Os jogadores e técnicos que vestiram Boca e River

Os jogadores de Boca e River que vestiram as duas camisas têm em Norberto Menéndez o único nome unânime nas duas torcidas.

Entre agosto e setembro de 2013, o Futebol Portenho publicou quatro textos sobre o que aproxima Boca Juniors e River Plate, apesar da maior rivalidade do futebol argentino. Este especial reúne os quatro na íntegra.

Os elementos em comum entre Boca e River

Primeira parte

Enfim, o provável capítulo mais esperado da série, apropriadamente deixado para o final. Hoje é dia de falar dos principais jogadores a passarem pelos polos do Superclásico argentino. Evento tão grande que teremos de dividir o especial em mais de uma parte.

Nenhum duelo teve tantos jogadores que por ambos passou pela seleção: Boca-River já tiveram doze, possibilitando um time titular com goleiro, defensores, meias e atacantes. As demais rivalidades – incluindo, aí, as estrangeiras – tiveram no máximo dois, a não ser que abranjamos para clássicos “indiretos”: assim, os que mais chegam perto são os duelos que a dupla faz contra o Racing, a ter cinco jogadores em comum com o River na Albiceleste e outros cinco com o Boca.

Cerca de uma centena de jogadores já vestiram as duas camisas, incluindo alguns estrangeiros (como o paraguaio Julio César Cáceres, ex-Atlético Mineiro). Mas em que pese o número elevado na seleção, só dois chegaram a ponto de ficarem bem lembrados de forma mais equivalente nas duas maiores hinchadas da Argentina. Nesta primeira parte, falaremos deles e, com menos rigor, de ao menos dois outros nomes únicos na rivalidade.

Se há um nome unânime nos dois lados, é o deste meia-atacante. Quando a El Gráfico publicou edições especiais sobre os cem maiores ídolos dos cinco grandes, Beto foi o único presente em comum nas de Boca e River. Os livros oficiais dos centenários de ambos ( River, El Campeón del Siglo e The Book of Xentenary ) também têm verbetes de destaque para ele. Pudera: jogou nos anos 50-60, época em que a glória máxima em um clube ainda se resumia a vencer o campeonato argentino. Menéndez venceu três por ambos. Nenhum outro conseguiu algo perto.

Estreou no River em 1954, justo em vitória sobre o Boca na Bombonera. Mesmo com só 17 anos, jogou meio campeonato. Ganhou ainda mais espaço após a saída do titular Walter Gómez. Com bom arranque e toques curtos, fez grande dupla com outra revelação, Omar Sívori, com quem foi tri seguido de 1955-57. Até então, só o Racing era tri seguido profissional. No embalo, chegou à seleção.

Foi o autor do primeiro gol argentino em eliminatórias de Copa e, na Suécia, foi o centroavante titular. Mas a desastrosa campanha (lembre aqui ) abalou por um tempo o River, base da Albiceleste. O tetra seguido passou distante em 1958. O rebelde Menéndez, cheio de suspensões por indisciplina, saiu em 1960, para o Huracán, uma fachada para que não fosse diretamente ao Boca. Nos auriazuis, chegou em 1961 e passou a jogar mais recuado, para municiar os gols do brasileiro Paulinho Valentim.

Virou um grande gozador do ex-time: foi sobre o River que o Boca venceu os três títulos com Menéndez, que se dava bem nos clássicos. Marcou 5 pelo Millo e dois pelo rival: em 1964, marcando o gol do empate que deu o título ao Boca na penúltima rodada. Em 1965, ao fazer a 3 minutos do fim o gol da vitória de virada que pôs seu clube isolado na liderança. Já havia vencido o de 1962, eternizado pelos brasileiros Valentim e Delém (veja aqui ). Estes três clássicos estão entre os dez eleitos favoritos do Boca pelo The Book of Xentenary.

Depois de Menéndez, quem mais se aproxima de ser tão prestigiado nos dois é o lateral titular da Argentina campeã mundial em 1978. Ele foi bicampeão nacional por ambos. No Boca, teve o plus de ganhar ainda a primeira Libertadores bostera, em 1977, sobre o Cruzeiro, além de ter sido campeão em 1976 sobre o próprio River, na primeira ocasião em que ambos decidiram o campeonato em uma final oficial. O problema foi a maneira que saiu do clube…

Uma versão de que ele seria torcedor do River mas que começara no Boca por morar mais próximo da Bombonera foi divulgada, mas em 2013 Tarantini esclareceu que era boquense, mas ficou desgostoso com um suposto desprezo do presidente Alberto Jacinto Armando (cujo nome é o oficial da Bombonera) para com a morte do pai do jogador.

O lateral então não renovou seu contrato em 1977. Foi campeão mundial em 1978 oficialmente sem clube: Armando teria negociado com outros clubes argentinos para que não contratassem o jogador, que após a Copa conseguiu emprego na Inglaterra, no Birmingham City.

Em 1979, foi ao Talleres e, dali, ao River em 1980, ano em que Armando deixou a presidência do Boca. Tarantini passou a jogar de zagueiro central, formando boa dupla de marcadores com Daniel Passarella. Foi logo campeão e o seria também em 1981. Titular também na Copa de 1982, foi um dos que jogaram pela Argentina a partir de ambos. A El Gráfico o elegeu entre os cem maiores ídolos do River, mas não nos do Boca. Por outro lado, o mencionado The Book of Xentenary o colocou entre os cem principais jogadores dos primeiros cem anos boquenses.

Dos que já passaram pela seleção ou dos campeões em ambos, a maioria se destacou individualmente só em um. Destes dois referenciais (seleção e títulos), objetos das próximas partes, antecipamos exemplares únicos de cada.

Francisco Taggino foi simplesmente o primeiro que a Argentina usou do Boca, há cem anos, em 1913, no que falamos aqui. E foi também o primeiro em comum nela a partir da rivalidade: em 1916, fez sua primeira partida pela seleção como jogador do River.

O detalhe é que ele conseguiu isso em uma época onde ambos estavam por demais distantes do porte atual: eram apenas rivais de bairro, o de La Boca. Quando Taggino esteve na Albiceleste, a dupla simplesmente não havia ainda sido campeã nacional: os xeneizes o seriam só em 1919 e o rival, um ano depois. Na época, o Superclásico era apenas El Clásico Boquense ( veja ). Durante a era amadora (1891-1930), ele foi o único alçado pelo dérbi à seleção. E o segundo só conseguiria o mesmo em 1950.

Alfredo Di Stéfano tem história no futebol por inúmeras razões. A maioria, relacionadas ao que fez no Real Madrid. Se seu passo pelo River também é conhecido, um detalhe que poucos sabem é que, já como técnico, até hoje só ele foi campeão na dupla. Apesar de mais ligado ao River, ele já declarou apreciar ambos: “Me sinto riverplatense, mas como tinha toda a família em La Boca, sou meio boquense, e não tenho inveja, nem ciúme, nem ódio, nem nada, é um clube extraordinário”.

Começou no River em 1945, mas só triunfou dois anos depois; falamos aqui. Mas em 1948, veio uma greve de jogadores que, não atendida, levou muitos participantes ao exterior. Di Stéfano foi um deles e só a partir dali viria a se tornar um jogador completo. Primeiro, no Millonarios colombiano e, depois, no Real. Voltou à Argentina ao fim dos anos 60 para treinar o Boca. Foi campeão nacional em 1969 com só 1 derrota em 17 jogos, com o título vindo exatamente sobre o River em pleno Monumental, em um 2-2. É outro clássico listado entre os “dez mais” pelo The Book of Xentenary.

O time só voltaria a ser campeão em 1976.

La Saeta Rubia ainda voltou a trabalhar nos xeneizes em 1985, quando viviam sua pior crise. Nesse meio-tempo, ele trabalhara no River em 1981, em um time que contratou ele e Mario Kempes para responder à ida de Maradona ao Boca. Os reforços corresponderam e os millonarios foram campeões pela última vez até 1986.

Clique nestas outras rivalidades para acessar seus elementos em comum:

Boca-Racing, River-Independiente, Independiente-San Lorenzo, Racing-San Lorenzo, Racing-Independiente, River-Racing, Boca-Independiente, Boca-San Lorenzo, River-San Lorenzo, Boca-River II,

Boca-River III e Boca-River IV. No mesmo estilo, também fizemos a da rivalidade San Lorenzo-Huracán.

Segunda parte

Nesta segunda parte, falaremos dos campeões em comum por Boca e River. Algo mais raro do que poderia: na maior parte do tempo, os rivais não estiveram juntos em boa fase. E, quando estiveram, a rivalidade naturalmente ficou mais ferrenha, inibindo transferências entre si.

Mesmo assim, ser campeão nos dois não chega a ser um atestado de idolatria mútua. Há até casos de jogadores campeões em um lado mas que acabaram mais adotados no outro, ainda quem sem taças nele: nada menos que Caniggia e Batistuta viveram isso, ambos reservas em elencos vencedores do River e depois de brilho individual maior no Boca. No especial anterior ( clique aqui ), já abordamos três que se encaixariam neste:

Norberto Menéndez, Alberto Tarantini e (como técnico no Boca) Alfredo Di Stéfano. Vamos aos demais:

Os primeiros foram Alfredo Elli e Alfredo Martín, quando a dupla era apenas rival de bairro, em La Boca, longe de magnitude atual. Em 1914, foram titulares no primeiro troféu internacional do River, a Copa Competencia, torneio travado entre clubes das associações argentina (apesar do nome, restrita a Buenos Aires e arredores), rosarina e uruguaia. Um ano depois, Elli virou sócio do Boca e foi caudilho do meio-campo boquense até resolver parar, em 1927. Com noção de posicionamento e um raçudo vaivém entre a defesa e o ataque, estilo que se tornaria muito apreciado pela torcida xeneize para seus meias, compensava a falta de técnica.

Ganharam os primeiros títulos argentinos auriazuis, em 1919, 1920 e 1923. Martín, que jogava no flanco esquerdo do ataque, passou primeiro ao Tigre, onde chegou à seleção. Manteve-se nela quando chegou ao Boca, em 1918, jogando a Copa América de 1919. Também neste ano, Elli e Martín (que em 1919 foi ainda o artilheiro do primeiro campeonato argentino vencido pelo Boca), agora bosteros, venceram outra Copa Competencia. Depois deles, houve os casos do meia Camilo Bonelli e Ricardo Zatelli, os primeiros vira-casacas da era profissional.

Bonelli até jogou uma vez pela seleção, em 1930, vindo do Millo. Eles tiveram participação média no campeonato de 1932, que foi só o segundo que o clube, ainda um emergente, venceu – jogaram 11 e 10 vezes, respectivamente, com Zatelli marcando o último gol dos 3-0 na final contra o Independiente ( veja ). Chegaram em 1934 ao Boca, onde Bonelli atuou só 3 vezes no time campeão argentino naquele ano. Zatelli jogou 8 em 1934 e 15 em 1935, quando o clube foi bi. Mas sua continuidade foi só um pouco maior que a de Bonelli e saiu em 1936.

Juan Vairo fez o inverso: do Boca, onde foi campeão em 1954 jogando só 5 vezes, ao River (depois de escalas na Juventus e no Liverpool uruguaio), onde seu irmão Federico Vairo era ídolo (jogou a Copa de 1958). Já Juan não teve êxito, jogando só 3 vezes no time campeão de 1957. Depois desse torneio, o River viveu jejum de 18 anos sem ganhar nada e perdendo de forma traumática algumas taças.

A seca acabou em dose dupla: em 1975, faturou tanto o Metropolitano quanto o Nacional, os dois torneios que dividiam o calendário anual dos principais clubes do pais. O ponta Carlos Salinas esteve presente, mas muito pouco: só 3 vezes no Metro e uma no Nacional. Torcedor do Boca, se deu muito melhor no rival: fez até um dos gols nos 3-0 sobre o Borussia Mönchengladbach na Intercontinental de 1977, dentro da Alemanha, na primeira vez em que os xeneizes venceram o torneio. Veja aqui.

Carlos Morete era outro participante do dourado 1975 millonario, mas como protagonista, sendo até o artilheiro do Metro.

El Puma foi um dos principais atacantes do River, e grande carrasco do Boca, no qual marcou 9 gols em 13 jogos só pela Banda Roja. Tais fatores o prejudicaram quando chegou aos auriazuis em 1981, ainda mais tendo a concorrência de Miguel Brindisi e Maradona no ataque. Na sombra deles, foi campeão do Metro daquele ano.

Um dos titulares do tal Metro 1981 foi o zagueiro Oscar Ruggeri. Ele era ídolo e recentemente até se declarou torcedor do Boca. Mas não aguentou a terrível crise econômica vivida pelo clube a partir de 1982, a atingir também outros grandes clubes do país. Em 1985, forçou transferência para o River juntamente com o atacante Ricardo Gareca. E ter ganhado tudo em Núñez (em 1986, foi campeão argentino e venceu as primeiras Libertadores e Intercontinental do Millo, fora a Copa do Mundo) só fez El Cabezón receber ainda mais antipatia xeneize.

Em troca por Ruggeri e Gareca, o River mandou ao Boca o defensor Julio Olarticoechea e o meia Carlos Tapia. Como Ruggeri, ambos estiveram na Copa de 1986; são os únicos jogadores que, como xeneizes, venceram o mundial.

El Chino Tapia teve diversas idas e vindas pelo Boca, em quatro diferentes passagens: é quem mais foi e voltou ao clube, pelo qual venceu o Apertura 1992. Desde aquele Metro 1981, o time não era campeão argentino:

Em 1990, o então atacante Sergio Berti, reserva no título da Supercopa Libertadores 1989, se via rompido com a direção técnica boquense e teve seu passe adquirido pelo empresário Gustavo Mascardi, que o repassou ao River.

La Bruja Berti se converteria em um bom volante-esquerdo que passou três vezes pelo Millo nos anos 90, com velocidade, panorama, bom toque e até alguns gols – pecava só pelo temperamento forte. Venceu seis campeonatos argentinos e a Supercopa 1997, último troféu internacional do time

Outros colegas de Tapia em 1992 foram o meia-armador José Luis Villarreal e o atacante Gabriel Amato.

Villita não só era titular como também jogador de seleção. Mas já em 1993, passou ao rival, não se eternizando como ídolo boquense. Não se deu bem com a troca: foi reserva nas taças do Apertura 1993 (4 jogos) e 1994 (2) e perdeu lugar na Copa de 1994. No Apertura 1994, foi novamente colega de Amato, que saíra antes do Apertura 1992, tendo vencido a Copa Master da Supercopa.

No River, Amato ficou até 1996. Ainda que nunca tenha sido titular absoluto, conseguiu mais espaço. Participou ativamente da primeira vez em que a Banda Roja foi campeã argentina invicta, no Apertura 1994, além de ter vencido a Libertadores 1996, ainda hoje a última de Núñez. Ele, que era torcedor boquense, até passou a preferir o grande rival. Lembre aqui.

O campeão em comum mais recente evidencia a grande fase do Boca e o declínio apresentado pelo River neste início de século. O zagueiro Jonathan Maidana venceu nada menos que uma Libertadores pelos auriazuis (a última deles, em 2007) e uma 2ª divisão pelo River, em 2012. Apesar do contraste e de ter sido do Boca desde os juvenis, se apegou a onde está atualmente, a ponto de ter tatuado em si a data em que o Millo garantiu seu regresso à elite.

Atualizações após a matéria: Maidana venceria também o Torneio Final 2014, a superfinal 2013-14, a Sul-Americana 2014 e a Libertadores 2015 pelo River. Em algumas dessas campanhas foi colega de Bruno Urribarri, presente no Boca também em 2007 mas sem participar da Libertadores ou de outras campanhas campeãs do rival. Na Libertadores 2015, foi colega do volante Nicolás Bertolo, outro reserva no Boca durante a Libertadores 2007. Ambos se tornaram os primeiros a vencer o torneio pela dupla.

Considerando os técnicos, o Boca tem larga vantagem. Quatro grandes ídolos do River já treinaram elencos campeões do rival; o inverso não ocorreu. Já falamos de Alfredo Di Stéfano (único campeão por ambos como treinador, além de campeão como jogador pelo time de Núñez) no especial anterior. No Boca, ele treinou os campeãos nacionais de 1969.

No bi de 1964-65, o clube teve três técnicos, a começar por Aristóbulo Deambrossi, ponta riverplatense na virada dos anos 30 para os 40. Também foi vice para o Santos de Pelé na Libertadores 1963. Depois, ninguém menos que Adolfo Pedernera, considerado por Di Stéfano o melhor jogador que viu, centroavante de La Máquina, como era chamado o grande esquadrão do River nos anos 40 – foi só após a sua saída, em 1946, que Di Stéfano conseguiu ser titular.

Pedernera também começou treinando o time que seria campeão em 1965, mas um acidente de carro o forçou a deixar o comando para o ex-zagueiro Néstor Rossi, ex-colega dele e de Di Stéfano no River dos anos 40 e no poderoso Millonarios de Bogotá nos anos 50. Esse bi é muito lembrados pelo Boca ter levado a melhor em Superclásicos decisivos nas retas finais, com os gols dos triunfos sendo de Norberto Menéndez, que nos anos 50 já havia sido tricampeão pelo River. Falamos dele no especial anterior.

Clique nestas outras rivalidades para acessar seus elementos em comum:

Boca-Racing, River-Independiente, Independiente-San Lorenzo, Racing-San Lorenzo, Racing-Independiente, River-Racing, Boca-Independiente, Boca-San Lorenzo, River-San Lorenzo, Boca-River I,

Boca-River III e Boca-River IV. No mesmo estilo, também fizemos a da rivalidade San Lorenzo-Huracán.

Terceira parte

Nesta terceira parte, abordaremos o grupo daqueles que defenderam a Argentina tanto por Boca quanto por River. Foram um total de doze jogadores; número que, como já antecipamos na 1ª parte ( aqui ), é o maior de um clássico em relação à Albiceleste, com as demais – incluindo estrangeiras – oferecendo no máximo dois cada, a não ser que sejam considerados alguns clássicos “indiretos” (Boca-Racing e River-Racing são o que mais se aproximam, com cinco cada).

Se o Boca tem vantagem em expressão e taças internacionais e em vitórias no dérbi, e o River é superior em conquistas nacionais, em um ponto se equivalem: estão empatados em número de jogadores que, vindo deles, jogaram pela seleção. Cada um teve 145 (caso Fernando Gago, que estreara por ela já pelo Real Madrid, jogue contra o Paraguai, seu Boca ultrapassará o rival), dos quais doze em comum. Já abordamos alguns nesta série. No primeiro capítulo ( aqui ), falamos de Francisco Taggino e Alberto Tarantini. No segundo ( aqui ), de Oscar Ruggeri, Carlos Tapia e José Luis Villarreal.

Taggino foi duas vezes um pioneiro. Este ponta-esquerda foi o primeiro jogador do Boca na seleção, realizando dois jogos contra o Uruguai há cem anos, em 1913. E foi o primeiro em comum da rivalidade: seu jogo seguinte, em 1916, foi pelo River, pelo qual esteve outras duas vezes na Albiceleste, em 1917 e 1919. Foi o único da era amadora da rixa na seleção. E, também nada desprezível: em um tempo em que a dupla, ainda apenas rival de bairro (em La Boca) não havia ainda sido campeã argentina.

Mais de trinta anos se passaram para um segundo elemento. E também já falamos dele recentemente: o atacante José Manuel Moreno, a quem dedicamos um especial há cerca de dez dias ( aqui ). Tido pelos portenhos mais antigos como ainda melhor que Maradona, Moreno foi um dos principais craques argentinos dos anos 30 e 40, uma geração de ouro ocultada pela Segunda Guerra.

Entre 1936 e 1947, Moreno jogou 32 vezes pela Argentina vindo do River Plate, onde se consagrou (foi pentacampeão pelo clube), embora curiosamente fosse torcedor do Boca. Passou rapidamente pelo rival em 1950: os auriazuis quase haviam sido rebaixados no ano anterior e, com El Charro, foram vice-campeões. Seu desempenho o fez jogar outras duas vezes, naquele ano, pela seleção.

Duas décadas e meia depois, veio o terceiro, o goleiro Hugo Gatti, recordista de jogos do campeonato argentino, 765. Sua carreira aconteceu só em seu país, entre 1962 e 1988. Revelado no Atlanta, o fanfarrão Gatti passou ao River em 1964, alternando-se com o mito Amadeo Carrizo nas traves. Foi convocado para a Copa do Mundo de 1966, mas só em 1967 fez seus dois primeiros jogos pela Argentina. A fase má fase do River, que nada ganhou entre 1957 e 1975, não o ajudou.

Já veterano, ressurgiu justo em 1975, no Unión, jogando a Copa América vindo do clube de Santa Fe. Dali, passou ao Boca em 1976, ano em que venceu tanto o Metropolitano quanto o Nacional, os dois torneios anuais dos principais clubes do país. Foi o titular ainda nas primeiras Libertadores (bi de 1977-78) e Intercontinental (1977) vencidas pelos xeneizes. Manteve-se na seleção e era cotado para ser titular na Copa de 1978. Mas acabou fora dos planos de Menotti ao pedir dispensa para repousar de uma lesão. Jogou pela Argentina até junho de 1977, com doze partidas como boquense.

Um dos colegas de Gatti naquele Boca de 1976-77 foi o lateral Tarantini, desde 1974 na seleção. Jogou 22 vezes pela Argentina como bostero, até 1977. Em desgaste com o presidente Alberto Jacinto Armando (nome oficial da Bombonera), não renovou seu contrato e jogou sem clube a Copa de 1978. Após escalas no Birmingham City (foi um dos primeiros argentinos no futebol inglês) e no Talleres, chegou em 1980 ao River. Manteve-se na seleção por outros 23 jogos, até a Copa 1982, onde também foi titular.

El Conejo é um raríssimo personagem de sucesso em ambos.

Depois da Copa 1982, a dupla entrou em crise financeira, assim como todo o país no período final da ditadura, momento agravado também pela Guerra das Malvinas. O Boca sofreu mais, chegando a ter a Bombonera simplesmente fechada em 1984. Não aguentando mais, dois de seus símbolos forçaram uma greve de jogadores só encerrada com polêmica saída ao rival no início de 1985:

Ruggeri e o centroavante Ricardo Gareca. Em troca, o River passou Julio Olarticoechea e Tapia ao Boca. Todos os quatro seriam novos elementos em comum e só Gareca não foi à Copa 1986.

O próprio Gareca, porém, teve papel decisivo na Copa, já que foi seu o salvador gol da classificação ao torneio. Promessa do Boca, estreou pela Argentina em outubro de 1981, após voltar de satisfatório empréstimo do Sarmiento de Junín e enfim se firmar nos auriazuis (marcava muito no River: 8 gols em 14 jogos). Em 1983, teve seu outro grande momento na seleção: fez o gol da vitória de 1-0 no Brasil que encerrou o maior jejum da Albiceleste contra o rival, treze anos sem vencê-lo.

Foram 20 jogos e 5 gols de El Tigre como boquense, até 1984. No primeiro semestre de 1985, realizou outros seis, já pelo River, com um gol, aquele salvador. Mas resolveu ir no meio do ano ao América de Cali. Embora o time estivesse poderoso, sendo trivice na Libertadores de 1985-87, isso lhe atrapalhou. Não jogou mais pelo país, ao contrário do colega Ruggeri, que estreara pela seleção em 1983, seguiu no River e foi membro ativo do grupo que ganhou tudo em 1986: nacional (o primeiro desde 1981) e as primeiras Libertadores (sobre o América de Gareca) e Intercontinental do Millo.

Ruggeri, que também foi titular na vitoriosa Copa do Mundo de 1986, ficou no River até 1988. O zagueiro defenderia a seleção ainda pelo San Lorenzo, na Copa de 1994. Só El Cabezón jogou por ela vindo dos três grandes clubes da cidade de Buenos Aires. É também quem mais jogou pela Argentina vindo de clubes diferentes, oito, dentre eles também o Real Madrid (na Copa de 1990) e o Vélez. Pelo Boca, foram 9 jogos entre 1983-84 e pelo River, 30 entre 1985-88.

Fora Ruggeri, só outro jogou pela Argentina por três dos cinco grandes clubes do país, o volante (ou zagueiro) Olarticoechea, que foi a três Copas como jogador de cada um deles. Em 1982, como jogador do River, embora só estreasse pela seleção em 1983, jogando 3 vezes. Os jogos seguintes só viriam a partir de abril de 1986, pelo Boca: dois amistosos pré-Copa e todos os sete jogos da Argentina no mundial. Em 1987, passou ao Nantes.

El Vasco esteve na Copa de 1990 como jogador do Racing, clube do coração e onde surgira nos anos 70 e a para o qual voltara em 1988.

Tapia surgiu como um meia-armador canhoto ao estilo classudo bem apreciado no River. Ainda promessa, estreou pela Argentina em 1980, jogando uma vez como millonario. Mas nunca explodiu em Núñez. Voltaria à seleção só em maio de 1986, já vindo do Boca. Tem história nos auriazuis: ao lado de Olarticoechea, é o único campeão mundial pela Argentina vindo do clube. E foi quem mais foi e voltou a ele, tendo quatro diferentes passagens pelos xeneizes. Esteve por eles de 1986-88 na seleção, em nove jogos: dois na Copa 1986 e quatro na Copa América de 1987.

Outro meia ofensivo, Villarreal, foi o próximo. Foi uma das opções pensadas por Alfio Basile, estando desde o início do primeiro ciclo do técnico na Albiceleste: estreou em 1991. Mas nunca se consolidou; o único torneio acabou sendo a primeira Copa das Confederações, em 1992, ano em que foi campeão argentino pelo Boca – que não ganhava nada nacionalmente desde 1981 ( veja ). Mas, em meados de 1993, passou ao River. Jogou em agosto contra o Paraguai seu último jogo pela Argentina e o único como millonario: passou à reserva ali e perdeu de vez lugar na Copa 1994. Pelo Boca, 7 jogos.

A seguir, um nome conhecido dos brasileiros:

Claudio Caniggia. Como Moreno, Gatti e Tapia, foi um torcedor do Boca que surgiu no River (lembre aqui ).

El Pájaro esteve no vitorioso ciclo 1985-86 do Millo, mas na reserva. Ainda como joia não-lapidada, estreou em 1987 pela Argentina, destacando-se na Copa América. Ficou em Núñez até meados de 1988. Naquela etapa da carreira, o veloz ponta jogou 8 vezes pelo país. Já veterano, chegou em 1995 ao Boca, junto com o amigo Maradona.

Eles não foram suficientes para ajudar a equipe a ganhar títulos – depois de 1992, o seguinte só viria em 1998, já com Carlos Bianchi e sem eles. As taças foram o que faltaram a Caniggia para ficar mais ídolo no Boca, pois ele teve seus bons momentos, chegando a ser pedido para a Copa de 1998. Apesar dos cabelos compridos de Cani, Daniel Passarella lhe havia dado três oportunidades entre abril e junho de 1996, ano em que o loiro chegou a marcar três gols em um Superclásico. Mas, ainda em 1996, ele largou temporariamente a carreira por conta do suicídio da mãe, perdendo continuidade.

Depois foi a vez do zagueiro Fernando Cáceres, colega de Villarreal no River. Titular lá, estreou na seleção em 1992. Ficou até 1993 no clube, jogando seis vezes pela Argentina e vencendo a Copa América; jogou a Copa de 1994 já pelo Real Zaragoza, onde ficou até 1996. Neste ano, embora torcedor da Banda Roja, passou ao Boca pelo segundo semestre (no período sabático de Caniggia). Ainda recém-chegado por lá, onde não brilharia, jogou uma vez pela Argentina. Hoje, El Negro está cego de um olho, após um tiro na cabeça em assalto que quase o matou em 2009.

Por fim, o zagueiro Nelson Vivas, colega de Cáceres e Caniggia naquele Boca de meados dos anos 90. Veloz, bom no jogo aéreo e na marcação, foi parte da espinha-dorsal da seleção até 2002, tanto que esteve na Copa de 1998 mesmo vindo da 2ª divisão suíça (conquistara o acesso, pelo Lugano). Só não esteve na de 2002 por lesão. Pelo Boca, jogou 9 vezes de 1994-97. No fim da carreira, chegou em 2003 ao River. Campeão do Clausura, acabou jogando em setembro seus dois últimos jogos pela Albiceleste. Ainda que tenha sido chamado mais por renome do que por boa fase, segue exatos dez anos depois, em setembro de 2013, como o último da rivalidade na seleção.

Clique nestas outras rivalidades para acessar seus elementos em comum:

Boca-Racing, River-Independiente, Independiente-San Lorenzo, Racing-San Lorenzo, Racing-Independiente, River-Racing, Boca-Independiente, Boca-San Lorenzo, River-San Lorenzo, Boca-River I, Boca-River II e Boca-River IV. No mesmo estilo, também fizemos a da rivalidade San Lorenzo-Huracán.

Quarta parte

Para fechar Boca-River e esta série de especiais, vamos aos outros que passaram pela dupla e que não foram abordados nas três partes anteriores. Dentre eles, estão alguns dos mais célebres jogadores do país e do exterior. Ainda que não exatamente pelo que fizeram nos rivais. Há muitos casos de quem pouco produziu neles e se destacou bem mais em outro lugar.

Tiveram alto número de vira-casacas já como recém-fundados. O primeiro foi Pedro Moltedo, que atuou nas primeiras partidas de ambos, como goleiro no River e atacante no Boca. Mais do que isso, estava presente nos times que deram origem aos rivais: jogava no La Rosales, que formou o River ao fundir-se com o Santa Rosa. Depois, foi presidente do Independencia Sud, que chegou a enfrentar o River antes de extinguir-se e alguns remanescentes fundarem o Boca, Moltedo dentre os quais – foi o primeiro pró-tesoureiro xeneize.

Outro a jogar a primeira partida do Millo e depois ir ao rival foi Artemio Carrega, enquanto Vicente Oñate jogou a primeira bostera para passar em 1907 ao “co-irmão”.

Anempodisto García, Ramón Ferreiro e Ramón Lamique também são daqueles primórdios.

Arturo Chiappe, um dos primeiros símbolos do River (só ele ganhou a 2ª divisão em 1908 e o primeiro título do Millo na elite, em 1920), foi antes do Boca.

Donato Abbatángelo, primeiro capitão auriazul na elite e seu segundo jogador na seleção, passou depois ao rival.

Antonio Ameal Pereyra, autor de um dos gols da vitória do River no primeiro dérbi na elite (falamos aqui ), fez o inverso.

O mais célebre abordado aqui é o maior artilheiro da seleção, Gabriel Batistuta. Há 25 anos, ele surgiu no Newell’s, na campanha que levou a Lepra a seu primeiro vice na Libertadores. Ainda não era Batigol, mas o River o comprou em 1989. Até começou bem, classificando-o à Libertadores de 1990, mas perdeu espaço neste mesmo ano com a chegada de Daniel Passarella a técnico. Terminou a temporada 1989-90 campeão, mas reserva, e acabou indo ao Boca sem maiores obstáculos. Ali, foi o inverso: primeira metade de temporada ruim, para enfim triunfar na seguinte. Falamos tudo aqui.

No Clausura 1991, fez grande dupla com Diego Latorre e foi artilheiro do torneio. O Boca não era campeão nacional havia dez anos, desde o maradoniano Metropolitano 1981. Vencer o Clausura não bastou, porém: aquela temporada teria só um campeão, decidido em uma finalíssima entre vencedores do Apertura e Clausura. Ironias: foi contra o Newell’s; Batistuta não enfrentou o ex-time, com sua boa fase se voltando contra o Boca – foi chamado pela primeira vez à seleção, para disputar a Copa América, realizada na mesma época da finalíssima; o Newell’s venceu e a partir da temporada seguinte, 1991-92, cada turno enfim valeria como campeonato próprio.

Bati não voltou ao Boca: artilheiro e campeão da Copa América 1991, dali foi ser semideus na Fiorentina. Antes, foi constante carrasco do River, mas há nele quem o absolva: “o River teve em seu poder um tesouro de ouro coberto de barro, e não soube descobri-lo a tempo. Sua explosão dói mais pelo que o River perdeu, e não pelo que tenha feito no Boca”, escreveu-se aqui.

Batistuta só subiu ao time principal do Newell’s e depois foi ao River para suprir em ambos a vaga de Abel Balbo, outro grande artilheiro do futebol italiano e com quem jogaria na seleção (Copas 1994 e 1998), na Fiorentina e na Roma. Após ser protagonista no título argentino de 1987-88, o primeiro da era dourada do Newell’s ( veja ), Balbo foi negociado com o River. Não chegou a triunfar em Núñez, mas dali chegou à seleção e, após uma temporada, à Itália. Era torcedor do Boca e ao fim da carreira o reforçou para a Libertadores 2002, em que os auriazuis buscavam um tri seguido. Só fez 4 jogos.

Fernando Gamboa, zagueiro vice-campeão da Libertadores 1992, é outro que após o Newell’s passou por River e depois Boca sem se destacar em ambos, sendo ídolo só no rubronegro rosarino mesmo. Curiosamente, também como Batistuta e Balbo, é torcedor boquense. Rosario também tem outros que se destacaram mais na cidade do que nos rivais, mas no Rosario Central:

Jesús Méndez, Luciano Figueroa e Rubén da Silva.

Formado no River em 2004, Méndez ficou até 2006 sem se firmar e ganhar taças. O Boca o comprou em 2010 do Rosario Central, mas mais o emprestou a ele do que o usou. Ausente do rebaixamento em 2010, esteve na campanha que recolocou o Central na elite em 2013. Já Figueroa é conhecido dos flamenguistas: marcou 2 na vitória de virada do Emelec sobre os cariocas na Libertadores 2012, na penúltima rodada de fase de grupos, que teria os equatorianos classificados no lugar dos rubronegros.

Em 2001, Lucho disputou as semifinais da Liberta com seu Rosario Central, o mais longe que os canallas chegaram da taça. A eliminação veio para a Cruz Azul, que o contratou junto com a dupla César Delgado. Vice para o Brasil na Copa América 2004 e Copa das Confederações 2005, acertou com o River em 2006 para ter mais visibilidade por um lugar na Copa 2006. Até vinha bem, mas uma lesão já no sétimo jogo tirou suas chances de ir à Copa. Ainda em 2006, foi ao Genoa, que em 2008 o emprestou ao Boca. Fez seus gols (7 em 17 jogos), mas não chegou a agradar os xeneizes; perdia muitos outros.

O uruguaio Da Silva foi tirado em 1989 do Danubio, após tê-lo ajudado a ser campeão nacional, coisa rara na liga de Peñarol e Nacional. No River, já jogava seu irmão Jorge da Silva, El Polilla (“A Mariposa”). Rubén virou El Polillita e foi goleador em Núñez até 1993. Mas, logo após ser artilheiro do Clausura 1993, foi ao Boca. Em 1995, triunfou no Central: artilheiro e campeão da Copa Conmebol em épica final contra o Atlético Mineiro. Falando em Atlético e em estrangeiros, o paraguaio Julio César Cáceres, ídolo do Galo (e por sinal revelado no Olimpia, campeão da Libertadores 2002), também foi da dupla.

O Nantes o comprou e o emprestou ao River em 2006. Cáceres até foi o capitão do Millo que eliminou o Corinthians em noite de muito tumulto no Pacaembu na Libertadores, mas o time caiu logo depois, quebrando a escrita de sempre chegar a finais em anos terminados em 6. Foi colega de Figueroa ali e no Boca em 2008, sendo campeão do Apertura. Ficou até 2010. O Futebol Portenho já o entrevistou: veja aqui, aqui e aqui. O mais recente também é paraguaio (naturalizado, pois nasceu na Argentina):

Jonathan Fabbro, que pouco jogou no Boca em 2002 e acaba de reforçar o rival.

Atualização em 2015: Nicolás Bertolo se tornou neste ano o mais recente vira-casaca.

Outros estrangeiros sul-americanos: Luis Solans, Gabriel Cedrés, Miguel Loayza, José Melgar e Zoilo Canavery. O uruguaio Cedrés foi membro ativo da segunda Libertadores do Millo, em 1996, mas rumou ao Boca logo depois. Ficou uma temporada, marcando gols em todos os clássicos que jogou, mas o tempo breve e a falta de taças o impediram de ficar ídolo auriazul. Também uruguaio, Solans jogou nos anos 10. Outro charrua, Canavery só não jogou no San Lorenzo dentre os 5 grandes. Um senhor vira-casaca: jogou pela Argentina (duas vezes, e contra o Uruguai). Campeão argentino por Boca em 1919, é mais bem lembrado na dupla de Avellaneda, onde triunfou mais. Foi do River de 1913-14.

O peruano Loayza, nos anos 60, e o boliviano Melgar, nos 80, fizeram o inverso: primeiro no Boca, depois no River, sem êxito. Loayza se destacou mais no Huracán. Outro estrangeiro foi Francisco Priano,

genovês como muitos de La Boca, onde Boca e River nasceram: é daí que vem o apelido boquense de xeneize (derivado de zeneise, “genovês” em lígure) e as cores do River, as mesmas da bandeira de Gênova. Integrou o elenco do River que subiu à elite, em 1908, ano em que chegou a jogar 1 vez pelo Boca. Na volta à Gênova, jogou pelo Andrea Doria, clube que deu origem à Sampdoria.

A dupla opôs famílias, como os Da Silva e o próprio Priano: seu irmão Juan Priano foi membro ativo dos inícios do Boca. Outros irmãos foram Alberto e Arturo Penney, Alfredo e Francisco Taggino, Rodolfo e Alberto Dezorzi (sobre os seis, aqui ) e Juan e Federico Vairo. Arturo Penney, também dos primórdios, Alfredo Taggino e Rodolfo Dezorzi foram do Boca e Federico Vairo, do River (foi ídolo). Seus irmãos, dos dois. Francisco Taggino já foi abordado na 1ª e na 3ª partes. O obscuro bostero

Luis Más foi irmão de um dos maiores ídolos do River, Oscar Más. O uruguaio Luis Ernesto Castro, ídolo do Nacional, esteve no River em 1950, seis anos após passo rápido de Enrique Castro no Boca.

Héctor, ex-Boca, e Néstor Scotta, ex-River e Grêmio, se destacaram mais no San Lorenzo e no Racing.

Gonzalo Higuaín, que despontou no River antes de ir ao Real Madrid, e seu irmão Federico Higuaín, também ex- millonario, são filhos de Jorge Higuaín, que jogou nos dois nos anos 80. Mas a família mais afetada talvez seja a do ex-corintiano Juan Manuel Martínez, hoje no Boca. Seu pai, Carlos, e o tio, Joaquín, jogaram no River, ao passo que um tio-avô, também chamado Joaquín, esteve em ambos. Há ainda a de Alfredo Di Stéfano, ex-ídolo do River que treinou ele e o Boca (veja-o na 1ª parte). Um tio seu, Dante Pertini, jogou pelos dois, com mais sucesso nos xeneizes.

Como alguns mencionados, a dupla teve outros que se destacaram mais fora. É o caso de Juan José Pizzuti, símbolo do Racing como jogador e técnico, embora torcesse pelo Independiente; no próprio Independiente, Miguel Ángel Rodríguez (também foi técnico no Boca), do grande time rojo tetra da Libertadores nos anos 70, e Sebastián Rambert, artilheiro dos bons momentos dos diablos nos anos 90; no San Lorenzo, o ex-volante Victorio Cocco, tetra argentino pelo clube, e Jorge Rinaldi, protagonista da vitoriosa segundona de 1982; no Estudiantes, Rubén Galletti; no Colón, Hugo Coscia e no rival Unión, Oscar Trossero, que começou no Boca em 1972 e faleceu após jogar pelo River em 1983, nos vestiários.

Eduardo Bargas e Osvaldo Pérez jogaram neles e em Racing e Independiente, com El Japonés Pérez tendo relativo destaque em Avellaneda.

Julio César Toresani e Daniel Silguero, por sua vez, defenderam também Colón e no Unión, a dupla de Santa Fe.

Há os casos dos que se tornaram ídolos em um e foram apagados no outro. Como Batistuta, Alfredo Rojas, Ernesto Mastrángelo e Francisco Sá apareceram antes no River para depois brilharem no Boca.

El Tanque Rojas foi campeão argentino em 1965 sobre o ex-clube e esteve na Copa 1966. Os outros dois venceram as primeiras Libertadores e Intercontinental xeneizes, entre 1977-78.

Heber Mastrángelo, curiosamente, só defendeu a seleção enquanto estava no River.

Pancho Sá é quem mais venceu a Libertadores: ganhou também o tetra seguido do Independiente.

Alfredo Garasini jogou por doze anos no Boca, de 1916-28 em todas as posições, inclusive goleiro, passando rápido pelo River em 1921. Ganhou os quatro primeiros campeonatos argentinos vencidos pelo clube, sendo artilheiro na primeira conquista, de 1919, junto de Alfredo Martín (visto na 2ª parte). Faleceu trabalhando no corpo técnico do time, em 1950. O defensor Francisco Lombardo passou quase todos os anos 50 no Boca, jogando só 9 vezes pelo River após ter passe livre.

Pablo Comelles e Juan José López apareceram antes no River e nele ficaram mais marcados. Comelles e López jogaram nos vitoriosos anos 70 e passaram ao Boca nos 80. López, que era ídolo riverplatense (jogou em outros rivais ainda, Belgrano e Talleres), foi reabilitado pelo tempo, mas ainda há quem o crucifique pela traição, como o célebre vídeo do Tano Pasman. Outro mais benquisto em Núñez é o atacante Ramón Centurión. Sem sucesso no Boca em 1985, foi o artilheiro da conquista da primeira Libertadores do Millo, em 1986. Mas um caso de doping brecou sua trajetória no Millo.

Por fim, técnicos. Como Di Stéfano, Renato Cesarini, Néstor Rossi, José Varacka e Vladislao Cap foram técnicos da dupla após se destacarem jogando no River – Cap até morreu treinando-o.

Rossi, Aristóbulo Deambrossi e Adolfo Pedernera foram ídolos em Núñez que treinaram Bocas campeões.

O primeiro na função a trabalhar em ambos foi o húngaro Ferenc Plattkó, nos anos 40. Teve quem jogou em um e treinou o rival sem sucesso nas duas tarefas, casos de Rogelio Domínguez e Claudio Borghi, ambos ex-jogadores do River e do Flamengo.

César Luis Menotti, o técnico campeão pela Argentina em 1978, não se saiu bem também; no Boca, esteve ainda como jogador.

Por fim, Héctor Veira, quem mais chegou perto de se igualar a Di Stéfano como único técnico campeão nos dois. Veira foi o comandante do dourado 1986 do Millo, com títulos nacional, na Libertadores e na Intercontinental. Dez anos depois, esteve no Boca. Sua equipe do Apertura 1997 fez a melhor campanha de um vice-campeão nos torneios curtos, mas perdeu a taça por 1 ponto para o rival, embora tenha vencido-o no clássico (no último jogo de Maradona,

veja ) e só sofrido uma derrota na campanha.

El Bambino é mais querido no San Lorenzo e passou também pelo rival deste, o Huracán.

A seguir, outros vira-casacas do Superclásico não-mencionados nas partes anteriores:, Severiano Álvarez, Agustín Angotti, Juan Barberis, Carlos Barisio, Claudio Cabrera, Eugenio Cacopardo, Aníbal Cibeyra, Mario Ditro, Jorge Diz, Pablo Erbín, Casildo Fallatti, Jorge Fernández, Demóstenes Gaete, Antonio Ganduglia, Rubén Gómez, Rafael Hernández, Néstor Isella, Agustín Lanata, Carlos López, José Luna, Jorge Martínez, Juan Negri, Carlos Randazzo, Gerardo Reinoso, Iseo Rosello, Juan Sánchez, Cataldo Spitale, Ricardo Staggi, Fabio Talarico e Marcos Zarich.

Clique nestas outras rivalidades para acessar seus elementos em comum:

Boca-Racing, River-Independiente, Independiente-San Lorenzo, Racing-San Lorenzo, Racing-Independiente, River-Racing, Boca-Independiente, Boca-San Lorenzo, River-San Lorenzo, Boca-River I, Boca-River II e Boca-River III. No mesmo estilo, também fizemos a da rivalidade San Lorenzo-Huracán.

Nota de edição

Este especial reúne as quatro partes da série Elementos em comum entre Boca e River, publicadas em 2013, em um texto único. O conteúdo de cada parte foi preservado na íntegra; foram retiradas apenas as chamadas para os capítulos seguintes.