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Elementos em comum entre River Plate e Belgrano, final que revive rebaixamento de 2011

Ah, as voltas do futebol. Em 2026, se completarão (em 26 de junho) quinze anos da hecatombe ocorrida no Monumental de Núñez: treinado por Juan José López, o gigante River Plate sucumbia ao Belgrano do técnico Ricardo Zielinski, do goleiro Juan Carlos Olave e do camisa 10 Franco Vázquez. Em 2011, os dois clubes travavam a Promoción, como era chamada a repescagem que opunha os penúltimos colocados dos promedios da 1ª divisão ao 3º e 4º colocados da segundona. Com direito a pênalti defendido por Olave, La B, um dos apelidos do Belgrano, mandou o River a La B, também o apelido da Série B argentina.

Agora, em 24 de maio, véspera do aniversário de 125 anos do River, as equipes fazem a grande final da primeira divisão. Zielinski é novamente o técnico belgranense, tendo em Olave seu auxiliar, enquanto El Mudo Vázquez acaba de voltar aos celestes como alguém com experiência de defender as seleções da Itália e da Argentina – retratado na imagem acima, Vázquez é o único remanescente ainda como jogador daquela partida emblemática de 2011. A chance do troco versus a chance de encerrar o debate em Córdoba sobre o primeiro time local a vencer a elite é bom gatilho para lembrarmos outros elementos em comum entre o Millo e o Pirata.

Para começar, alguns desses elementos em comum foram referidos acima. Apesar do apelido, o Monumental na verdade se situa no bairro portenho também chamado Belgrano, vizinho a Núñez. Manuel Belgrano, um dos primeiros ítalo-argentinos de relevo (seu sobrenome significa literalmente “Belo Grão” na língua de Dante) antes dessa imigração ganhar corpo, esteve entre os libertadores da América Espanhola e foi o pai da bandeira argentina – daí as cores alvicelestes da equipe cordobesa que leva seu nome. O ex-goleiro Olave e o treinador Jota Jota López, por sua vez, defenderam os dois times.

River e Belgrano, campeões de 1986

A história de López, aliás, permite resgatar outra efeméride que completa aniversário redondo em 1986, ano em que tanto River como Belgrano se proclamam campeões de primeira divisão. História essa que, por sua vez, requer um contexto prévio. É que, apesar do nome, até os anos 80 o campeonato argentino era restrito de modo oficial a clubes da Grande Buenos Aires, La Plata, Rosario e Santa Fe; na prática, era um torneio portenho (isso é, de megalópole da capital federal) com convidados. Como tantos outros torneios municipais/provinciais/regionais país adentro.

Olave: goleiro inutilizado no River em 2006, carrasco em 2011 ao defender, a vinte minutos do fim, esse pênalti. A defesa praticamente colocou o River na segundona

Belgrano e River puderam comemorar títulos, cada um em sua liga, nos certames alusivos a 1920 (ano do primeiro título argentino do River, aliás), 1932 (por sua vez o primeiro título riverplatense na era profissional, o que ainda faz muitos considerarem como o primeiro de todos), 1936, 1937, 1947, 1952, 1955 e 1957. Até mesmo o jejum dos anos 60 foi comum à dupla.

É pelo poderio intenso na liga cordobesa que os celestes sedimentaram a base de sua torcida, uma das mais numerosas do interior – afinal, Córdoba é das raríssimas cidades em que as forças locais têm mais apelo que a dupla Boca e River. Houve tentativas pontuais de fazer os clubes da Grande Buenos Aires travarem disputa com equipes do interior, mas em torneios efêmeros: nos anos 10 e nos 20, havia tira-teimas com o campeão da liga rosarina (valendo a Copa Ibarguren), até que Newell’s e Rosario Central passaram em 1939 a ser admitidos no campeonato “argentino”. Nos anos 40, uma antecessora da Copa Argentina teve algumas edições: a Copa de la República, que até viu o vice-campeonato da quinta força cordobesa, o General Paz Juniors, em 1943.

Em 1967, então, intervenção ditatorial na AFA novamente tentou consolidar que os times do resto do país também deveriam ter algum lugar simbólico ao sol. O campeonato “argentino” foi apropriadamente renomeado Torneio Metropolitano e passou a dividir calendário com o recém-lançado Torneio Nacional, a reunir os melhores times do Metro com os classificados em seletivas que peneiravam os campeões de cada liga do interior. Coube ao Belgrano o orgulho de ser o primeiro cordobês a disputar um torneio da AFA, em 1968. Com vagas tão limitadas, foi inclusive comum ao longo dos anos 70 que os times cordobeses não-classificados ao Nacional emprestassem seus melhores jogadores ao rival que se classificasse: o vizinho da vez ia fortalecido e o time de origem poderia capitalizar alguma venda na vitrine indireta que teria. O craque Ardiles, por exemplo, em 1974 jogava pelo Instituto (dono do seu passe) nos dias úteis pela liga cordobesa e, aos fins de semana, era cedido ao Belgrano para o Nacional.

Pois bem. As equipes de Córdoba foram os que mais souberam aproveitar a nova era, a ponto de em dado momento o campeão cordobês passar a ter vaga direta no Nacional, sem necessidade de participar das seletivas do interior. O Belgrano ficou a dois pontinhos tanto de ir às semifinais do Torneio Nacional de 1971 como para ir ao quadrangular final do Torneio Nacional de 1973. Seu ataque da época simplesmente municiou a dupla Barcelona e Real Madrid: os catalães contrataram Bernardo Cuchi Cos e Juan Carlos Heredia, ao passo que os madrilenhos adquiriram Carlos Guerini (filho e sobrinho, aliás, de um dos membros daquele General Paz Juniors de 1943). Eram tempos em que a liga cordobesa tinha até álbum de figurinhas próprio.

Reinaldi é o maior artilheiro do Belgrano em números gerais. As imagens carregado são do clássico cordobês de 1974 onde ele marcou os dois gols da virada que rendeu título regional sobre o então invicto rival

Em 1977, o Belgrano fez outra grande campanha, que calhou de ter dois contratempos: no regulamento duríssimo em que somente o líder de grupo avançava aos mata-matas, a distância novamente ficou em dois pontos abaixo do futuro campeão, o Independiente. O outro contratempo é que a bela campanha acabou ofuscada pelo rival, o Talleres, ter ido ainda mais longe, rumo à decisão. Inclusive, o vizinho esteve a poucos minutos de ser o primeiro cordobês a vencer a primeira divisão argentina, na final mais épica que o torneio já viu.

Outro contratempo veio em 1979, quando virou lei: o time do interior com duas classificações seguidas ou três alternadas aos mata-matas do Nacional passaria a ter vaga no próprio Torneio Metropolitano. A torcida belgranense calhou de ver ano a ano seus vizinhos adquirirem esse charme, com o Talleres sendo admitido em 1980, o Instituto em 1981 e o Racing de Córdoba em 1983. Em La B, a geração do início dos anos 70 não havia se renovado e não demonstrou o mesmo fôlego para adquirir o mesmo direito, ainda se limitando à liga cordobesa. Sem a concorrência dos rivais, até pôde acumular 40 jogos seguidos de invencibilidade em 1984, um recorde – ao mesmo tempo, no Torneio Nacional daquele ano, voltou a fazer boa campanha, liderando chave com Rosario Central e Vélez para enfim conhecer os mata-matas. A eliminação veio nas quartas-de-final. E justamente para o River!

O Torneio Nacional vigorou até o primeiro semestre de 1985. Naquela altura, as vagas argentinas na Libertadores eram apenas duas, e iam apenas aos dois campeões da temporada, os de Metropolitano e Nacional; quando algum time vencia os dois torneios, seus vice-campeões então faziam um jogo-extra para definir quem ficava com a outra vaga. Com o fim do Nacional, a primeira saída da AFA foi manter a ideia de dar as duas vagas aos dois campeões da temporada: uma para o campeonato “argentino”, sucessor do Metropolitano, e outra para o campeonato regional – que, apesar do nome, era a rigor um torneio federal, agrupando os times do interior. Pelo direito adquirido, o trio Talleres, Instituto e Racing de Córdoba ia seguir na liga “argentina” (em pontos corridos). O Belgrano, sim, ficaria nesse torneio federal, disputado em fase de grupos seguida de mata-matas.

O lobby dos times da liga “argentina” não tardou. Com muito mais apelo midiático, queriam para si as duas vagas na Libertadores. A AFA cedeu, criando uma gambiarra chamada liguilla pre-Libertadores: enquanto o campeão se classificava diretamente, os melhores colocados abaixo dele travariam um mata-mata pela segunda vaga. Nesse minitorneio de pós-temporada, haveria espaço também para os melhores do torneio federal. A liguilla seguiria sendo disputada até 1992 (quando as duas vagas passaram a ser dos campeões de Apertura e Clausura, os novos dois torneios do calendário anual), rendendo boas histórias.

O River venceu, com sobras, o campeonato “argentino” de 1985-86: o artilheiro Francescoli foi carregado em volta olímpica assegurada em 9 de março de 1986, quando ainda faltavam cinco rodadas para o fim do torneio. Enquanto isso, o Belgrano avançava no campeonato paralelo. Campeão cordobês de 1985, pôde entrar no torneio federal de 1985-86 quando ele já estava em uma segunda fase de grupos, em janeiro de 1986. É aí que entra Juan José López, veterano craque de renome nacional: havia brilhado no River multicampeão dos anos 70 sob a batuta do técnico Ángel Labruna. O ano de 1981 foi o fim de ciclo a ambos em Núñez, assim como a outros jogadores millonarios.

O mesmo Reinaldi foi, em 1975, talismã do River na conquista do Torneio Nacional: ao centro e à direita, comemora o gol do título. O outro jogador do River na imagem direita é Leopoldo Luque, futuro técnico do Belgrano

Em 1982, Labruna, reempregado pelo Talleres, reuniu um timaço com muitos dos antigos pupilos dispensados pelo River. López esteve entre eles, em uma equipe semifinalista do Nacional, cavando assim contrato com o Boca. Jota Jota não virou ídolo no novo time, mas teve uma passagem honesta com a azul y oro a ponto de reforçar outro timaço, o do Argentinos Jrs. Foi o reserva de luxo na equipe colorada campeã da Libertadores em 1985 e que quase ganhou também o Mundial Interclubes – ele inclusive foi um dos cobradores de pênaltis na definição com a Juventus, convertendo sua cobrança em Tóquio naquele 8 de dezembro de 1985.

No início de 1986, então, o vira-casaca entre Boca e River virou vira-casaca também entre Talleres e Belgrano. Juan José López participou da jornada belgranense naquele torneio federal. Os celestes, adentrando já na segunda fase de grupos, primeiramente lideraram a “Zona Centro”, como líderes de chave que reunia o Belgrano da cidade de Paraná, o Unión San Vicente (campeão cordobês em 1982 e em 1983) e o Sportivo Norte da cidade de Rafaela. Esses jogos se concentraram entre janeiro e fevereiro. A terceira fase de grupos foi então dois triangulares estendidos entre fevereiro e abril, com os líderes da segunda fase de grupos. Todos os seis postulantes dos dois triangulares estavam classificados à liguilla pre-Libertadores. E os líderes de cada triangular fariam a decisão do torneio federal.

No seu triangular, La B disparou sobre o Alianza de Central Có e o Concepción da cidade de Tucumán. No outro, deu Olimpo de Bahía Blanca para cima do Guaraní Antonio Franco (de Posadas) e Atlético Güemes (de Santiago del Estero). Belgrano e Olimpo então fizeram as finais. Enquanto os outros quatro times começariam a liguilla nas oitavas-de-final, os finalistas do torneio federal poderiam começar já nas quartas-de-final. A decisão federal teve vitórias celestes tanto em Bahía Blanca (3-1 em 13 de abril) como em Córdoba (3-2 em 20 de abril) sobre um adversário que alinhava José Ramón Palacio, o pai do bahiense Rodrigo Palacio. A grande revelação dos campeões era o talentoso meia José Luis Villarreal, que no futuro seria um dos raríssimos a defender a seleção argentina tanto como jogadores do Boca como também como jogadores do River.

Só não deu para o campeão federal ir longe na liguilla, com queda já no primeiro mata-mata, contra o Newell’s, em jogos ocorridos em 11 de maio e 18 de maio. Mas houve euforia para programar em 10 de julho um jogo festivo pelo título federal, chamativo por fazer Maradona, no auge do prestígio, vestir o uniforme belgranense: Dieguito havia vencido a Copa do Mundo apenas dez dias antes de fazer meio-campo com Juan José López. A partida tinha caráter beneficente e Maradona topou na hora: foi sua primeira vez em campo depois de vencer o Mundial do México.

O Belgrano reforçado com Maradona para o jogo festivo de 1986: Gustavo Vilches, Juan Carlos Ghielmetti, Alejandro Chiera, Juan Carlos Reyna, Sergio Céliz, Juan José López, Juan Manuel Ramos e o preparador físico Andrés Fassi (atual presidente do rival Talleres!); José Luis Villareal, Luis Scatolaro, Abel Blasón, Diego Maradona e Jorge Vázquez

A AFA não repetiu aquela fórmula para a temporada 1986-87. Com isso, o título do Belgrano no torneio federal de 1985-86, até mesmo por ter sido uma única edição, se tornou algo sui generis: não era uma segunda divisão, mas, ao mesmo tempo, também não tinha os melhores times do país. Um bom paralelo com a discussão sem fim que o clubismo no Brasil ainda faz imperar sobre 1987 – ou com a recente tentativa de equiparação a conquistas de primeira divisão pelos vencedores dos Torneios Norte-Nordeste feitos no fim dos anos 60 em paralelo ao Roberto Gomes Pedrosa.

Se o torneio federal de 1985-86 não era uma segunda divisão, ainda assim teve como efeito prático se reduzir como classificatório a uma. A saída da AFA para seguir contemplando o pessoal do interior foi federalizar sua segunda divisão (até então restrita a clubes da Grande Buenos Aires, La Plata e Rosario, como tradicionalmente ocorria na elite) para a temporada 1986-87. Não houve sensibilidade de abrir exceção ao campeão: o Belgrano e os demais participantes dos triangulares-semifinal do torneio federal de 1985-86 foram colocados na nova Primera B Nacional.

López permaneceu no bairro de Alberdi na luta pelo acesso. O clube até ficou em 3º lugar na fase inicial em pontos corridos, que premiou o surpreendente Deportivo Armenio com o título e única vaga de acesso direto. Os oito melhores abaixo do campeão então travaram um mata-mata pela segunda vaga. La B chegou na decisão, mas nela prevaleceu o Banfield. Jota Jota pendurou as chuteiras em 1988, enquanto a torcida do Pirata precisaria aguardar até 1991 para enfim ser contemplada com o acesso que tanto mereciam. Campanha que teve como maestro outro futuro jogador do River, o volante Roberto Monserrat.

Olave e mais López: drama de 2011

Jota Jota López ainda voltaria ao Belgrano em 1996, como auxiliar-técnico de Pedro Marchetta, ele próprio um tremendo vira-casaca: Marchetta treinou a dupla de Avellaneda e foi técnico em todos os cinco principais times cordobeses (Talleres, Belgrano, Instituo, Racing e General Paz Juniors). Ao lançar-se como técnico solo, López tomou gosto parecido, com ciclos bons em dois rivais do Belgrano, treinando na virada do século o Instituto e o Talleres. Não foi o suficiente para se consolidar como treinador de primeira prateleira, voltando ao River em 2010 como interino mesmo. Mas o 4º lugar no Apertura, verdadeiro salto para a terra arrasada que havia, lhe efetivou para o Clausura.

Trinta anos entre as duas fotos: Juan José López na campanha do título do Torneio Nacional de 1981 e como técnico no rebaixamento em 2011

Parecia que ia dar certo, até demais: em abril de 2011, o Millo não só respirava fora da zona de rebaixamento nos promedios como chegava mesmo a ter até chances de título. Só que a derrota no Superclásico jogou o ânimo no chão. Faltavam cinco rodadas e o River não venceu nenhuma. Foi possível acumular gordura para fugir do rebaixamento direto, que puniu os dois últimos (Quilmes e Huracán), mas não da Promoción. Ainda havia a vantagem de jogar por dois resultados iguais, mas o Belgrano tratou de liquidar moralmente em Córdoba, nos 2-0 eternizados no meme do Tano Pasman.

A sobrevida parecia palpável no Monumental quando Mariano Pavone abriu 1-0 logo aos 5 minutos: um segundo golzinho seria o bastante para a salvação, desde que o Millo não sofresse nenhum. Mas Guillermo Carré acertou as redes de Juan Pablo Carrizo aos 16 do segundo tempo. Aos 24, Pavone teve a chance de manter a respiração por aparelhos, quando teve um pênalti para cobrar. O goleiro belgranense Olave teve então uma vingança dupla: vivera em 2006 um ostracismo no River no primeiro semestre, enquanto que no segundo fora o goleiro do Gimnasia na tarde dos 7-0 sofridos no clássico de La Plata – tendo sido de Pavone um dos gols do Estudiantes. Pegou o pênalti e jogou a última pá de cal na queda.

É opinião corrente que Olave é o maior goleiro que o Belgrano já teve, e não só por aquela defesa. Filho da casa e nascido na própria Córdoba, teve dois ciclos longos no clube, entre 1997 e 2002, ainda não consolidado; e então como dono absoluto da posição entre 2007 e 2016. Entre a ida e a volta, esteve na equipe espanhola do Murcia em meados dos anos 2000. Ela lhe emprestou ao River no primeiro semestre de 2006. Esperava-se que o goleiro Germán Lux, no luto do suicídio de um irmão, tirasse um período sabático. Não foi o que aconteceu e Olave acabou entrando em campo uma só vez, em amistoso de pré-temporada com a seleção do Panamá.

Outras ligações entre River e Belgrano

Além de Olave e López, é possível relacionar diversos homens que defenderam os dois finalistas de 2026. Em especial os dois Luis Artime, que são pai e filho. O pai fazia o tipo de artilheiro brocador: sem ginga, mas com incrível faro de gol, como um Gerd Müller argentino. Artime pai mostrou dotes de goleador no auge do sumido Atlanta (50 gols em 67 jogos), no River (70 gols em 80 jogos), no Independiente (45 em 72), no Palmeiras (48 em 57), na seleção (24 em 25) e, sobretudo, no Nacional. Foi com os gols dele que o tricolor uruguaio enfim venceu pela primeira vez a Libertadores e o Mundial, em 1971. O pé calibrado o tornou ídolo no River mesmo calhando de defende-lo nos tempos do famoso jejum vigente em Núñez nos anos 60.

Ex-Palmeiras e Fluminense, Luis Artime tem uma das mais altas médias de gols do River. Seu filho, Luis Fabián Artime, é o maior artilheiro do Belgrano na primeira divisão – e o atual presidente do clube

Em fim de carreira, Artime ainda defendeu o Fluminense, mas sem o mesmo êxito. O cartel construído, ainda assim, pesou demais nos ombros do filho, chamado Luis Fabián e que por isso acabou apelidado de Luifa. O Artime filho teve passagens por Independiente e San Lorenzo, mas foi longe da pressão de Buenos Aires que teve a tranquilidade para errar. Se no resto do mundo ele seguiu sendo “o filho de Luis Artime”, em Córdoba a coisa acabou sendo outra, com Luis Artime sendo “o pai do Luifa“. Entre os anos 90 e os anos 2000, Luis Fabián Artime teve diversos ciclos no Belgrano e virou o maior artilheiro do clube na primeira divisão. Não conseguiu taças, mas muito prestígio a ponto de ser aclamado presidente do clube em 2021.

Luifa Artime assumiu um time que em 2019 havia voltado à segunda divisão enquanto o River quase vencia nova Libertadores. A volta à elite foi assegurada em 2022, com o primeiro título belgranense na Primera B. Já um eventual título em 24 de maio de 2026 (especialmente quando a campanha incluiu o primeiro mata-mata entre Belgrano e Talleres na história da primeira divisão argentina) eternizaria de vez sua gestão. Até por encerrar para sempre o debate sobre quem é o primeiro time cordobês campeão argentino.

É que enquanto o Belgrano ainda recorre àquela torneio sui generis de 1986, o Talleres usa como parâmetro seus títulos de segunda divisão em 1998 (em final sobre o próprio Belgrano) e 2016, além de arrotar a Supercopa Internacional de 2023 como o máximo troféu de primeira prateleira ao futebol cordobês em âmbito doméstico. Nunca, porém, o vencedor da Copa Conmebol de 1999 realmente venceu a primeira divisão, ainda que chegasse perto diversas vezes: vice do Nacional 1977 e do campeonato de 2024, semifinalista dos Nacionais de 1976, 1978 e 1982, 3º lugar com Juan José López de técnico no Clausura 2004, além do vice na Copa Argentina de 2021.

A simples presença na final faz especial justiça ao patamar belgranense, considerando que até mesmo o Racing de Córdoba, a quarta torcida mais numerosa da cidade, pudera participar de uma final (vices do Torneio Nacional de 1980). Segue abaixo uma lista sobre mais gente que, como Olave e López, trabalharam nos dois finalistas. Ela não é exaustiva, limitada a quem se destacou em pelo menos um dos lados.

Augusto Fumero. Goleiro que acumulou mais de 130 partidas pelo Belgrano em dois ciclos: entre 1946-51, venceu as ligas cordobesas de 1946, 1947 e 1950. Em 1952, então, chegou ao River para ser o honroso reserva da lenda Amadeo Carrizo. Jogou por oito vezes na campanha campeã argentina daquele ano, mas foi só: foi usado somente uma outra vez, já em 1954. Fumero voltou ao bairro Alberdi em 1958 para jogar até 1961. Também foi treinador do Belgrano, em 1967 e em 1980, sem a mesma estrela.

River campeão em 1975 após dezoito anos – em negrito, gente abordada aqui: Héctor Ártico, Carlos Pintos, Alejandro Sabella, Daniel Crespo, Reinaldo Merlo, Ubaldo Fillol, Hugo Pena, Roberto Carrizo, Carlos Avanzi e Alberto Vivalda; José Reinaldi, Juan José López, Pedro González, Pablo Comelles, Oscar Más, Roberto Perfumo, Miguel Raimondo e Carlos Salinas; Héctor López, Carlos Morete, Luis Landaburu, Norberto Alonso, Pedro Bareiro e Daniel Lonardi

Héctor Ártico. Defensor que figurou como opção de banco na boa campanha do Belgrano no Nacional de 1971 (quando apenas dois pontos impediram a classificação às semifinais), cedido pelo próprio rival Talleres. Se associou muito mais pelo clube vizinho. Treinado ali por Ángel Labruna em 1974, foi levado por ele ao River em 1975 para formar com Roberto Perfumo a dupla de zaga millonaria mais assídua no redentor desjejum no Metropolitano 1975, quando o Millo venceu seu primeiro título argentino desde 1957; Daniel Passarella ainda estava verde. Ártico também ganhou o Torneio Nacional de 1975 e o Torneio Metropolitano de 1977, se mostrando polifuncional, usado ocasionalmente como lateral e até de volante. Foi um dos ex-riverplatenses que Labruna levou de volta ao Talleres em 1982.

José Reinaldi. Se o maior artilheiro do Belgrano na liga argentina é o atual presidente Luifa Artime, Reinaldi segue sendo o maior artilheiro no geral – somando-se o campeonato argentino com a liga cordobesa. Revelado pelos celestes no fim dos anos 60, se tornou raríssima figura querida nos dois principais times de Córdoba. Foram diversas idas e vindas entre Belgrano (um ciclo entre 1968-74, outro em 1981 e mais outro em 1984) e Talleres até parar de jogar em meados dos anos 80. Do lado celeste da rivalidade, teve como maior momento os dois gols na decisão do torneio federal de 1974 (que então peneirava os times do interior para as vagas no Torneio Nacional) sobre um rival até então invicto. A dupla já estava classificada junta, mas valia a honra de uma decisão.

El Pepona era torcedor assumido do Boca, mas topou defender o River entre 1975 e 1976. E se não virou ídolo eterno, estrela não faltou: esteve presente em nove jogos do redentor desjejum no Metropolitano 1975, quando o Millo venceu seu primeiro título argentino desde 1957. O clube logo tratou de faturar o Torneio Nacional também, onde Reinaldi foi mais chamativo – foram cinco golzinhos, inclusive o que valeu o bicampeonato. Assim como Ártico, foi um dos ex-riverplatenses naquele Talleres de 1982. Já dedicamos a Reinaldi este Especial.

Roberto Ferreiro. Ídolo, ele foi no Independiente dos anos 60, como dono da lateral-direita e vencedor das duas primeiras Libertadores do clube. Em 1968, reforçou o River para três temporadas agridoces: o clube insistia em fazer grandes campanhas que afrouxavam nos instantes decisivos, amargando vices consecutivos no Nacional 1968 (o primeiro título do Vélez), no Metropolitano 1969 (o único título do Chacarita), no Nacional 1969 (perdido em pleno Monumental para o Boca, na rodada final) e no Metropolitano 1970, em que o Independiente conseguiu a taça vencendo a dez minutos do final um Clásico de Avellaneda em plena cancha racinguista. El Pipo Ferreiro foi acolhido no ex-clube e ali se lançou como treinador, tendo como ponto alto os títulos do Mundial Interclubes de 1973 – o primeiro do Rojo – e a Libertadores 1974. No Belgrano, trabalhou em 1975 no Torneio Nacional, comandando um elenco repleto de reservas emprestados por aquele Independiente multicampeão de Libertadores. Era o técnico belgranense nos primeiros clássicos com o Talleres travados pela liga argentina, naquela temporada. Já dedicamos a Ferreiro este Especial.

O ídolo santista Ramos Delgado foi jogador e técnico no River. No Belgrano, treinou o time de 1978 (quando a liga cordobesa tinha até esse álbum de figurinhas próprio) reforçado com o ídolo local Bernardo Cos, que voltava do Barcelona

Juan Carlos Mameli. Ponta formado pelo Belgrano em 1965, El Palito foi junto de Reinaldi o artilheiro do elenco na honrosa campanha do Nacional de 1968 (cada um com seis golzinhos), a primeira de um time cordobês na primeira divisão argentina. A vitrine lhe valeu uma transferência ao poderoso Nacional de Montevidéu da época. Mameli faria precisamente com Luis Artime a azeitada dupla de ataque que embalou os títulos em série dos tricolores: um tetracampeonato uruguaio seguido e, sobretudo, a primeira Libertadores e o primeiro Mundial Interclubes, em meio à tríplice coroa de 1971. O River lhe contratou em 1975 e Mameli integrou o elenco que, naquele ano, encerrou dezoito anos de jejum. Mas como reserva do reserva do reserva: foi relacionado uma única vez na temporada inteira, sequer saindo do banco. Desconsiderando-se amistosos, jogou somente uma vez pelo Millo, já em 1976.

José Ramos Delgado. Um dos maiores zagueiros argentinos e também um dos mais ilustres afros da seleção, com a qual esteve nas Copas de 1958 e 1962. Criado no Lanús, El Negro foi um dos jogadores que souberam brilhar naquele River dos bravos anos de jejum na década de sessenta. Já veterano, soube brilhar no Santos de Pelé até 1973. Radicou-se na Baixada a ponto de despendurar rapidamente as chuteiras em 1974 para dar uma mão à Portuguesa Santista. Com negócios locais estabelecidos em Santos, também foi chamado pelos alvinegros para ser treinador, em 1976.

Amistosos do Santos com o Talleres em 1977 serviram para o treinador praiano ser prospectado pelos cordobeses e assim Ramos Delgado acabou lançando de vez a nova carreira, inicialmente no Belgrano, em 1978. Na função, voltou a defender o River, como bombeiro em 1982, e chegou a virar a casaca em Córdoba ao dirigir o Talleres em meados da campanha do acesso na temporada 1993-94. Já dedicamos a ele este Especial.

Héctor Tocalli. Goleiro do Belgrano entre 1971 e 1976, foi o titular do Pirata naquela lembrada campanha no Nacional de 1971, naquele simbólico título para cima do Talleres no torneio seletivo de 1974 e em dois troféus cordobeses (1971 e 1973). Em 1977, o River lhe contratou para ser um dos honrosos reservas de Ubaldo Fillol. Foi o terceiro goleiro na hierarquia, abaixo de Luis Landaburu, ficando na agridoce situação de ser bastante campeão sem entrar em campo: no máximo, foi relacionado algumas vezes ao banco de reservas nos títulos do Metropolitano 1977, Metropolitano 1979 e Nacional 1979. Em 1980, rumou ao Platense. Apesar das numerosas taças, acabou menos renomado no país do que o irmão, o também goleiro Hugo Tocalli, técnico da Argentina campeã mundial sub-20 de 2007.

Heredia em fotos de 1971 e 1981. Na do Belgrano, é o primeiro agachado (Tomás Cuéllar, José Luis López, Antonio Syeyyguil, Rafael Pavón, Francisco Rivadero, Miguel Garay e Héctor Tocalli; ele, Bernardo Cos, José Reinaldi e Eduardo Quiroga) e na do River é o jogador central, entre Juan José López (calção número 8) e Merlo (número 5)

Juan Carlos Heredia. Seu pai, ponta-direita apelidado de El Milonga, tinha o mesmo nome e foi uma glória do Talleres no início dos anos 40, defendendo brevemente a seleção. O filho foi então El Milonguita e, por ironia, se poliu no Belgrano mesmo. Os dois clubes travaram verdadeira final em 1970 pela seletiva ao Torneio Nacional de 1971, ineditismo que fez daquele o primeiro Clásico Cordobés transmitido por televisão. Um peixinho de Heredia rendeu o simbólico título e mascarou que, nos números, sua passagem pelo Pirata foi um tanto irregular. Ainda assim, no decorrer dos anos 70 ele virou o primeiro importado do futebol argentino a virar realmente ídolo no Barcelona.

Os (bons) anos na Catalunha lhe permitiram naturalização pela Seleção Espanhola para a Copa de 1978. Desistiu de vir ao Mundial ao saber que o pai quase fora morto por engano pela ditadura argentina, que procurava um subversivo com o mesmo nome dos dois. Mas aceitou repatriação ainda em 1980 para defender o River, o time do coração. Começou titular, mas, atrapalhado por lesões, não superou a concorrência com Leopoldo Luque e Ramón Díaz. Havia inclusive se declarado aposentado já em 1981, mas ainda tentou um epílogo obscuro naquele Talleres bastante riverplatense de 1982. Já lhe dedicamos este Especial.

Pablo Comelles. teve uma carreira singular, pois só ele defendeu os dois principais times cordobeses (Belgrano e Talleres) e os três principais da capital federal (Boca, River e San Lorenzo). Lateral no Talleres 4º colocado no Torneio Nacional de 1974, rumou em 1975 ao River juntamente com o técnico Labruna e o zagueiro Héctor Ártico. Enquanto Ártico saiu em 1977, Comelles e Labruna seguiram juntos no River até 1981, quando a contínua falta de êxito na Libertadores encerrou o ciclo do treinador. O Talleres reabriu as portas a Labruna e, com diversos antigos comandados dele em Núñez, os cordobeses foram semifinalistas do Nacional 1982. Dentre os pupilos de outros carnavais, novamente Ártico e Comelles, além de Reinaldi e Juan José López.

Naquele ano de 1982, Comelles também defendeu o Boca, na pré-temporada, e o San Lorenzo na trajetória do título azulgrana na segunda divisão (um ano após o primeiro rebaixamento de um dos cinco grandes argentinos). Veio a ser efetivamente aproveitado pelo Boca em 1983, juntamente com Juan José López. Enquanto López teve desempenho correto, o lateral não reluziu tanto e em 1984 foi repassado ao Belgrano, participando de umas das melhores temporadas de La B até então: título cordobês no embalo de 40 jogos seguidamente invicto e a única campanha em que o celestes puderam avançar aos mata-matas do Torneio Nacional.

Ao meio, o Belgrano histórico de 1984: Ángel Leroyer, Miguel Ángel Ludueña, Carlos Guerini (ex-Real Madrid), Fernando Cantarini, Oscar Olivera e Juan Manuel Ramos; Pablo Comelles (à esquerda), José Leyva, Eduardo Delgado, Raúl Chaparro (à direita) e Jorge Gáspari

Raúl de la Cruz Chaparro. Cria do San Lorenzo, Chaparro fez seu nome especialmente no Tigre (artilheiro da segunda divisão de 1975) e em times do interior. Em Córdoba, foi raro nome destacado nos dois lados do clássico secundário, entre o Racing local e o Instituto. Como atacante do Instituto, foi o artilheiro do Metropolitano 1981, o que lhe valeu duas temporadas no River. Calhou de pegar uma cruel entressafra vivida em Núñez entre 1981 e 1985, com direito à vice-lanterna no Metropolitano 1983. Mas se relançou naquele forte Belgrano de 1984. Também foi importante no título do Rosario Central na segunda divisão de 1985.

Leopoldo Luque. Um dos maiores ídolos do River, El Pulpo Luque apareceu em meados de 1975 para repor a saída de Carlos Morete, o artilheiro do redentor desjejum millonario no Torneio Metropolitano. Luque vinha se destacando no Unión a ponto de servir a seleção ainda como jogador dessa equipe de Santa Fe. E virou ícone riverplatense pelo resto da década, faturando o Nacional 1975, o Metropolitano 1977 e então o tricampeonato do Metropolitano 1979, Nacional 1979 e Metropolitano 1980. Nesse período, se consolidou de vez na seleção, sendo a principal referência no ataque da Albiceleste na primeira metade da Copa do Mundo de 1978; inclusive, era ele o artilheiro até a decisão, quando foi ultrapassado por Kempes. Luque poderia até ter sido o artilheiro se não fosse poupado de alguns jogos para se recuperar da repentina morte de um irmão, ocorrida em acidente de carro durante o torneio.

Esteve no Belgrano como técnico em 1989, quando La B ainda dava cabeçadas para sair da segunda divisão argentina. Não teve o mesmo toque de Midas de quando jogava no River. Já dedicamos a Luque este Especial.

Norberto Alonso. Antes de Messi surgir, havia opiniões qualificadas na Argentina de que Alonso era o mais talentoso jogador argentino abaixo de Maradona. El Beto, inclusive, “roubou” uma das vagas que poderiam ter sido de Dieguito na Copa de 1978. Alonso foi, em resumo, uma espécie de Zico canhoto e riverplatense: brilhou em Núñez entre o início dos anos 70 e meados dos anos 80, pendurando as chuteiras em altíssimo estilo, na tarde do título mundial em 1986. Como treinador, dirigiu o clube na metade inicial da temporada campeã de 1989-90, dando lugar ao iniciante Daniel Passarella basicamente por questões de política interna (Alonso era aliado ao presidente millonario que terminou não-reeleito).

O mulato Villarreal na tarde em que Maradona foi do Belgrano em 1986. O estilo refinado de Villita combinava com o River, mas lesões impediram que brilhasse mais. Ainda voltou duas vezes aos celestes

Sua outra única experiência como treinador foi tão ruim que ele desistiu de tentar consolidar-se como técnico. Ele, a rigor, integrou a campanha em que o Belgrano enfim chegou à primeira divisão em 1991. Mas o comandante na tarde da consagração já era Jorge Guyón: Alonso durou somente cinco partidas, sem vencer, em momento de sobressalto antes do acesso (como vice-campeão do Quilmes) chegar. Já dedicamos este Especial a Alonso.

José Luis Villarreal. Revelação maior daquele Belgrano campeão federal de 1986, Villita teve ainda mais vitrine na campanha que cheirou o acesso à primeira divisão na segundona de 1986-87. Foi contratado então pelo Boca para virar xodó em tempos do pior jejum boquense no torneio argentino. Era o complemento perfeito ao rústico destrutor Blas Giunta no meio-campo. A espera enfim terminou no Apertura 1992, o que valeu a Villarreal transferência ao Atlético de Madrid para o primeiro semestre de 1993. Subaproveitado em tempos de crise nos colchoneros, foi repatriado pelo River no segundo semestre. Campeão da Copa das Confederações em 1992, pôde defender a seleção também como millonario e ganhar dois novos títulos argentinos (Aperturas de 1993 e 1994), mas lesões lhe brecaram cedo: nem chegou aos vinte jogos pelo River e perdeu fôlego na corrida por vaga na Copa de 1994 para Alejandro Mancuso e Hugo Pérez, as alternativas escolhidas para Fernando Redondo e Diego Simeone. Ainda voltou ao Belgrano na luta pela permanência na primeira divisão, entre 1998 e 2000.

Roberto Monserrat. El Diablo foi por sua vez revelação no aguardado acesso do Belgrano à elite em 1991. Brilhou pelo bairro de Alberdi entre 1989 e 1992 a ponto de ser convocado pela Argentina ainda como volante belgranense, embora só tenha efetivado a estreia por ela já no San Lorenzo. Virou azulgrana em 1993 e foi igualmente ídolo ali, pelo passe preciso, por saber ser um elemento surpresa para definir e por ser titular na conquista do Clausura 1995, encerrando 21 anos de jejum sanlorencista na primeira divisão. Seguia no Sanloré na Libertadores 1996, quando o clube deu muito trabalho nas quartas-de-final ao futuro campeão River.

O Millo então contratou Monserrat por duas temporadas em que ele foi de maior a menor: foi tricampeão argentino seguido entre Apertura 1996, Clausura 1997 e Apertura 1997, vencendo ainda a Supercopa 1997, o último título internacional em Núñez até a Era Gallardo. Mas nos meses finais já estava sem o mesmo brilho, perdendo vaga na Copa de 1998 e seguindo naquele mesmo ano carreira no Colón. O volante voltaria no fim da carreira a Córdoba, defendendo o Racing local (onde venceu a terceira divisão de 2003-04) e o Alumni de Villa María.

Outro mulato: Monserrat carregado no acesso de 1991 e antes de vencer sobre o São Paulo a Supercopa 1997

Reinaldo Merlo. Seus cabelos loiros em tons escuros, ainda presentes ao custo de muita tintura, renderam o curioso apelido El Mostaza (“O Mostarda”) a Merlo, simplesmente o recordista de jogos pelo River, seu único clube como jogador. Desconsiderando-se amistosos, o volante entrou em campo 565 vezes entre o fim dos anos 60 e o início dos anos 80. Merlo era justamente um dos Três Mosqueteiros do meio-campo millonario na época dourada da segunda metade dos anos 70, junto a Alonso e Juan José López. Junto de Alonso, formou a dupla técnica após a temporada 1988-89, substituindo um trabalho aquém do esperado de César Menotti. Começaram bem, vencendo o Boca na definição da liguilla pre-Libertadores, bem como na metade inicial da temporada seguinte. O título argentino viria, mas com eles já substituídos pelo iniciante Daniel Passarella.

Na nova carreira, a grande glória de Merlo veio mesmo a se limitar ao fim do jejum de 35 anos do Racing, em 2001. Desde que deixara o River em 1990 ele não conseguia nada de muito especial, seja nas seleções juvenis (1991-93) ou no Belgrano: comandou o time na maior parte da fuga contra o rebaixamento no Clausura 2000, evitada quando Luifa Artime já era treinado por Miguel Batalla. O título com o Racing renovou sua imagem, mas ele não manteve a magia nos trabalhos seguintes, que incluíram novo trabalho de técnico no River (entre o segundo semestre de 2005 e 2006) e em duas volta ao Racing (2006 e 2011). Já dedicamos ao Mostaza Merlo este Especial.

José Albornoz. não é o nome mais lembrado em nenhum dos dois, mas vale uma excepcional menção. É que Pepe não apenas iniciou a carreira no Talleres (em 1989) para terminar no Belgrano (em 2004), como virou e revirou a casaca em meio aos cinco grandes do futebol argentino; até hoje ninguém trabalhou nos cinco, mas Albornoz é o último que conseguiu jogar em ao menos quatro deles, defendendo na ordem o San Lorenzo, o River e a dupla Racing e Independiente. Como millonario, foi titular na reta final da conquista do Apertura 1993, após serviços à seleção sub-23. Era daqueles camisas 10 talentosos que reluziam melhor longe de maiores pressões, deixando boa imagem em tempos cascudos do Deportivo Español e do Gimnasia. Já dedicamos a Albornoz este Especial.

Merlo (esquerda) e Alonso (no meio da foto central e de paletó na da direita) ficaram nas caretas como técnicos do Belgrano. No River, causaram sorrisos como Três Mosqueteiros do meio-campo, juntos a Juan José López

Luciano Lollo, Facundo Affranchino e Fabián Bordagaray. Assim como o goleiro Juan Carlos Olave, esses três estiveram em campo naquele 26 de junho de 2011 e tiveram os dois clubes no currículo. O meia Affranchino e o atacante Bordaray jogaram pelo lado rebaixado e nunca puderam limpar essa mancha em Núñez; defenderam então o Belgrano respectivamente nas temporadas 2013-14 e entre 2021 e 2023. O zagueiro Lollo teve melhor sorte; foram sete anos de Belgrano (2007-14) antes de passagens vitoriosas por Racing, River e Estudiantes. Ainda que, como riverplatense, fosse reserva do reserva nos troféus acumulados entre 2016 e 2018, sequer viajando a Madrid para a redenção na Libertadores.

Matías Suárez. Ele foi inicialmente referência ofensiva de um Belgrano io-iô entre 2005 e 2008: seus golzinhos ajudaram o time a, via Promoción, subir à primeira divisão em 2006 às custas do Olimpo de Bahía Blanca, em curiosa reedição da final daquele torneio federal de 1986 passados vinte anos. La B não conseguiu engatar o bom promedio exigido a times recém-ascendidos e foi rebaixada ao fim da temporada 2006-07, mas já na seguinte bateu novamente na porta, em nova Promoción. Três anos antes de rebaixar o River, o Pirata quase decretou a queda de outro gigante, mas o Racing prevaleceu, mantendo-se na elite enquanto os cordobeses precisaram se resignar com nova temporada na segundona para 2008-09. Mas foi o suficiente para Suárez rumar ao futebol europeu.

Suárez voltou ao Belgrano em 2016, quando o clube estava em alta, na Sul-Americana. Repercutiu no Brasil a romaria de celestes presentes no Couto Pereira para vitória de 2-1 sobre o Coritiba pelas oitavas-de-final. Em Córdoba, a passagem às quartas-de-final ficaram ainda mais no horizonte quando o time da casa abriu o placar. Os paranaenses viraram e, embora Suárez até convertesse seu pênalti, a classificação foi brasileira. A desilusão foi tanta que as campanhas seguintes do clube murcharam, rendendo no rebaixamento de 2019. Suárez saiu um semestre antes, atraindo mau olhado por abandonar o barco de uma queda anunciada: mas, com 31 anos de idade, a proposta de defender o River de Gallardo era tentadora demais.

Curiosamente, logo voltou a duelar com paranaenses, mas saindo por cima: fez o gol que assegurou a Recopa sobre o Athletico. Ainda em 2019, se tornou um raro jogador a, com mais de 30 anos, estrear pela seleção (ainda que de modo questionado, diga-se). Ele seguiu no River até 2024, ganhando em especial os torneios argentinos de 2021 e 2023. Voltou ao Belgrano para uma passagem menos prolífica e, em janeiro de 2026, confirmou que pendurou as chuteiras.

Matías Suárez como adversário e como jogador do River: seleção em 2019
Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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