O Gimnasia La Plata 125 anos remonta ao lema mens sana in corpore sano, de quando o clube ainda não jogava futebol.
Comemora-se na Argentina o cumple de um dos mais tradicionais clubes de futebol do país, o Gimnasia y Esgrima de La Plata. São 125 anos de história de um clube que até hoje apresenta particularidades curiosas e por vezes irônicas.
Nasceu rico, algo raro no mundo do futebol e ao contrário de instituições de origem miserável, que sequer tinham pano para forjar o uniforme, e jamais chegou à conquista de um título importante. Contudo, se massificou, ao contrário de alguns clubes que nasceram com origem popular. E embora o futebol tivesse a cara da massa e dos pobres, foi o esporte abraçado pelo clube, ao contrário de instituições com essa mesma origem, que deixaram o esporte bretão em prol de outras práticas mais sofisticadas.
As origens: mens sana in corpore sano
Nos idos de 1887, na exuberante La Plata, fundada apenas cinco anos antes sob criação planejada, para ser a capital da província de Buenos Aires depois que a cidade homônima se tornou distrito federal, os senhores das classes mais abastadas tinham a prática de dedicar o seu pouco tempo ocioso à prática de esportes. Não quaisquer esportes, mas alguns em especial. Dama, xadrez e outros. Dois, contudo, chamavam ainda mais a atenção.
A ginástica era um deles. Tratava-se de um esporte que dotava o corpo da sanidade necessária para encarar os desafios de construir uma La Plata com muito trabalho, mas também com muitas ideias, planejamentos e oportunismo, no bom sentido do termo. Daí a procura por esse esporte passou a ser algo muito cultivado entre os nobres. Corpo saudável era uma necessidade, pois a virilidade e a boa forma física eram o símbolo da boa saúde. Era necessário, portanto, ter um corpo são. Como não eram estúpidos, entendiam que a mente também.
Nesse sentido, se a ginástica era o topo, outro esporte era ainda mais valorizado, já que simbolizava aquilo que nem a ginástica, nem o xadrez ou a dama poderiam fazer à perfeição: a união do corpo e da mente em prol de um ser humano efetivamente sadio. Tratava-se da esgrima, prática que cobrava na mesma proporção os esforços do corpo e da mente.
Um grupo especial de senhores entendeu isso mais que todos os outros. Então resolveram se associar e fundar um clube só para eles. Afinal, na capital federal já existia uma instituição similar. Daí surgiu o Club Gimnasia y Esgrima de La Plata. No calendário da época, constava a data histórica de 3 de junho de 1887. Razão pela qual o Lobo é o mais antigo clube do futebol argentino.
Do ginásio para o campo: a chegada do futebol
Mas o futebol chegou somente em 1901. Não que antes não fosse praticado, mas na modalidade do que se conhece hoje como futsal. Era praticado dentro do ginásio e durante todo o dia. Várias competições internas e externas ocorriam ali. E pouco a pouco o futebol foi se configurando como o grande esporte do Lobo.
O futebol foi se afirmando por ser, já na época, um esporte de massa e que envolvia uma coletividade maior que a de quaisquer outros. Na esgrima, tinha-se uma dupla em disputa. No futebol, um número imenso de pessoas. Disso resultou que a interação e as relações entre a comunidade tripera eram amplamente favorecidas por esse esporte em especial. Contudo, uma regra de caráter convencional determinava que não somente dominó, dama, xadrez, esgrima e tiro continuassem, mas que também essas e outras práticas desportivas fossem incentivadas na instituição da esquina da calle 54 com a calle 5.
A partir do primeiro ano do século passado, o esporte bretão foi às ruas graças ao aproveitamento de alguns terrenos cedidos ao clube pelo governador Bernardo de Irigoyen. Então realizou-se a primeira partida de futebol na cancha do clube. Apenas um jogo besta entre duas equipes de sócios. Nada mais. Porém, este foi não somente o momento oficial em que o futebol de campo se iniciou na instituição do Bosque. Foi a representação de muito mais que isso.
Foi o momento em que se instaurou o contato com a massa. Marco histórico para o Gimnasia, pois é quando os triperos entram e se aprofundam no coração das pessoas simples do povo. Para muitos, o momento em que o Lobo finca estacas nesses corações, pois o sofrimento seria, a partir de então, um símbolo eterno do ato de torcer para a instituição basurera.
E as massas o acompanhavam por todos os cantos, nas disputas amadoras pelos bairros platenses. A identificação popular se confundia com uma espécie de adoração por uma instituição que, a despeito de sua origem nobre, caminhava rumo ao coração da gente sofrida de La Plata. Só que esse abraço popular ao Lobo não seria recompensado em forma de redenção. Um contrato com o obscuro parecia se estabelecer naquele momento e percorreria a história do clube feito uma das piores sinas do futebol: a repreensão, na garganta, do grito mais importante para um torcedor, o de campeão. Mesmo na era amadora, essa sina já marcava a história do honrado Gimnasia y Esgrima de La Plata.
As origens de La Plata e a massificação do Lobo
Até 1880, a cidade de Buenos Aires era a capital do país e também da província bonaerense. A partir dessa data, foi decretado que Buenos Aires seria somente a capital federal, o que deixava a província órfã de seu centro administrativo. Contudo, essa situação não foi bem aceita pelos provincianos, que nutriam um profundo orgulho de sua cidade principal. De repente ela foi como que sequestrada e cedida ao controle federal.
Disso resultaram duas coisas. Uma delas foi uma profunda revolta, que quase originou uma guerra civil, além do ressentimento e do sentimento de vingança. Este último como um braço de certo complexo de inferioridade que começava a se expandir nos corações dos bonaerenses.
A outra foi a necessidade de correr atrás do prejuízo e construir rapidamente um outro centro administrativo. Um edital foi anunciado nos quatro cantos do mundo sobre a necessidade de recrutar arquitetos e engenheiros para o desenho dos principais prédios públicos e do seu entorno. Da mesma forma, um número grande de operários passou a ser bem-vindo no pasto de La Ensenada, pouco habitado à época por nativos.
Dois anos depois, em 23 de outubro de 1882, a cidade de La Plata foi inaugurada e oferecida à província como uma espécie de pérola que em nada deixava a desejar em relação à então capital federal do país.
Pois bem, construída e inaugurada, a cidade se ressentia de sentidos, que também precisavam ser edificados, já que a nova capital não tivera infância nem passado. Isso em relação a tudo, inclusive quanto aos costumes sociais. De um lado estavam os ricos, políticos e funcionários do governo. Também parte considerável dos arquitetos e engenheiros, que resolveram adotar a cidade para viver e crescer com ela. O Gimnasia foi idealizado por essa gente e para a sua diversão.
De outro lado estava o povo, quase sete mil pessoas para quem ninguém pensava em nada. Além disso, os crioulos foram beneficiados com a redução da jornada de trabalho para oito horas diárias, o que lhes permitia dispor de um tempo ocioso para alguma diversão. Aos poucos, essa população começou a garimpar algum terreno dos aristocratas, em um processo que ocorreu na Argentina, na província de Buenos Aires, na cidade de La Plata e no clube Gimnasia y Esgrima. E, no plano do futebol, isso significava uma maior apropriação do esporte em relação aos ingleses.
O caráter crioulo do futebol e o destino do clube
E esse povo novo, os crioulos, que reivindicavam espaço, tinha uma particularidade. Em seu temperamento havia o elemento da agressividade, da impulsividade, do fervor exacerbado. Uma energia poderosa e por vezes obscura, que poderia ser canalizada para quaisquer coisas. Essa energia não era irmã da estratégia ou do cálculo frio de um esporte como a esgrima. Assemelhava-se ao contato ríspido, ao choque e à luta corporal. Também era irmã da velocidade, da continuidade, do movimento que se processa até o esgotamento físico.
O esporte que combinava com tudo isso era o bretão. E duas coisas facilitaram o processo: o fato de o Gimnasia passar a praticá-lo ao ar livre e a existência de inúmeros terrenos baldios por todos os cantos e também no entorno da cancha do Lobo, os chamados potreros.
Ora, toda essa energia escura era contrária à cordialidade com que os britânicos queriam dotar o futebol. Por esse motivo, vários clubes ligados aos ingleses desapareceriam, ao mesmo tempo em que o futebol crioulo, com seus clubes, ia ocupando o lugar deles. Nascido com pedigree, o clube do Bosque haveria de abraçar o caráter crioulo do futebol local para continuar a existir.
A mudança por dentro
Esse processo já era travado dentro do clube, antes mesmo de ele deixar o ginásio pelo ar livre. Um grupo de senhores que apreciava o futebol pelejava internamente para que o clube se voltasse ao esporte. Foi esse grupo o responsável pela adoção de sua prática internamente. Foi ele que batalhou até que o esporte fosse para fora dos muros do ginásio. Foi ele que incentivou e apresentou ao governador Irigoyen a proposta de incentivo a esse e a outros esportes ao ar livre, situação que tornou possível a doação ao clube dos terrenos para a prática do futebol de campo.
Nenhum deles era ligado ao povo. Mas era como se estivessem adivinhando o que poderia ocorrer. Se o Gimnasia não se tornasse um clube de futebol, era possível até que o Lobo não existisse hoje. Mais que isso: abriram caminho para a verdadeira identificação tripera com o caráter mais essencialmente argentino do esporte, o seu aspecto crioulo.
1905: o ano do começo e do fim
A resposta popular foi imediata. Todo mundo gostava de futebol e torcia pelo Mens Sana na cidade. As partidas amistosas foram se sucedendo. Em 1905, então, o clube associou-se à Argentine Football Association. Foram seis partidas na própria cancha, com nada menos que cinco vitórias e um empate.
Foram anotados 31 gols e sofridos apenas nove. Na estreia, uma vitória de 1 a 0 sobre a Asociación Atlética de Medicina. No elenco, nomes até hoje conhecidos no clube: Ramsay; Moreda e Roberts; Brocar, Larrain e Guesales Ferrando; Jalour, Sachten, Tolosa, Tellechea e Islas. Desses, o atacante Islas era banco.
Instaurada a competição, o clube foi para o zonal III da terceira divisão, que compreendia um total de oito disputantes. Nada da aberração do mata-mata. As disputas eram por pontos corridos, com partidas em turnos de ida e volta.
A temporada do Gimnasia em 1905, jogo a jogo
Gimnasia 1 x 0 Asociación Atlética de Medicina. Local: La Plata. Data: 5 de maio de 1905. Primeiro gol: Sachten.
Villa Ballester 4 x 1 Gimnasia La Plata. Local: Villa Ballester. Data: 21 de maio de 1905, às 14h30.
Gimnasia La Plata 5 x 1 Porteño. Local: La Plata. Data: 28 de maio de 1905.
River Plate 3 x 2 Gimnasia La Plata. Local: Dársena Sur. Data: 1º de junho de 1905.
Catedral al Norte 5 x 1 Gimnasia. Local: Adrogué. Data: 4 de junho de 1905.
Gimnasia La Plata 8 x 0 General Belgrano. Local: La Plata. Data: 11 de junho de 1905.
Asociación Atlética de Medicina 0 x 1 Gimnasia La Plata. Primeira vitória como visitante. Local: Dársena Sur, cancha do River. Data: 2 de julho de 1905.
Gimnasia 10 x 1 River Plate. Virou 5 e terminou 10. Local: La Plata. Data: 9 de julho de 1905, às 14h.
Colegio Militar 0 x 0 Gimnasia. Não houve a partida e o Lobo ficou com os pontos. Seria na cancha do Colegio Militar, que no entanto abandonou a competição justamente naquela data.
Porteño 3 x 3 Gimnasia La Plata. Local: cancha do Porteño. Data: 30 de julho de 1905.
Gimnasia 0 x 0 Colegio Militar. Não houve partida e o Lobo ficou com os pontos. Local: La Plata. Data: 5 de agosto de 1905.
Gimnasia 3 x 1 Catedral al Norte. Última partida na cancha. Local: La Plata. Data: 12 de agosto de 1905.
Gimnasia 1 x 3 Villa Ballester. Local: o Lobo atuou em uma cancha improvisada nas ruas 51 com 20, de propriedade do Club Friends, que disputava outro zonal. Data: 11 de setembro de 1905.
General Belgrano 0 x 0 Gimnasia La Plata. O Lobo já começava a viver suas crises e não se apresentou para o jogo. O Belgrano ganhou os pontos. Local: cancha do General Belgrano. Data: 17 de setembro de 1905.
A tabela final do zonal III
| Equipe | J | V | E | D | GF | GC | Pontos |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Villa Ballester | 14 | 10 | 3 | 1 | 30 | 12 | 23 |
| Porteño | 14 | 10 | 1 | 3 | 46 | 29 | 21 |
| Gimnasia y Esgrima La Plata | 14 | 8 | 1 | 5 | 36 | 21 | 17 |
| Catedral al Norte | 14 | 7 | 2 | 5 | 22 | 25 | 16 |
| General Belgrano | 14 | 8 | 0 | 6 | 20 | 29 | 16 |
| Asociación Atlética de Medicina | 14 | 4 | 2 | 8 | 14 | 35 | 10 |
| River Plate | 14 | 4 | 1 | 9 | 16 | 41 | 9 |
| Colegio Militar | 14 | 0 | 0 | 14 | 0 | 20 | 0 |
O título do zonal III ficou com o time do Villa Ballester, que embora tenha vencido a competição não ficou com o caneco, que coube à equipe C do Alumni, o clube mais poderoso da época. O terceiro posto foi um feito notável para o Gimnasia. Além do mais, o clube conseguiu a maior goleada da sua história justamente na primeira temporada. Já contam longínquos anos desde aquela tarde em que o River apanhou feio do Lobo, sem que jamais, na história, conseguisse descontar essa diferença.
Notável também era a visível força dos triperos dentro de seus domínios. Foi apenas uma derrota em casa, para o campeão do zonal III. Uma só. Mas ela não ocorreu por acaso.
A perda da cancha e o fim da primeira temporada
Poucos dias antes do duelo contra o Porteño, a equipe já sabia que ficaria sem o seu estádio. A Universidade local seria nacionalizada. No projeto de ampliação estava o uso do terreno onde o clube do Bosque tinha a sua cancha. No local seria construído mais um campus universitário, que caberia à Faculdade de Física e Matemática, além de um espaço menor que seria destinado à construção do Colégio Nacional. Até então, o Lobo não empatara nenhuma partida, nem dentro nem fora de casa, o que aconteceu justamente no cotejo diante do Porteño.
O jogo seguinte era o último na cancha que fez do Mens Sana uma equipe de massa. Era a despedida, e fazia por bem que o time levantasse o ânimo e vencesse pela última vez diante de seus torcedores. Fez 3 a 1 sobre o Catedral al Norte, mas o elenco não teve o menor ânimo de comemorar o triunfo. Na partida seguinte, que seria também diante da torcida tripera, o clube atuou na cancha do Friends. Perdeu por 3 a 1 para o Ballester, na única derrota em casa na competição.
Teria ainda um último jogo, como visitante, contra o General Belgrano. Sequer se somaram os onze titulares para ir ao encontro. Conta-se que um dos atletas foi encontrado caído próximo a um terreno baldio, todo sujo e bêbado. Alguns dizem que era o zagueiro albiazul Lartigue; outros, que era o meia Posadas. Não se sabe bem.
Do seio do Gimnasia nasce o maior rival
De qualquer forma, os dois jogadores, embora ainda não existisse a rivalidade de hoje, recusaram terminantemente vestir a camisa de um outro time, recém-fundado, para onde se dirigiu a maioria do elenco tripero.
Do seio do Gimnasia, portanto, nasceria o seu maior rival histórico. Mais que isso, a equipe que seria uma espécie de espelho em que o clube do Bosque veria, nas conquistas do rival, a sua própria história de frustração e de dor. Não porque o rival não fosse merecedor das glórias futebolísticas, mas porque, no Bosque, em 125 anos de história, uma sensação sempre conviveu com as frustrações: a de que o Mens Sana também poderia conquistar grandes títulos, já que nunca fizera menos do que o outro para chegar à glória.
Esse rival era o Club Atlético Estudiantes, a costela de Adão do velho Lobo do Bosque de La Plata.
Nota de edição
Este especial reúne as duas partes da série sobre os 125 anos do Gimnasia y Esgrima de La Plata, publicadas pelo Futebol Portenho em 2012, em um único texto. Nenhum trecho foi cortado.
Contexto para o leitor de hoje: o texto foi escrito em junho de 2012, quando o clube completava 125 anos.