de clubes. Mesmo após o advento dele, a competição mais valorizada ainda é a da União de Rúgbi de Buenos Aires, conforme já dito neste e nos especiais anteriores.
A primeira divisão (há quatro) da URBA contém 24 times, divididos em dois grupos de doze, cujos sete primeiros em cada nas disputas do primeiro semestre disputam a taça no chamado Top 14 (oficialmente, Copa Volkswagen), no segundo. Os cinco últimos de cada chave jogam no segundo semestre o Reubicación, torneio que envolve também os seis melhores da segunda divisão (também com 24 clubes) por dez lugares na elite do ano seguinte.
A URBA fornece ainda metade dos competidores do nacional (desde 2009, seus finalistas; até então, os semifinalistas). Vale informar que a mais recente final dela ocorreu em 5 de novembro, com o SIC somando o seu 25º título (o segundo seguido) no campeonato ao derrotar o Alumni por 14 a 11, na cancha do La Plata, em jogo onde precisou-se de prorrogação. As duas equipes foram tratadas nesta série de especiais.
A outra metade do certame nacional é composta pelos finalistas (até 2008, também os semifinalistas) do Torneio do Interior, que por sua vez é travado pelos melhores times dos torneios do Oeste (províncias de San Juan e Mendoza), Pampeano (com times do sul da província de Buenos Aires, abrangendo as cidades de Bahía Blanca e Mar del Plata), os já mencionados do Litoral e do Noroeste e o de Córdoba.
A final interiorana também ocorreu no dia 5, vencida por 37 a 27 pelo cordobês La Tablada sobre o rosarino Duendes (que jogou em casa). O torneio nacional ocorre no final do ano, normalmente ainda em novembro. O vencedor de um enfrenta o vice do outro; neste ano, a final será a mesma da do interior: La Tablada e Duendes medirão neste sábado, dia 26, novamente suas forças, após vencerem respectivamente Alumni (25 a 12) e SIC (30 a 20).
As uniões regionais, além de campeonatos, também possuem suas próprias seleções, à semelhança do que chegou a ocorrer no futebol brasileiro, que já teve um campeonato de seleções estaduais. Os selecionados provinciais (que na Argentina também já existiram no futebol) totalizam 26 e disputam entre si um campeonato realizado anualmente até abril. A primeira divisão dele em 2012 terá Córdoba (campeã deste 2011), Buenos Aires, Tucumán, Rosario, Cuyo, Mar del Plata, Salta e San Juan, que entrará no lugar da rebaixada Santa Fe.
As seleções regionais também realizam campeonato de Rugby Sevens (como o nome diz, modalidade mais enxuta, com sete jogadores o invés de quinze; sete são também os minutos de duração de cada tempo nele), cujo torneio principal se dá ao fim do ano entre elas e equipes convidadas – as do Uruguai e Brasil costumam participar. O sevens, por sinal, é o rúgbi aceito nos torneios olímpicos; no Pan de Guadalajara, neste ano, os argentinos ficaram com a prata. Nas Olimpíadas, o rúgbi, nesta forma reduzida, voltará em 2016, nos Jogos do Rio; o rúgbi original foi disputado entre 1900 e 1928.
A seleção principal fez seu primeiro jogo em 1910, contra os British and Irish Lions. Embora historicamente dominante na América do Sul, só começou a ter maior reconhecimento externo após excursão em 1965 pela Rodésia (atual Zimbábue) e África do Sul. Foi ali que recebeu a alcunha de Pumas, assumida pelos próprios argentinos mesmo tratando-se de um equívoco – o felino do distintivo, que originou o apelido, é na verdade um jaguar; a seleção B, por sua vez, é conhecida justamente como Los Jaguares.
Tal respeito fez a Argentina ser um dos países convidados para a primeira Copa do Mundo, em 1987 (onde foi eliminada em último lugar em seu grupo na fase inicial), que não teve eliminatórias. Sempre marcou presença nos mundiais seguintes, embora tenha caído ainda na primeira fase também nos de 1991, 1995 e 2003.
Em 1999, avançou pela primeira vez às quartas-de-final. Sua melhor campanha deu-se em 2007, ao conseguir o bronze em uma trajetória onde bateu duas vezes a anfitriã, a forte França – na estreia (17 a 12) e na partida pelo terceiro lugar (34 a 10). Terminou a primeira fase pela primeira vez como líder, em um grupo que continha ainda a tradicional Irlanda. Nas quartas, venceu a Escócia, caindo nas semifinais contra a futura campeã África do Sul.
Em anos sem Copas, a Argentina costuma realizar, em junho, três jogos anuais, com pelo menos um deles em Buenos Aires. A partir de 2012, a carga aumentará, com a inclusão puma no Torneio Quatro Nações (oficialmente, Rugby Championship ), conforme também já mencionado anteriormente nesta série. Nele, enfrentará exatamente os maiores vencedores mundiais, as bicampeãs África do Sul, Austrália e Nova Zelândia, no evento que reunirá as mais fortes seleções do hemisfério sul.
A busca por voos mais altos deve-se ao fato de que, na América do Sul, o domínio argentino ser descomunal. O único Sul-Americano que não venceu, o de 1981, foi justamente o que não contou com a participação dos alvicelestes, que levantaram simplesmente as demais 32 edições. Tal torneio de 1981 ocorreu em meio às três semanas em que a Inglaterra visitou, pela primeira vez, a Argentina, para alguns test matches contra ela e amistosos contra clubes e combinados locais, daí a ausência puma na edição que seria vencida pelo Uruguai.
Se a profissionalização, admitida no rúgbi desde 1995, ainda não foi muito aceita na Argentina, suas seleções de base já passam por ela. Em associação com o Ministério dos Esportes, a UAR organiza o chamado PladAR, programa para alto rendimento que consiste em um bolsa-atleta para um seleto grupo de jogadores, que, sob o nome de Pampas XV, disputa anualmente a Vodacom Cup.
Trata-se do segundo torneio sul-africano doméstico mais importante, vencido pelos argentinos em 2011 e fazendo com que alguns Pampas fossem aproveitados na Copa do Mundo, meses mais tarde: Agustín Creevy, Genaro Fessia, Mariano Galarza, Leonardo Senatore, Nicolás Sánchez, Maximiliano Bustos, Julio Farías Cabello (autor do try argentino contra os All Blacks, nas quartas-de-final) e Juan José Imhoff – filho de José Luis Imhoff, um dos integrantes daquela histórica excursão de 1965.
Nota de edição
Este especial reúne as dez partes da série Futebol e Rugby, publicadas em 2011, em um texto único. O conteúdo de cada parte foi preservado na íntegra; foram retiradas apenas as chamadas para os capítulos seguintes.