
A manchete deste especial possui um problema. O torcedor fanático do Huracán afirmaria que o Metropolitano de 1973, conquistado em um 16 de setembro, não é o único troféu de Primeira Divisão do Globo. Já os torcedores de Rosario Central, Estudiantes de La Plata, Newell’s Old Boys e Vélez Sarsfield discordariam da afirmação que a equipe de Parque Patricios é o Sexto Grande, junto com Independiente, Racing, Boca Juniors, River Plate e San Lorenzo.
Sobre a questão do sexto grande clube de Buenos Aires, basta uma enquete para o Huracán. Em 2002, o jornal esportivo Olé divulgou os resultados de sua pesquisa popular acerca de quem era o Sexto Grande. De mais de 200 mil votantes, o Huracán consegue o primeiro lugar e o “título” com mais de 79 mil votos. No entanto, sobre o campeonato, há a necessidade de uma breve história.
Quando foi reorganizado em 1908, o Huracán estava em uma Argentina fascinada pela aviação. Em dezembro de 1909, o aviador Jorge Newbery bate um recorde ao cruzar com o seu balão aerostático por três nações, saindo do bairro portenho de Almagro, cruzando o Uruguai e chegando na cidade brasileira de Bagé. O nome do balão era Huracán, sem relação com o clube.
O fato não só comoveu os argentinos, mas também os dirigentes do Clube Atlético Huracán. Foi decidido que a equipe não teria um distintivo, mas sim uma insígnia: o balão Huracán, representado por um balão com a letra H. Faltava apenas a autorização de Newbery, considerado o pai da aviação argentina, para o clube colocar o uso do Huracán no peito das camisas brancas com golas vermelhas do clube.
A autorização chegou apenas em fevereiro de 1911 em uma carta de Jorge Newbery. Nela, o aviador escreve: “Para responder sua expressiva e atenta carta, na qual me solicitam minha conformidade para que vosso Clube possa usar o distintivo do balão Huracán, dou minha mais completa aceitação esperando que o team que o leve no peito, sabendo alcançar a honra correspondente ao balão que, em um único voo, cruzou três repúblicas”.
Com o Huracán no peito, o Huracán ultrapassa, consecutivamente, três divisões no futebol argentino, chegando à Primeira Divisão em 1914 com o título da Segunda Amadora em 1913. Ao conquistar esse título, os dirigentes mandam um telegrama a Newbery: “Cumprimos. O Club Atlético Huracán, sem interrupção, conquistou três categorias, acendendo à Primeira Divisão, tal como o balão que cruzou três repúblicas”. Surge assim o apelido do clube: El Globo, “o balão” em espanhol.
Dessa forma, o uso da insígnia do balão Huracán no peito já é um título para a equipe. Além disso, a equipe se orgulha de seu tetracampeonato amador (1921, 1922, 1925 e 1928). No entanto, após duas décadas gloriosas, o Huracán foi abandonado pelos títulos, embora ainda tivesse craques – o mais famoso, Di Stéfano.
Após suportar o ostracismo, El Globo decola na década de 1970, formando uma equipe que mudaria o jeito argentino de se jogar futebol. Após campanhas medianas em 1970 e 1971, o Huracán contrata para 1972 o jovem treinador César Luis Menotti, atacante recém-aposentado, que levou o Newell’s Old Boys, com um futebol ofensivo, ao 4º lugar do Metropolitano 1971 e às semifinais do Nacional 1971.
Assim, em 1972, o Huracán fica em 3º lugar no Metropolitano 1972 conseguindo tanto a artilharia – com Miguel Brindisi e seus 21 gols – como a vice-artilharia, pelos pés de Roque Avallay e seus 16 gols, superando o goleador sensação da época, Carlos Bianchi do Vélez Sarsfield. Por pouco, o Huracán não vai para as semifinais do Nacional 1972, já que as duas derrotas nas últimas rodadas, contra o Boca Juniors e o rival San Lorenzo, foram fatais para as pretensões de título dos Quemeros.
No entanto, o sonho de um título no profissionalismo é alcançado no Metropolitano de 1973. O Huracán, dirigido por Menotti, ganha o título na antepenúltima rodada, mesmo perdendo em casa para o Gimnasia y Esgrima La Prata por 2 a 1. O time campeão desse jogo possui vários ídolos do Globo: Roganti; Chabay, Cantú, Basile e Carrascosa; Leone, Russo e Quiroga (entrou Tolisano); Houseman, Del Valle (entrou Scalise) e Larrosa. No entanto, esse time não faz jus ao time que estrelou a maioria do campeonato que, tal como antigamente, tinha uma linha atacante que podia ser escalada com 5 nomes: Houseman, Brindisi, Avallay, Babington e Larrosa.
Vale a pena destacar alguns nomes. Alfio Basile, experiente zagueiro na época e membro da Academia que marcou o Racing em 1966-67 (período em que o clube tornou-se o primeiro argentino a vencer o Mundial), era um dos líderes da equipe, realizando churrascos para unir o grupo, junto com o seu colega de lateral esquerda, Jorge El Lobo Carrascosa, o capitão daquele Huracán.
O ponta direita René Houseman era conhecido pelo drible fácil e pela extrema velocidade de jogo. Além disso, Carlos Babington era o cérebro criativo da equipe durante a temporada e era protegido por Miguel Ángel Brindisi – que também não estava contra o Gimnasia – que tinha ótima recuperação e uma postura ofensiva que garantia vários gols de fora da área.
Roque Avallay era o centrovante da equipe, que tinha já a experiência de ter conquistado a Libertadores de 1965 com o Independiente. Por fim, vemos o nome de Omar Larrosa, ponta-esquerda que tinha acabado de voltar da Guatemala após um inicio tumultado de carreira onde foi pouco utilizado no Boca Juniors.
No Nacional de 1973, o Huracán perdeu a vaga no quadrangular final, onde seria o franco favorito, na última partida, quando empata em casa contra o Independiente por 2 a 2, deixando o caminho livre para o bicampeonato do Rosario Central. No entanto, a influência do El Globo foi tamanha que, para a Copa do Mundo de 1974, a seleção argentina leva 4 jogadores – Babington, Brindisi, Houseman e Carrascosa –, sendo que os três primeiros foram titulares na fraca campanha da Albiceleste.
Em 1978, por sua vez, Menotti seria o técnico que levaria à Argentina ao título mundial, fato que ele consegue com dois de seus ex-comandados Houseman (que ainda jogava no Huracán) e Larrosa (então no Independiente) e com outros dois que jogavam na época no Huracán: Osvaldo Ardiles e o goleiro reserva Héctor Baley. Carrascosa também deveria estar lá, onde seria até o capitão da Albiceleste, mas, politizadíssimo, recusou-se.
Dessa forma, o Metropolitano de 1973 pode ter sido o único título, até agora, profissional do Huracán. No entanto, foi um título que marcou época e influenciou a forma argentina de se jogar futebol.