Dezenas de famílias já passaram pela Seleção Argentina. Irmãos, pais e filhos, tios e sobrinhos, primos e até uma dinastia de cinco irmãos que sustentou a Albiceleste em seus primeiros anos. Este especial reúne todas elas, dos pioneiros Brown, no início do século XX, aos casos mais recentes.
Os Brown: cinco irmãos e um primo nos primórdios da seleção
Apropriado que os primeiros sejam os pioneiros, que também são, ainda hoje, os mais expressivos, em quantidade e importância: os da família Brown.
As origens dos Brown estão na primeira leva de imigrantes escoceses que aportaram na Argentina, cerca de duzentos que chegaram ao país em 1825, entre os quais um certo James Brown. Do casamento de um dos filhos que ele teria na nova terra, Diego, com Elisa Gibson, nasceram nada menos que catorze crianças, sendo onze meninos e três moças.
Sete dos garotos jogaram futebol, embora cinco tenham sido os que entraram para a história, multicampeões no Alumni, a mais importante equipe no país na primeira década do século passado, e pilares dos primórdios da Albiceleste. Tomás e Diego Hope Brown foram as exceções entre seus pares, tendo jogado mais pela equipe B do Alumni, em jogos da segunda divisão, e sem ter chegado a defender a seleção.
Jorge Gibson Brown, o Patriarca
Jorge Gibson Brown foi o mais velho deste clube dos cinco, nascido em 3 de abril de 1880, na cidade bonaerense de Jeppener, e também o mais emblemático, verdadeiro primeiro símbolo da seleção, ficando conhecido inclusive como El Patriarco.
Respeitado pelo senso de colocação, velocidade e cavalheirismo em campo, começou a participar dos campeonatos argentinos na edição de 1897. Não pelo Alumni, que não competiu ali, e sim no Lanús Athletic, sem ligação com o atual Lanús, onde o jovem inside forward jogou 24 vezes e marcou 11 gols, até 1899.
Em 1900, passou a atuar no então English High School Athletic Club, o time escolar que se renomearia Alumni no ano seguinte. Ficaria na equipe até a dissolução dela, em 1911, participando ativamente dos dez títulos que o clube obteve no campeonato argentino. À medida que os anos passavam, ele, que chegou a ser artilheiro dos campeonatos de 1902 e 1903, passou a jogar mais recuado. No fim da carreira, já era um full back.
Esteve entre os ex-jogadores do Alumni que, após a saída de cena do clube, passaram ao Quilmes. Contudo, não atuou na campanha do título cervecero de 1912. Parou de jogar ali, em 1914. Dois anos depois, certos adolescentes da cidade de Posadas, na província de Misiones, fundaram o Club Social y Deportivo Jorge Gibson Brown.
Na seleção, Jorge Brown foi o recordista de presença até 1910, totalizando 23 partidas, 17 delas como capitão, entre 1902, a partir do jogo que muitos consideram como o primeiro da Argentina, e 1913, marcando quatro gols. À exceção de uma partida contra o Chile, em 1910, todas as demais foram diante do Uruguai. Ele, que passara a dedicar-se ao críquete, faleceu em 3 de janeiro de 1936, em San Isidro.
Carlos Carr Brown, o mais obscuro
Carlos Carr Brown, dois anos mais novo e também nascido em Jeppener, é, entre os cinco irmãos, o mais obscuro. Não pela falta de qualidade: quando foi estudar na Escócia, em 1905, este zagueiro chegou a receber ofertas para tornar-se jogador profissional. O futebol argentino se manteria na essência amador até, oficialmente, 1931. Sua ida à terra das raízes abreviou sua carreira e o deixou mais esquecido nos registros históricos.
O ano de 1905 acabou sendo justamente o único em que todos os irmãos estiveram juntos no Alumni. Na seleção, o máximo que houve foram três irmãos juntos: uma delas se deu em 1903, com ele, estreante, Jorge e Ernesto. Ali, a Argentina contou ainda com os gêmeos Eugenio e Juan José Moore, também jogadores do Alumni, no que foi até hoje sua partida mais familiar. Chegaram a haver quatro Brown em campo em partidas futuras da seleção, mas na reunião de três dos irmãos com o primo Juan.
Carlos Brown esteve também no jogo seguinte da Argentina, que só veio a ocorrer em 1905. Suas duas partidas foram contra o Uruguai, ambas em Buenos Aires, com os rivais arrancando uma vitória na primeira e um empate na segunda. Entre a falta de mais detalhes de vida dele está o fato de ter sido o único dos cinco irmãos sem ligação comprovada com a maçonaria.
Carlos também foi o único deles a não ter vencido nem marcado gols pela seleção, além de não ter defendido propriamente a Albiceleste, já que a Argentina só adotaria as listras alvicelestes em 1908. E foi o primeiro destes a falecer, em 26 de agosto de 1926, em Buenos Aires.
Ernesto Alejandro Brown, o maior campeão argentino
Ernesto Alejandro Brown foi o filho do meio entre os cinco, nascendo em 7 de janeiro de 1885, em Buenos Aires. Ficaria conhecido como El Frío e El Pacífico pelo comportamento sereno e tranquilo, por vezes parecendo indiferente, em campo.
Entre as linhas, era um jogador versátil no ataque, chegando a passar também pela seleção como left half, centre half e centre forward, e dono de um forte arremate, sendo natural executor de tiros livres.
A exemplo de Jorge, esteve presente nos dez títulos do Alumni entre 1900 e 1911, possuindo apenas quinze anos no primeiro. Estreou na seleção com dezessete, em 1902, junto com Jorge e ainda antes de Carlos, três anos mais velho, por insistência do colega Carlos Buchanan, mas só passaria a atuar regularmente a partir de 1908, marcando seu único gol pela Argentina exatamente nessa reestreia.
Somou pela Argentina catorze aparições, as duas últimas em 1912. Nestas, já como jogador do Quilmes, onde somou naquele ano seu décimo primeiro título argentino particular. Nenhum outro jogador foi tão vezes campeão argentino quanto ele, já que o irmão Jorge não participou da campanha de 1912. Quem mais chegou perto foi Leonardo Astrada, decacampeão no River Plate, a maior parte na época de dois campeonatos anuais. Ainda nos tempos de um torneio por ano, o mítico Ángel Labruna, também pelo River, alcançou nove troféus.
Ernesto Brown, que também praticava remo, golfe e críquete, faleceu em 12 de julho de 1935, em Buenos Aires.
Alfredo Carrow Brown, o goleiro improvisado
Alfredo Carrow Brown, nascido em 1º de dezembro de 1886, em Jeppener, se notabilizou por ter feito o gol da vitória daquele que é tido como o primeiro grande triunfo internacional do futebol argentino, em jogo do Alumni contra a seleção do Cabo, a principal das colônias britânicas que formariam em 1910 a África do Sul.
Esta excursionou pela Argentina em 1906 e alguns de seus integrantes permaneceriam no país, sendo que dois deles também viriam a jogar pelo selecionado dos sul-americanos: Hector Henman, que passara a defender o próprio Alumni, e Charles Whaley, que entrara no rival Belgrano Athletic.
Oportunista atacante do flanco direito, Alfredo Brown, como Jorge, foi outro a se sagrar artilheiro do campeonato argentino, em 1904, logo no ano em que, ainda com 17 anos, firmou-se no Alumni.
Na seleção, estreou em 1906 e por ela jogou até 1911, uma delas como goleiro: José Buruca Laforia, com quem jogava também no Alumni, lesionara-se em partida contra o Uruguai em agosto de 1907 e Alfredo ocupou os arcos no segundo tempo, sofrendo um gol. Os argentinos, ainda assim, terminaram vencendo.
Ao todo, realizou nove partidas, quatro como capitão, marcando quatro vezes. Todas elas foram contra o Uruguai, onde ele faleceria em 30 de agosto de 1958, na capital Montevidéu.
Eliseo Brown, o Cortapasto
Eliseo Brown foi o mais novo dos cinco: nasceu em 29 de outubro de 1888, em Buenos Aires. Enquanto Alfredo ocupava o flanco direito, Eliseo jogava no esquerdo, no ataque. El Cortapasto ficou assim conhecido por seus chutes, rasantes e potentes.
Ele chegou a jogar também como centre forward, sagrando-se, como os irmãos Jorge e Alfredo, artilheiro do campeonato argentino. No caso de Eliseo, isso se deu seguidamente entre os torneios de 1906 e 1909. Nestes, o Alumni só não foi campeão em 1908.
Apenas dois jogadores foram goleadores máximos em mais torneios: Domingo Tarascone, quatro vezes pelo Boca Juniors e outra no General San Martín, esta no desvalorizado campeonato amador de 1934. O outro foi um jovem do Argentinos Juniors chamado Maradona, cinco vezes pelo time de La Paternal. Eliseo Brown foi ainda igualado por outros ilustres goleadores do futebol argentino: Alberto Ohaco, no Racing, José Sanfilippo, no San Lorenzo, e Luis Artime, duas pelo River Plate e outras duas no Independiente.
Na seleção, em que estreou pouco antes dos dezoito anos, Eliseo jogou nove vezes e marcou seis, todas contra o Uruguai, entre 1906 e 1911. O mais jovem dos irmãos Brown foi justamente o mais longevo, embora ironicamente seja a data de morte dele a desconhecida. Ele, que chegou a lutar nas tropas britânicas na Primeira Guerra Mundial, foi fotografado para uma reportagem da El Gráfico na década de 1970.
Juan Dodds Brown, o primo recordista
Juan Dodds Brown, primo destes irmãos, foi outro representante da família no Alumni e na seleção. Sua carreira traz semelhanças principalmente com a de Jorge, com quem formou justamente a primeira célebre pareja do futebol argentino: começou como centre forward e terminou como defensor, e passou ao Quilmes após o Alumni deixar o futebol. Encerrou a carreira após o rebaixamento dos cerveceros, em 1916, ano em que também se despediu da seleção.
Como Eliseo, El Cachorro também nasceu em 1888 e estreou pela Argentina em 1906. Foi o Brown que mais jogou pela Albiceleste, com 35 partidas, detendo justamente o recorde de aparições pela seleção até 1923. Ainda detém a marca de quem mais enfrentou o Uruguai, com 32 jogos, 19 deles consecutivos, outro recorde.
Além dos uruguaios, jogou ainda duas partidas contra o Chile e foi o único daqueles Brown que chegou a enfrentar o Brasil, em partida pelo Sul-Americano de 1916. Foi também o único entre eles a disputar o torneio, atual Copa América, cuja edição de 1916 foi a primeira. Seus dois gols pela Argentina vieram exatamente nela, ao acertar dois pênaltis contra os chilenos. Foi o primeiro na seleção a converter duas penalidades máximas.
Juan Brown, doze vezes capitão da Albiceleste, ainda é o recordista de partidas pelo selecionado como jogador do Quilmes, com dezesseis. Ele faleceu em 1931, na cidade de Mármol. Como pelo menos quatro dos cinco irmãos acima, também era maçom.
José Luis Brown, o parentesco que não se confirmou
A imprensa escocesa relembrou tal família em 2008, às vésperas da partida entre Argentina e Escócia que marcou a estreia de Maradona como técnico da Albiceleste. Houve quem afirmasse que o zagueiro José Luis Brown fosse outro descendente de James Brown.
De técnica limitada, mas raçudo, passou pelos grandes Boca Juniors e Racing, mas o clube com o qual mais se identificou foi aquele pelo qual torce e iniciou a carreira, o Estudiantes de La Plata, cujo uniforme, por sinal, foi inspirado no do Alumni. Pelos pincharratas, foi bicampeão argentino em 1982 e 1983, melhor momento do time entre o elenco tricampeão da Libertadores nos anos 1960 e o renascimento proporcionado por Verón a partir de 2006.
Já na seleção, o zagueiro tornou-se herói ao abrir o placar na final da Copa do Mundo de 1986, justamente seu único gol pela Argentina, decisão em que chegou a atuar com um polegar quebrado.
Apesar dos referidos relatos da mídia britânica, o livro Quién es Quién en la Selección Argentina, que fala da trajetória de todos os que passaram por ela entre 1902 e 2010, refutou expressamente, no texto destinado a El Tata, qualquer parentesco com os Brown acima. De fato, há fontes que afirmam que os antepassados que lhe transmitiram o sobrenome eram irlandeses, e não escoceses.
Os Solari: a família mais completa da Albiceleste
Diferentemente dos Brown, estes já não deixaram marcas tão profundas na Albiceleste. Por outro lado, compõem a família mais completa que já passou por ela, com relações entre irmãos, pai e filho, e tio e sobrinho.
Por questão cronológica, vale mencionar que nos anos 1920 a seleção tivera Emilio Solari, integrante do primeiro título da Argentina na Copa América, em 1921, e da partida recordada pelo primeiro gol olímpico, em 1924. Com carreira em pequenos clubes portenhos, Nueva Chicago, Dock Sud, Sportivo Barracas, desconhece-se, porém, algum parentesco dele com os xarás ilustres abaixo.
Jorge Raúl Solari, El Indio
Jorge Raúl Solari, o mais velho da dinastia, nascido em 10 de novembro de 1941, em Rosário, foi naturalmente o primeiro a defender a Argentina, o que fez em dez jogos entre 1966 e 1968, época em que defendia o River Plate.
Os millonarios estavam em uma seca de títulos desde 1957 e aquela década ficou marcada por dolorosos vice-campeonatos. El Indio debutou na seleção exatamente no ano em que o time perdeu uma finalíssima de Libertadores que tinha em mãos. Solari foi inclusive autor de um dos gols dessa partida, famosa por ter originado o pejorativo apelido de gallinas para os riverplatenses, cujo jejum só acabaria em 1975.
Ele foi convocado por Juan Carlos Lorenzo para a Copa do Mundo de 1966 mesmo sem jamais ter defendido a Argentina até então. Nas eliminatórias, as quais não jogou, o treinador fora José María Minella. Oficialmente, estreou exatamente no último amistoso que o país fez antes do torneio, em derrota por 3 a 0 para a Itália, em Turim, em 22 de junho. Embora, na realidade, houvesse jogado em 25 de maio, ainda no Monumental de Núñez, entrando no decorrer de um 1 a 0 em amistoso não oficial contra a Fiorentina, e vencendo no mesmo gramado também o Cagliari ainda em 1º de junho. Integrou o meio de campo titular no mundial, disputando as quatro partidas dos argentinos.
Após a Copa, jogou oficialmente outras cinco vezes, todas amistosas, duas delas contra o Brasil, derrotas de 4 a 1 no Rio de Janeiro e 3 a 2 em Belo Horizonte, respectivamente em 7 e 11 de agosto de 1968. Ao todo, só experimentou a vitória em duas ocasiões, nas partidas contra Espanha e Suíça na Copa, com quatro empates e quatro derrotas.
Tornou-se um técnico de relativo sucesso, embora com o tempo o Indio Solari com mais fama na Argentina viesse a ser o ex-vocalista de um dos grupos de rock mais populares do país, Los Redondos, como é mais comumente referida a banda de nome interminável Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota.
Como outras curiosidades, além do parentesco com os dois a seguir, Jorge também tem laços familiares com Fernando Redondo, seu genro. Ambos estiveram na Copa do Mundo de 1994: Redondo pela Albiceleste e Solari como treinador da estreante Arábia Saudita. Passara a treinar os asiáticos por indicação do próprio presidente argentino, Carlos Menem, que tem origens árabes, em resposta a pedido do próprio Rei Fahd.
Eduardo Miguel Solari
Eduardo Miguel Solari, irmão nove anos mais novo de Jorge, nascido em 12 de outubro de 1950, também em Rosário, também foi meia. Integrou os bons times montados pelo Rosario Central nos anos 1970, participando do título nacional de 1973 dos canallas, que no ano seguinte foram ainda vice tanto no nacional quanto no metropolitano.
Em contraste com o irmão, que por sinal surgira justamente no arquirrival Newell’s Old Boys, foi vitorioso na carreira nos clubes e obscuro na seleção: oficialmente, jogou apenas uma partida, em 1975, e vindo do banco de reservas de César Menotti. Mas, tal como Jorge, Eduardo já havia entrado antes pela Albiceleste. Três anos antes da estreia oficial, figurou em 3 a 0 sobre a seleção provincial de Tucumán, em 18 de outubro de 1972, no estádio do Atlético local.
Já aquela partida de 18 de julho de 1975 acabaria lembrada por marcar a quebra de um jejum de quase vinte anos sem triunfos da Argentina sobre o Uruguai dentro do Estádio Centenário, em um 3 a 2 válido pela Copa Newton, o equivalente entre as duas seleções à Copa Roca que os argentinos travavam contra o Brasil. Outro a ter estreado naquele dia foi Jorge Valdano.
Após parar de jogar, Eduardo integrou comissões técnicas, incluindo a formada pelo irmão na delegação saudita de 1994. Ambos participaram da fundação do Club Renato Cesarini, equipe rosarina dedicada a revelar novos talentos. Em um dos clubes que treinou, Eduardo curiosamente enfrentou a própria Seleção Argentina, e foi a de 1986, com quem arrancou um histórico 0 a 0 para o Junior de Barranquilla em um dos últimos testes pré-Copa realizados pela Albiceleste.
Santiago Solari, El Indiecito
Santiago Hernán Solari Poggio, nascido em 7 de outubro de 1976 em Rosário, é filho de Eduardo. Mas, no futebol, ficou mais associado a Jorge, ficando conhecido justamente como El Indiecito. Exatamente como ele, despontou nacionalmente no mesmo River Plate, após passar pelas inferiores do Renato Cesarini e, também como o tio, do Newell’s, integrando o meio de campo titular do elenco que ganhou praticamente tudo entre 1996 e 1997.
Chegou a haver cogitação de que fosse para a Copa do Mundo de 1998, mas ele só foi ter sua primeira chance na seleção em 1999, já como jogador do Atlético de Madrid. Incrivelmente, tal como o pai e o tio, a primeira vez de Santiago na Albiceleste também foi em amistoso não oficial: contra um elenco forte do Espanyol, campeão da Copa do Rei dali a alguns meses, cujos festejos da temporada de centenário incluíram um 2 a 0 em Montjuïc em 14 de novembro de 1999. Três dias depois, o terceiro Solari então estreou oficialmente, vencendo a Espanha em Sevilha pelo mesmo placar.
Após experimentar o rebaixamento com o Atleti em 2000, Solari foi demonstrar melhor seu talento no arquirrival Real Madrid. Viveu boa fase no ano que marcou o centenário do clube merengue, na temporada de 2001-02, razão pela qual sua convocação para a Copa de 2002 foi levada mais seriamente em consideração. Semanas antes do torneio, ele havia inclusive se sagrado campeão da Liga dos Campeões.
Compunha o flanco esquerdo dos Galácticos junto com Roberto Carlos, com quem, por sinal, iniciara a jogada que resultou no famoso gol de Zidane na final da Champions. Santiago, que não havia participado de nenhum jogo das eliminatórias, disputou três amistosos pré-Copa, mas não convenceu Marcelo Bielsa. Solari continuou recebendo oportunidades ocasionais de Bielsa, e nas três primeiras convocações de José Pekerman, defendendo pela última vez a Argentina em 2004.
Ao todo, Santiago jogou oficialmente onze vezes, com nove vitórias, um empate e uma derrota, e marcou um gol, em sua segunda partida oficial, em amistoso contra o México em 2000, em Los Angeles. As estatísticas apontam que sua última partida foi em 17 de novembro de 2004, em 3 a 2 sobre a Venezuela pelas eliminatórias, mas ele ainda figurou em 3 a 0 sobre a seleção da Catalunha em 29 de dezembro.
Dois irmãos de Santiago, Esteban, ex-Estudiantes, e David, ex-Independiente, também se tornaram jogadores, mas não obtiveram sucesso parecido, sem passagens pela seleção.
Irmãos na Seleção Argentina (I)
Dezenas de pares de irmãos já defenderam a Argentina. Este capítulo e o seguinte focam naqueles em que pelo menos um esteve em uma Copa do Mundo.
Juan e Mario Evaristo: os únicos a irem juntos a um Mundial
Juan e Mario Evaristo merecem destaque entre estes por terem sido, até hoje, os únicos a terem ido juntos a um mundial, exatamente no primeiro. Além dos quatro jogos da Copa de 1930, compartilharam outras cinco partidas pela Albiceleste.
Apenas outras três duplas de irmãos estiveram juntas em uma final de Copa: os alemães Fritz e Ottmar Walter, em 1954, os ingleses Bobby e Jack Charlton, em 1966, e os holandeses René e Willy van de Kerkhof, na de 1978, na e contra a própria Argentina. Os Evaristo perderam apenas uma partida lado a lado: justamente a decisão de 1930, exatamente a última partida de cada um pela seleção.
O volante Juan era o mais velho. Homem de marcação dos mais técnicos no futebol argentino, foi figura nos anos 1920, no Sportivo Palermo, além de ter integrado o Huracán campeão nacional de 1925. Estreou pela Argentina em 1922, vindo a ter seu melhor momento no final da década: disputou e venceu os Sul-Americanos de 1927 e 1929 e foi duas vezes vice-campeão mundial, já que além da Copa também participou das Olimpíadas de 1928, perdida para o mesmo Uruguai vencedor dois anos depois. Marcou um gol, contra o Paraguai, em 1925.
Já Mario, que na verdade era registrado civilmente como Marino por um equívoco, era um ponta-esquerda clássico: veloz, o que o fez ser conhecido como El Galgo, e habilidoso. Suas nove partidas foram todas ao lado do irmão, que por sua vez defendeu a Argentina 25 vezes, a primeira delas em 1929. Era seu colega também no Sportivo Palermo, passando a jogar em 1930 no Boca Juniors, onde se tornou um grande ídolo. Integrou o elenco titular xeneize bicampeão em 1930 e 1931, este no primeiro campeonato profissional do futebol argentino. Marcou três vezes: contra Paraguai e Uruguai no Sul-Americano de 1929 e outra contra o Chile, no mundial.
Roberto e Felipe Cherro
Colega deles na seleção de 1930 e também no Boca Juniors, Roberto Eugenio Cherro, cujo sobrenome real era Cerro, era, apesar do físico robusto, um dos grandes atacantes de seu tempo. Foi o maior artilheiro da história bostera, com 218 gols, até ser superado por Martín Palermo em 2010, bastante hábil em jogo aéreo, e também no drible e na organização de jogadas.
Foi goleador também na seleção, tendo média de 0,76 gols por partida: foram treze em dezessete, quatro deles em um único jogo, contra o Uruguai, em 1933.
Vencedor dos Sul-Americanos de 1929 e 1937, sua trajetória na seleção, apesar dos números, poderia ter sido mais marcante: nas Olimpíadas de 1928, após quatro gols em três jogos, perdeu lugar na final por conta de uma lesão. Na Copa de 1930, depois do jogo contra a França, deixou o time titular, tendo seu lugar ocupado por Guillermo Stábile. O atacante do Huracán acabaria se sagrando artilheiro da competição, com oito gols nos quatro jogos seguintes da Argentina.
El Cabecita de Oro chegou a jogar uma vez pela seleção ao lado do irmão mais velho, Felipe Gabriel Cherro. Foi em vitória por 2 a 0 sobre o Uruguai em 1932. Felipe, lateral-direito destacado pelo jogo limpo, era jogador do Sportivo Barracas, equipe em que o irmão também estava na época. Naquele ano, com ambos, o time venceu o campeonato argentino amador. Felipe jogou outros oito jogos pela Argentina, entre 1924 e 1932, sem integrar convocações para os grandes torneios da época. Ele, que defendera o Independiente na década anterior, ainda é o jogador do Sportivo com mais partidas pela Albiceleste.
Juan e Natalio Perinetti
Um dos colegas dos Evaristo e de Cherro na Copa de 1930 era o ponta-direita Natalio Perinetti, cujo irmão mais velho, Juan Nelusco Perinetti, fora figura na seleção na segunda metade dos anos 1910. Ambos são ídolos históricos do Racing.
O ponta-esquerda Juan, vindo do Talleres de Remedios de Escalada, do qual é também um dos fundadores, esteve presente no elenco que, ao se sagrar heptacampeão argentino consecutivo naquela década, ainda um recorde no país, ficaria conhecido como La Academia, posteriormente um apelido do próprio clube de Avellaneda.
O Perinetti mais velho ficou conhecido como El Llorón justamente por derramar-se em prantos nas poucas vezes que o time perdia. Pela Argentina, Juan jogou dezoito vezes entre 1915 e 1919, participando dos Sul-Americanos desse ano e dos de 1916, o primeiro, e 1917.
Já Natalio, nove anos mais novo e que chegou ao Racing através do irmão, era inteligente e driblador, demonstrando grande habilidade em cruzamentos, criando grande dupla na época com Pedro Ochoa. Além dos três últimos títulos do hepta, somou, como um grande capitão, os outros dois que o Racing obteve no amadorismo, em 1921 e 1925, conseguindo tornar-se um ídolo ainda maior que o irmão no clube.
Na seleção, estreou em 1923, estando presente, além da Copa de 1930, também no vice das Olimpíadas de 1928. Não teve participação ativa em nenhuma das campanhas. Na Copa, depois de figurar na partida contra a França, foi trocado por Carlos Peucelle, e não voltaria a defender mais a Argentina. Já nos Jogos, não esteve em uma partida sequer. Segundo ele, por pressão de um delegado do San Lorenzo que palpitava na escalação, onde interferia em favor de Alfredo Carricaberry, jogador dos cuervos, para a posição.
Ermindo e Daniel Onega
Depois dos Evaristo, a dupla que esteve mais perto de ir junta para uma Copa foram os Onega, na de 1966. Ambos estão entre os grandes ídolos da história do River Plate, onde cada um passou dos 100 gols.
Ermindo Ángel Onega foi um dos melhores jogadores argentinos daquela década, dono de grande visão de jogo e versatilidade nas posições ofensivas. Foi um dos condutores da campanha da seleção no mundial da Inglaterra, onde só não foi mais elogiado por conta de sua participação na confusão gerada pela polêmica expulsão de Rattín.
Dois anos antes, teve participação decisiva no título da Copa das Nações, maior conquista do futebol argentino até 1978. A imagem em que ele sai gritando em comemoração ao gol que fez na vitória por 3 a 0 sobre o anfitrião Brasil ficou na galeria dos maiores momentos da seleção.
Ele esteve presente ainda na primeira vitória argentina sobre a Bolívia na difícil altitude de La Paz, em 1965. El Ronco faleceu precocemente, aos quarenta anos, vítima de um acidente automobilístico em 1979. Jogara pela última vez pela Argentina em 1967.
Seu irmão mais novo, Daniel Germán Onega, esteve entre os pré-selecionados para a Copa de 1966, fazendo seus dois primeiros jogos exatamente nos amistosos que antecederam a convocação definitiva. Essas partidas, contra a Polônia em Buenos Aires, 1 a 1, e a Itália em Turim, 0 a 3, foram as únicas em que atuou ao lado de Ermindo pela Argentina.
Seu corte, visto atualmente, foi de certa forma surpreendente: na campanha que levou o River ao vice-campeonato na Libertadores daquele ano, semanas antes do mundial, o atacante Daniel marcou 17 gols, ainda um recorde para uma única edição da competição, cujo valor para os argentinos, porém, ainda engatinhava.
Aquela enxurrada de gols não se repetiu na seleção: Daniel não marcou uma única vez em suas treze aparições pela Argentina. Poderia ter participado da Copa de 1970: atuou na maior parte das eliminatórias, em que os argentinos perderam a vaga dentro da Bombonera para o Peru, sem ele em campo. El Tito ainda teria 29 anos na época da Copa de 1974, mas deixou de ser lembrado depois que foi jogar na Espanha. Seu último jogo foi em um 0 a 0 contra o Paraguai, em Salta.
Irmãos na Seleção Argentina (II)
Mario e Daniel Killer
Nos anos 1970, o Rosario Central viveu sua melhor fase nacionalmente, obtendo três de seus quatro títulos argentinos e igualmente três dos quatro vice-campeonatos que alcançou, sendo natural que lançasse alguns canallas na Albiceleste.
Mario Estanislao Killer, apesar da técnica não tão alta, sabia passar ao ataque quando necessário, e era difícil de ser superado na marcação. El Colorado, que era ruivo, jogou cinco vezes entre 1972 e 1975, as duas últimas na Copa América desse ano, quando enfim atuou na seleção ao lado do irmão Daniel Pedro Killer, três anos mais velho e que só ali estreou pela Argentina. Mario logo perderia vitrine, após ir ao futebol espanhol, efeito comum na época aos que iam jogar no exterior. Ele também chegaria a jogar no arquirrival do antigo clube, o Newell’s Old Boys, assim como o próprio irmão Daniel.
Este, por sua vez, era um zagueiro dono de igual força na marcação e no temperamento, também sendo seguro no jogo aéreo. Naquela Copa América, chegou a marcar três vezes em um 11 a 0 sobre a Venezuela, um dos jogos em que atuou com Mario, o outro sendo na derrota de 1 a 0 para o Brasil, o que ainda faz dele o defensor que mais marcou pela seleção em um jogo.
Sua técnica, porém, não era muito melhor que a do irmão. O rude El Caballo esteve na Copa de 1978, mas com seu lugar ocupado pela maior velocidade e destreza de Luis Galván. Sua maior contribuição, segundo o técnico Menotti, era participar dos testes dos atacantes argentinos nos treinamentos, pois acabou não utilizado no mundial. Seu último jogo pela Argentina fora em um amistoso preparatório, em abril, contra o Uruguai.
Héctor e Carlos Enrique
Como os Onega, os Enrique ficaram bem marcados no River Plate. E, como os Perinetti, não chegaram a conviver na seleção.
Héctor Adolfo Enrique, o mais velho, teve melhor sorte, no clube e pela Argentina: foi um dos jogadores que teve um 1986 dourado, sendo campeão mundial no River, única ocasião millonaria de tal porte, e na Copa do México, tendo triunfado no time de Núñez não somente em Tóquio como também na Libertadores e no campeonato argentino daquele ano.
Sua primeira convocação foi logo na chamada para a Copa do Mundo, causando grande surpresa, já que ficou com a vaga de nomes mais celebrados ou cotados, como Claudio Marangoni, Miguel Ángel Russo, Juan Barbas e Alejandro Sabella. Sequer havia sido lembrado anteriormente.
Em todos esses títulos ele foi titular, com seu jogo generoso e solidário com os atacantes apreciado por Bilardo na seleção e por Veira no River: tocava a bola, ia buscá-la, habilitava ataques e voltava à posição, como um bom camisa 8. Foi dele que Maradona recebeu o passe antes de driblar meio time inglês na célebre jogada do segundo gol nas quartas de final.
Na Copa, Héctor Enrique integrou o meio de campo argentino com Giusti, Burruchaga e o próprio Maradona, de quem foi auxiliar na comissão técnica de 2010. Poderia ter jogado também o mundial de 1990, mas uma lesão no joelho o impediu. Seu último jogo foi na Copa América do ano anterior. Chegou a ser técnico em uma partida, em amistoso não oficial em 2008, contra a Catalunha.
Irmão de El Negro, Carlos Alberto Enrique, também campeão titular da Libertadores e da Intercontinental, mas pelo Independiente de 1984, não foi um dos Locos do futebol platino à toa: no meio de campo ou na lateral esquerda, era tão destemido e raçudo em campo quanto um tanto inconsequente. Não foi derrotado em nenhum de seus nove jogos pela Argentina, todos em 1991, mas em dois terminou expulso, ambas contra o Brasil. A segunda delas, na vitoriosa Copa América de 1991, que quebrou jejum continental de 32 anos dos argentinos, acabou sendo sua última partida com a Albiceleste.
Gabriel e Diego Milito
Gabriel Alejandro Milito e Diego Alberto Milito, assim como a dos Evaristo, formam a outra única dupla fraterna em que os dois componentes foram a uma Copa do Mundo. Mas, ao contrário dos irmãos de 1930, os Milito estiveram separados: Gabriel viajou à de 2006 e Diego, para a de 2010.
Eles já sabiam o que era dividirem-se, uma vez que tiveram a particularidade de defender arquirrivais: Gabriel, pelo Independiente, e Diego, pelo Racing, e inclusive não se furtavam de trocar farpas nos clássicos de Avellaneda. Em um deles, após falta cometida por Gaby em outro jogador, Diego imediatamente pediu pela expulsão do irmão ao árbitro, no que foi mandado pelo caçula a um certo lugar. Apenas no Real Zaragoza e em doze partidas pela Argentina ambos estiveram lado a lado em campo. Pelo país, puderam conviver nas Copas América de 2007 e 2011.
Um ano mais novo, El Mariscal Gabriel estreou na seleção em 2000, três anos antes do irmão. Zagueiro que sabia antecipar-se bem às jogadas adversárias, chegou à seleção, e depois à Europa, após seu papel de liderança na conquista do Independiente no Apertura de 2002. Foi levado por José Pekerman, que o conhecia das seleções de base, à Copa de 2006, mas só foi utilizado contra a Holanda, na última partida da primeira fase, quando ambos os oponentes já se encontravam classificados. Poderia ter ido à África do Sul, mas sua pouca presença na temporada 2009-10 no Barcelona pesou contra, para Maradona.
Diego, que por sua vez jogava no ataque, só veio a debutar em 2003, após finalmente demonstrar a veia goleadora que lhe faltara nos primeiros 44 jogos pelo Racing, em que marcara apenas duas vezes. Quando deixou os blanquicelestes, em 2004, já tinha números que o faziam o maior artilheiro do time no século XXI, com 35 gols nos 104 jogos seguintes.
El Príncipe, apelido atribuído por sua semelhança física com o uruguaio Francescoli, foi testado por Marcelo Bielsa como possível sucessor de Batistuta, de ciclo fechado na seleção após a Copa do Mundo de 2002.
Na seleção, ele nunca se estabilizou, porém. Mesmo após grandes temporadas no Genoa e, sobretudo, na Internazionale, quando foi um dos principais nomes da inédita tríplice coroa de um time italiano, na temporada 2009-10, marcando nas finais da Copa da Itália, da Liga dos Campeões e do jogo que decidiu a Serie A, até a sua convocação para a Copa de 2010 esteve em dúvida antes da lista final. Jogou contra a Nigéria, vindo do banco, e, como titular, passou em branco também contra a Grécia. O último gol de Diego pela Argentina foi na Copa América de 2007, contra a Colômbia, um dos parcos quatro que marcou pela seleção.
Guillermo e Nicolás Burdisso
A última dupla aprovada pelo critério Copa do Mundo é a dos Burdisso, que também é a mais recente na seleção.
O zagueiro Guillermo Enio Burdisso, ainda no Rosario Central que meses depois cairia para a Primera B Nacional, jogou pela primeira e única vez em amistoso contra a Costa Rica em janeiro de 2010, até marcando um gol na vitória por 3 a 2. Chegou a conviver, na temporada 2010-11 da Roma, com o irmão Nicolás Andrés Burdisso, já com duas experiências em mundiais, onde foi colega dos Milito.
Sete anos mais velho, Nico, que desempenhava a mesma função, iniciou sua trajetória pela Argentina em 2003. Então com 22 anos, já era bicampeão da Libertadores e uma vez mundial pelo Boca Juniors, títulos que, sempre com participação ativa sua, ganhariam nova soma naquele ano, fazendo dele um dos principais nomes da história do clube de La Ribera, apesar de seu forte jogo aéreo ser por vezes descompensado por erros que custam gols.
Na Copa de 2006, vinha de dobradinha caseira pela Internazionale e compôs a defesa titular na primeira fase, perdendo os jogos seguintes por conta de lesão. O que se inverteu na de 2010, quando conquistou espaço entre os titulares no decorrer do torneio.
O Burdisso mais velho, e mais famoso, obteve 21 títulos oficiais na carreira. Pela seleção, porém, as conquistas se resumem ao ouro olímpico de 2004, o primeiro obtido pelo futebol argentino.
Irmãos na Seleção Argentina (III)
Depois dos pares de irmãos que continham ao menos um convocado para uma Copa do Mundo, este capítulo destaca as primeiras duplas não mundialistas em que ao menos um componente tenha disputado uma Copa América.
Juan José e Pedro Rithner
Juan José Rithner foi o goleiro vice-campeão argentino de 1910, quando seu Porteño só ficou atrás do Alumni. É justamente o jogador do Teño com mais jogos pela seleção: dez, seis deles como capitão.
Era ele o arqueiro do jogo de volta da primeira Copa Roca, em 1914, que marcou os primeiros confrontos contra o Brasil. Voltou a enfrentar os brasileiros no Sul-Americano de 1916, a primeira Copa América, sua última partida pela Albiceleste. As demais foram todas contra o Uruguai.
Embora descrito como seguro e arrojado, sua média de gols sofridos pela seleção beira os dois por partida: foram dezenove, seis deles em um 6 a 2 contra o Uruguai, pior derrota dos argentinos em Buenos Aires até os 5 a 0 contra a Colômbia, nas eliminatórias para a Copa de 1994.
Rithner, que fora dos gramados era engenheiro, chegou a ser árbitro de um jogo da Argentina, um 6 a 1 no Uruguai em 1919, sendo um dos três casos de ex-jogadores da seleção que apitaram um jogo dela. William Leslie e José Susán são os outros.
Seu irmão mais novo, o meia Pedro Rithner, jogou por ela uma única vez, em 1914. Ele também atuou no Porteño, tendo feito o gol do título argentino de 1912, mas foi convocado já como jogador do Baradero, time da cidade de mesmo nome no centro-norte bonaerense e onde os Rithner nasceram. Juan também estava em campo. Pedro, por sua vez, ainda é o único jogador do Baradero na seleção.
Harry e Ennis Hayes
Contemporâneo deles, Juan Enrique Hayes, mais conhecido como Harry Hayes, também debutou em 1910. Foi o primeiro grande centroavante do futebol rosarino. Com seu Rosario Central, venceu o campeonato rosarino seis vezes, cinco delas nos anos 1910. O Central e o Newell’s Old Boys só foram admitidos no campeonato argentino, então restrito à Grande Buenos Aires e La Plata, em 1939.
Ele ingressara no time adulto dos auriazuis com apenas treze anos, em 1905, no que havia sido um escândalo. Jogou ali por mais de duas décadas e é o maior artilheiro do clube, mesmo considerando apenas os gols documentados, que foram 174.
Dono de arremate potente, também era hábil no drible e na assistência, logo mostrando serviço na seleção: marcou nas quatro primeiras partidas, todas naquele ano, totalizando ali cinco gols. El Inglés continuou a ser chamado pela Argentina até 1919, atuando em outras dezesseis partidas, mas marcando apenas três. Compartilha com Juan Brown o recorde de dezenove jogos consecutivos contra o Uruguai. As outras duas partidas de Hayes, ultrapassado apenas por Mario Kempes entre os jogadores canallas na seleção, foram contra o Chile, suas duas primeiras pela Albiceleste, com a qual esteve no inaugural Sul-Americano de 1916.
Cinco de seus jogos foram compartilhados com o irmão mais novo, Ernesto Hayes, o Ennis, que jogava na lateral esquerda. Embora geralmente prejudicado pelas naturais comparações com Harry, tinha qualidade própria: veloz, habilidoso e provocador, sabia driblar, chegando certa vez a sentar sobre a bola antes de concluir para o gol depois de ter passado para trás vários adversários. Além disso, o segundo maior artilheiro do Rosario Central é justamente ele, com pelo menos 133 gols registrados.
Pela seleção, Ennis estreou em 1915, atuando nos Sul-Americanos de 1916, com Harry, e do ano seguinte, e, igualmente como o irmão, realizou seu último jogo em 1919. Marcou quatro vezes em um total de onze partidas pela Argentina, todas elas contra o Uruguai.
Antonio e Eduardo Blanco
Os Blanco foram outros a atuar no Rosario Central e na seleção na década de 1910 e, também como os Hayes, trabalhavam na própria central ferroviária que originou o clube.
O ponta-direita Antonio Blanco compensava o físico pouco atlético com precisão nos chutes. Também ficou reconhecido pelo jogo limpo. Realizou sete partidas pela Argentina entre 1916 e 1918, incluindo aí participação no Sul-Americano de 1917, em que chegou a marcar na vitória por 4 a 2 sobre o Brasil, um de seus dois gols pela Albiceleste.
Eduardo Blanco, por sua vez, jogava como centromédio. Sua velocidade lhe rendeu como apelido o nome de um cavalo famoso na época, Botafogo. Sua carreira promissora acabou interrompida quando ele tinha apenas 21 anos, por uma lesão no joelho esquerdo. Teve tempo para jogar apenas duas vezes pela Argentina. A segunda e última foi a única ao lado do irmão, em partida contra o Uruguai em 20 de setembro de 1918. Permaneceu ligado ao Rosario Central, onde chegou a ser técnico já na era profissional.
Ernesto e Adolfo Celli
Esta outra dupla, da mesma época, também era rosarina, mas do arquirrival Newell’s Old Boys, tendo convivido em cinco partidas da Argentina, duas delas no Sul-Americano de 1922. Em comum, também desfechos trágicos.
Ernesto Celli, como entreala esquerdo ou centromédio, jogou sete vezes pela seleção entre 1919 e 1924. À exceção de um jogo contra o Chile no Sul-Americano, as demais partidas foram diante do Uruguai. A última delas marcou o precoce fim de carreira do irmão mais novo, Adolfo Celli.
Zagueiro de bom físico atlético, El Alemán era ágil e seguro em qualquer posição defensiva. Assim como Ernesto, seu período na seleção também se deu entre 1919 e 1924, mas com quinze partidas, incluindo lugar no Sul-Americano de 1921, que marcou o primeiro título continental dos argentinos. Três desses jogos foram contra o Brasil, com uma vitória e duas derrotas.
Sua carreira acabou em partida contra os uruguaios em 2 de outubro de 1924. Foi o mesmo jogo que entrou para a história como o do primeiro gol olímpico. Apesar de ser apenas uma partida na série de três amistosos que os rivais vinham disputando desde o dia 21 de setembro, os ânimos se exaltaram, inclusive por parte do público. Nisso, Adolfo acabou sofrendo uma séria fratura na perna direita, o que na época condenava a carreira de um jogador.
Já o fim trágico do irmão Ernesto deu-se na própria vida: aos 30 anos, foi saciar a sede após uma partida tomando uma água exageradamente gelada, o que lhe teria provocado algum mal-estar no organismo, morrendo quase subitamente.
Irmãos na Seleção Argentina (IV)
Juan Carlos e Jorge Iribarren
Os Iribarren, os primeiros jogadores do Argentinos Juniors na seleção, têm um dado curioso: ambos atuaram no mesmo dia pela Argentina, mas em partidas diferentes.
O zagueiro central Juan Carlos Iribarren, descrito como preciso, seguro e polivalente na defesa e nos setores esquerdos, estava atuando no Sul-Americano de 1923 contra o Uruguai e já representava seu país havia um ano. Já o goleiro Jorge F. Iribarren, três anos mais novo, jogava amistoso contra o Brasil, no que representou sua estreia no selecionado.
Jorge jogou apenas mais duas vezes, em 1925, contra o Paraguai, sem o irmão. Além de no time de La Paternal, eles só estiveram juntos no River Plate, a partir do final daquela década. Ali, Juan Carlos também obteve mais destaque, sendo um dos baluartes do primeiro título profissional da equipe de Núñez, em 1932. O River, até aquele momento, tinha apenas o título amador de 1920 e a segunda divisão de 1908 entre seus principais troféus.
Sua última partida pela Argentina foi pelo Sul-Americano de 1937. Embora tenha ficado de fora da final contra o Brasil, o Iribarren mais velho, já como jogador do Chacarita Juniors, foi titular da maior parte da campanha, despedindo-se justamente diante dos brasileiros, na vitória por 1 a 0 que igualou na última rodada a pontuação de ambos, que não se enfrentavam havia doze anos, na liderança e forçou a realização daquela partida decisiva.
Os quinze anos de serviços à Argentina, ainda que não ininterruptos, foram-lhe um recorde que só seria ultrapassado por Labruna, Maradona, Zanetti e Ortega, e igualado por Caniggia e Verón. Iribarren ainda é também um dos mais veteranos a ter jogado pela Albiceleste, retirado dela aos 35 anos.
Antonio e Oscar Sastre
A outra dupla também não chegou a atuar junta na seleção. Antonio Sastre foi um jogador dos mais completos da história. Só pela Argentina, chegou a atuar nas duas pontas e laterais e também como meia ofensivo. Já no seu Independiente, até improvisado duas vezes no gol ele chegou a jogar, sempre com grande rendimento, não tendo sido vazado, por exemplo, contra San Lorenzo e Peñarol, e mesmo assim ainda conseguiu marcar 112 vezes pelo time de Avellaneda, o que faz dele o terceiro maior artilheiro do clube. Natural que hoje nomeie um dos setores do Estádio Libertadores de América.
Atleta dos mais inteligentes da história do futebol argentino, sabia armar jogo, driblar, marcar adversários e definir para as redes. Fez parte das gerações do país que tiveram o azar de não disputar Copas do Mundo. Se a dos anos 1940 foi impedida pela Segunda Guerra Mundial, com os jogadores brilhantes da década de 1930 os motivos foram outros: para a Copa de 1934, apenas amadores foram enviados, por conta de ser a associação deles a reconhecida pela FIFA; já para a de 1938, a Argentina não se fez presente em protesto por ter perdido a sede para a França.
Sastre, que na década de 1940 já era um veterano, começou a jogar em 1931, no Rojo. Integrou o histórico trio com Vicente de la Mata e Arsenio Erico que deu aos diablos seus primeiros dois títulos no profissionalismo, faturando o bicampeonato em 1938 e 1939, anos em que tal linha ofensiva foi a mais goleadora do país.
El Cuila já jogava pela Argentina desde 1933. Fez parte dos elencos titulares dos Sul-Americanos de 1935, 1937, quando foi colega de Iribarren, e 1941, sendo campeão nos dois últimos. O técnico brasileiro Osvaldo Brandão, que treinou o Independiente no título argentino de 1967, declarou: “Não entendo por que admiram nosso jogo, se a nós nos ensinou o maestro Antonio Sastre”.
Isso se deveu à brilhante passagem de Sastre por quatro anos pelo São Paulo na década de 1940, depois de sete vitórias em oito jogos contra o Brasil, incluindo um 3 a 0 com gol dele, um 6 a 1 e um 5 a 1, onde só não foi campeão paulista em 1944. Mesmo na casa dos trinta anos, exibiu todo o seu repertório ao clube, fazendo-se presente hoje no estádio em forma de estátua.
Ter ido ao Brasil, porém, o afastou de mais jogos pela seleção, já que somente em 1972 a Argentina passou a admitir convocar jogadores que atuassem no exterior, aliado ao altíssimo nível de sua concorrência na época e à idade elevada. Foram no total, sempre como titular, 35 partidas, e apenas Ricardo Giusti jogou mais que ele como atleta do Independiente, e seis gols por seu país.
Oscar Carlos Sastre, nove anos mais novo, foi naturalmente prejudicado por comparações com o irmão-estrela, com quem pouco pôde jogar mesmo no Independiente: debutou ali em 1942, um ano antes de Antonio ir ao São Paulo. Apesar do peso do sobrenome, este bom volante e lateral-direito conseguiu também cavar lugar na seleção e entre os grandes ídolos do Rojo: estreou pela Argentina em 1945, integrando a equipe campeã naquele ano do Sul-Americano, embora não tenha atuado nele.
Dois anos depois, já como titular, foi outra vez campeão continental com a Albiceleste, com a qual atuou quatro vezes. No ano seguinte, ajudou seu time a quebrar nove anos de jejum com o título argentino de 1948, antes de ir jogar no Deportivo Cali. O Sastre caçula fora um dos fundadores da agremiação de jogadores que organizou ainda naquele ano uma grande greve deles.
Como as exigências da categoria não foram atendidas, muitos acabaram seduzidos por tentadoras propostas financeiras da liga pirata do chamado Eldorado Colombiano, para onde também foram nomes como Néstor Rossi, Di Stéfano, colegas de Sastrín no Sul-Americano de 1947, e Pedernera, e até atletas de grandes centros europeus. Um dos motivos para a Argentina ter continuado fora das Copas até a de 1958 seria justamente o temor de um vexame sem os seus principais jogadores. Nem das eliminatórias para as de 1950 e 1954 ela participou.
Eugenio e Juan José Moore, os únicos gêmeos
Além destes jogadores e dos outros irmãos já abordados anteriormente, também atuaram pela Argentina outros pares diversos. Celestino Martínez e Guillermo Barros Schelotto passaram pela seleção principal, incluindo participações em Copa América, Cele foi outro na de 1937 e Guille esteve na de 1999, sem seus respectivos irmãos gêmeos, também jogadores, Alfredo Martínez e Gustavo Barros Schelotto, que chegou a aparecer em seleções de base. Com isso, a única dupla de mellizos que defendeu o país continua a ser a composta por Eugenio e Juan José Moore.
Curiosamente, na única vez que atuaram juntos, em 1903, no que também foi o único jogo do ponta-esquerda Eugenio, já que o lateral-direito Juan jogou outras duas vezes, também estavam em campo três irmãos Brown, colegas deles no Alumni. É, até hoje, a partida mais familiar da Argentina. O irmão mais velho dos Moore, Tomás, estaria no jogo se não fosse impossibilitado por uma doença, na época. Acabou sem nunca ter atuado pela seleção.
Os Dickinson
Os volantes Alfredo e Carlos Dickinson eram contemporâneos, jogavam na primeira década do século XX, mas jamais estiveram juntos na seleção e em clubes: o primeiro atuava no Alumni e o segundo, no arquirrival Belgrano Athletic. Os paralelos negócios agropecuários de ambos os levaram a viver no Brasil posteriormente.
Jorge Dickinson jogou uma vez, no primeiro jogo da Argentina, mas em partida de validade contestada. Colega de Carlos no Belgrano, atuou com ele contra o Uruguai, que seria na verdade apenas um combinado de Albion e Nacional, para os que desconsideram a validade de tal jogo, em 1901. O que mantém o curioso fato de que Alfredo, que não esteve nessa partida, não jogou ao lado de seus irmãos.
Os Susán e o recorde de Maximiliano
José Claudio e Maximiliano A. Susán pertenciam ao Estudiantes de Buenos Aires, no final da mesma década dos Moore e dos Dickinson. Os Susán estiveram no maior feito da história do time de Caseros, sem relação com o homônimo mais famoso, de La Plata, a conquista da Copa Competencia de 1910, torneio que reunia times bonaerenses, rosarinos e uruguaios, cuja final, curiosamente, foi contra o Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires. Pela Argentina, só atuaram lado a lado uma vez, no segundo e último jogo do lateral-esquerdo José.
O atacante Maximiliano conseguiu ter mais destaque, chegando a jogar no Alumni em 1911, último ano em que este clube praticou futebol. Chegou ainda a marcar quatro vezes contra o Uruguai, justamente em partida arbitrada pelo irmão, um recorde pela Argentina que só seria batido em 1941, quando Juan Marvezzi fez cinco no Equador.
Mas, no clássico do Rio da Prata, sua marca só foi igualada, por Roberto Cherro, trinta anos depois. Outro recorde seu é o de gols em partida entre clubes argentinos: fez doze nos 18 a 0 imposto pelo Estudiantes no Lomas Athletic em 1909, até hoje a maior goleada no país. Nenhum outro argentino fez tantos gols quanto ele em um jogo oficial.
Os Calandra e os Zárate
Jorge e Saúl Calandra, ponta-esquerda e centromédio, respectivamente, do Estudiantes de La Plata, tiveram trajetórias separadas: Jorge passou pela seleção no final dos anos 1910 e Saúl, no dos 1920, quando chegou a integrar a equipe medalha de prata nas Olimpíadas de 1928. Nos Jogos de Amsterdã, atuou somente na vitória de 11 a 2 sobre os Estados Unidos, na estreia.
Por fim, há os Zárate, família ligada ao Vélez Sarsfield. Sergio Fabián Zárate Riga, o mais velho, demonstrava rapidez, habilidade e mesmo oportunismo no meio de campo, com seu sucesso já no futebol alemão, no Nuremberg, tendo lhe levado a disputar 45 minutos de um amistoso contra a Austrália em 1992. El Ratón, porém, não se consolidou e não voltou a jogar pela Argentina. Aqueles 45 minutos foram toda a sua trajetória pela seleção.
Rolando David Zárate Riga obteve sorte só um pouco melhor. No semestre em que o Fortín voltou a ser campeão argentino depois de sete anos, em 2005, o atacante convenientemente estreou marcando logo um gol, em amistoso contra o México. Roly, credenciado na época também por sua artilharia no Clausura de 2004, ainda jogou uma partida das eliminatórias da Copa de 2006 contra a Bolívia, mas acabou não recebendo novas chances, atrapalhado pela alta concorrência e por uma fratura no quadril. Encerrou a passagem pela Albiceleste com duas partidas.
O irmão mais novo dos dois, Mauro Matías Zárate Riga, foi campeão mundial sub-20 em 2007, fazendo inclusive o gol do título a quatro minutos do fim, nos 2 a 1 de virada sobre a República Tcheca. Como Rolando, atuava no ataque e foi artilheiro pelo Vélez, no Apertura de 2006. Considerado o mais talentoso dos três irmãos, teve longa carreira na Europa e no futebol argentino, e no Brasil defendeu o América Mineiro e o Cuiabá. Nunca chegou a ser convocado para a seleção principal, o que deixa os Zárate com apenas dois representantes na Albiceleste.
Pais e filhos (I)
Cinco casos de pai e filho já ocorreram na Albiceleste, um deles já retratado no capítulo dedicado aos Solari. Este capítulo trata dos dois primeiros pares.
Os dois Vicente de la Mata
A primeira vez em que um jogador, tal qual seu pai, veio a jogar pela Argentina só veio a se dar nos anos 1960. Trata-se dos Vicente de la Mata.
O pai foi um dos maiores nomes do futebol argentino. Don Vicente mal havia completado dezenove anos e decidiu o Sul-Americano de 1937. Brasil e Argentina disputaram um jogo extra para definir o campeão, depois que ambos empataram na liderança ao fim de um torneio em pontos corridos, igualdade alcançada após vitória argentina sobre os próprios brasileiros na última rodada.
Fora convocado ainda como jogador do Central Córdoba, time pequeno até em sua cidade de Rosário. No meio do torneio, sua ida ao Independiente foi acertada, com seu pai precisando representá-lo na assinatura, pois De la Mata ainda não tinha maioridade civil pelas leis argentinas da época. Na decisão, um dia depois da transferência, o jovem driblador entrou no lugar da estrela Francisco Varallo e marcou os dois gols da partida, já no segundo tempo da prorrogação.
No ano seguinte, consagrou-se também no novo clube: o Rojo de Avellaneda obteve seu primeiro título profissional, e o primeiro campeonato argentino em doze anos, muito por conta de um lendário trio ofensivo formado por De la Mata com Antonio Sastre e Arsenio Erico.
Essa linha dianteira repetiu o feito no ano seguinte, tempos em que fora a mais goleadora do país. Se um tri seguido não veio em 1940, este ano reservou a maior goleada no clássico contra o Racing, um 7 a 0 com dois gols de El Capote, terceiro maior artilheiro da história dos diablos, com 152 gols.
Apesar do sucesso no clube, sofreu na seleção com a concorrência de alto nível na época. A despeito de seu papel decisivo no título de 1937, demorou seis anos desde então para voltar a jogar pela Argentina, pela qual fez apenas treze partidas, em seis delas vindo do banco, com seis gols. Teriam sido ainda menos jogos se ele não se dispusesse a jogar em posições que não eram exatamente as suas, para não ficar na reserva.
Em seu retorno, marcou outro gol, em um 5 a 2 sobre o Paraguai em Assunção pela Copa Chevallier Boutell, equivalente entre a Albiceleste e a Albirroja da Copa Roca. Foi alternando-se entre titulares e reservas que ele integrou também os elencos argentinos vencedores dos Sul-Americanos de 1945 e 1946, edição em que De la Mata integrou um ataque demolidor com Norberto Méndez, Adolfo Pedernera, Ángel Labruna e Félix Loustau.
Mas foi nela também que ele acabou realizando, de forma melancólica, sua última partida pela Argentina: em nova decisão frente ao Brasil, foi expulso juntamente com o brasileiro Chico aos 30 minutos do primeiro tempo, por conta da briga generalizada que paralisou a partida por mais de uma hora a partir dali, depois que o lateral José Salomón quebrou a perna em lance contra Jair da Rosa Pinto. De la Mata, já sem Erico e Sastre, voltaria a ser campeão argentino com o Independiente em 1948. Com 30 anos, já não era mais aproveitado pela seleção.
O filho jogava mais recuado, como um volante. Inevitavelmente, teve de carregar comparações com o pai, pelo nome inteiramente igual e até por também ter defendido o Independiente, onde surgiu e passou a década de 1960. Seu momento de maior destaque foi em 1965, na campanha que deu ao Rojo o bicampeonato na Taça Libertadores da América, inclusive marcando um dos gols das finais contra o Peñarol. Poderia ter brilhado mais se não fosse prejudicado também por lesões.
Pela seleção, por pouco não foi à Copa do Mundo de 1966. Participou das eliminatórias, sob o comando técnico de José María Minella, e integrou os pré-convocados do substituto Juan Carlos Lorenzo para o mundial, participando de amistosos preparatórios a semanas do torneio. Lorenzo, todavia, resolveu não confirmar Vicentito. A derrota de 3 a 0 para a Itália em Turim, o último jogo da Argentina antes da Copa, em 22 de junho, foi também a sexta e última partida do De la Mata filho pelo selecionado. Ele ainda figurou em duas não oficiais, contra o clube italiano Cagliari, 2 a 0 em 1º de junho, no estádio do San Lorenzo, e contra um combinado de Copenhague, também 2 a 0, em 17 de junho.
Os dois Juan Verón
Um novo caso de jogador filho de alguém que já havia atuado pela seleção só voltaria a ocorrer nos anos 1990, por meio de Juan Sebastián Verón, revelado no mesmo Estudiantes de La Plata que seu pai, Juan Ramón Verón, impulsionara a níveis inimagináveis no final da década de 1960.
Verón pai era um dos emblemas do pincha tricampeão seguido da Libertadores, então um recorde, entre 1968 e 1970 e, anteriormente, da equipe que dera ao clube seu segundo título argentino, em 1967, sendo o primeiro campeão além dos cinco grandes no profissionalismo.
Em 1970, ano em que La Bruja poderia ter disputado a Copa do Mundo caso a Argentina não tivesse surpreendentemente sido desclassificada para o Peru dentro da Bombonera, o Estudiantes era simplesmente o maior campeão da América, ao lado do Peñarol, e, juntamente do Racing, a única equipe argentina campeã intercontinental, tendo vencido o Manchester United em 1968, com Verón marcando de cabeça em Old Trafford.
Juan Ramón era um veloz e habilidoso atleta que primava pelo jogo em equipe, mas não conseguiu repetir na seleção o que fazia na ponta-esquerda dos pincharratas. Jogou apenas quatro vezes, entre 1969 e 1971, um ano antes de ir ao futebol europeu. Era possível que tivesse lugar na Copa do Mundo de 1974, a primeira em que se chamou quem atuava no exterior. Verón, todavia, encontrava-se no escondido futebol grego, onde defendia o Panathinaikos, fator que também já o vinha afastando do selecionado desde que deixara a Argentina.
Um quarto de século depois, seu sobrenome voltou à Albiceleste na figura do filho Juan Sebastián. Naturalmente surgido também no Estudiantes, tendo nascido inclusive em dia de clássico contra o Gimnasia y Esgrima, em que seu pai, de volta ao clube em 1975, esteve em campo e marcou um gol, recebeu a primeira oportunidade na seleção em 1996, já em seu primeiro semestre no Boca Juniors. Chegara ao clube da Ribeira após ser disputado também pelo arquirrival River Plate.
Verón filho não teve muito tempo, e títulos, para deixar sua marca nos xeneizes. Em sua segunda partida na seleção principal, três meses depois do debute, período em que esteve no time medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta, já veio como jogador da Sampdoria. No clube genovês, iniciou a sua vitoriosa trajetória no futebol italiano, com sua versatilidade no meio de campo, na esquerda, na direita, pelo meio ou como armador, angariando prestígio também no Parma, na Lazio e na Internazionale. Compôs com Ayala, Simeone, Zanetti, Claudio López, Batistuta e Crespo a espinha dorsal da Argentina nas Copas de 1998 e 2002.
No intervalo entre os mundiais, foi justamente La Brujita o principal nome da Albiceleste, que, a despeito da excelente safra do período, dizia-se sofrer de certa Veróndependencia. Paralelamente, vivia na Lazio o auge da forma, segundo o próprio. Isso acabaria voltando-se contra ele após a decepcionante queda na primeira fase do mundial da Ásia, para o qual a Argentina chegara favorita como nunca, após arrasadoras eliminatórias, em que o segundo colocado, o Equador, terminara doze pontos atrás.
Verón, que também era o capitão da equipe, foi apontado como um dos principais culpados pelo fracasso, embora tivesse ido ao Japão após uma fraca temporada no Manchester United decorrida em boa parte de uma lesão no tendão que o perseguiu por meses.
O forte temperamento, e um fracasso no Chelsea, também o prejudicou nessa época, não recebendo oportunidades no ciclo do técnico José Pekerman, ficando de fora da Copa de 2006. Verón reconstruiu sua imagem no semestre que se seguiu ao torneio. Em seu retorno ao Estudiantes, já que a Inter queria mantê-lo, mas ele abriu mão de parte de seus direitos junto ao Chelsea, de onde estava emprestado aos milaneses, levou nas costas o clube do coração a um emocionante título argentino.
O Boca era o líder, perdendo uma taça ganha ao sair derrotado nas duas últimas partidas quando bastava-lhe um ponto para se sagrar campeão. No jogo extra, os auriazuis ainda perderam de virada para o time de La Plata, campeão argentino novamente depois de 23 anos. Tal desempenho fez Alfio Basile incluí-lo na Copa América de 2007, quebrando um hiato de quatro anos sem Verón na seleção.
Sua imagem como líder de um Estudiantes reerguido após anos de decadência, repetindo inclusive o pai ao vencer a Libertadores de 2009, além de, fora de campo, usar do próprio dinheiro para reformular as instalações do clube e a sua influência para reaver um estádio para o time, fez com que continuasse a ser regularmente convocado também por Maradona.
Ainda que normalmente no banco e já aos 35 anos, foi chamado para a Copa de 2010 por Dieguito, com quem chegara a jogar no Boca. De fato, La Brujita é um dos privilegiados que pode dizer que esteve em campo com ele e com Messi.
Pais e filhos (II)
Os Galletti
Os outros pares de pai e filho já não reúnem tantos destaques. Em 1999, havia sido a vez dos Solari entrarem para a galeria, no que foram seguidos um ano depois, com a convocação de Luciano Martín Galletti. Ele e o pai, Rubén Horacio Galetti, como os Verón, também ficaram ligados ao Estudiantes.
O ponta-direita Rubén, que só surgiu no time depois da geração tricampeã sul-americana, teve apenas uma chance na Albiceleste. Em novembro de 1974, no início do trabalho de César Menotti, jogou 78 minutos contra o Chile, marcando um gol de pênalti. De fato, embora El Tano, que chegou a jogar no Boca Juniors e no River Plate, não fosse um atacante muito hábil contra marcadores, sabia definir para as redes.
O filho, jogador da mesma posição, retirou-se dos gramados por problemas renais, em 2010, ainda aos 30 anos. Sua estreia foi na mesma partida em que Santiago Solari, que jogava pela segunda vez pela Argentina, marcou seu único gol por ela, em um 2 a 0 em amistoso contra o México. O outro gol da partida foi justamente de Galletti, que assim repetiu o pai ao marcar no debute.
El Huesito, ao contrário dele, conseguiu mais oportunidades. Chegou a ser testado por Bielsa em um dos amistosos pré-Copa de 2002, e em outras partidas pós-mundial, época em que Luciano viveu bom momento no Real Zaragoza. Na equipe aragonesa, tornou-se ídolo especialmente após marcar o gol do inesperado título da Copa do Rei de 2004 sobre o Real Madrid, o que daria início à decadência da primeira era galáctica madridista. Acabou recebendo convocações ocasionais também de José Pekerman, incluindo lugar no time titular na Copa das Confederações de 2005.
O 4 a 1 contra o Brasil na final das Confederações acabaria por ser sua última partida pela Argentina, não lhe ajudando a estadia no Atlético de Madrid, para onde foi após o torneio. Mesmo treinados por Carlos Bianchi, os colchoneros decepcionaram na temporada 2005-06 e Galletti, que vinha sofrendo também com uma pubalgia, perdeu as chances de aparecer na Copa de 2006.
Os Perotti
O quinto caso deu-se no final de 2009, com Maradona oferecendo a primeira oportunidade de Diego Perotti na seleção. Seu pai, Hugo Osmar Perotti, é um dos maiores heróis do Boca Juniors.
El Mono foi autor de dois gols nos 4 a 0 sobre o Deportivo Cali na final da Libertadores de 1978, cravando o bicampeonato continental bostero seguido. No Metropolitano de 1981, atuando ao lado do próprio Maradona, fez três no confronto direto contra o principal concorrente ao título, o Ferro Carril Oeste. Sofreu com lesões, porém, encerrando a carreira já com 25 anos.
O Perotti pai foi um dos boquenses bicampeões sul-americanos solenemente ignorados para a Copa do Mundo de 1978. Deles, apenas o lateral Alberto Tarantini, sem clube naquela época, foi chamado. O ponta-esquerda só veio a estrear um ano depois da Copa, jogando suas duas partidas pela Argentina. Pode gabar-se de que, em uma delas, o reserva que o substituiu em campo foi o mesmo Maradona, então jogador do Argentinos Juniors.
Perotti filho recebeu a primeira chance na seleção, em um 2 a 1 amistoso contra a Espanha em Madrid, em função do bom momento de El Monito no Sevilla à época. Diego Perotti, surgido nas inferiores xeneizes, chegou a defender Maradona após o treinador sofrer punição da FIFA em razão das obscenidades verbais que disparou aos repórteres argentinos ao garantir a sofrida classificação da Argentina para a Copa de 2010, mas acabou não incluído no plantel que viajou à África do Sul. Demorou mais de um ano para uma segunda partida, estando nos famigerados 4 a 1 que os argentinos levaram da Nigéria em amistoso em Abuja em junho de 2011, pouco antes da Copa América, na qual ele também não esteve. Foram essas as duas únicas partidas dele pela seleção principal. A carreira seguiria na Itália, sobretudo no Genoa e na Roma, sem novas convocações.
Os filhos que defenderam a Espanha
Além deles, há outros casos que merecem rápida menção. Dois filhos de ex-jogadores da Argentina chegaram a defender outro país. Curiosamente, para ambos, foi a Espanha.
O primeiro foi o atacante Juan Carlos Heredia. Na Argentina, defendeu os rivais Belgrano e Talleres de sua Córdoba natal, além do Rosario Central, do River Plate e do Argentinos Juniors. Mas foi no Barcelona que El Milonguita virou ídolo, em momento em que o clube catalão vivia seca de títulos. Acabou chamado pela seleção espanhola em um dos primeiros jogos dela após a Copa de 1978. Porém, perdeu continuidade após voltar ao futebol argentino, em 1980, quando veio defender o River.
Seu pai tinha o mesmo nome, tal qual os De la Mata, e, como o filho, atuou no Rosario Central. Fora como jogador dos canallas que El Milonga disputara seis partidas pela Argentina entre 1940 e 1942, incluindo participação no Sul-Americano de 1942, onde foi o ponta-direita titular. Marcou uma vez, contra o Peru, neste mesmo torneio, em que a Albiceleste ficou no vice-campeonato para o Uruguai.
O segundo foi o lateral-esquerdo Mariano Andrés Pernía Molina. Integrou o Independiente campeão argentino pela última vez, em 2002, mas sem ser figura, obtendo maior continuidade em pequenas equipes espanholas. Após destacada temporada 2005-06 pelo Getafe, foi incluído de última hora pelo técnico Luis Aragonés entre os chamados para a Copa de 2006. Entrou para ocupar o lugar que originalmente seria de Asier del Horno, do Chelsea, que tivera de ser cortado. A estreia foi ótima: marcou de fora da área em amistoso contra a Croácia a um mês do mundial, onde foi titular e de onde arranjou transferência para o Atlético de Madrid.
Seu pai é Vicente Alberto Pernía, colega de Hugo Perotti no Boca bicampeão da Libertadores e também lateral, e piloto de corridas após deixar os gramados. El Tano Pernía carregou fama de jogador rude, que aproveitava para intimidar os adversários. Ela viria a lhe prejudicar por um lugar na Copa de 1978: vinha integrando a série de amistosos que a Argentina, já classificada como país-sede, estava realizando no ano anterior para preparar-se. Pernía, que já havia ficado de fora do mundial de 1974, acabou deixando de ser chamado por pressão popular e da mídia após ser expulso em um 1 a 1 contra a Escócia, em Buenos Aires. Era a sua décima partida pela seleção.
Os Watson Hutton, pai e filho do futebol argentino
Há também o caso de Arnold Watson Hutton Pencliffe. Seu pai não foi jogador, quanto mais da seleção, mas é considerado o patriarca do futebol argentino. Alexander Watson Hutton creditava ao esporte e ao ambiente acadêmico a moldagem de sua vida, após difícil juventude em sua Escócia natal, onde perdeu cedo os pais e os parentes que posteriormente o haviam adotado.
Quando emigrou para a Argentina, fez parte do corpo docente de escolas da comunidade britânica, entre elas a St. Andrew’s Scots School, cujo time de futebol foi o vencedor do primeiro campeonato argentino, em 1891. Ele foi fundador de outra delas, a Buenos Aires English High School. Foi nela que surgiu o Alumni, principal time da primeira década do século XX no campeonato argentino, cuja liga organizadora, antecessora direta da atual Associação do Futebol Argentino, havia sido fundada, em 1893, por Watson Hutton.
Arnold nasceu já na Argentina, mas vivia na Escócia das raízes, onde se formou em medicina. Quando voltou à terra natal, foi jogar no mesmo Alumni ligado ao pai. Ao lado da família Brown, que também tinha origens escocesas, foi um dos símbolos da equipe, com a qual só não foi campeão argentino em 1908.
Em 1910, El Fantástico teve especial destaque individual: foi campeão e artilheiro do campeonato de futebol pelo Alumni, e venceu também o campeonato de rúgbi pelo Belgrano Athletic, onde também jogou futebol após o Alumni deixar o esporte no ano seguinte.
Watson Hutton filho defendeu a Argentina dezessete vezes, marcando seis gols, entre 1906 e 1913, sendo um dos goleadores do clássico do Rio da Prata. O Uruguai foi exatamente o único país que enfrentou. Além do futebol e do rúgbi, ele praticou ainda polo, tênis e críquete.
Tios e sobrinhos
Na seleção, já ocorreram cinco situações de tio e sobrinho, uma delas já retratada no capítulo dedicado aos Solari. A primeira deu-se com os Díaz, ainda nos primórdios do selecionado.
Zenón e Octavio Díaz
Zenón Díaz é considerado o primeiro grande astro criollo do futebol nacional, embora a Argentina já tivesse convocado hispânicos anteriormente. Por sinal, ganhou espaço na zaga de uma equipe ainda carregada da influência britânica que a tinha originado, o Rosario Central, de sua cidade natal. Foi, por exemplo, colega dos Hayes. Como estes, também trabalhava na central ferroviária de onde surgiram os canallas, ali aprendendo a jogar futebol, onde inicialmente atuou como goleiro.
No que se refere a jogos oficiais, ele foi o primeiro convocado pela seleção vindo de um clube do interior argentino, atuando em partida de 1906 contra o Uruguai, uma vitória de 2 a 0 em Montevidéu.
Todavia, só voltou a defender a Argentina sete anos depois, e outros três se passaram para que jogasse por ela uma terceira vez. Foram seis jogos, todos contra os uruguaios, com quatro vitórias, um empate e uma derrota, e em quatro foi capitão. À beira dos 36 anos, e é ainda um dos mais veteranos a ter jogado pelo país, Zenón Díaz disputou o primeiro Sul-Americano, em 1916. Também foi festejado no atletismo.
Quatro anos depois, chegou à seleção seu sobrinho, o goleiro Octavio Díaz, também do Rosario Central e trabalhador da empresa ferroviária. El Oso, o Urso, não recebeu o apelido à toa: tinha um físico robusto que sabia aproveitar para cobrir sua meta.
Depois de dois jogos em 1920, atuou seguidamente pela Albiceleste entre 1926 e 1928, incluindo participações nos Sul-Americanos de 1926 e 1927, onde foi campeão, e nas Olimpíadas de 1928, em que defendeu um pênalti contra o Egito. Foi sua única partida nesta competição, em que o arqueiro titular foi Ángel Bossio.
Considerado um dos melhores goleiros do futebol rosarino, Díaz também foi um dos três jogadores de lá chamados para participar de celebrada excursão do Boca Juniors à Europa em 1925. Roberto Cochrane, do Tiro Federal, e Manuel Seoane, então no El Porvenir, foram os outros. Cesáreo Onzari, do Huracán, e Luis Vaccaro, do Argentinos Juniors, também se juntaram ao grupo para a ocasião.
No Velho Continente, também esteve no primeiro jogo da Argentina por lá, em amistoso contra Portugal antes dos Jogos de Amsterdã. Uma greve no futebol rosarino às vésperas da Copa de 1930 afastou sua convocação ao primeiro Mundial.
Dante Pertini e Alfredo Di Stéfano
Também nos anos 1920, um dos colegas de Octavio naquela viagem com o Boca fez sua única partida pela seleção. Trata-se do ponta-esquerda Dante Santiago Pertini, tricampeão argentino com o clube na época. Ele, autor de 31 gols em 63 partidas pelos xeneizes, tendo passado também pelo arquirrival River Plate, era tio de ninguém menos que Alfredo Estéfano Di Stéfano Laulhé, um dos maiores nomes do futebol em todos os tempos.
Alfredito, todavia, foi celebrizar-se assim no exterior, onde se tornou um jogador completo nas ligas colombiana e espanhola, sendo o maior ídolo da história do Millonarios e do Real Madrid. Sua passagem pelo futebol argentino não deixou de ser um fenômeno, com 65 gols em 97 jogos, entre River Plate, Huracán e seleção, mas ali ainda era um reles goleador rápido, e não ganhou o apelido de La Saeta Rubia, a Flecha Loira, por acaso, e fominha. No ano em que estourou no River, em 1947, chegou à seleção, participando do Sul-Americano do ano.
Pela Argentina, teve excelente média de um gol por partida, mas foram poucos: seis, todos no vitorioso Sul-Americano, onde ele não foi titular em todos os jogos. Ironicamente, a única vez em que atuou na terra natal por uma seleção foi defendendo os espanhóis, em amistoso de 1960 no seu velho conhecido Monumental de Núñez. O Sul-Americano de 1947, um ano antes de Don Alfredo embarcar ao Eldorado Colombiano e de lá para a Espanha, ocorrera no Equador.
Carlos Lacasia e Carlos Guerini
O terceiro caso de tio e sobrinho veio do futebol cordobês. O centroavante Carlos Lacasia havia sido revelado pelo surpreendente General Paz Juniors, apenas a quinta força local, atrás da dupla principal Belgrano e Talleres e da dupla secundária Instituto e Racing de Córdoba, vice-campeão em 1943 da Copa de la República para o San Lorenzo, vitrine que o levaria anos depois ao Independiente.
Já como jogador do Rojo, Lacasia jogou três vezes pela seleção em 1953. Sua estreia foi inclusive histórica por dois fatores: foi a primeira vitória de uma nação sul-americana sobre a Inglaterra, e ali a Argentina usou pela primeira vez cinco atacantes de um mesmo clube.
Naquele General Paz Juniors de 1943 um dos colegas de Lacasia era Alfredo Guerini, e a parceria se estendeu além dos gramados, com ambos se tornando cunhados. Em 1949, nasceu Carlos Guerini Lacasia, filho de Alfredo e sobrinho de Carlos.
Também revelado no Juniors, despontou nacionalmente no Belgrano, mas já estava no Boca quando estreou pela Argentina, em 1973. Ele inclusive marcou o gol da classificação à Copa do Mundo de 1974, mas a transferência ao Málaga o tirou do radar e ele foi esquecido na convocação final. Era um contexto em que ir à Europa mais atrapalhava do que ajudava, o que permaneceu mesmo com El Chupete destacando-se posteriormente no Real Madrid. Ele também conseguiu ser ídolo na dupla rival Belgrano e Talleres, com mais de uma passagem por ambos.
Rinaldo e Gerardo Martino
Os sucessores dos cordobeses foram rosarinos. Rinaldo Fioramonte Martino foi um dos maiores craques do futebol argentino, calhando de jogar naquele período sem Copas na Segunda Guerra Mundial.
Incrivelmente potente para a época, brilhou no San Lorenzo campeão de 1946, onde o Ciclón teve o ataque mais goleador da época, com 90 gols, superando até mesmo a tão afamada La Máquina do River. No embalo, o time fez uma excursão europeia que rendeu vitórias até sobre as seleções espanhola e portuguesa. Antes disso, Martino já brilhava também na seleção argentina campeã das Copas América de 1945, onde fez o gol do título encobrindo o goleiro uruguaio Roque Máspoli, e 1946.
Rinaldo Martino ainda seria campeão pela Juventus na temporada 1949-50, um título que não foi um scudetto qualquer: o time de Turim não vencia a Serie A havia quinze anos, jejum hoje impensável. Na campanha, ele chegou a ser usado uma vez pela seleção italiana, mas voltou ainda antes do fim à América, entediado com a falta de corrida de cavalos e perdendo chance de disputar pela Azzurra a Copa de 1950. Brilhou no Nacional uruguaio também, antes de uma passagem fracassada como veterano no São Paulo em 1953.
Gerardo Martino, por sua vez, encarou o Tricolor na final da Libertadores de 1992 como o capitão do Newell’s de Marcelo Bielsa. Tata Martino é justamente o profissional com mais jogos e títulos pela Lepra, participando ativamente do ciclo áureo entre 1988 e 1992, quando os rubro-negros ganharam três de seus cinco títulos argentinos, igualando-se em curto prazo aos do rival Rosario Central na época, e foram a duas finais de Libertadores.
Mesmo antes de as taças aparecerem, ele foi testado na seleção nos amistosos pré-Copa de 1986, embora não tenha ficado para a lista final. Esquecido também para a de 1990, o volante elegante ainda calhou de depois ter a concorrência de alguém ainda melhor, Fernando Redondo.
Os Martínez e os Gómez
O quinto caso de tio e sobrinho muita vez é divulgado como o dos Asad. Mas, apesar da grande diferença de idade, o setentista Julio Asad é primo do noventista Omar Asad. O quinto caso foi mesmo o dos Solari, com Santiago repetindo Jorge, da década de 1960, ao receber em 1999 a primeira convocação.
Por fim, o ano de 2011 rendeu a estreia do velezano Juan Manuel Martínez na seleção, no 2 a 1 sobre Portugal em 9 de fevereiro. El Burrito é herdeiro de duas linhagens do futebol argentino: o pai, Carlos Martínez, e o tio, Joaquín Martínez, defenderam o River nos anos 1970. Estes, por sua vez, são sobrinhos de outro Joaquín Martínez, reserva do timaço riverplatense dos anos 1940, La Máquina.
Mas o parente que também defendeu a seleção foi um tio materno de Juan Manuel: César Augusto Laraignée, colega dos irmãos Martínez no River do início dos anos 1970. El Turco acumulou onze jogos pela Argentina entre 1970 e 1971. Embora fosse um ótimo zagueiro, marcou dois gols em dois jogos seguidos contra a França. Isso e a possibilidade de dupla cidadania pela ancestralidade francesa chamaram a atenção daquele país, onde seguiria longa carreira, sobretudo no Stade de Reims.
Em 13 de junho de 2017, Alejandro Gómez estreou pela seleção principal, em 6 a 0 amistoso sobre Singapura, dez anos depois de ser campeão mundial com a seleção sub-20. El Papu Gómez é sobrinho materno de Hugo Villaverde, zagueiro ídolo de Colón e Independiente nos anos 1970 e 1980. Pela Argentina, Villaverde jogou um punhado de amistosos entre 1979 e 1980.
Primos, sogros, genros, cunhados e concunhados
Os primos
Dos casos incontroversos de primos, teriam ocorrido seis. Cinco deles relacionam Juan Brown aos cinco irmãos Brown, da família que abriu esta série. O outro é o dos cordobeses Carlos Timoteo e Mario Luis Griguol.
Os Griguol eram contemporâneos e jogavam no mesmo time, o Atlanta, mas nunca compartilharam um encontro pela Argentina. Timo, um ano mais velho, agia como um enganche do clube de Villa Crespo: aparentemente lento, ditava o jogo aos colegas a partir do meio de campo, sendo ainda bom cabeceador e aguerrido.
Ele participou do segundo Sul-Americano de 1959, o vencido pelo Uruguai, e do de 1963, além de alguns amistosos, totalizando onze partidas pela Albiceleste entre os referidos anos. Seu maior sucesso no futebol viria como técnico, onde manteve a qualidade estrategista que já exibia nos gramados. Na nova função, teve grande passagem naquelas que foram as melhores épocas de Ferro Carril Oeste, nos anos 1980, bicampeão nos dois únicos títulos argentinos dos verdolagas, e Gimnasia y Esgrima La Plata, na década seguinte, duas vezes vice nacional com os triperos. Fez sucesso também no Rosario Central, onde encerrara em 1969 a carreira de jogador, treinando o time campeão de 1973.
Já Mario, veloz mas não muito habilidoso na ponta-esquerda, prezava mais pelo oportunismo, jogando no erro do adversário. Chegou à seleção graças ao bom futebol daquele Atlanta, tradicional clube portenho hoje desaparecido das primeiras divisões, estreando pela Argentina exatamente com dois colegas seus nos bohemios: Luis Artime e Alberto González, que se firmariam nela e nos arquirrivais River Plate e Boca Juniors, respectivamente. Mario, por sua vez, jogou apenas quatro vezes pelo selecionado, todas em 1961, nenhuma delas na Argentina. Não venceu: perdeu três vezes e empatou a outra.
Outro caso de primos na seleção foi o dos Asad. Ambos tiveram trajetórias semelhantes: Julio Daniel Asad e Omar Andrés Asad foram ídolos do Vélez Sarsfield, sobretudo Omar, de gols decisivos em 1994 na final da Libertadores, sobre o São Paulo, e da Intercontinental, contra o Milan, que tiveram a carreira abreviada por lesões.
O meia Julio atuou sete vezes entre 1975 e o ano seguinte. No período, participou da Copa América de 1975, sendo uma das exceções em um elenco argentino repleto de jogadores do futebol santafesino, e nela marcando seu único gol pela seleção, em cobrança de falta na derrota de 2 a 1 para o Brasil no Mineirão. Foi um dos jogadores que César Menotti chamou no início de seu ciclo como técnico. Américo Gallego acabaria conquistando a posição no meio de campo de El Turco, prejudicado também pela lesão no joelho que o obrigaria a parar de jogar ainda aos 27 anos.
O atacante Omar, por sua vez, recebeu suas duas oportunidades em 1995, sem marcar. Ele ainda acredita que o técnico Daniel Passarella só dava oportunidades a jogadores do Vélez quando estes, incluindo El Turquito, já não estavam em seu melhor momento. Passarella, de fato, arranjou críticas por carregar a seleção de atletas ligados ao seu River Plate, a Rivercción, o que incluiu a surpreendente convocação de Abel Balbo, que tinha renunciado em 1996, cansado da reserva, no lugar do fortinero Christian Bassedas, que havia participado de todo o ciclo técnico do treinador, para a Copa de 1998. Ainda em 1995, Asad teve a primeira de suas quatro lesões no joelho, da qual nunca se recuperaria totalmente.
A diferença de idade entre os Asad gerou inclusive uma versão bastante difundida de que seriam tio e sobrinho. Em entrevista à El Gráfico, o repórter inclusive usou esses termos, mas o ex-atacante não deixou de referir-se a Julio como primo.
Sogros e genros: Solari e Redondo, Maradona e Agüero
Na seleção também passaram sogros e genros. Jorge Raúl Solari foi o técnico da boa campanha da Arábia Saudita na Copa de 1994, o único mundial do genro Fernando Carlos Redondo Neri pela Argentina.
El Príncipe de Madrid chegara à Albiceleste em 1992, após boas temporadas no Tenerife. Em dois campeonatos seguidos, em 1991-92 e 1992-93, o time das Canárias venceu o Real Madrid na última rodada da liga espanhola, na primeira delas virando um 2 a 0 para 3 a 2, permitindo que o título ficasse com o arquirrival merengue, o Barcelona. Os blancos caíram ainda por 3 a 0 em pleno Santiago Bernabéu na Copa do Rei de 1993-94. Redondo acabou contratado pelo próprio clube de Chamartín depois do mundial.
Sua classe encantaria os madridistas até 2000, mas, a despeito da conquista na Liga dos Campeões de 1997-98, em que o Real, já o maior vencedor da competição, quebrou jejum de mais de três décadas nela, acabou ficando de fora da Copa de 1998. Não se coadunava com a rígida disciplina do técnico Daniel Passarella, que jamais o teria utilizado em razão dos cabelos compridos de Redondo, uma medida que também afetou Caniggia, outro de fora do mundial, apesar do bom momento no Boca Juniors, e Batistuta, que concordou em aparar suas mechas, sendo chamado para a Copa da França.
A versão de Passarella é que o volante teria se recusado a atuar na meia-esquerda, como desejava o treinador. Outro mundial que Redondo perdeu foi o de 1990, quando ainda estava no Argentinos Juniors. Ainda sem ter defendido a seleção, recusou a convocação de Carlos Bilardo, de quem não gostava, com a justificativa de que queria priorizar seus estudos acadêmicos em Ciências Econômicas.
Quando Bielsa o chamou três vezes em 1999, Redondo, cuja corrida agenda no Real e seguidas lesões o atrapalharam para novas convocações depois daquelas, não atuava pelo país desde a eliminação na Copa dos Estados Unidos. Fechou o ciclo após declarar que não se sentia apto para corresponder às exigências da seleção. Jogou apenas 29 vezes, com um gol marcado, contra o Paraguai, nas eliminatórias para 1994.
O outro caso, o mais recente e famoso, também esteve em uma Copa, mas na mesma delegação. Na de 2010, o então técnico Diego Armando Maradona Franco convocou o marido da filha Giannina, Sergio Leonel Agüero del Castillo, que lhes deram em 2009 o primeiro neto, Benjamín.
O início da carreira de El Kun, justamente um dos novos Maradonas, trouxe semelhanças com a do célebre sogro: entre elas, debute profissional aos quinze anos e certo clamor, ainda que menos intenso, não atendido para que estivesse em uma Copa aos dezessete.
Agüero, já com transferência do Independiente, onde, em um clássico de Avellaneda em 2005, marcara diante do Racing gol similar ao segundo de Dieguito frente aos ingleses em 1986, ao Atlético de Madrid acertada, a mais cara do futebol argentino, ficou de fora do mundial de 2006, com José Pekerman preferindo Julio Cruz e Rodrigo Palacio além dos inquestionáveis Crespo, Saviola e Tévez para o ataque. A estreia do jovem pelo país viria na primeira partida pós-Copa, em derrota de 3 a 0 para os brasileiros em amistoso realizado em Londres que marcou também a chegada de Dunga e Alfio Basile nos comandos técnicos de Brasil e Argentina, respectivamente.
Agüero la rompió a partir do ano seguinte. Ainda pelo time sub-20, com o qual fora discretamente campeão mundial em 2005, foi o melhor jogador do mesmo torneio em 2007, tal qual Maradona em 1979, sendo um dos três bicampeões da categoria, além de artilheiro, enquanto a seleção principal amargava um vice na Copa América. Em seguida, consolidou-se no Atlético, após uma temporada de adaptação na Espanha.
Campeão olímpico em 2008, chegando a marcar dois gols nos 3 a 0 sobre o Brasil nas semifinais, também virou figura frequente na seleção principal, ainda que rotineiramente indo e voltando do banco em meio à concorrência com Tévez e Higuaín. Foi exatamente essa a sua condição na Copa de 2010, em que não marcou, e na Copa América de 2011.
A carreira de Agüero seguiria por mais uma década. Disputou ainda as Copas de 2014, quando a Argentina foi vice-campeã, e de 2018, e fez parte do elenco campeão da Copa América de 2021, no Maracanã, encerrando o jejum de 28 anos. Foi seu único título pela seleção principal. Meses depois, em dezembro de 2021, anunciou a aposentadoria precoce, aos 33 anos, por um problema cardíaco detectado em campo.
O sogro Maradona havia falecido em novembro de 2020, sem ver o título que Agüero ajudaria a conquistar.
Os cunhados dos primórdios britânicos
Houve ainda os cunhados Arnold Watson Hutton Pencliffe e Wilfred Stocks, e Carlos Buchanan e Arturo Jacobs, todos dos primórdios britânicos. Os dois primeiros conviviam ainda no rúgbi do Belgrano Athletic, sendo que Arnold praticava futebol no rival Alumni, e faria o mesmo no Belgrano posteriormente, com os dois últimos.
O atacante Watson Hutton e o ponta-esquerda Stocks, que praticara futebol e rúgbi também no Rosario Athletic, inclusive estrearam juntos pelo selecionado, em 1906, no que foi a única partida deste.
O centromédio Carlos Buchanan destacava-se pela raça, não fugia de divididas, mas também pelo cavalheirismo, o que certa vez lhe rendeu abraços de felicitação do próprio presidente Julio Roca. Também tinha personalidade forte, a ponto de ter imposto a escalação do colega Ernesto Brown, então com dezessete anos e ainda visto como apático em campo, para a partida de 1902 contra o Uruguai que é considerada por alguns como a primeira das duas seleções. Buchanan jogou outras quatro vezes, até 1908.
Já Jacobs, que também atuaria no Belgrano, protagonizou um fato curioso: seu único gol, marcado contra o Uruguai na primeira de suas oito aparições, em 1907, foi um olímpico. Embora oficialmente o primeiro gol assim seja dado a Cesáreo Onzari, outros dois já haviam sido convertidos, sendo de Jacobs o primeiro. Em ambos, a jogada foi validada em função de ajuda involuntária do goleiro adversário. Até então, se a bola entrasse diretamente, a jogada era tida como irregular. O gol de Onzari, em 1924, entrou para a história justamente porque foi o primeiro depois da mudança dessa regra, além de ter sido o primeiro de fato nomeado como olímpico.
Ohaco e Betúlar, do Racing heptacampeão
Também dos primórdios, mas da latinização, foram o polivalente Alberto Ohaco e o médio Ángel Betúlar, colegas do dominante Racing heptacampeão seguido entre 1913 e 1919, ainda um recorde.
Betúlar só figurou em um único jogo oficial, uma derrota de 2 a 0 para o Uruguai em 12 de setembro de 1915, em Montevidéu, pelo troféu binacional Copa Lipton.
Ohaco, por sua vez, segue sendo o maior artilheiro racinguista, com gols entre o fim dos anos 1900 e o início dos anos 1920, e foi inclusive o primeiro atleta que o clube enviou à seleção. Estreou oficialmente em 15 de agosto de 1912, em outra derrota de 2 a 0 pela Copa Lipton contra os uruguaios em Montevidéu. Pela Argentina, ele registrou sete gols em treze jogos, o último em 1918. Dois deles garantiram um 4 a 2 sobre o Brasil na Copa América de 1917.
Maschio e Cap, ídolos do Racing e técnicos da seleção
Outros cunhados na seleção foram Humberto Dionisio Maschio e Vladislao Wenceslao Cap, que não chegaram a atuar juntos por ela. Tornaram-se colegas em 1953, no Quilmes, sendo ambos contratados pelo Racing no ano seguinte. Além de os dois terem se tornado grandes ídolos da Academia, chegaram a treinar a Argentina.
Pela Albiceleste, Maschio estreou em 1956 e jogaria até o ano seguinte, em que integrou uma lendária linha de ataque com Omar Sívori, Antonio Angelillo, Osvaldo Cruz e o colega racinguista Omar Corbatta. Os chamados Carasucias de Lima marcaram 24 gols em seus seis jogos no Sul-Americano realizado na capital peruana, garantindo o título na penúltima rodada, em um 3 a 0 sobre o Brasil. Maschio marcou nove desses gols, sagrando-se o artilheiro da competição e, junto com Sívori e Angelillo, acabaria contratado pelo futebol italiano, no seu caso pelo Bologna.
Isso os fez perder a Copa do Mundo de 1958, já que apenas em 1972 é que a Argentina aceitaria convocar atletas que estivessem no exterior. El Bocha, com isso, jogou somente doze partidas pela terra natal, mas marcando igualmente doze vezes.
Na Itália, teve sua melhor fase na Atalanta, onde atuou entre 1960 e 1962, deixando de ser um goleador para, mais recuado, municiar os colegas. Acabou convocado com Sívori para jogar a Copa do Mundo de 1962 pela Azzurra, sendo inclusive o capitão dela, transferindo-se em seguida para a Internazionale. Após vencer, já pela Fiorentina, a Copa da Itália de 1966, acertou seu retorno ao Racing. Foi como veterano que se sedimentou no panteão dos blanquicelestes, sendo um dos líderes da Equipo de José campeã argentina já naquele ano e da Libertadores e Intercontinental, a primeira de um clube argentino, de 1967.
Jogou até o ano seguinte, assumindo a direção técnica da seleção uma semana depois de se aposentar dos gramados. A treinou por quatro jogos, uma vitória e três empates, sendo sacado ainda antes das eliminatórias para a Copa de 1970, para a qual o país não se classificou.
Foi uma situação quase inversa à que viveu o marido de uma de suas irmãs: Cap, conhecido como El Polaco embora fosse filho de um ucraniano com uma romena, assumiu o comando da Argentina em janeiro de 1974, após Sívori tê-la classificado para a Copa da Alemanha. Mas seu desempenho também não convenceu, sendo até o pior entre os técnicos que dirigiram o selecionado por ao menos dez jogos, exatamente a sua quantidade, com três vitórias, três empates e quatro derrotas.
Como jogador, o volante esteve em campo onze vezes por seu país e, como Maschio, também integrou uma Argentina campeã sul-americana, a de 1959. Estreou por ela justamente nessa campanha, após ter enfim conseguido um título no Racing, o do campeonato de 1958, já em seu quinto ano no time. Cap, depois, mudou-se para o Huracán, onde não se deu tão bem, só retornando à seleção em 1962, ali já como jogador do River Plate.
Como o cunhado, esteve na Copa do Chile, mas pela Argentina. Ambos não se deram bem no torneio, com suas respectivas equipes caindo na primeira fase e não os convocando mais. No caso de Maschio, por proibição da FIFA a partir dali para naturalizados que já tivessem defendido o país natal.
Outra coincidência entre Cap e Maschio: esses ídolos do Racing foram técnicos campeões no arquirrival Independiente, respectivamente no Metropolitano de 1971 e na Libertadores de 1973. Foi inclusive sob El Bocha, apelido relacionado à calvície, que outro Bocha passou a ser mais regularmente usado: ninguém menos que Ricardo Bochini, que debutara sob o comando de outra grande figura racinguista, Pedro Dellacha, e que se tornaria o maior ídolo do Rojo de Avellaneda.
Suñé e Larrosa
Os anos 1970 também tiveram outros cunhados, os volantes Rubén José Suñé e Omar Rubén Larrosa, que foram colegas no Boca, na virada dos anos 1960 para os 1970, e nos rivais Huracán, semifinalistas da Libertadores de 1974, e San Lorenzo, rebaixados em 1981. Os laços familiares foram criados ainda como jovens no Boca.
El Chapa Suñé se consagraria como o capitão xeneize que fez o gol do título argentino de 1976 em plena final com o River, para depois levantar os primeiros títulos auriazuis na Libertadores, no bi de 1977 e 1978, e no Mundial Interclubes de 1977. A despeito disso, não foi à Copa do Mundo de 1978, limitando-se a aparecer pela seleção entre 1969 e 1971.
Larrosa, por sua vez, não vingou no Boca, mas consagrou-se no Huracán campeão de 1973 com um belo futebol que credenciou seu técnico César Menotti a assumir a seleção. Afinal, aquele título também segue sendo o único do Globo no campeonato argentino desde 1928. Foi justamente Larrosa, ainda um ponta, o artilheiro do elenco campeão, mas só veio a estrear pela Argentina em 1977, já como jogador do Independiente.
Ganhou pelo Rojo o cardíaco título nacional daquele ano, em que o clube de Avellaneda superou-se com três jogadores a menos em meio a uma arbitragem caseira para o Talleres para marcar nos minutos finais fora de casa o gol do título. Larrosa fora um dos expulsos, exatamente por reclamar do juiz. No Mundial, ele foi reserva de Osvaldo Ardiles, sendo usado como titular no 6 a 0 sobre o Peru devido a uma lesão do colega, e também na final, substituindo-o no decorrer do jogo.
Os concunhados: Boyé e Pontoni, Bianchi e Veglio
Por fim, os concunhados, aqueles que se casaram com mulheres irmãs. O ponta Mario Boyé e o centroavante René Pontoni estiveram entre os maiores astros da geração dourada que o futebol argentino teve nos anos 1940. A fase era tão boa que a seleção faturou um tri seguido na Copa América, ainda um recorde.
Embora as edições tenham se dado em anos seguidos, em 1945, 1946 e 1947, a enormidade de bons jogadores era tanta que as escalações mudavam bastante de um ano a outro. Nisso, só cinco jogadores foram convocados às três edições. El Atómico Boyé, o primeiro ponta a ser artilheiro do campeonato, em 1946, e El Huevo Pontoni estavam entre esses cinco.
Boyé brilhava no Boca que, ao faturar o bi argentino de 1943 e 1944, conseguiu uma ironia histórica. Afinal, aqueles foram justamente os dois anos em que a versão mais famosa do ataque da célebre La Máquina do arquirrival River, com Juan Carlos Muñoz, José Manuel Moreno, Adolfo Pedernera, Ángel Labruna e Félix Loustau, jogou mais vezes junta.
O tal Pedernera, inclusive, era descrito por Alfredo Di Stéfano como o maior jogador que vira. Pois Pontoni conseguia ser-lhe um concorrente à altura na seleção, tapando-lhe a titularidade da Argentina campeã de 1945 antes de mantê-la em disputa com o próprio Di Stéfano na delegação campeã de 1947. Pontoni jogava no San Lorenzo que em 1946 foi campeão com o ataque mais goleador daquela saudosa década.
O elo familiar entre Boyé e Pontoni viraria até sociedade empresarial: criaram a pizzaria La Guitarrita, rede ainda em funcionamento, com unidades nos bairros portenhos de Núñez, Palermo, Villa Urquiza, Las Cañitas e até em Assunção, no Paraguai. Um dos sabores se chama Atómica, aliás.
Carlos Bianchi e Carlos Veglio foram outros concunhados. Antes de conseguir reconhecimento estrondoso como técnico, El Virrey foi um grande matador, acumulando nada menos que oito artilharias em ligas nacionais: três na Argentina, pelo seu Vélez, e cinco na França, por Stade de Reims e Paris Saint-Germain.
A ida ao futebol francês inclusive o prejudicou, pois na época ir à Europa mais atrapalhava do que ajudava a manter-se na seleção. As aparições de Bianchi pela Albiceleste se resumiram a catorze jogos entre 1970 e 1972, com sete gols marcados.
Veglio, por sua vez, destacou-se primeiramente no Deportivo Español que subiu pela primeira vez à elite, rumando ao San Lorenzo que em 1968 obteve o primeiro título invicto do profissionalismo argentino. Exatamente em 1968, Veglio estreou pela Argentina, pela qual jogou nove vezes dali até abril de 1970.
Ele posteriormente se destacaria também no Boca, sendo dele o único gol do clube nas finais da Libertadores de 1977, a primeira ganha pelos auriazuis, sobre o Cruzeiro. Veglio é justamente o homem que mais ganhou Libertadores pelo time, só não recebendo medalha na última delas, a de 2007: foi campeão como jogador também em 1978 e depois esteve nas quatro que os xeneizes levantaram entre 2000 e 2003, dessa vez justamente como assistente técnico do concunhado Bianchi.
Nota de edição
Este especial reúne as dez partes da série Familiares na Seleção Argentina, publicadas pelo Futebol Portenho entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013, com atualizações do autor até 2017, em um único texto. Nenhum trecho foi cortado.
Contexto para o leitor de hoje: a série foi escrita em 2012 e 2013, com atualização do autor em 2017. As referências ao momento dos jogadores então em atividade, como Diego Perotti e os Zárate, dizem respeito àquele período. O trecho sobre Agüero foi estendido até o encerramento da carreira dele, em 2021.
