A origem do apelido gallinas remonta à maratona do River na Libertadores de 1966, num clube que já vinha de nove anos sem títulos.
Depois de abandonar suas origens humildes no bairro de La Boca, atravessar a cidade e se estabelecer na elegante zona norte portenha, nada mais natural que o River Plate tenha passado a ser conhecido como Millonarios. Mas em 1966 o clube ganharia uma segunda alcunha, muito menos agradável. Foi ao ser derrotado por 4 a 2 pelo Peñarol na finalíssima da Libertadores, depois de abrir 2 a 0.
Esta é a história completa daquela final, da virada uruguaia e da galinha que um torcedor do Banfield soltou em campo nove dias depois, criando o apelido que acompanha o River até hoje.
A maratona do River na Libertadores de 1966
A Libertadores de 1966 era uma verdadeira maratona, e o River Plate a enfrentou em altíssimo nível. Tanto que foi aquela edição que rendeu um recorde individual de gols na competição: os 17 de Daniel Onega, destaque meteórico daquele River. Ele já havia jogado amistosos em 1965, mas estreara em jogos competitivos justamente naquele ano, na esteira dos desfalques perdidos para a preparação da Seleção Argentina para a Copa do Mundo.
Segundo Onega, o River teria time para bater o Real Madrid no Mundial, como o Peñarol acabaria fazendo. Afinal, o Millo já havia feito isso em pleno Santiago Bernabéu em 1961, com gols dos brasileiros Delém e Roberto Frojuello.
O desempenho de Onega, até então apenas o caçula do experiente Ermindo Onega, faria Daniel também acabar sendo pré-convocado à Copa. Apenas Ermindo ficou na lista final.
O River fez 19 jogos naquela campanha. Atualmente, o máximo, incluindo a pré-Libertadores, é de 18. Na primeira fase, encarou uma chave com outras cinco equipes: seu rival eterno Boca Juniors, duas equipes peruanas, Universitario e Alianza, e duas venezuelanas, Deportivo Italia e Deportivo Lara. Com oito vitórias em dez jogos, a equipe se qualificou em um confortável primeiro lugar.
A segunda fase teria uma chave ainda mais dura, novamente com o Boca Juniors e o Independiente, campeão das duas edições anteriores do torneio, além do Guaraní paraguaio. Mesmo perdendo os Superclásicos, o River se deu melhor contra os outros oponentes do que o grande rival. Ainda assim, a classificação veio após um jogo-desempate em Assunção contra os Rojos, uma suada vitória por 2 a 1.
O River estava na decisão. E com uma ironia: poderia vencer a Libertadores mesmo sem ter sido campeão argentino. Aquela edição foi justamente a primeira para a qual se classificavam também os vice-campeões nacionais. Até então, o vice só entrava se o campeão nacional houvesse vencido também a Libertadores anterior. A mudança não agradou os brasileiros, que não participaram.
O trauma que vinha de antes: nove anos sem títulos
O próprio vice no campeonato argentino de 1965 havia sido um trauma. O River liderava, mas perdeu a ponta para o Boca ao ser derrotado na reta final no Superclásico. Pelo segundo ano seguido, o Boca foi campeão sobre o rival. E em ambas as ocasiões em função de dérbis na reta final, com gols marcados pelo vira-casaca Norberto Menéndez, antigo ídolo riverplatense nos anos 1950.
Desde 1957, quando Menéndez ainda era millonario, o River não era campeão de nada. A sina poderia acabar em alto estilo naquela Libertadores. O técnico do Millo era o sábio Renato Cesarini, o homem que fomentara La Máquina, célebre elenco do time dos anos 1940.
Peñarol: um adversário à altura
Mas o adversário também era duríssimo, e com outra lenda no comando técnico: Roque Máspoli, o goleiro do Maracanazo. Craques tarimbados na Libertadores, como Pedro Rocha, Juan Joya, Néstor Gonçalves e o artilheiro-mor da competição, Alberto Spencer, tinham a companhia dos recém-lançados Ladislao Mazurkiewicz e Pablo Forlán. E ainda havia o regresso do veterano Julio César Abbadie.
O River também reunia experiência de Libertadores, tendo consigo os uruguaios Roberto Matosas e Luis Cubilla, ambos bicampeões com o próprio Peñarol nas primeiras edições do torneio. Os dois clubes mantinham tradicional amizade. Juan Joya, ao contrário, era ex-jogador do River, cujos dois estádios na zona norte de Buenos Aires foram inaugurados em amistosos com o Peñarol, que por sua vez inaugurou diante do amigo seu novo estádio em 2016.
Montevidéu: 2 a 0 para o Peñarol no Centenário
Na primeira partida, em Montevidéu, um Centenário abarrotado com mais de 60 mil pessoas viu uma enorme pressão aurinegra sobre o River. A defesa se portava bem, e o veteraníssimo e lendário Amadeo Carrizo fazia grande partida. Mas, nos últimos minutos, a insistência caseira foi premiada e, com gols de Abbadie e Joya, o Peñarol venceu por 2 a 0. O River precisava vencer em Núñez para forçar a partida desempate.
Núñez: 3 a 2 para o River em um jogo atípico
A partida de volta foi absolutamente atípica. O Monumental estava tão abarrotado que o River achou por bem improvisar cadeiras para torcedores à beira do campo, sem separação para os atletas. Os policiais torciam ostensivamente e comemoravam como torcedores os gols do River. Os jogadores do Peñarol posteriormente descreveriam o sentimento de pânico em atuar naquelas condições.
Isso não impediu uma partida espetacular, ao fim vencida pelo River por 3 a 2, com dois gols de Ermindo Onega, um deles, o da vitória, marcado nos últimos minutos.
O xerife Gonçalves, sucessor de Obdulio Varela, contaria à revista argentina El Gráfico: “ali nos fizeram de tudo e ficamos com sangue no olho. A terceira partida deveria jogar-se em 72 horas, mas o River Plate propôs jogá-la em 48 horas porque pensaram que o Peñarol era uma equipe com jogadores veteranos e que, devido a isso, não íamos nos repor tão rapidamente para a terceira final. Washington Cataldi nos perguntou se estávamos dispostos a jogar em dois dias e nós respondemos que queríamos jogar o antes possível. Nesse mesmo dia, se possível”.
Santiago: o 2 a 0 no intervalo e a virada charrua
Tudo seria decidido na neutra Santiago do Chile. E o River Plate desceu para o vestiário no intervalo com um 2 a 0 a favor, gols do recordista Daniel Onega e de Jorge Solari. O título parecia fatura liquidada. Mas o Peñarol estava prestes a conseguir uma daquelas façanhas que só o futebol uruguaio é capaz.
Prossegue Gonçalves: “quando fomos ao intervalo, dissemos entre nós que, se lhes fizéssemos um gol, ganhávamos a partida. Para o segundo tempo, eles se abasteceram para defender a vantagem e nós apostamos a força que tínhamos na ofensiva. Quando vais perdendo por dois gols, o tento mais difícil é o primeiro”.
Apesar da aparente frieza, os uruguaios estavam nervosos: “nos estavam ganhando com muita comodidade e era muito difícil roubar a bola daquele River. Por isso, pensamos que, mais que mudanças táticas, o que necessitávamos era mudar o clima da partida para salvar a vergonha. Entramos desesperados e lançamos mão de recursos ilícitos. Isso é certo. Lhes falávamos e até chegamos a dizer-lhes que, se ganhavam, íamos buscá-los no vestiário e no hotel. As coisas se deram de tal maneira que era um clima de guerra do qual tiramos uma grande vantagem, ante a passividade do River”.
A bola no peito de Carrizo e a fúria de Spencer
Diz a lenda que tudo começou quando Carrizo defendeu um chute de Spencer matando a bola no peito. O menosprezo acendeu a velha garra charrua, que os brasileiros haviam experimentado em 1950.
“Foi algo rápido, me chutou um cara a quatro metros de mim, um balaço que me veio direto no peito. Não foi zombaria, fiz o que me pareceu mais seguro e em seguida a agarrei”, contou o goleiro 45 anos depois, em 2011, também à El Gráfico.
Gonçalves reconheceu que “embora fosse um gesto técnico, tomamos como uma provocação. Também foi um estímulo especial para Alberto Spencer, porque começamos a dizer-lhe que o estavam zombando. Spencer reagiu e começou a levantar muito seu rendimento, apareceu melhor do que nunca no jogo aéreo e foi um elemento fundamental para a virada”.
O Peñarol lutou como nunca e, aos 20 minutos, Spencer se vingou de Carrizo, descontando para o Manya. Mais oito minutos e Abbadie empatou a partida. Com a moral elevada pelo empate heroico, o time uruguaio entrou aceso na prorrogação, e aos 12 minutos o equatoriano Spencer colocou o Peñarol na frente pela primeira vez, após 102 minutos de jogo.
“Na prorrogação, lembro especialmente do terceiro gol. Foi impressionante como se elevou Spencer nesse tento. Logo após esse gol, os argentinos baixaram a cabeça e nos olhavam como desconcertados”, nas palavras de Gonçalves.
“No campo é comum que os jogadores conversem. Nesse dia lembro como se fosse hoje que El Pocho Cortés, que havia jogado no Rosario Central, ia dizendo aos jogadores rivais que eram uns fenômenos na El Gráfico, mas não em campo. O terceiro gol golpeou muito duro a equipe rival. El Pocho seguia falando e então fui até ele e disse que já bastava, que já tínhamos a taça. Isso foi por respeito aos jogadores que estavam perdendo. Após o terceiro gol, a partida terminou. O quarto foi um valor agregado ao que já era uma vitória”.
O quarto veio aos quatro minutos do segundo tempo da prorrogação, com Pedro Rocha liquidando a fatura.
O aeroporto de Santiago e a pergunta no alto-falante
Prossegue Gonçalves: “o público rondava as 40 mil pessoas e eram quase todos chilenos, alguns argentinos e uns poucos uruguaios. Os chilenos a princípio estavam a favor do River, mas, quando a partida foi transcorrendo e descobriram que o morto ainda respirava e que o Peñarol não queria dar a partida por perdida, se voltaram a favor do Peñarol. A diferença temperamental notei no dia seguinte, na cafeteria do aeroporto, quando as duas equipes se cruzaram”.
“Um dos nossos foi falar pelos alto-falantes e perguntou: quem é o papai do River? E outra voz respondeu: Peñarol! Isso se escutou em todo o aeroporto e a risada foi inevitável de todos os presentes. Queríamos morrer, baixamos a cabeça de vergonha. Se isso ocorresse ao contrário, ainda estávamos na porrada. Nós não íamos aceitar semelhante brincadeira, que eles sim aceitaram sem reclamar”.
O Peñarol era campeão da Libertadores pela terceira vez em sete edições disputadas. O futebol uruguaio mostrava mais uma vez que não podia jamais ser dado como morto. Já o River conhecia sua maior humilhação até então.
As escalações da final de Santiago
Peñarol: Mazurkiewicz, Lezcano, Díaz e Forlán; Caetano e Gonçalves; Abbadie, Cortés, Spencer, Rocha e Joya. Técnico: Roque Máspoli.
River Plate: Carrizo, Matosas, Vieytez, Grispo e Sanz; Sarnari, Solari e Ermindo Onega; Cubilla, Daniel Onega e Más. Técnico: Renato Cesarini.
Nove dias depois: a galinha do torcedor do Banfield
A derrota era inacreditável. O título que parecia ganho foi para Montevidéu. Ermindo Onega declararia depois: “foi incrível perder esse jogo. Pensar que, se ganhássemos do Peñarol, seríamos a primeira equipe argentina campeã do mundo, pois éramos melhores que o Real Madrid. Quando levamos o terceiro gol, Abbadie me disse: só vocês mesmos para perder uma partida desse jeito”.
Nove dias depois, o River Plate entrou novamente em campo. A equipe visitou o Banfield pela 13ª rodada do campeonato argentino daquele ano. O encontro terminou empatado em 1 a 1, mas o resultado não teve nenhuma importância.
O que realmente entrou para a história foi o ato de um anônimo torcedor do Taladro, que soltou em campo uma galinha branca com uma faixa vermelha pintada, clara alusão à derrota sofrida pelo River na semana anterior. A torcida local delirou e começou a bradar “gallinas” para a hinchada rival.
A ideia nasceu numa discoteca
E tudo foi uma simples e inocente brincadeira. Ao menos a se acreditar em seu autor, que deu uma entrevista a um veículo do Banfield: “armamos tudo numa discoteca à qual ia com meus amigos, e cujo dono era meu amigo. Quando nos reunimos na quinta-feira, falamos sobre o River e nos ocorreu fazer alguma gozação com eles. Foi aí que surgiu a ideia. Nos pareceu algo perfeito para o momento que eles viviam”.
Um punhado de torcedores anônimos se divertindo em um clube noturno, falando do clube de seu coração e resolvendo fazer uma gozação com o rival do próximo fim de semana. Numa cena como essa, deliciosamente simples, nascia um novo termo para o vocabulário futebolístico argentino. Os Milionários se transformavam em Galinhas.
De ofensa a bandeira: o apelido que a torcida adotou
A ação seria repetida por outras torcidas, até que o River passasse a ser definitivamente conhecido por essa alcunha pelos inimigos. E, de tão arraigado, o termo, originalmente depreciativo, começou lentamente a ser adotado pela própria torcida riverplatense, um pouco como ocorreu com o porco palmeirense e o urubu flamenguista.
Roberto Perfumo e Norberto Alonso abraçaram a provocação quando o jejum desde 1957 finalmente acabou, em 1975. Mas o vice de 1966 foi tão traumático que essa mudança de posicionamento ainda encontra resistência entre os torcedores do River, como ficou claro no episódio protagonizado por Carlitos Tévez em 2004.
Nota de edição
Este especial reúne quatro publicações do Futebol Portenho sobre o mesmo tema, feitas entre 2011 e 2017, em um único texto. Nenhum trecho foi cortado.
O relato da final de 1966 foi originalmente escrito por Tiago de Melo Gomes, colaborador do site, torcedor do Peñarol, falecido em 2016.
