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Elementos em comum entre Estudiantes e Flamengo

As cores vermelha, preto e branca. As origens como dissidências dos clássicos rivais. Uma sala de troféus com bom número de Libertadores. Um Mundial Interclubes sobre os maiores campeões ingleses. Eis, de cara, as principais semelhanças entre Flamengo e Estudiantes, duelo que estreia na Libertadores após ter criado certa tradição na extinta Supercopa.

O Flamengo existe desde 1895, mas seu departamento de futebol foi criado a partir de jogadores que deixaram o rival Fluminense – rixa que já existia 40 minutos “antes do nada”, como dizia Nelson Rodrigues, pois atletas rubro-negros das regatas competiam com os futebolistas tricolores pela atenção das damas cariocas na primeira década do século XX.

Se ex-tricolores vieram para o Flamengo para criar seu futebol, em La Plata a história foi similar. Detalhamos aqui: como o nome diz, o Gimnasia y Esgrima fora criado em 1887 para dedicar-se à ginástica e à esgrima. Embora se proclame como decano do futebol argentino, foi somente em 1905 que o Lobo inaugurou um departamento nesse esporte. Que durou a princípio somente para aquela temporada.

Gimnasistas descontentes com a deliberação da diretoria em encerrar o futebol mantiveram aceso o entusiasmo por ele criando naquele mesmo 1905 o Estudiantes; somente dez anos depois é que a diretoria alviazul tratou de retomar uma equipe de futebol, que não tardou a virar carro-chefe na instituição do Bosque.

As cores de Estudiantes e Flamengo são as mesmas, mas têm origens diferentes. Vermelho e preto desbotavam menos na água do que o azul e amarelo, cores flamenguistas originais, e passaram a vestir ainda em 1896 seus remadores. Já o Estudiantes se inspirou no uniforme do bicho-papão do campeonato argentino nos anos 1900, o Alumni, que efetivamente usava camisa com listras verticais alvirrubras acompanhadas de calções e meias pretas.

A primeira visita do Estudiantes ao Maracanã. Insúa é o penúltimo agachado. O último em pé havia vencido a Copa de 1986: Marcelo Trobbiani

Se desde o início o Flamengo se mostrou uma potência no futebol, conseguindo já no segundo ano de atividades nesse esporte (1914) um primeiro título estadual, o Estudiantes demorou mais para estabelecer grandeza para além do seu município. Até foi campeão argentino em 1913, mas por décadas esse também foi a única taça do Pincha. O primeiro ano em que os dois clubes foram campeões juntos demonstra bem: em 1954, a volta olímpica de um no carioca coincidiu com o título de outro na segunda divisão argentina.

A Gávea não viveu o melhor dos momentos na metade final dos anos 60, justamente a era de ouro dos platenses: que em 1967 ergueram seu segundo título argentino – o primeiro que, desde 1930, escapava dos chamados “cinco grandes” (Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo). Embora tradicional na liga argentina, o porte do clube em taças e torcida pelo país adentro não se comparava ao do quinteto. Mas soube como poucos capitalizar sua melhor geração e os meandros do regulamento de uma Libertadores ainda enxuta: venceu seguidamente La Copa em 1968, 1969 e 1970, chegando a ser o maior vencedor do torneio. Nesse período, prevaleceu sobre o Manchester United no Mundial de 1968.

A história copeira do Estudiantes foi por um bom tempo equiparável à do Nottingham Forest, clube de um único título inglês, mas bicampeão europeu no fim dos anos 70. É que, tão logo aquele elenco de 1967-70 envelheceu, a realidade histórica de time médio voltou com força, inclusive envolvendo briga contra o rebaixamento já em 1971. Foi preciso aguardar até 1982 por uma nova taça no campeonato argentino. Assim como Zico e colegas, os pincharratas até puderam ser bicampeões seguidos: emendaram o Metropolitano 1982 com o Torneio Nacional 1983. Poderiam ter se encontrado nas semifinais da Libertadores 1983, mas o Grêmio prevaleceu sobre os cariocas para então viver a “batalha de La Plata”.

Em 1988, a Conmebol então criou a Supercopa, torneio que reunia somente os campeões da Libertadores. A primeira edição, iniciada já em mata-matas, reservou de cara um Flamengo x Estudiantes como estreia de ambos. Os argentinos usaram o estádio do Vélez para a partida de ida, que ficou no 1-1.

Outro registro das improvisadas meias alvinegras no Maracanã, em 1994

No Maracanã, o 3-0 do timaço recém-vencedor da Copa União foi enganoso diante da possibilidade de placar até maior. Renato Gaúcho fez um dos gols, um dos últimos antes de sua venda à Roma. Fica a curiosidade que os platenses escalaram Rubén Darío Insúa, craque que tinha sua contratação pelo Flamengo bem prospectada na época; o negócio não foi para frente exatamente pela preferência rubro-negra em repatriar imediatamente Renato após a única e inglória temporada deste na Itália.

Os dois times se reencontram na Supercopa em 1991, também no primeiro mata-mata. O Flamengo preferiu mandar o jogo em Brasília mesmo, onde os visitantes souberam arrancar um 1-1. Na Argentina, porém, os brasileiros souberam se impor no estádio do Huracán, avançando por 2-0, em 9 de outubro, com a classe do veterano Júnior rendendo aplausos da própria torcida alvirrubra quando o “maestro” foi substituído. Autor de um dos gols, o saudoso Gaúcho se redimia em Buenos Aires após a melancólica passagem-relâmpago pelo Boca meses antes. A curiosidade triste foi a perda precoce do mais carioca dos argentinos: o ídolo Narciso Doval estava “por acaso” na capital argentina e permitiu-se comemorar a classificação com a delegação flamenguista para, três dias depois, seu coração parar de bater.

Um ano depois, nova classificação rubro-negra, já pelo segundo mata-mata. No estádio do Bangu mesmo, Gaúcho reapareceu, como autor do único gol no duelo no Rio de Janeiro. O 1-0 vinha sendo devolvido em La Plata na revanche, mas os brasileiros conseguiram o 1-1 para avançar às semifinais.

Em 1994, então, o duelo se reeditou sob contextos esdrúxulos – por diferentes motivos. A franca decadência do Estudiantes chegava ao fundo do poço, com o clube sendo rebaixado em agosto (quando terminou a temporada 1993-94), propiciando um início periclitante de carreira aos pratas-da-casa Verón e Palermo. Mas, como campeão de Libertadores, a equipe de La Plata seguiu tendo vaga cativa na Supercopa. E foi já como time de segunda divisão que encarou já na primeira quinzena de setembro o Flamengo. A pindaíba institucional era tanta que os platenses precisaram improvisar nas meias, usando cores alvinegras mesmo: por lapso dos roupeiros ou da companhia aérea, as peças originais não chegaram e a delegação arranjou às pressas em alguma loja esportiva no Rio a reposição que se fez possível.

Paulinho de Almeida é o primeiro agachado no Estudiantes de 1961

Nessas condições, o 0-0 no Maracanã em 13 de setembro saiu até honroso. Cinco dias depois, o Estudiantes iniciava sua jornada na segunda divisão argentina de 1994-95, vencendo por 2-1 o Deportivo Laferrere. Em 27 de setembro, então, conseguiram sua única vitória, um valoroso 2-0 no estádio alvirrubro das esquinas 57 e 1. O Pincha cairia no mata-mata seguinte, mas a inesperada classificação foi combustível para vencer com sobras a segundona, garantindo título e acesso com rodadas e rodadas de antecedência.

A Primera B de 1995 foi o primeiro título de Verón, que dali decolou para voos maiores na carreira. Sem a joia, seu clube do coração se contentava com o meio de tabela e via no Gimnasia o time de La Plata que mais lutava por taças. Até que veio o ano de 2006, apenas o quarto com títulos em comum para Flamengo e Estudiantes. Os rubronegros encerravam seu jejum na Copa do Brasil (desde 1990) e os alvirrubros, repatriando Verón, encerravam em alto estilo sua seca na liga argentina (desde 1983), em torneio marcado por reviravoltas e definido até com vitória de virada. Nunca mais a cidade foi a mesma: o Gimnasia, que tinha uma vitória a mais no clássico, levou de 7-0 e desde então só derrotou por duas vezes o rival (em 2010 e em 2023).

O terceiro ano de títulos em comum foi o de 2009, novamente com jejuns encerrados: Verón e colegas conquistavam a Libertadores (encerrando 39 anos de espera) enquanto o Brasileirão, depois de dezessete anos, voltava à Gávea – cuja vitrine também recebeu o troféu estadual. Por fim, em 2024 o Estudiantes comemorou duas taças: a Copa da Liga e o Troféu de Campeões (mata-mata entre o vencedor da Copa da Liga e o campeão argentino). O Flamengo, por sua vez, venceu o estadual e a Copa do Brasil; ela, por sinal, foi sobre um clube amigo dos platenses, o Atlético.

E quem, afinal, esteve nos dois? Alguns dos nomes mais valorosos da história rubro-negra, embora nenhum deles costume ser lembrado em La Plata.

A qualidade das imagens é sintomática: lembram do Colace?

Paulinho de Almeida: não deve ser confundido com o xará consagrado no Internacional e no Vasco e participante da Copa do Mundo de 1954 – e branco e jogador da defesa, enquanto esse Paulinho, também com passagem pela seleção (com direito a gol em Wembley em derrota de 4-2 para a Inglaterra em 1956), era mulato e do ataque. Como flamenguista, Paulinho foi o autor do gol do título carioca de 1954 e artilheiro do de 1955, em meio ao tricampeonato amealhado desde 1953 na Gávea. Em 1959, o River o adquiriu junto ao Palmeiras. Chegou a marcar em Superclásico, mas não vingou em Núñez e terminou repassado em 1961 ao Estudiantes. Primeiro brasileiro do clube de La Plata, durou somente aquela temporada, com três golzinhos em 17 partidas: duas vezes em 3-0 no modesto Los Andes e outro em derrota de 3-1 para o Ferro Carril Oeste.

Armando Renganeschi: adquirido em 1933 do futebol tucumano pelo Independiente, Renga teve no Rojo o clube argentino com o qual mais se identificou; foram quatro temporadas como volante em Avellaneda e uma passagem como técnico em parte da campanha campeã de 1963. Esteve no Estudiantes ainda como jogador, em 1938, mas limitado a cinco joguinhos. Já era jogador de segunda divisão quando foi prospectado pelo futebol carioca, inicialmente pelo Bonsucesso. Acabou se fincando entre Rio e São Paulo, campeão por Fluminense e São Paulo como atleta nos anos 40; e colhendo diversos títulos de acesso como treinador no interior paulista nos anos 50. Foi na nova função que ele esteve à frente do Flamengo, entre 1965 e 1967. Ergueu o estadual de 1965, muito especial na época pelas comemorações dos 400 anos do Rio de Janeiro.

Hugo Colace: com passagens pelas seleções de base, esse meia-armador era promessa no Argentinos Jrs quando foi adquirido em 2005 pelo Newell’s. Sem se consolidar no futebol adulto, foi emprestado pelos rosarinos duas vezes em 2007: primeiramente, no Estudiantes, onde não se firmou no elenco recém-campeão argentino; foram só 96 minutos em campo ao longo de cinco jogos. Apadrinhado pelo xodó flamenguista Mancuso, apareceu na Gávea no segundo semestre. Foram os meses marcantes em que um time que vinha brigando para não cair engrenou, embalado pela torcida, até um inesperado terceiro lugar. Colace, contudo, acabou queimado por uma expulsão no clássico com o Vasco não teve minutagem muito maior.

Agustín Rossi: o atual paredão rubro-negro é o nome mais famoso dessa lista e, com isso, sua estadia no Rio dispensa comentários. Curiosamente, foi de todos os nomes dessa lista o mais obscuro no Estudiantes: foram só três joguinhos em 2015, como reserva do experiente Hilario Navarro, último homem a defender o trio Racing, Independiente (onde é lembrado como herói pela Sul-Americana 2010) e San Lorenzo. Foi como pincharrata que Rossi ao menos serviu a Argentina sub-20 campeã sul-americana da categoria.

O goleiro Rossi com o já presidente Verón no Estudiantes de 2015: é o alaranjado da direita

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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