Sete clássicos no fim de semana, por um especialista: Gustavo Barros Schelotto

O fim de semana será fervente na elite argentina. Teremos a rodada extra do campeonato de 30 times, reservada a todos os clássicos possíveis, que serão sete – os jogos restantes foram selecionados por distância geográfica dos demais clubes. Gustavo Barros Schelotto tem experiência em seis desses dérbis e já teceu comentários a respeito em monólogo publicado na revista El Gráfico, em edição de 2013 (acesse a nota clicando aqui), mas pertinente na véspera dessa super rodada. Especialmente quando justamente os quatro principais dérbis envolvem a luta pela liderança!
A programação dos clássicos é a seguinte: o primeiro da série será o de Avellaneda, com o Independiente recebendo o Racing às 16h10 de sábado no estádio Libertadores da América; os alvicelestes têm um jogo a menos, interrompido antes do fim enquanto venciam, algo que caso se confirme os deixaria hoje a quatro pontos do líder. Em seguida, às 18h10 do sábado, o líder San Lorenzo visitará o Huracán no palácio Tomás Adolfo Ducó. Não perde do rival de bairro há cinco anos – mas vale ressalvar que a demorada última estadia dele na segundona, entre 2011 e 2014, impediu mais encontros do Clásico Porteño.
Os dérbis voltam no domingo às 15h10 com tudo: com a rivalidade mais ferrenha do país, com o 3º colocado Rosario Central, a cinco pontos do líder, defendendo no seu Gigante de Arroyito invencibilidade de oito anos perante o Newell’s. Às 16h00, La Plata se focará no embate entre Estudiantes e Gimnasia, com mando de campo dos alvirrubros. Às 16h40, Colón e Unión reviverão após dois anos o dérbi mais equilibrado do país, o de Santa Fe, no Cemitério de Elefantes, casa colonista.

Às 18h40 as atenções do país se voltarão ao Superclásico, com o River a desfilar no Monumental de Núñez a taça de campeão da América contra a vice-liderança do Boca, no primeiro reencontro após o literalmente apimentado dérbi passado, que custou aos auriazuis a eliminação no torneio continental. A série se encerra em La Fortaleza às 21h30, horário em que o Lanús, onde Gustavo Barros Schelotto trabalha atualmente, recebe o Banfield para mais um Clásico del Sur.
No Clásico Platense
Nascido em La Plata, El Tiburón (“O Tubarão”) ou simplesmente Gusti não só foi revelado no Gimnasia como é fanático e filho de ex-presidente do clube, Hugo Barros Schelotto. Estreou na melhor fase dos triperos, os anos 90, onde eram eles e não o Estudiantes a equipe mais forte da cidade (o Lobo foi cinco vezes vice-campeão entre 1995 e 2005). Ele foi relacionado ao time adulto pela primeira vez em 21 de junho de 1992, pela 17ª rodada do Clausura, ainda que o treinador Gregorio Pérez não o tirasse do banco.
A estreia se deu exatamente na primeira vez em que o clube recebeu uma partida em torneios da Conmebol, os 2-0 sobre os chilenos do O’Higgins pela extinta Copa Conmebol, em 12 de agosto – embora ocasionalmente se considere como ocorrida já em 29 de novembro, data da primeira partida dele no campeonato argentino, um 2-2 com o Platense. Nesse meio-tempo, a equipe caíra em decisão por pênaltis nas semifinais daquela Conmebol e o técnico Pérez dera lugar à dupla Carlos Ramacciotti-Edgardo Sbrissa; décadas depois, como veremos, Pérez retomaria trabalhos com o volante.

Gustavo jogou sete vezes o dérbi de La Plata e, naqueles tempos de domínio gimnasista, só foi saiu derrotado em um. Teve desempenho superlativo em especial nos dois da temporada 1993-94: nos 2-0 no Apertura, forneceu assistência ao gol do gêmeo, em rápida tabela mesmo marcado por dois adversários, enquanto no 2-1 pelo Clausura marcou o primeiro gol (a partir de contra-ataque que ele puxou ao roubar uma bola, chutando então de fora da área um rebote do goleiro) e deu assistência ao outro. Esses dois resultados foram preponderantes para que adiante o arquirrival terminasse rebaixado na 18ª (e penúltima) rodada. De outros golzinhos na temporada, outro que ganhou relevo com o tempo foi no 1-1 com um Platense forte; foi a tarde da estreia profissional da David Trezeguet.
Se as alegrias no dérbi municipal sobravam, o grande senão foi a frequência como troféus escorriam pelos dedos de um clube tão carente de taças. Os gêmeos haviam vencido juntos ainda em janeiro de 1994 a Copa Centenário da AFA – sendo inclusive de Gustavo um dos gols que valeram a vaga na decisão, justamente na primeira vez em que marcou pelo time principal. Mas derraparam tanto no Clausura 1995 como no Clausura, em um vice mais doloroso do que o outro: em 1995, o time começou a rodada final na liderança, mas perdeu em casa para um time misto do Independiente e terminou ultrapassado pelo San Lorenzo.
Já em 1996, torneio em que aplicara 6-0 tanto no Boca em plena Bombonera como no Racing, o Lobo dependia de um tropeço do líder Vélez. Que até ocorreu, pois o concorrente apenas empatou em casa com o Independiente. O problema é que o Gimnasia não fez a própria parte, apenas empatando também. E precisamente com o Estudiantes, que, mandante, soube em diferentes sentidos fechar a casinha. Ainda assim, as mostras de qualidade fizeram os gêmeos, em ironia histórica, serem prospectados inicialmente pelo River.

Naquele ano, Gustavo também esteve (em janeiro) entre os pré-convocados por Daniel Passarella à seleção para as eliminatórias das Olimpíadas, figurando em alguns amistosos de preparação. Porém, acabou de fora do torneio pré-olímpico, sendo dispensado em fevereiro. Nenhum dos Schelotto terminou indo aos Jogos de Atlanta, embora, nascidos em 1973, estivessem precisamente no limite da idade sub-23; no caso do volante, que tinha como concorrentes pré-estabelecidos gente já multicampeã como Marcelo Gallardo, Gustavo López e Christian Bassedas, rodou diante da erupção de Juan Sebastián Verón – mesmo que o próprio Verón igualmente não fosse às Olimpíadas para que Passarella abrisse vaga a três veteranos. Guillermo, que havia vencido os Pan-Americanos de 1995 junto a Ariel Ortega e Hernán Crespo, por sua vez viu estes embarcarem junto com Claudio López e Marcelo Delgado, a dupla do Racing recém-vice do Apertura 1995.
O negócio com o River, dado como certo antes da rodada inaugural do Apertura 1996 até uma suposta desaprovação de Francescoli truncar tudo (por alguma farpa que o uruguaio teria trocado com Gustavo), igualmente não avançou. O que se conta é que o lado provocador e irreverente dos Schelotto não caía bem para o sóbrio uruguaio, especialmente após uma caneta e gracejos verbais que sofrera de Gustavo num duelo que travaram no meio-campo. E quem levou os irmãos, desejados publicamente por ninguém menos que Maradona, foi o Boca, dali a um ano. Antes, deu tempo para uma última travessura da dupla pelo time do coração: em dezembro de 1996, nos 6-3 sobre o Huracán de Corrientes – da terra, aliás, dos pais de Dieguito -, Gusti deixou o dele e Guille fez simplesmente quatro. Tudo sobre o goleiro Gastón Sessa, amigo de infância dos gêmeos. Gustavo driblou-o e acertou mesmo já sem ângulo e equilíbrio as redes para anotar o quarto.
Antes do Superclásico houve um Clásico Santafesino
Contratado junto do irmão gêmeo Guillermo pelo Boca em 1997, o volante só veio a realizar já em amistoso de janeiro de 1999 seu primeiro Superclásico, inclusive marcando naquela noite em Mar del Plata seu único gol em um Boca-River. Uma noite que se mostrou simbólica com o tempo: Gustavo tanto abriu o marcador, com um chute bem colocado sobre Roberto Bonano, com a defesa millonaria pega de surpresa por um corta-luz de Antonio Barijho após jogadaça de Riquelme… como também terminou expulso no início do segundo tempo.

Considerando amistosos como esse, Gustavo esteve ao todo em oito Superclásicos, com três vitórias para cada – a mais especial, aqueles 3-0 pelas quartas-de-final da vitoriosa Libertadores de 2000, na véspera dos 60 anos da Bombonera. Aqueles históricos 3-0 teriam sido ainda maiores se um pênalti em Gustavo, com a partida ainda sem gols, houvesse sido assinalado naquela mágica noite.
O outro Barros Schelotto demorou um tempo para enfrentar o River primeiramente, porque calhou de sofrer duas distensões musculares (uma em cada perna) tão logo chegou; só foi entrar em campo três meses depois, inicialmente na equipe B, pela 11ª rodada (em 1º de novembro) do campeonato argentino dessa categoria, na preliminar do jogo do time principal pelo Apertura; o Superclásico daquele Apertura, partida histórica por marcar o último jogo de Maradona, ocorrera precisamente na rodada anterior. Após pegar minutagem, foi testado no time principal a partir da 15ª rodada, substituindo Diego Latorre no decorrer da partida.
Depois de somente dez minutinhos na estreia, ele já foi melhor notado no jogo seguinte, justamente contra o Gimnasia. Substituiu Riquelme na meia hora final. E, aos 44 minutos do segundo tempo, deixou o clubismo de lado: levou de uma vez a melhor contra dois marcadores e cruzou. A bola foi inicialmente rechaçada, mas serviu para que Latorre, pelo outro lado, cruzasse na medida para Palermo marcar o único gol. Objetivamente falando, Gustavo deu o tal do “penúltimo passe”, ou “pré-assistência” (exatamente como no gol que abrira aqueles 6-0 sobre o próprio Boca, em 1996, inclusive), envolvimento que nem sempre é computado ou lembrado depois do calor do momento. Foi algo que se veria muito na Libertadores 2000 – chegaremos lá.

Sem títulos desde 1992 na liga argentina e nem voltas olímpicas expressivas em torneios internacionais, o Boca seria vice-campeão por um mísero ponto naquele Apertura. Chegar tão perto decididamente não arejou a panela de pressão, a ponto do mencionado Latorre declarar naqueles dias, de modo famoso, que o Boca era “um cabaré”. Na pré-temporada em janeiro de 1998, então, ocorreu o segundo fator que retardou o primeiro Superclásico a Gustavo: ele simplesmente teria ido às vias de fato com o então técnico xeneize, Héctor Veira.
Gustavo se revoltara por sempre se ver substituído e estrilou ao ser ordenado a sair em pleno intervalo de amistoso de pré-temporada, com a cabeça de todos ali quente pelo Racing ter aberto o placar no fim da primeira etapa. Além dos difundidos sopapos, houve agressões verbais das mais ásperas, relembrando-se a condenação que Veira sofrera por abuso sexual de um menor (crime que o técnico nunca assumiu). Para não perder autoridade sobre o elenco, o técnico exilou Gustavo no Unión.
Segundo o ex-volante, “não lhe guardo rancor. Aquela discussão (…) foi um momento feio. Eu tinha razão, mas talvez não foi a melhor maneira de me expressar. Me equivoquei no momento. Era jovem e nisso se comete erros. Agora está tudo bem”. Também em 2013, Veira igualmente pôs panos quentes: “não fomos aos socos. Com Gustavito tivemos um problema no vestiário de Mar del Plata, reagiu por uma substituição e tive que manda-lo jogar no Unión, mas já passou, e agora cada vez que nos cruzamos, nos cumprimentamos. São bons rapazes”.

O site Imborrable Boca oferece uma visão franca sobre a imagem, injusta ou não, que a torcida guardou. Tanto reconheceu o talento mal aproveitado de Gustavo como também assinalou que teria faltado “aquele tchan” ou “algo a mais” para que se consolidasse. Nas palavras do site, Gustavo seria “volante muito técnico e tremendamente habilidoso, a ponto de que quase todos os que conhecem os gêmeos concordarem que ele é melhor do que seu irmão, mas que por A ou por B nunca pôde colocar o pé muito menos demonstrar isso no time principal do Boca”.
Os relatos do Imborrable Boca prosseguem detalhando o que explicamos mais acima: “chegou ao clube em meados de 1997 (…) por estrita recomendação de Diego Armando Maradona. E demorou uns dois meses para estrear (…), pela 15ª rodada do Apertura, (…) entrando no lugar de Latorre faltando 10 minutos. Após alternar alguma coisa no final desse campeonato, chegou o verão de 1998 e o que devia ser a plataforma de lançamento para seu postergado salto, (…) após uma brutal briga com El Bambino [apelido de Veira], (…) teve que arrumar as malas e ir exilado ao Unión de Santa Fe. Não houve nem a mais remota chance de que o técnico reconsiderasse sua postura”.
Gustavo ficou um semestre no Unión, a tempo de disputar um Clásico Santafesino, um 2-2 que escorreu no Clausura 1998: em casa, o Tatengue abriu 2-0, mas sofreu um empate-relâmpago ao ser vazado aos 30 e aos 32 do segundo tempo. Naquela reportagem da El Gráfico, ele pontuou assim: “Unión-Colón e Gimnasia-Estudiantes talvez eram os clássicos mais parecidos no contexto, são cidades menores e dependem do clássico local. Não se destaca-os tanto jornalisticamente a nível nacional, mas são de muita importância, e a cidade os vive de uma maneira muito particular e para o jogador são algo muito forte”.

Voltemos às palavras do Imborrable Boca sobre o semestre em que o volante esteve exilado: “passou esse semestre, o Boca foi péssimo, o Bambino foi embora e após o Mundial da França, Gustavo voltou para se colocar às ordens de novo treinador Carlos Bianchi”. Após voltar, foi inicialmente usado nos cinco minutos finais de amistoso de pré-temporada com o Independiente. Na Copa Mercosul de 1998, edição inaugural de um torneio que os gigantes argentinos tendiam a deixar em segundo plano, marcou seu primeiro gol xeneize, convertendo no antigo Parque Antarctica um pênalti contra o futuro campeão Palmeiras, em derrota de 3-1 nas quartas-de-final.
O time priorizou a reconquista nacional e, em paralelo, faturou de modo invicto o Apertura. Em amistoso festivo naqueles dias, os gêmeos até marcaram juntos em 5-0 na Universidad Católica, com Gustavo acertando uma cobrança de falta para marcar o quarto. Também trabalharam bem juntos na jogada do 1-1 com o Lanús, no penúltimo e último passes: um minuto após substituir Riquelme, Gustavo lançou o gêmeo, que por sua vez conferiu a assistência para Antonio Barijho. O clube já era campeão, mas garantia pela primeiríssima vez isso de modo invicto na liga argentina.
Nos amistosos de verão de 1999, além do único gol dele em Superclásicos, também deixou um no Independiente, empatando de modo bonito: lançado por Riquelme, driblou o goleiro antes de tocar com a canhota às redes. Mas, ainda segundo o Imborrable Boca, no segundo ciclo o outro Schelotto “jamais pôde ganhar a titularidade. Motivos pode ter mil: a equipe titular era intocável, que Bianchi deu mais guarida a garotos dos juvenis, que não teve a continuidade necessária”.

O papel de meia-armador, afinal, era de Riquelme, muito bem entrosado com Mauricio Serna, Sebastián Battaglia ou José Basualdo como aplicados carregadores de piano. De fato, no bicampeonato do Clausura 1999 ele foi usado somente seis vezes, deixando ao menos uma assistência, para Barijho empatar (em 1-1) nos 2-2 na visita ao Unión. Foi no segundo semestre de 1999, após pré-temporada com dois gols sobre o América do México, que teve pela primeira vez uma sequência na Casa Amarilla: participou, normalmente como titular, de 17 dos 19 jogos do Apertura.
Mas, além dos pupilos de Bianchi não terem fôlego até o fim na luta pelo tricampeonato ainda inédito ao clube, Gustavo não apareceu tanto nos gols: deu uma assistência a Palermo nos 3-1 sobre o Gimnasia de Jujuy, marcou o segundo nos 3-1 sobre o Rosario Central e teve como partida mais digna de nota os 2-0 no Instituto de Córdoba, ao efetuar o penúltimo passe no primeiro gol e a assistência no segundo. Outra “pré-assistência” ocorreu na Mercosul, no lance convertido pelo irmão nos 3-1 sobre a Universidad Católica.
O site conclui sobre Gustavo que “o certo é que jogava partidas, ou melhor, momentos isolados em que não desafinava como um bagre, mas tampouco podia dar o salto para ganhar a posição. (…) Nada contundente como o que poderia ter sido o megapênalti que Ángel Sánchez preferiu não apitar na noite da muleta [uma referência ao regresso de Martín Palermo] contra o River. Foi por meados do primeiro tempo e teria significado a economia de muitos nervos, mas já entramos no terreno das hipóteses. A realidade nos marca que o passo de Gustavo Barros Schelotto foi bastante opaco”.

Ele efetivamente chegou a voltar à equipe B em 2000. Mas, ao longo da Libertadores, pôde ser titular na reta decisiva, na vaga de um lesionado Serna. E ali mostrou bem mais serviço do que a crítica do Imborrable Boca sugere. Primeiramente, nas oitavas-de-final, esfriou a reação equatoriana do El Nacional ao ampliar para 3-1 (terminaria 4-1) ao acertar e longe pela esquerda um belo chute diagonal no segundo pau, dez minutos depois do adversário ter descontado – um eventual empate eliminaria os argentinos, depois do 0-0 no jogo de ida em Quito.
Houve então os famosos Superclásicos pelas quartas-de-final. Na ida, no Monumental, o Boca foi derrotado por um reversível 2-1 a partir de cobrança que falta (convertida por Riquelme) apitada sobre Gustavo. Mas mais lembrado mesmo foi o lance do famoso pênalti que Gusti sofreu e terminou não assinalado na Bombonera.
Já nas semifinais e finais ele envolveu-se diretamente em ao menos três gols, com aquele chamado “penúltimo passe”. Foi assim que ele contribuiu no segundo e no terceiro gols no 4-1 sobre os mexicanos do América, nas semis; bem como no gol do empate em 2-2 no jogo de ida com o Palmeiras – esse desafogo foi engendrado a partir de bola bem alçada na grande área palmeirense por aquele camisa 17.

Em paralelo, mostrava estrela também na reta final do Clausura 2000, ainda que com o time só cumprindo tabela: nos 5-1 sobre o Belgrano, foram de Gustavo a assistência no primeiro gol e a pré-assistência no terceiro. Também foi dele o passe para gol no segundo arrancado em 2-2 em visita ao Talleres. No segundo semestre de 2000, ele teve então uma sequência interessante na primeira metade. Em agosto, chamou a atenção do Villarreal ao marcar o primeiro gol do Boca em movimentada derrota de 5-3 em amistoso na Espanha. Em setembro, foram até três jogos seguidos com gols de Gusti: no 1-1 com o Racing, em bela tabelinha desde o meio-campo; em cabeceio para marcar o segundo de 3-1 na visita ao Belgrano; e de pênalti nos 5-2 sobre o Olimpia pela Copa Mercosul, jogo onde também deu assistência ao primeiro gol.
Mas sua última partida pelo clube também se mostrou simbólica quanto aos altos e baixos que o marcaram. Foi no jogo que valeu a tríplice coroa, na rodada final do Apertura, semanas após o título mundial: foi titular, contra o velho rival Estudiantes… mas saiu no intervalo e ainda viu seu obscuro substituto Matías Arce ter tarde de herói e marcar o gol do título. Ainda assim, Gustavo teve no Boca uma média de gols alta nas circunstâncias. Considerando-se amistosos, foram doze em 91, números ainda mais respeitáveis sabendo-se que era um volante. E um volante reserva.
Esses doze gols saíram mesmo com ele só atuando por 32 partidas em todos os 90 minutos, de acordo com estatísticas extraídas de seu perfil no site Historia de Boca – de onde foi também possível extrair (de modo não-exaustivo, dada a baixa qualidade de alguns vídeos) as assistências e “pré-assistências” mencionados aqui, podendo haver mais alguma ou outra que tenha escapado de registros.

Gusti certamente receberia mais boa vontade da memória xeneize se não fosse parente (e, portanto, inevitavelmente comparado, conscientemente ou não) de alguém que reluziu ainda mais com a azul y oro. Naquela nota na El Gráfico, declarou que “vamos dirigir o Boca alguma vez, e seguramente nunca dirigiremos Estudiantes ou River. (…) Sei que o Estudiantes não me viria buscar por meu passsado no Gimnasia (…). Com o River ocorre o mesmo: não vão me chamar, estamos muito identificados com o Boca”.
Apesar da identificação bostera, ele na mesma nota fez uma ressalva ao Superclásico: “é o maior clássico argentino, mas pela dimensão na quantidade de gente que acompanha, um país inteiro”. Afinal, no quesito nível ferrenho de rivalidade o Clásico Rosarino é muito maior. Mas, antes, ele jogou o de Avellaneda, após um semestre europeu.
No Clásico de Avellaneda e no Clásico Rosarino
Como dito anteriormente, um daqueles golzinhos de Gustavo pelo Boca ocorrera em amistoso com o Villarreal em agosto de 2000. Em ascensão, o clube espanhol, que já tinha prospectado daquele Boca de Bianchi tanto Arruabarrena como Diego Cagna, importou em janeiro Gusti juntamente com Martín Palermo, com contratos assinados para durar até 2004 e 2005, respectivamente.

Mas o “Bocarreal”, ao menos naquele momento, não deu liga como um todo. Ali, o marasmo de Gustavo foi inegável: em 24 de janeiro, teve uma estreia aplaudida pelas duas canetas em amistoso beneficente com o Eintracht Frankfurt. Mas, passado quase um mês disso, seguia sem ser usado em La Liga: a comissão técnica o via como ainda fora do ritmo de jogo ao ter perdido a pré-temporada espanhola.
Chegou a ser noticiado, que ele estrearia, por sinal, em pleno dérbi provincial com o Valencia, no dia 25 de fevereiro. Mas isso também não ocorreu. Palermo tampouco cumpria as expectativas, mas tinha todo o hype pela exibição de gala contra o Real Madrid no Mundial Interclubes. Gustavo, não; naquele duelo em Tóquio, só entrara em campo para dar a volta olímpica. Em 27 de fevereiro, Schelotto foi usado como titular em novo amistoso, contra o PSG, e colheu novos aplausos. Se permitiu então expor publicamente sua frustração pela falta de jogos nos torneios espanhóis: “pensava que jogaria mais. Se me trouxeram aqui, foi porque podia ser útil e quero demonstrar isso”.
A estreia no campeonato enfim se deu poucos dias depois, em 4 de março. E acabou virando um novo entrave: pouco após oferecer a melhor chance de gol no embate com o Málaga, lesionou seriamente o joelho. Inicialmente, recebeu compreensão do Mundo Deportivo, que em 10 de março opinou que “a incorporação de Barros Schelotto é também positiva e com certeza, pouco a pouco, dará seus resultados, já que é um jogador valente e bom no um contra um”. Quando dali a uns anos o argentino pendurou as chuteiras ao admitir “o peso inexorável do tempo”, o mesmo jornal reconheceria nele “um meio-campista técnico”.

Mas depois daquela lesão ele só tornou a ser reutilizado em maio pelo Submarino Amarillo e, embora uma boa atuação contra o Las Palmas parecesse relança-lo, era tarde. E o clube acabou arranjando outro argumento para se desfazer dele: apesar da evidente ancestralidade italiana (sem parentesco conhecido com ele, o lateral-direito Ezequiel Schelotto, argentino da Internazionale, foi até recentemente naturalizado pela Azzurra), o jogador não tinha passaporte europeu, sobrecarregando as poucas vagas de não-comunitários; Palermo, de semestre também abaixo da crítica, teria comprovado ser neto de um imigrante de Cosenza e, com dupla cidadania, recebeu voto de confiança para nova temporada no Madrigal.
O Racing aproveitou a baixa do volante: para o segundo semestre de 2001, Schelotto era o reforço bom, barato e de experiência vencedora para a equipe meramente operária e cheia de anônimos (mesmo Diego Milito só criou renome depois) preparada pelo técnico Reinaldo Merlo. À El Gráfico, o Schelotto do Racing não chegou a falar diretamente sobre o Clásico de Avellaneda, único onde ficou em desvantagem: 1-1 em 2001 (embora com gosto de vitória, pelo empate ter sido arrancado fora de casa no minuto final) e derrota de 2-1 em 2002.
Por outro lado, a passagem pelo Cilindro foi vitoriosa e propiciou a ele seu título mais expressivo como titular absoluto desde aquela Copa Centenário com o Gimnasia: “um dos momentos mais emocionantes da minha carreira, sem dúvidas, foi o campeonato que conseguimos com o Racing, em 2001. Rompemos o tabu de 35 anos sem títulos [nacionais]. Merlo teve muito mérito, nos obrigou a jogar no limite, porque se essa equipe não jogasse no limite, não poderia ganhar (…). Gerou em nós e no povo uma onda positiva que nós pudemos pôr a favor dentro do campo. Era uma equipe que refletia o sentimento do povo. A qualidade não era a melhor, mas sim a atitude. Deixávamos a vida”.

No Racing, ele teve responsabilidades mais defensivas, ficando ainda mais “invisível” de gols gerados. O golzinho na campanha se resumiu ao único da vitória sobre o Huracán – em voleio bem simbólico, de plasticidade e raça. Como volante mais destrutor enquanto José Chatruc fazia mais o papel do meia ligado ao ataque, teve como contribuição mais importante, sem dúvidas, precisamente no lance que valeu o título: todos lembram que o cabeceio salvador sobre o Vélez foi de Gabriel Loeschbor e a assistência, de Gerardo Bedoya cobrando uma falta sobre Maxi Estévez, mas nem tanto que o lance que originou essa falta surgiu de bola bem roubada pelo Schelotto racinguista. Tamanho desjejum repercutiu até na Espanha, onde o ex-Villarreal foi reconhecido como destaque da retaguarda de La Academia junto ao goleiro Gustavo Campagnuolo.
Após a temporada campeã em Avellaneda, ele foi contratado pelo Rosario Central a pedido de ninguém menos do que César Menotti, então treinador dos canallas. O volante não ganhou títulos no novo clube, mas voltou a aparecer relativamente mais ofensivamente, a ponto de ter números curiosos em seus golzinhos: tanto aplicou a lei do ex, sobre Gimnasia e Racing, como castigou o velho inimigo River. E ele, que já havia goleado o Boca por 6-0 em 1996, acabou participando também de um 7-2 na rodada final do Clausura. Seu gêmeo e outros titulares e reservas imediatos do elenco recém-vencedor da Libertadores 2003 haviam ganho folga e assim o ex-clube usou juvenis, inclusive promovendo ali a ingrata estreia de Mauro Boselli no time de cima. Gustavo conferiu o penúltimo passe no segundo gol e assistência direta (desde o círculo central) ao quarto.
Apesar de permanecer por duas temporadas em Rosario, só jogou uma vez o clásico rosarino. Mas caprichou: ofereceu duas assistências, em categórico 3-0 sobre o Newell’s (no primeiro e no terceiro gols), sendo eleito o segundo melhor em campo pelo jornal La Capital. A partida encerrou uma série de quatro jogos seguidos sem vitórias centralistas em clássicos realizados no próprio Gigante de Arroyito. Vale dizer também que naquela temporada 2002-03 o Central brigava para não cair nos promedios ao mesmo tempo em que, com aquele triunfo, virou líder provisório do Clausura – e que o volante ainda se deu ao gostinho de um troco contra o desafeto Veira, que era o treinador arquirrival na ocasião.

Aqueles 3-0 seguem sendo a maior goleada que o século XXI viu no dérbi e, se não embalaram os auriazuis rumo a um título (terminaram em 4º, mas a dois pontos do vice), lhes alavancaram de uma ameaça de rebaixamento (a equipe passou raspando, ficando uma posição acima dos condenados à repescagem) para a última vez em que se classificaram à Libertadores. Miguel Ángel Russo, que já havia sucedido Menotti como técnico do Central, foi só elogios na época, descrevendo Gustavo como “um dos jogadores mais inteligentes que já tive”.
Naquele monólogo à El Gráfico, o meia assinalou que “Central-Newell’s também foi muito importante na minha carreira. Estive dois anos em Rosario e o que se sente na semana anterior e posterior em uma cidade tão boleira também é algo muito intenso. Imaginava um clássico assim, mas é preciso vivê-lo. Estando aí, a pessoa se dá conta da história que tem, que é riquíssima”. A identificação que teve naquele momento chegou ao ponto de fazê-lo batizar uma das filhas de Rosario – e que em outra filha “quis colocar [o nome de] Juana Central, mas não caía bem”.
Agora, no Clásico del Sur
Gustavo ainda disputou aquela Libertadores 2004 pelo Rosario Central (sendo titular naquela eliminação para o São Paulo, apesar de já estar no banco naquela cardíaca decisão por pênaltis), mas em julho ele, dono do próprio passe e já com 31 anos, preferiu voltar à antiga casa; em seu segundo passo pelo Gimnasia, disputou em 21 de novembro pela última vez o Clásico Platense. O clube ficou no 0-0 visitando o Estudiantes e se gabava de, até então, ser a equipe mais vitoriosa em dérbis válidos pela primeira divisão profissional: a contagem, ao fim daquela tarde, ficou em equilibradíssimas 46 vitórias do Gimnasia, 45 do Estudiantes e 50 empates (a volta de Verón em 2006 faria esses números parecerem cada vez mais mentirosos!). Por desavenças com o presidente gimnasista de então, rescindiu em janeiro de 2005 um contrato que ainda teria um semestre a mais na previsão original.

Enquanto o irmão Guillermo também passava a figurar na equipe B do Boca ao ser cada vez menos usado por Alfio Basile, Gustavo iniciava naquele 2005 uma rodagem por outros países latino-americanos. Ainda como jogador, conheceu pelo Alianza os dérbis de Lima. Em 2009, após dois anos trabalhando como comentarista no TyC Sports, passou a acompanhar as comissões técnicas de Gregorio Pérez, aquele treinador que lhe profissionalizara no Gimnasia em 1992. Foi assistente dele em diferentes dérbis de Assunção (por Olimpia e Libertad, com o qual foi campeão em 2010) e, principalmente, no Superclásico uruguaio, trabalhando entre 2011 e 2012 no Peñarol. Em julho de 2012, então, Gustavo iniciou o trabalho em dupla técnica com o irmão gêmeo, contratados pelo Lanús.
Como jogador, somente outros dois atletas participaram de cinco dérbis diferentes na primeira divisão: Claudio Enría vivenciou o cordobês (Talleres), o rosarino (Newell’s), o do sul (Lanús) e o platense (Gimnasia), muitos deles também disputados por Iván Moreno y Fabianesi, exceto o primeiro; curiosamente, nos demais este defendeu os rivais Rosario Central, Banfield e Estudiantes, além de jogar pelo Huracán contra o San Lorenzo. Naquela nota à El Gráfico, Gustavo teve jogo de cintura: “voltaria a jogar todos os clássicos que joguei se tivesse a oportunidade. Não posso me decidir por um em particular porque sempre me senti muito identificado com o clube em que estava. Além disso, adorava jogar este tipo de partidas”. Dos sete clássicos do fim de semana, o único em que não se envolveu foi o de Huracán-San Lorenzo.
Embora o ex-volante já trabalhava no Lanús na época da reportagem, só foi vivenciar o clássico com o Banfield um ano depois de ela ser publicada, com a volta em 2014 do Taladro à primeira divisão – os comandados pelos Schelotto ganharam de 1-0 em 2014 e por 2-1 no primeiro semestre de 2015. Nesse segundo semestre de 2015, o dérbi do sul da Grande Buenos Aires, aliás, terá reflexos do Superclásico: enquanto os grenás são treinados pelos gêmeos Barros Schelotto, antigas figuras do Boca, os alviverdes têm de técnico o ídolo riverplatense Matías Almeyda.

Sobre seu brilho ter sido ofuscado pela estrela bem maior do irmão, o ex-volante também comentou: “não me machuca que Guillermo ocupe um lugar mais importante que eu ante os jogadores, o resto do corpo técnico ou com os jornalistas. A mim o que interessa é estar cômodo no lugar onde estou e, sobretudo, trabalhar com liberdade. Sempre planejamos trabalhar juntos”.
Essa declaração é um tanto oposta à humorada peça publicitária abaixo, onde a mãe de ambos sugere que ele se passe pelo gêmeo (febrio) em uma entrevista pré-agendada com o apresentador esportivo Fernando Niembro. A propaganda inclusive brinca com rumores de que isso já teria ocorrido algumas vezes em campo, seja por lapso dos treinadores ou não (algo que a reportagem inserida na segunda foto desta nota confirmou ter acontecido ao menos uma vez…). Eis o que conversam, a quem não entender o sotaque carregado:
Mãe: Criar gêmeos não é tarefa fácil…
Guillermo: Mãe, me parece que tenho febre. No domingo não vou poder jogar.
Mãe: Vamos ver. Ui, sim, tens febre! Mas você nesta noite tem um programa…
Guillermo: Vai ter que ir ele…
Gustavo: Não, eu não.
Guillermo: Quantas vezes fizemos isso aos domingos no campo?
Mãe: Quantas vezes te fingiste de Guillermo [“muitas!”, interrompe Gustavo] e deu bom?
Guillermo: Me deves três substituições!
Gustavo: Mas isto é televisão e sai em todo [lugar]! E se derem conta? Te metem uma câmera aqui…
Guillermo: Faça o mesmo de sempre!
Gustavo: Se queres ficar de bem com Niembro, lhe mande uma caixa de bombons!
Mãe: Se penteie como ele e ponha a camisa dele!
Gustavo: Bom, está bem, eu vou.
Niembro: Guille… creio que seja a grande pergunta: quem é o melhor dos dois?
Gustavo: Sem dúvidas, o melhor dos dois… é o Gustavo. Cabeceia melhor, pega melhor na bola, corre mais, lê melhor as partidas…
Guillermo: Como dizes isso?
Gustavo: Ué, o que eu disse?
Guillermo: Tenho que te atirar algo!
Mãe: Não, não, parem, parem… sirvo eu, sirvo eu… se somos dois, somos melhores.
Gustavo: Mãe, me puseste menos!
Guillermo: Vou me queixar também!
Narrador: Terma te dá equilíbrio, como o que têm as mães, capazes de repartir tanto amor… em partes tão iguais!
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