Suíça, que já teve argentino em Copa, é terra ancestral de dois campeões com a Argentina

Originalmente publicado em 30 de junho de 2014, revisado, atualizado e ampliado

Os elencos argentinos campeões do mundo em 1978 e em 1986 tinham cada um descendente de suíços cada um, respectivamente Daniel Killer e Néstor Clausen. Em contrapartida, a seleção da Suíça já foi treinada por um argentino e abrigou outros como jogadores, inclusive em Copa do Mundo – precisamente a dos Estados Unidos em 1994, aliás, com Néstor Subiat, retratado acima. O intercâmbio é maior do que se pensa e vale ser resgatado no embalo do duelo das quartas-de-final de nova Copa nos EUA.

Os argentinos da seleção Suíça

Um primeiro antecedente foi o de Daniel Raschle. Nascido em Posadas, na província de Misiones, fronteiriça ao Paraguai. Formado no Huracán de Posadas dos 13 aos 15 anos, ainda passou pelos juvenis do tradicional Colón antes de lançar propriamente no futebol paraguaio mesmo a carreira: defendeu o Libertad de 1979 a 1984 e o Cerro Porteño até 1986, quando foi rapidamente repatriado pelo futebol de Posadas para defender o Guaraní Antonio Franco na segunda divisão argentina de 1986-87. Foi o vice-artilheiro do torneio, inclusive, com 29 gols.

Ele estava no lucrativo narcofútbol colombiano com o Unión Magdalena quando sua dupla cidadania atraiu o futebol suíço, incorporado pelo St. Gallen em 1989. Fez um trio de ataque chamativo sul-americano com os chilenos Iván Zamorano e Hugo Rubio. Embora mal visto por certa frequência de cartões vermelhos, Raschle foi contemplado em 1990 com uma primeira convocação pela Suíça, ainda que para a seleção B. Na época, Raschle recusou o chamado de Uli Stielike para juntar-se à concentração: apesar da origem, o argentino não tinha maior domínio do alemão e deu prioridade ao lar, com a notícia de que a esposa estava grávida. Nascido em St. Gallen, o filho também se chamaria Daniel e jogaria uma vez pela sub-21, em 2008.

Os dois Daniel Raschle, pai e filho, por Guaraní Antonio Franco e Lecce. O pai esteve em convocações da seleção adulta da Suíça e o filho jogou pela sub-21

Em 1991, Raschle enfim se juntou à seleção B, mas Stielike não o colocou em campo para os compromissos com Inglaterra e Tchecoslováquia: justificou que o argentino calhava de estar sempre lesionado. De fato, Raschle precisou se retirar da concentração realizada em Dubai em janeiro de 1992, quando estava integrado à equipe principal, já treinada por Roy Hodgson. No decorrer do ano, transferido ao Lausanne, parecia recuperado: na parte francófona, chegou a ser capitão do clube e fez em julho uma partida não-oficial pelos helvéticos, escalado por Hodgson para amistoso com o Slavia Praga.

As eliminatórias à Copa de 1994 estavam para começar quando Raschle recebeu diagnóstico de hérnias de disco. Tinha a opção de seguir jogando com dor, de se operar ou de pedir uma robusta aposentadoria por invalidez. Optou pela terceira alternativa e acabou por nunca entrar para as estatísticas oficiais da seleção. Procurado pela imprensa de Misiones a respeito do duelo Argentina-Suíça, declarou que não se arrepende da decisão. A bem da verdade, ele teve epílogos: venceu em 1996 a terceira divisão paraguaia com o Atlético Juventud, suficiente para embarcar em 1997 às divisões suíças de acesso como reforço do Winterhur. Desde 2000, vem tendo larga carreira de técnico por clubes paraguaios.

Mas a Copa de 1994 teria seu argentino a serviço dos helvéticos. Foi o atacante Néstor Gabriel Subiat, que por sua vez já deixou claro quando procurado em 9 de julho (dia da independência argentina) pelo portal rosarino Cadena 3: vai torcer “um poquinho mais” pela Argentina natal. Nas outras vezes em que foi procurado pela imprensa portenha, sempre demonstrou que manteve bem regadas as raízes mesmo morando na Europa desde a infância.

Vinte anos de diferença: Subiat contra a Colômbia na Copa de 1994 e representando a Suíça no showbol em 2014

Subiat é filho e neto de dois ex-jogadores do Vélez, respectivamente o meia Néstor Gilberto Subiat e o ponta-esquerda Gilberto Alejo Subiat. O avô, que jogou nos anos 30, foi mais obscuro, pois o dono da posição era Ángel Fernández (titular como na maior parte daquela década) e o reserva imediato, ninguém menos que Juan Echevarrieta, posteriormente estrangeiro com mais gols pelo Palmeiras.

O pai, apelidado de Pájaro (“Pássaro”) pelos cabeceios, teve mais chances, mas sem continuidade também: concorria com Daniel Willington, um dos maiores ídolos do clube. Passou em 1966 ao Colón, que estreava na elite argentina, para enfim triunfar em 1967 no Platense do técnico Labruna. O clube fez campanha brilhante no Metropolitano, só parada na semifinal pelo Estudiantes em uma das maiores superações já vistas no futebol: com um a menos e perdendo por 3-1, o time de La Plata, que nunca havia vencido a elite, conseguiu virar para 4-3. Retratamos a epopeia neste outro Especial.

Apenas em 2025 é que o Platense pôde enfim vencer a primeira divisão argentina. Apesar daquela decepção de 1967, a linha ofensiva Miranda, Mugione, Bulla, Subiat e Luis Medina ainda é citada de memória pelos torcedores mais velhos do clube que com o tempo ficou mais famoso por ser um raro time marrom e por parir David Trezeguet. Subiat jogou ainda no Millonarios de Bogotá até ir à França, onde jogou no Mulhouse. Radicou-se lá e o filho, nascido em Buenos Aires em 1966, começou a carreira no mesmo Mulhouse, na Alsácia, a região fronteiriça com a Alemanha.

Subiat mantendo a adoração pelo Boca em 1997 e por Messi em 2007. À direita, acompanhando no Brasil a Copa de 2014 em imagem de capa da imprensa suíça em 30 de junho de 2014, véspera do duelo com a Argentina

De fato, aquelas redondezas eram alemãs até o fim da Primeira Guerra Mundial e tamanha herança fez com que os colegas de clube torcessem em peso pela Alemanha Ocidental na final da Copa de 1986. Subiat filho, apelidado de Pecos, era o solitário hincha da Argentina na concentração e assistia contido até se permitir desengasgar e correr feito louco pelo hotel quando Burruchaga marcou o gol do título…

Subiat, o filho, seguiu carreira nas divisões de acesso francesas até ser prospectado em 1992 pelo futebol da Suíça, acertado com o Lugano. Não era sua primeira vez nesse país, que já havia proporcionado uma anedota: um amistoso em Zurique entre Argentine e Itália em 1987 levou ele e o pai a visitarem a concentração Albiceleste. Antigo adversário do Subiat pai nas dramáticas semifinais entre Platense e Estudiantes no torneio argentino de 1967, Carlos Bilardo deu aos dois acesso total a ponto de se converterem pontualmente em roupeiros da seleção para aquele jogo.

Ele teve brilho instantâneo no Lugano: na primeira temporada, marcou os dois gols da decisão da Copa da Suíça, sobre o maior campeão do país, o Grasshoppers. Casou-se com uma cidadã local, Natacha, o que lhe propiciou a cidadania helvética a alguém cujas origens europeias eram italianas e bascas. Em 10 de agosto de 1993, fez uma primeira aparição pela Suíça, em jogo considerado sub-21 contra a Suécia – o suficiente para, pelas regras da época, condiciona-lo a não defender outra seleção.

O técnico Trossero não conseguiu ir à Copa de 2002 e o lateral-direito Blondel acabou de fora da de 2026. Mas, dos argentinos, só eles e Subiat defenderam de fato a seleção adulta da Suíça

A boa média de gols o levou a estrear pela seleção principal em 1994, em amistoso com os EUA em 21 de janeiro, a tempo de ir à Copa do Mundo que ocorreria ali – e que marcava a volta da Suíça  a Copas: a última havia sido naquele 1966 (onde enfrentou a Argentina) em que Subiat nascera. O argentino jogou três dos quatro jogos dos helvéticos na Copa, mas sempre vindo do banco. Entrou em campo contra nos últimos 20 minutos do 1-1 na estreia com os EUA, nos últimos 10 minutos da derrota de 1-0 para a Colômbia na terceira rodada e aos 28 minutos da eliminação frente à Espanha. Luis Enrique havia acabado de colocar 2-0 nas oitavas-de-final e Subiat teve grande chance de descontar, mas a Furia fechou os 3-0 aos 41.

Foi mesmo depois só da Copa que teve Subiat teve um rendimento ainda melhor no futebol suíço. Contratado pelo Grasshoppers ainda antes do mundial, acabaria eleito o melhor jogador do campeonato na temporada 1994-95. A Suíça paralelamente se tornou a primeira seleção classificada à Eurocopa 1996 e Subiat emendou um bi seguido na liga, mas não pôde ir à Euro, lesionado. Não foi mais o mesmo depois, embora ainda tenha ganho chances no tradicional Basel e, voltando à França, no outrora vencedor Saint-Étienne. Ele nunca jogou na Argentina, mas rechaçou a indagação feita em 1994 pela El Gráfico se era um cidadão do mundo: “que nada, sou argentino. Bem argentino”. Após parar de jogar, adotou a mais suíça das profissões, mantendo a vida graças ao setor bancário…

Em 2000, novo reforço argentino na seleção alpina: Enzo Trossero, como jogador, foi um dos maiores zagueiros do Independiente; foi à Copa do Mundo de 1982 com a Argentina e, pelo clube de Avellaneda, foi o capitão do elenco vencedor da Libertadores e do Mundial Interclubes em 1984 mesmo ainda se declarando na época torcedor do rival Racing.

Nascidos em Genebra como filhos de jogador argentino, os irmãos Dylan e Kevin Gissi defenderam a Suíça nas seleções juvenis – Dylan fez isso já como jogador do Estudiantes

No fim da carreira, veio à Suíça defender o Sion e, já como treinador, venceu com ele o campeonato de 1992 – o primeiro do clube, recheado com uma panelinha com experiência em Copas do Mundo pela Argentina: Néstor Clausen (logo falaremos mais dele) vencera a Copa de 1986, Gabriel Calderón estivera nas de 1982 e 1990 enquanto Juan Barbas fora colega dele e do próprio Trossero na de 1982. El Vikingo foi contratado em julho de 2000 pela seleção, respaldado também por um vice-campeonato argentino com um já decadente Independiente, no Clausura daquele ano.

Mas, como treinador dos helvéticos, Trossero calhou de empreender o último trabalho ausente de Copas do Mundo: a seleção concorreu seriamente por vaga na Copa de 2002, mas uma derrota em plena Basileia para a Eslovênia complicou as chances, impulsionando o adversário a ficar com a vaga na repescagem (os eslovenos abriram dois pontos de vantagem) enquanto a Rússia nadava de braçada na liderança. Aquela zebra fez o argentino pedir para sair em junho de 2001, com ainda três rodadas em jogo.

De lá para cá, a Suíça abrigou argentinos basicamente nas seleçoes de base. A maioria, na realidade, nascidos nos Alpes como filhos de argentinos. Daniel Raschle, o filho, foi usado em 19 de novembro de 2008 pela sub-21 contra a Grécia em Atenas. Estava então na base do Lecce, mas sua carreira veio a se desenvolver no Paraguai. Em 2012, foi a vez da sub-21 usar o defensor Dylan Gissi, nascido em Genebra quando seu pai Oscar Gissi (meia do Vélez nos anos 80) defendia o Chênois. Nascido na mesma cidade, o irmão Kevin Gissi também figurou nas seleções juvenis da Suíça, mas não na adulta.

Ricardo Le Bas pelo Atlético del Rosario, onde foi campeão em 1905 tanto no futebol como no rúgbi

A carreira sul-americana de Raschle filho e dos Gissi pareceu inviabilizar novas chances. Mas entre março e junho de 2025 o lateral-direito Lucas Blondel, nascido em Buenos Aires em 1996, conseguiu ser testado quatro vezes pela seleção principal da terra natal de seu pai mesmo defendendo o Boca. Porém, acabou não duradouro até a Copa do Mundo e acabou sem espaço no próprio Boca, que nesse 2026 o emprestou ao Huracán.

Outros argentinos de origem suíça

Suíço-argentinos têm destaque desde os primórdios da propagação do esporte bretão. Ou dos esportes bretões. É que Ricardo Le Bas, campeão suíço com o Grasshoppers em 1901, voltou a Rosario a tempo de ser campeão tanto no futebol como no rúgbi com o antigo Rosario Athletic. Conciliar as duas modalidades não era algo incomum na época, em que o principal torneio do football no Rio da Prata era a Copa Competencia. Ela opunha clubes portenhos, rosarinos e uruguaios e essa equipe venceu as edições de 1902, 1904 e 1905 – essas duas, sobre o futuro Peñarol, cujo elenco ainda se denominava CURCC.

Também em 1905, o Rosario Athletic venceu pela primeira vez a liga portenha de rúgbi, da qual fora em 1899 um dos times fundadores. Gradualmente esse passou a ser o foco do clube, cuja sede na Plaza Jewell (denominação que viraria sinônimo da própria equipe) recebeu naquele mesmo ano a primeríssima edição de um clássico entre Newell’s e Rosario Central. A instituição segue vivíssima, tendo nacionalizado o nome para Atlético del Rosario, sendo ao longo do século XX servida por diferentes gerações da família Le Bas; naqueles tempos, Ricardo pôde atuar ao lado de alguns desses familiares, como Alberto e Alfredo.

Filho de suíços, Weihmüller foi chamado pela Argentina às Olimpíadas de 1928

Ainda no amadorismo argentino, houve o antecedente de Luis Francisco Weihmüller. Embora nascido em Villa María, no interior cordobês, ser filho de casal de suíços o fizera até ser registrado originalmente como “Ludwig Franz”, a versão alemã do seu nome duplo. Polido no Belgrano da capital Córdoba, radicou-se em Buenos Aires em 1926 e defendia o Sportivo Palermo quando foi convocado aos Jogos de Amsterdã, ainda que não entrasse em campo.

A Copa América de 1975 teve então os irmãos Killer, netos de um suíço que preferiu emigrar na Segunda Guerra a confiar que a neutralidade histórica seria respeitada pelos combatentes; apesar da sonoridade inglesa, trata-se de sobrenome presente mais na Suíça do que em países anglófonos. O lateral Mario Estanislau Killer, apelidado de El Colorado pelos cabelos ruivos, era visto como mais habilidoso do que o zagueiro Daniel Pedro Killer, seu irmão mais velho.

De fato, Mario foi bem mais presente do que Daniel na campanha histórica do Rosario Central campeão nacional de 1971, na primeira vez em que um clube rosarino venceu a primeira divisão argentina. E também foi Mario quem atraiu o futebol europeu, contratado em 1976 pelo Real Betis.

Daniel e Mario Killer juntos por Rosario Central e seleção, onde são o primeiro e o terceiro em pé

Só que eram outros tempos: ir à Europa mais atrapalhava do que ajudava jogadores a se manter na seleção. A Argentina não durou muito naquela Copa América, mas nela Daniel Killer fez história como o primeiro defensor a lograr um hat trick pela Argentina – o adversário era a Venezuela, é verdade, mas El Caballo seguiu intocável para os planos de César Menotti. E pôde representar a família na Copa do Mundo de 1978, mesmo sem entrar em campo. Já dedicamos a ele este outro Especial.

A dupla também defendeu o rival Newell’s e só se separaram em Avellaneda: Daniel pertencia ao Racing quando foi campeão do mundo enquanto Mario chegou a ser capitão do Independiente no início dos anos 80. Daniel e Mario ainda viram outro irmão ser chamado à seleção – Alfredo Pablo Killer esteve na primeira convocação de Carlos Bilardo, em 1983, mas não chegou a entrar em campo. Calhou de amargar naquele mesmo ano um rebaixamento com o Rosario Central.

Se não houve espaço para Alfredo Killer, a seleção de 1986 teve ainda assim um suíço-argentino. Foi o lateral Néstor Clausen, que naquele mesmo 1983 vencia o campeonato pelo Independiente. A mestiçagem lhe rendeu o apelido de El Negro embora seu fenótipo seja mais caboclo do que propriamente afro-argentino. Já dedicamos a ele este outro Especial.

Daniel e Mario Killer também jogaram pelo Newell’s enquanto outro irmão, Alfredo Killer, seguia no rival

Clausen também venceu a Libertadores e o Mundial Interclubes com o Independiente em 1984 e é considerado o maior lateral-direito da história do Rojo, mas uma péssima estreia na Copa de 1986 limitou seus minutos naquele título. Após vencer o campeonato argentino de 1988-89, foi contratado pelo Sion, se convertendo inclusive no primeiro jogador utilizado pela Albiceleste a partir de um clube da Suíça: assinara o contrato pouco antes da Copa América de 1989 e até esteve no álbum de figurinhas da Copa de 1990, embora acabasse não-incluído na convocação final.

A paralela ancestralidade helvética do Negro Clausen pesou naquele negócio com o Sion e seus três filhos acabarem mesmo se radicando na Suíça. Já ele regressou a Avellaneda para defender inicialmente o Racing mesmo, embora voltasse ao outro lado do quarteirão para capitanear o Independiente vencedor da Supercopa 1995 – e treinar o clube em 2002.

Apenas Clausen e o zagueiro Nelson Vivas foram chamados pela Argentina como jogadores do futebol suíço: Vivas conseguiu inclusive o feito de ser chamado a partir da segunda divisão daquele país, indo à Copa de 1998 pouco após obter o acesso com o Lugano. Estava emprestado pelo Arsenal e logo foi requisitado de volta pelo time inglês.

Clausen pelo Independiente campeão da Libertadores de 1984 e da Supercopa 1995 – e com a seleção de 1986

A lista aqui é não-exaustiva. Dada a singular sociedade suíça, é perfeitamente possível sejam dali a real ancestralidade europeia de argentinos de sobrenomes alemães (é o caso do ex-presidente Néstor Kirchner), de sobrenomes italianos (é o caso do ex-presidente Carlos Pellegrini) ou de sobrenomes franceses.

Os duelos diretos

Argentina e Suíça têm um cartel de sete partidas, e duas delas foram por Copas do Mundo. A primeira, em 19 de julho de 1966, foi válida pela rodada final da fase de grupos do Mundial daquele ano. Os hermanos venceram o ferrolho em Sheffield por 2-0, gols de Luis Artime e Ermindo Onega sobre um elenco já eliminado por antecipação, mas que deu trabalho ainda assim – inclusive ofensivamente, forçando o goleiro Antonio Roma a impedir chutes fortes bem endereçados.

No primeiro gol, aos 7 minutos do segundo tempo, o trio ofensivo insistiu numa jogada que parecia perdida: Onega havia deixado acionado Artime, mas este perdera a bola na meia-lua. Onega acreditou e desarmou o adversário que tentara sair jogando e a sobra da bola ficou para o colega Oscar Más, que fez Artime novamente bem servido. Este ainda escapou de três defensores antes de encher o pé pela direita.

Clausen na noite em que o Independiente levou a Supercopa 1995 sobre o centenário Flamengo no Maracanã

O segundo gol premiou novamente a visão de jogo de Onega: ainda no campo de defesa, ele repassou ao ponta Alberto González e disparou enquanto o colega avançava. Gonzalito então lançou de volta a Onega quando este já estava na grande área. Tão logo recebeu de volta, encobriu o goleiro em um lindo gol.

Em 16 de dezembro de 1980, Córdoba viu uma promissora apresentação da campeã do mundo, que se preparava para o Mundialito. O primeiro tempo terminou com um sonoro 4-0. Com cinco minutos, Maradona se livrou da marcação e cruzou pela direita para Ramón Díaz testar livre, na marca do pênalti, em jogada tão bela que os abraços foram mais para Dieguito do que para El Pelado. Aos nove, já estava 2-0. Em contra-ataque fulminante, Maradona carregou até o meio-campo e então buscou servir Leopoldo Luque. O passe não saiu tão bem, mas o recuo de bola da zaga suíça ao goleiro foi desastrado. Luque foi otimista e interceptou a tempo, driblou o goleiro e foi premiado: mesmo sem ângulo, a ponto da bola bater no primeiro pau antes de entrar, acertou as redes.

Aos 43, uma bela troca de passes resultou no terceiro. O habilidoso José Daniel Valencia recebeu no meio-campo de Alberto Tarantini e então entregou a Díaz. Sem decidir a quem passar, Díaz simplesmente ziguezagueou, passando por dois helvéticos até repassar a Luque, postado no ângulo esquerdo da pequena área. El Rana Valencia acompanhava tudo de perto e, tão logo passou por Luque, recebeu de volta e acertou um chute cruzado pela ponta-esquerda, no ângulo do segundo pau.

Cenas do primeiro duelo por Copas, em 1966

Ainda no primeiro tempo, no último minuto, Valencia então lançou a Maradona, situado no flanco direito da grande área. Diego cortou para a esquerda, fintando um marcador e, antes da chegada de outros dois, acertou um chute colocado no primeiro pau. El Diez ainda sofreu já no segundo tempo o pênalti do quinto gol, convertido por Daniel Passarella para fechar o placar. Seu chute forte, mesmo quase no meio do gol, foi o suficiente para a mão do goleiro não chegar a tempo.

Os quatro jogos seguintes foram todos na Suíça e a Argentina pôde se sair invicta. Em 1º de setembro de 1984, José Daniel Ponce e Oscar Dertycia anotaram os gols ocorridos em Berna, embora não durassem para a convocação final na Copa de 1986. No primeiro, Marcelo Trobbiani girou sobre a marcação e lançou bem seu colega de Estudiantes, que ainda matou no peito antes de concluir forte e no alto. No outro, Trobbiani viu ainda antes do meio-campo da presença de Dertycia, que pegou desprevenida a defesa suíça, galopou e acertou um chute rasteiro entre o goleiro e a trave, pela esquerda.

Berna também foi palco de amistoso pré-Copa em 8 de maio de 1990. Abel Balbo abriu o placar em um lindo chute de fora da área, no ângulo direito, tirando até mesmo Maradona no caminho para arriscar dali. Os hermanos ainda acertaram a trave em outro lance. Contudo, um lançamento encobriu a defesa argentina e Kubilay Türkilmaz também resolveu chutar forte, mesmo sem o melhor ângulo, e empatou no minuto final, entre Nery Pumpido e a trave. O empate não foi uma decepção extra apenas pela forma que ocorreu, no apagar das luzes: foi simplesmente o nono jogo seguido sem vitórias da então campeã mundial, na pior racha de sua história.

Messi e Shaqiri fizeram os gols dos 3-1 de 2012, na priemrai vez em que Lionel conseguiu um hat trick pela seleção.

Em 2 de junho de 2007, a Basileia viu outro 1-1, com gols no segundo tempo. Novamente, os hermanos abriram o placar: Tévez mergulhou um peixinho para aproveitar cruzamento enviado pela esquerda por Messi, castigando o goleiro no contrapé. E, novamente, sofreram o empate em um lance confuso. Troca de passes de cabeça encontrou Tranquilo Barnetta quase na pequena área e a Heinze prontamente aplicou carga pesada nele, que levou a pior. Mas, antes que qualquer pênalti pudesse ser debatido, Marco Streller aproveitou a sobra e acertou o cantinho de Abbondanzieri.

Berna então viu o primeiríssimo hat trick de Messi pela seleção, em 29 de fevereiro do bissexto 2012. Lionel abriu o placar aos 19 minutos de um enganoso 3-1. Ao receber de José Ernesto Sosa, Messi avançou a trocou passes com Agüero. El Kun, na meia-lua, fez um pivô com classe, devolvendo de calcanhar para enganar a marcação e facilitar ao colega acertar um forte chute rasteiro ao entrar na grande área.

E não é que o adversário devolveu na mesma moda? Aos 3 minutos do segundo tempo, Xherdan Shaqiri também ficou sozinho ao receber de calcanhar, acertando de imediato um chute forte no ângulo de Sergio Romero. Somente no fim é que a vitória ligeiramente dilatada veio, em gols do craque aos 43 e aos 45 do segundo tempo. No primeiro, a marcação alta foi premiada com bobeada incrível da zaga helvética. Agüero interceptou troca de passes desastrada por ali e a bola sobrou a Messi, que flutou do centro até a esquerda para sua canhota soltar um chute que ainda acertou o travessão antes de entrar.

O camisa 13 Ricardo Rodríguez estará em 2026 para buscar o troco por esse gol salvador de Di María na Copa de 2014

O hat trick por sua vez foi gestado a partir de contra-ataque gerado por Zabaleta. Agüero inicialmente cadenciou, pisando sobre a bola para então avançar a toda velocidade pela lateral-esquerda. Já perto da área, ele entregou a Higuaín, calçado por François Affolter. Na cobrança do pênalti, Diego Benaglio de um lado (sua esquerda), bola do outro. Clique aqui para conferir a matéria publicada na época pelo Futebol Portenho.

Por fim, a Copa do Mundo no Brasil colocou os dois países para jogar em Itaquera em 1º de julho para um jogo encardido – algo que já era previsto na véspera pelo Futebol Portenho. Granit Xhaka e Ricardo Rodríguez são junto a Messi os remanescentes daquela tarde em que Lionel furou o ferrolho ao servir Ángel Di María a dois minutos do fim da prorrogação… para ainda haver tempo e ímpeto para Blerim Džemaili acertar a trave no abafa final e ver um rebote acidental ir para fora, em lances seguidos evitados por muita reza do recém-eleito Papa Francisco segundo as gracinhas que imediatamente pipocaram na primeira Copa vivida com memes.

*Agradecimentos especiais ao amigo Esteban Bekerman, professor de Historia del Fútbol da Escuela del Círculo de Periodistas Deportivos de Buenos Aires e historiador do Vélez.

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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