Títulos argentinos no Mundial Interclubes: a história

Os títulos argentinos no Mundial Interclubes abriram com o Racing em 1967, o primeiro time do país a vencer o mundo.

Os clubes argentinos não são especialmente bem-sucedidos no Mundial Interclubes. Em 20 participações, foram apenas nove títulos, um aproveitamento de 45%, sendo que em nenhum momento da história do torneio o número de vitórias superou o de derrotas.

Para se ter um parâmetro, das 30 vezes em que clubes argentinos chegaram a finais de Libertadores, em 22 a taça foi para o país, aproveitamento superior a 73%. A aparente discrepância entre 22 títulos de Libertadores e 20 finais intercontinentais se explica pelo fato de que o Mundial não foi realizado em 1975 e 1978, anos em que Independiente e Boca Juniors foram campeões da Libertadores.

Os números do confronto entre argentinos e brasileiros

Como curiosidade, nas finais entre clubes argentinos e brasileiros, o Brasil leva uma surra. Em 12 finais de Libertadores, foram nove vitórias argentinas: Estudiantes sobre o Palmeiras em 1968, Independiente sobre o São Paulo em 1974, Boca Juniors sobre o Cruzeiro em 1977, Independiente sobre o Grêmio em 1984, Vélez Sarsfield sobre o São Paulo em 1994, Boca Juniors sobre o Palmeiras em 2000, Boca Juniors sobre o Santos em 2003, Boca Juniors sobre o Grêmio em 2007 e Estudiantes sobre o Cruzeiro em 2009. Contra apenas três brasileiras: Santos sobre o Boca Juniors em 1963, Cruzeiro sobre o River Plate em 1976 e São Paulo sobre o Newell’s Old Boys em 1992.

Mas em Mundiais as coisas se passaram de outra forma. Apenas na terceira tentativa, com Racing contra Celtic em 1967, veio o primeiro título.

Dos clubes que jogaram o Mundial mais de uma vez, apenas o Boca Juniors tem mais vitórias que derrotas: venceu o Borussia Mönchengladbach em 1977, o Real Madrid em 2000 e o Milan em 2003, perdendo para o Bayern em 2001 e para o Milan em 2007. O River tem uma vitória, sobre o Steaua Bucareste em 1986, e uma derrota, para a Juventus em 1996.

O Independiente, maior vencedor da Libertadores, conquistou o Mundial duas vezes, sobre Juventus em 1973 e Liverpool em 1984, perdendo outras quatro: Internazionale em 1964 e 1965, Ajax em 1972 e Atlético de Madrid em 1974. Impressionante é a campanha negativa do Estudiantes, que venceu sua primeira final intercontinental, em 1968, contra o Manchester United, para ser derrotado nas três finais seguintes: Milan em 1969, Feyenoord em 1970 e Barcelona em 2009.

Racing 1967: o primeiro título mundial do futebol argentino

O primeiro título mundial do futebol argentino, incluindo clubes e seleção, chegou em 1967. No mesmo Centenário em que a albiceleste perdeu a chance de ser a primeira seleção a vencer uma Copa do Mundo, o Racing bateu o Celtic e chegou ao topo do futebol mundial.

No entanto, dois anos antes esse título pareceria extremamente improvável a um observador. A Academia segurava a lanterna do campeonato nacional de 1965 quando Juan José Pizzuti assumiu o cargo de treinador da equipe. Na estreia, no dia 19 de setembro, o Racing bateu o River por 3 a 1 e não perdeu mais no campeonato, terminando na quinta colocação.

No ano seguinte, o clube trouxe alguns reforços, incluindo a repatriação de Humberto Maschio, ídolo do clube nos anos 1950, havia quase dez anos no futebol italiano. Com Maschio comandando uma equipe que tinha jogadores como Cejas, Perfumo, Basile e o brasileiro João Cardoso, o Racing poderia enfrentar qualquer equipe. Era El Equipo de José, referência ao treinador que havia sido um bom atacante e que, antes dos 40 anos, entraria para a história do futebol.

Apresentando um futebol de muita movimentação, em que os jogadores não tinham posição fixa, o Racing venceu de forma incontestável o campeonato argentino de 1966. A equipe sofreu apenas uma derrota, para o River Plate, que quebrou uma sequência de 39 partidas de invencibilidade, e conquistou o título com três rodadas de antecedência, somando 24 vitórias e 13 empates.

A maratona na Libertadores

Era a hora de a equipe de José buscar o reconhecimento internacional. E não seria tarefa simples. Na segunda metade dos anos 1960, a Conmebol tentava reformular a Libertadores, que havia começado como um torneio curto: em 1963, o Santos foi campeão disputando apenas quatro partidas. No entanto, até que se encontrasse a fórmula que se consolidaria, em 1971, houve muitas experiências malsucedidas. Foi o período mais tumultuado da história do torneio, e era comum que clubes classificados optassem por não disputá-lo. Naquele 1967, por exemplo, o Santos não se interessou pelo torneio, preferindo fazer excursões. O Brasil foi representado apenas pelo Cruzeiro.

O Racing enfrentou uma verdadeira maratona para chegar ao título. Foram 20 partidas, algo impensável nos dias de hoje, uma vez que o torneio tinha apenas 19 competidores.

E não foi só isso: a equipe escapou por pouco de um acidente aéreo a caminho de Medellín, onde enfrentaria o Independiente local pela primeira fase. Tendo conseguido evitar o destino do mito Carlos Gardel, que morrera num acidente aéreo quando ia para a mesma cidade, a equipe sentiu que poderia ser campeã.

E foi o que aconteceu. Após 13 vitórias, dois empates e duas derrotas, a Academia se qualificou para decidir o torneio contra o Nacional. Em Montevidéu e em Avellaneda o placar não saiu do zero. Mas no desempate em Santiago as coisas seriam diferentes. Cardoso e Raffo abriram boa vantagem para os argentinos logo no primeiro tempo. Viera descontou, mas já era tarde. O Racing era campeão da Libertadores e buscaria o sucesso onde o Independiente, seu arquirrival, havia falhado em 1964 e 1965: a Taça Intercontinental.

O canhotaço de Cárdenas no Centenário

O adversário seria o Celtic, comandado por Jock Stein, outro mito do futebol mundial. E em Glasgow o Racing não suportou a pressão e o estádio abarrotado. Passou a maior parte do tempo se defendendo e terminou sofrendo uma derrota por 1 a 0, gol de McNeill.

No Cilindro, os escoceses chegaram muito perto do título. Abriram o placar com um gol de pênalti de Gemmell. Mas Raffo empatou no segundo tempo, e o valente Juan Carlos Chango Cárdenas marcou o gol da virada já nos descontos. O Racing havia conseguido forçar um jogo-desempate em Montevidéu.

Em 4 de novembro de 1967, Racing e Celtic entraram no estádio Centenário dispostos a fazer história. E a partida, duríssima, foi decidida aos 11 do segundo tempo. Cárdenas puxava um contra-ataque e por um momento pareceu indeciso entre servir Maschio ou Raffo. Mas Maschio gritou-lhe para chutar a gol, e o jogador não teve dúvidas. Acertou um canhotaço de 30 metros de distância, dando o título mundial à Academia.

Os cinco mil argentinos que haviam atravessado o Rio da Prata vibravam, enquanto o atacante do norte argentino comemorava abraçado a Juan José Pizzuti. Naquele momento, ambos entravam para a história do futebol ao dar o primeiro título mundial ao futebol argentino.

Racing: Cejas, Martín, Perfumo, Chabay e Basile; Rulli e Cardoso; Raffo, Cárdenas, Maschio e Rodríguez.

Celtic: Fallon, Craig, McNeill, Gemmell e Clark; Murdoch e Auld; Johnstone, Lennox, Wallace e Hughes.

Estudiantes 1968: o bi consecutivo e a escola de Zubeldía

Em 1968, o futebol argentino conseguiria seu segundo título mundial interclubes, e de forma consecutiva, façanha que até hoje jamais se repetiu. E ela se torna ainda maior quando se lembra que, para chegar ao título, o Estudiantes teve de suplantar uma equipe histórica do Manchester United, com Bobby Charlton, George Best e Denis Law, entre outros.

A história começa em 1965, quando Osvaldo Zubeldía foi contratado como treinador do clube pincharrata. Um fato que mal foi notado pelos contemporâneos. Jogador razoável, com passagens por Vélez Sarsfield e Boca Juniors, Zubeldía tivera uma passagem como treinador pelo pequeno Atlanta e havia escrito um livro sobre tática, algo muito singular para a época.

Por seu lado, o Estudiantes também não chamava muita atenção. Seu grande momento havia sido entre 1928 e 1931, com a famosa equipe comandada pelo grande Nolo Ferreira, capitão da albiceleste nas Olimpíadas de 1928. Em 1965, o clube platense se contentava por estar na primeira divisão.

O método que dividiu o futebol argentino

Mas as coisas mudariam para o clube de La Plata com a chegada do novo treinador. Para Zubeldía, o futebol era questão de esforço e inteligência. Trouxe novidades como os treinamentos em dois turnos, a importância do contra-ataque, a marcação forte no meio-campo e o treinamento obsessivo das jogadas de bola parada, algo que faria a diferença na final intercontinental.

Com isso, Zubeldía levaria o Estudiantes ao tri da Libertadores e se transformaria em objeto de um debate feroz. Para muitos, um gênio da tática. Para outros, o criador do chatíssimo futebol de resultados. Os últimos não perdoam o fato de a equipe pincharrata ter institucionalizado o uso do antijogo, fazendo largo uso da catimba e de recursos antidesportivos. Carlos Bilardo, futuro discípulo de Zubeldía, entrava em campo com um alfinete para atingir seus adversários.

Contudo, o segredo pincharrata não estava apenas em seu treinador. Zubeldía teve a felicidade de encontrar uma brilhante geração de jovens, a chamada tercera que mata, os quais promoveu para a equipe principal. Entre esses jovens estavam grandes jogadores como Juan Ramón Verón e Carlos Pachamé, futuros jogadores da seleção nacional.

Com isso, o Estudiantes terminaria o campeonato de 1966 na sexta colocação. Mas em 1967, primeiro ano em que o futebol argentino teve dois torneios, o Metropolitano e o Nacional, o clube chegaria ao topo. Venceria o Metropolitano, se tornando a primeira equipe além dos cinco grandes a conquistar um título de primeira divisão na era profissional. E chegaria ao vice do Nacional, se classificando para a Libertadores do ano seguinte.

Na Libertadores, o Estudiantes teve de disputar 13 jogos para chegar à decisão, eliminando o Independiente, campeão nacional, e o Racing, que defendia seu título continental. Na final, o clube enfrentaria outra Academia, a palmeirense, que por pouco não chegou ao título. Em La Plata, o Palmeiras vencia até o fim, com um gol de Servílio, mas Verón e Flores marcaram os gols da virada nos minutos finais. No Pacaembu, o Palmeiras foi superior e venceu por 3 a 1. Mas no desempate em Montevidéu a superioridade pincharrata se impôs, e a equipe de La Plata venceu por 2 a 0, gols de Ribaudo e Verón.

A batalha na Bombonera e o título em Old Trafford

A primeira partida da final mundial, disputada na Bombonera, foi duríssima. Os britânicos voltaram para casa reclamando da violência argentina, em especial de Ramón Aguirre Suárez, mas eles próprios tinham em sua formação um Nobby Stiles. Violento marcador, campeão mundial de 1966 pela Inglaterra, Stiles terminaria expulso daquela verdadeira batalha que se disputou no campo do Boca.

Mas com a bola rolando o Estudiantes foi melhor e teve várias chances de marcar. Ao fim venceu por 1 a 0, gol de Marcos Conigliaro, que aproveitou um escanteio para cabecear. O Estudiantes estava a um empate do título mundial.

Os dias prévios à segunda partida foram tensos. Os jornais ingleses falavam da violência da equipe argentina, e ainda estava vivíssima a lembrança da controvertida partida entre as seleções inglesa e argentina no Mundial de 1966. Naquele dia, o capitão Antonio Rattín foi expulso, injustamente para os argentinos, e ao sair de campo tocou de forma desrespeitosa uma bandeira inglesa.

Torcedores ingleses chegaram a atirar uma pedra no quarto onde dormiam Conigliaro e Aguirre Suárez. Na hora da partida, havia 800 policiais em campo, uma indicação de que as autoridades inglesas esperavam pelo pior. Ao chegar ao vestiário, os jogadores argentinos encontraram os vidros destruídos pelos torcedores do Manchester United.

Mas logo aos sete minutos veio a ducha de água fria: Verón aproveitou um escanteio e cabeceou para colocar o Estudiantes em vantagem. Osvaldo Zubeldía havia conseguido um feito incrível: sua equipe marcara duas vezes de cabeça contra os ingleses, então os reis do jogo aéreo.

A partida seguiu tensa, mas a equipe pincharrata estava bem preparada e lentamente esfriou a equipe inglesa. As entradas duras se sucediam de lado a lado, e George Best e José Medina terminariam expulsos, após uma troca de agressões. No último minuto, Willie Morgan empatou, mas era tarde. O Estudiantes era campeão do mundo em pleno Old Trafford, um feito incrível para uma equipe que apenas três anos antes lutava contra o descenso.

Estudiantes: Poletti, Malbernat, Aguirre Suárez, Madero e Medina; Bilardo, Pachamé e Togneri; Ribaudo, Conigliaro e Verón.

Manchester United: Stepney, Brennan, Dunne, Crerand e Foulkes; Sadler, Morgan e Kidd; Charlton, Law e Best.

O legado: uma escola que divide o futebol argentino até hoje

Era o triunfo supremo do futebol à moda de Osvaldo Zubeldía: talento, marcação forte, contra-ataque, bolas paradas e, quando necessário, violência e antijogo. Nascia ali uma nova escola dentro do futebol argentino. Uma escola que chegaria ao auge em 1986, com o título mundial conquistado por Carlos Bilardo, meio-campista daquele Estudiantes e discípulo de Zubeldía.

Essa escola seria central na trajetória do Estudiantes, que se manteria fiel a ela. Depois de Zubeldía, a equipe voltaria a ser campeã no Metropolitano de 1982, sob o comando do mesmo Bilardo. E reencontraria o caminho dos títulos já no século XXI, com treinadores da mesma linhagem, como Diego Simeone e Alejandro Sabella, o último campeão pelo Estudiantes como jogador, sob o comando de Bilardo. E tendo em campo Juan Sebastián Verón, filho do velho atacante campeão mundial em 1968, torcedor do clube e herdeiro das melhores tradições pincharratas.

A escola que se origina de Zubeldía é tida frequentemente no exterior, inclusive no Brasil, como “o futebol argentino”. Na verdade, é uma das vertentes do futebol do país. Uma vertente que tem admiradores, mas também seus detratores, em especial a corrente que defende o futebol clássico do país, mais cadenciado, com mais toque de bola, que se agruparia em torno de César Menotti a partir da conquista do Metropolitano de 1973 pelo Huracán.

O menottismo também daria aos argentinos um Mundial, em 1978, e desde então as duas tendências se digladiam, com frequência em termos violentos, sobre qual a melhor maneira de jogar futebol. E o Estudiantes de 1968 é um dos grandes trunfos da escola Zubeldía-Bilardo. Afinal, um título mundial conquistado por um time até então sem títulos é algo que não se pode desprezar.

Independiente 1973: o fim do espinho e o nascimento de Bochini

O terceiro título mundial interclubes do futebol argentino chegou em 1973. Naquele ano, finalmente o Independiente chegou ao topo do futebol mundial, após quatro tentativas. Ainda melhor, aquela decisão veria o nascimento do maior ídolo da história recente do Rojo.

Até a final daquele ano, o Independiente tinha o Mundial Interclubes como uma sequência insuportável de fracassos. A equipe havia falhado nas finais de 1964 e 1965 contra a Internazionale e havia sido derrotada pelo poderoso Ajax em 1972. Para piorar as coisas, o arqui-inimigo Racing havia conquistado o Mundial em sua primeira tentativa, ao vencer o Celtic em 1967. A Taça Intercontinental, nome pelo qual o Mundial era então conhecido, era um espinho entalado na garganta do clube.

Mas o ano de 1973 seria diferente. O clube havia perdido José Omar Pastoriza, grande líder da equipe nos anos anteriores, contratado pelo Mônaco. Mas isso não impediu o Independiente de vencer novamente a Libertadores. Com três vitórias, três empates e uma derrota, o Rojo conseguiu o segundo bicampeonato do torneio, feito igualado apenas em 2001 pelo Boca Juniors. Venceria o campeonato nas duas edições seguintes, chegando a um tetra que ainda não foi alcançado.

Naquela edição, o treinador era Humberto Maschio, que havia vencido a Libertadores como jogador pelo Racing em 1967, se transformando no primeiro homem a vencer o torneio como jogador e treinador.

A crise da Taça Intercontinental

A decisão do Mundial foi repleta de dúvidas. Como já havia feito em 1971, ao fim o Ajax resolveu não disputar o torneio, alegando falta de datas e ausência de retorno financeiro. Era o início de uma grande crise na Taça Intercontinental: dali até 1979, apenas uma vez o campeão europeu disputou a competição, em 1976, quando o Bayern venceu o Cruzeiro. Na maioria das demais edições, o futebol europeu foi representado pelo vice-campeão, mas houve anos, 1975 e 1978, em que o enfrentamento simplesmente não ocorreu. O impasse seria resolvido apenas em 1980, com uma mudança no torneio, que passou a ser disputado em partida única no Japão.

Após muita indecisão, decidiu-se que a final seria disputada em uma única partida, entre Independiente e Juventus. A equipe de Turim havia perdido a final europeia contra o Ajax, mas tinha jogadores de alta qualidade. O goleiro era Dino Zoff, que se tornaria muito conhecido da torcida brasileira em 1982, assim como Claudio Gentile, marcador implacável de Zico, que também defendia a equipe italiana. No ataque da Vecchia Signora estavam Franco Causio, jogador da azzurra nos Mundiais de 1974, 1978 e 1982, e Roberto Bettega, grande artilheiro que disputou o Mundial de 1978. Também defendia a equipe de Turim o brasileiro José Altafini, no ocaso de sua carreira.

A tabela entre dois garotos

Mas o Independiente tinha suas armas. O treinador da equipe no Mundial foi Roberto Pipo Ferrero, defensor do Rojo nas conquistas continentais de 1964 e 1965. E sua maior virtude foi confiar nos jovens jogadores da equipe. Ferrero havia sido companheiro de vários jovens que haviam levado o Independiente a conquistas da Libertadores. E resolveu dar chance a alguns talentos em ascensão.

Dois deles entrariam para a história do clube: o ponteiro Daniel Bertoni, rápido e insinuante, e o genial Ricardo Bocha Bochini. Para os argentinos que o viram jogar, Bochini lembrava muito o craque Iniesta, pelo seu imenso talento com a bola nos pés, sua liderança em campo, sua capacidade de colocar os companheiros na cara do gol, sem deixar de marcar gols importantes quando as oportunidades apareciam.

Com essas duas equipes em campo, a partida foi duríssima. No primeiro tempo, o goleiro Santoro fez milagres e viu a bola se chocar duas vezes contra suas traves. No início da segunda etapa, Cuccureddu desperdiçou um pênalti, chutado acima da meta do Rojo.

Até que, a dez minutos do fim do jogo, Bochini e Bertoni fizeram uma tabela espetacular, finalizada com um toque preciso de Bocha. Bertoni tinha 18 anos e Bochini, 19. Naquele momento, os dois jovens levavam o Independiente ao topo do mundo e se consagravam, ainda muito jovens, como ídolos supremos do clube.

Boca Juniors 1977: a coroação da era Toto Lorenzo

Em 1977, a Argentina conquistava seu quarto título mundial interclubes. Após as vitórias de Racing, Estudiantes e Independiente, chegava a vez de o Boca Juniors conquistar o mundo pela primeira vez.

O título foi apenas a coroação de uma sequência incrível de conquistas. Até a grande fase em que foi comandado por Carlos Bianchi, o período entre 1976 e 1978 havia sido talvez a fase mais vencedora do clube xeneize, um período em que conquistou todos os títulos possíveis, tudo sob o comando do experiente Juan Carlos Toto Lorenzo.

O treinador havia comandado a seleção argentina no Mundial de 1966 e chegara aos títulos Metropolitano e Nacional pelo San Lorenzo em 1972, um fato notável, já que pela primeira vez desde a implantação dos dois torneios anuais, em 1967, um mesmo clube levantava as duas taças. E Toto repetiria o feito em 1976, agora com o Boca.

As duas finais de 1976

O Metropolitano foi conquistado em uma controvertida final contra o Huracán. O Globo tinha uma grande equipe, que incluía jogadores como Ardiles, Brindisi, Houseman, Larrosa, Bailey e Carrascosa, todos mundialistas pela seleção nacional. A equipe comandada por Gitano Juárez fez a melhor campanha do Metro, mas terminou derrotada na final. A partida foi disputada com um gramado impraticável, em função das chuvas, e um tiro de Chino Benítez terminou por dar a vitória por 1 a 0 aos xeneizes.

A final do Nacional foi de fato histórica. No dia 22 de dezembro de 1976, Boca Juniors e River Plate disputaram a única final envolvendo os dois gigantes argentinos. Duas grandes equipes, já que o River, que tinha Fillol, Passarella e tantos outros, havia conquistado as duas taças nacionais no ano anterior. Ao fim, uma falta cobrada por Rubén Suñé quando Fillol ainda se preparava para a execução deu o título ao Boca. Aquele 1 a 0 no Cilindro de Avellaneda até hoje é alvo de discussão entre xeneizes e millonarios, principalmente por questões de arbitragem. Talvez o mais incrível é que o próprio Chapa Suñé declarou muitos anos depois que aquele foi o único gol de falta de sua carreira.

A primeira Libertadores

Era a hora de disputar a Libertadores, título que o Boca não tinha até então. Na primeira fase, os xeneizes tiveram de disputar uma chave duríssima, contra River, Peñarol e Defensor. Com quatro vitórias e dois empates, a equipe comandada por Toto Lorenzo se classificou invicta. Na fase seguinte, Libertad e Deportivo Cali também foram superados de forma invicta.

O Boca havia chegado à final contra um adversário temível: o Cruzeiro. Campeão da edição anterior da Libertadores, a Raposa podia enfrentar à altura qualquer rival do continente.

A primeira partida foi disputada na Bombonera, e o Boca venceu por 1 a 0, com um gol marcado por Veglio logo no início. No Mineirão, Nelinho marcou a 15 minutos do fim, garantindo a vitória cruzeirense, também pela contagem mínima. No desempate, em Montevidéu, ninguém marcou. A decisão foi para os pênaltis, e a cobrança desperdiçada pelo lateral Vanderley deu ao Boca Juniors seu primeiro título continental.

A final adiada e o 3 a 0 na Alemanha

A final mundial, como era tão comum naquele período, foi tumultuada. O Liverpool, campeão europeu daquele ano, não se interessou em disputar a grande decisão, alegando falta de datas e ausência de retorno financeiro. Ao fim, quando parecia que o torneio não seria disputado, o vice-campeão europeu, o Borussia Mönchengladbach, aceitou o convite para enfrentar os xeneizes.

E finalmente a Taça Intercontinental seria disputada, de forma inusitada: a primeira partida foi jogada já em março de 1978, enquanto a revanche aconteceria apenas em agosto daquele ano, quase um ano após a final da Libertadores do ano anterior.

A equipe alemã não era adversário simples. Tinha jogadores da seleção de seu país, como Vogts e Bonhof, e era treinada pelo mítico Udo Lattek, responsável pelo grande Bayern tricampeão europeu entre 1974 e 1976. E o Boca sentiria isso já na primeira partida, na Bombonera. O artilheiro Mastrángelo marcou para os xeneizes, mas o Borussia viraria o placar ainda no primeiro tempo, com gols de Hannes e Bonhof. Com muito sofrimento, o Boca conseguiria o empate no segundo tempo, graças a um gol de Ribolzi.

Mas na revanche a história foi diferente. Atônitos, os alemães viram Felman, Mastrángelo e Salinas marcarem os gols que dariam uma vantagem de 3 a 0 para o Boca ainda no primeiro tempo. No segundo tempo o placar não se alterou, dando aos xeneizes o primeiro título mundial de sua história.

Boca Juniors: Gatti, Pernía, Tesare, Suárez e Bordón; Suñé, Zanabria e Salinas; Mastrángelo, Saldaño (Veglio) e Felman. Técnico: Juan Carlos Lorenzo.

Alguns meses depois, em novembro de 1978, o Boca chegaria ao bi da Libertadores, derrotando na final o Deportivo Cali, treinado por Carlos Bilardo. Mas desta vez não seria possível a repetição do título mundial, pois com a desistência dos europeus a final não se realizou, como havia ocorrido em 1975. Apenas em 2000 os xeneizes teriam a oportunidade de chegar ao bi mundial, e não desperdiçariam a chance.

Independiente 1984: o Rojo, o Liverpool e as Malvinas

Depois de sete anos, o futebol argentino voltava ao topo do mundo com a conquista do segundo título mundial do Independiente. O bi poderia ter chegado antes, em 1974. No entanto, a equipe de Avellaneda perdeu a final do Mundial Interclubes para o vice-campeão da Copa dos Campeões, o Atlético de Madrid. Até o final da década de 1970, as decisões do torneio eram disputadas no sistema de ida e volta.

Com o patrocínio da Toyota e uma nova fórmula de disputa, em jogo único, desde 1980 a decisão do torneio intercontinental passou a ser realizada no Japão.

O relato dessa vitoriosa campanha do Rojo começa com um dia que entrou para a história do clube: 22 de dezembro de 1983. Nesse dia, o Independiente entraria em campo para sagrar-se campeão do Torneio Metropolitano e, de quebra, rebaixar para a segunda divisão o seu maior rival, o Racing. Por uma ironia do destino, o técnico do Independiente era José Omar Pato Pastoriza, que dois anos antes treinara a Academia.

Pastoriza montou um time muito respeitável. Contou com jogadores que já conhecia da sua primeira passagem pelo Rojo, como Enzo Trossero, Hugo Villaverde e, essencialmente, Ricardo Bochini, que nessa época tinha 29 anos e já era a grande estrela do clube. E também pôde contar com bons jovens como Néstor Clausen, Carlos Enrique, Claudio Marangoni, Ricardo Giusti, José Percudani e Jorge Burruchaga, um rápido ponta-direita que viera do Arsenal de Sarandí.

A sétima Libertadores, sobre o Grêmio

O Independiente representou a Argentina na Libertadores de 1984 com o Estudiantes, que vencera o Campeonato Nacional no primeiro semestre. No Grupo 1, os dois argentinos enfrentaram os paraguaios Olimpia e Sportivo Luqueño. Com apenas uma derrota, para o Olimpia em Assunção, o Independiente venceu o grupo e passou à segunda fase, onde enfrentou o uruguaio Nacional, campeão do Grupo 4, e a chilena Universidad Católica, campeã do Grupo 2.

Depois de duas vitórias e dois empates, Pastoriza e seus comandados levaram o Independiente à final. Pela frente, ninguém menos que o atual campeão mundial e da Libertadores, o Grêmio. No primeiro jogo, em Porto Alegre, Burruchaga fez a diferença e calou o Olímpico com um gol aos 24 minutos do primeiro tempo. Na volta, em Avellaneda, um empate sem gols garantiu o sétimo título do torneio para o Independiente.

O primeiro argentino a bater um inglês depois da guerra

O adversário do Rojo na final do dia 9 de dezembro já era conhecido: o Liverpool. A equipe inglesa derrotara na final da Copa dos Campeões a Roma de Falcão, Cerezo e Bruno Conti. E, como não poderia deixar de ser, o confronto ultrapassou o campo de jogo e atingiu diretamente o orgulho ferido dos argentinos. Era a primeira vez que um time argentino enfrentaria um time inglês após a Guerra das Malvinas, ocorrida dois anos e meio antes.

Já sem Graeme Souness, que havia ido para a Sampdoria, o Liverpool também não contou com Mark Lawrenson para a decisão, por uma contusão sofrida nos treinamentos. O escocês Gary Gillespie o substituiu. Já o Independiente veio a campo com a mesma base que havia ganhado a Libertadores.

Mais de 60 mil pessoas foram ao Estádio Nacional de Tóquio para assistir ao jogo. E logo aos seis minutos Marangoni deu um lindo passe do meio-campo para Percudani. Pela meia-esquerda, o jovem atacante saiu em disparada e tocou na saída de Bruce Grobbelaar. Tempos depois, Percudani ainda se emocionava com o gol: “o gol que havia sonhado em fazer se transformou em realidade”.

Para evitar outra derrota no Mundial, já que havia perdido para o Flamengo três anos antes, o Liverpool saiu todo para o ataque e pressionou muito o Rojo. Na defesa, Villaverde anulava totalmente o temido galês Ian Rush. Trossero e Enrique se encarregavam da marcação em Kenny Dalglish, e o goleiro uruguaio Carlos Goyén sempre foi bem quando solicitado.

Bem marcado, Bochini não rendeu tanto o que se esperava na final. Já Burruchaga levava pânico aos zagueiros do Liverpool e jogou muito bem pela direita. Os ingleses reclamaram bastante da arbitragem do brasileiro Romualdo Arppi Filho, que não teria marcado dois pênaltis a seu favor. Por sua vez, os argentinos reclamaram de alguns impedimentos mal marcados. Ainda assim, a partida transcorreu na mais absoluta normalidade, e quem esperava que o confronto político invadisse o campo se decepcionou.

Quando Romualdo apitou o final da partida, Pastoriza não se conteve e invadiu o campo para comemorar. O Rey de Copas mais uma vez ganhava uma final e, ao menos no campo futebolístico, vingava o resultado da Guerra das Malvinas, já que foi o primeiro clube argentino a derrotar um inglês. Era o 12º título internacional do Independiente, que foi o primeiro da Argentina a conquistar o Mundial jogando no Japão.

River Plate 1986: o título que faltava e o enigma romeno

Após o inédito triunfo de conquistar a América pela primeira vez, restava ao River Plate a conquista do mundo. Ninguém questionava o marco que significou o triunfo da Libertadores. Porém, ainda assim, pairava sobre o Millonario a desconfiança de que o seu sucesso havia chegado ao fim, após triunfar sobre o América de Cali, um mês antes, em Núñez.

De onde vinha tal desconfiança? Em parte, do lado reacionário do futebol, que não admite que um novo clube ascenda ao cenário das grandes conquistas. Em parte, do fato de que, se uma equipe desconhecida bateu o Barcelona, bateria também o River.

Disto resulta que a ordem normal das coisas voltaria a seu devido lugar: na Europa, mais um clube entraria no rol dos campeões mundiais e, na Argentina, continuaria a pairar sobre o River o fato de que seus três principais rivais haviam conquistado um título mundial que ele não tivera a mesma competência de conquistar. Neste cenário, o triunfo sobre o clube colombiano atenuaria sua história de perdedor, mas, tido como acidente de percurso, não seria suficiente para dar cabo às históricas provocações que o time e seus apaixonados torcedores sofriam na Argentina.

A face enigmática do rival

Aquele time do River era fabuloso e encontrava paridade local somente no Argentinos Juniors. Um ano antes, contudo, aquele timaço de La Paternal havia ido a Tóquio e, mesmo tendo feito um partidaço contra a Juventus, ficara apenas com o vice-campeonato. Esse fato equilibrava bem, em Núñez, a visão de que, por dispor do tal time fabuloso, o Millo era o favorito à conquista em Tóquio.

Essa visão assombrava, aumentava as expectativas e, se por um lado fazia o elenco focar apenas a decisão no Japão, por outro gerava enorme tensão na comissão técnica e no elenco. A saída para isso seria um processo de racionalização que levasse em conta as lacunas, os defeitos e a fragilidade psicológica do adversário. Só havia um problema: ninguém sabia quem era o esquisito clube romeno chamado Steaua Bucareste.

E não era para menos. Não era comum o envio de olheiros à Europa para ver o rival em ação. Se alguém fosse, tampouco teria sucesso na empreitada, já que as portas da Romênia não estavam abertas para visitantes. O país fazia parte da chamada Cortina de Ferro, e seu sistema social não permitia nenhuma interação com o Ocidente.

Ainda que a equipe tenha feito ótima campanha na Champions, até a final, raro foi se deparar com qualquer pessoa que não tivesse convicção de que o Barcelona seria o campeão. Não foi. Da mesma forma, por aqui, fosse qual fosse o rival europeu, clube nenhum da América do Sul pensava nele, já que suas preocupações se ligavam somente ao difícil processo de se sagrar campeão continental. Assim que chegou lá, o River tinha um mês para desembarcar no Japão. A última coisa que podia fazer, então, era se dedicar a um estudo mínimo do que significava o seu adversário.

A enigmática face fora de campo

No plano sociológico, o Steaua Bucareste era uma grande contradição na Romênia. Seu auge coincidiu com o processo mais agudo do regime repressivo de Nicolae Ceaușescu. Qualquer regime fechado tende a ficar ainda mais repressivo quando a crise chega. A Romênia de 1986 era o retrato de um país sem saídas.

A aposta de Ceaușescu em uma base fortemente industrial não havia resultado no pronto-socorro ideal com o qual ele contava para se safar nos momentos de crise. O planejamento, que resultara em algo insuficiente, era ainda mais prejudicado pela sucção dos frutos econômicos pelo aparelho de Estado. Nas ruas, as pessoas passavam necessidades, e até o racionamento de pão, alimento sagrado na Romênia, denunciava o fundo da crise e sinalizava os eventos dramáticos que culminariam na queda do ditador, três anos depois.

Neste contexto, curiosamente, o Steaua, espécie de equipe oficial do regime, era amado e cultuado como poucas outras coisas no país. Seus jogadores eram santos, idolatrados de maneira cega por grande parte do povo e vistos como a única válvula de escape para uma felicidade possível. Não bastasse isso, o clube chegava naqueles idos dos anos 1980 ao seu grande momento histórico. O que poucos sabem é que aquilo não era coincidência.

Aproveitar-se da imagem de um clube não era novidade; muitos já faziam isso no passado e são muitos os que ainda o fazem no presente. Os altos investimentos na estrutura do Steaua criaram uma máquina capaz de fabricar em casa as suas estrelas. O complexo desportivo do clube contava com 900 atletas na base, muitos com sete anos de idade, e para os quais era feito um planejamento específico que levava em consideração suas vidas escolares. O complexo era tão gigantesco que abrigava também outras 23 modalidades esportivas.

Crianças eram recrutadas em todos os cantos do país, e o resultado, em especial quanto ao futebol, era a formação de equipes configuradas para o triunfo. Depois de triunfar exaustivamente em casa, os Militares assustaram o mundo com o triunfo sobre o Barcelona na final da Champions League, em decisão realizada na própria Espanha, em Sevilha. A mesma equipe-base, já reforçada por Hagi, seria ainda vice-campeã três anos mais tarde, parada somente pelo Milan de Gullit e Van Basten.

A face enigmática dentro de campo

Dentro de campo, tratava-se de uma ótima equipe e com uma característica especial: um futebol mesclado com um lado latino e outro oriental. Ao lado latino estavam ligados o toque curto e habilidoso, a articulação de jogadas com a bola no pé, a gana de vencer e o espírito quente dentro da cancha. Ao estilo oriental estavam relacionados a lentidão com que armava as jogadas, a paciência e a frieza de saber a hora exata de dar o bote ou de tentar colocar a pelota no arco. No aspecto físico, prevalecia o lado oriental, com jogadores altos e fortes, o que dava uma opção para jogadas de bola parada.

Essa equipe por vezes parecia dispor de bem pouco da profundidade necessária a um time vencedor. Porém, isso era compensado pela incrível capacidade de encontrar espaços e chegar com firmeza à frente da área rival. A individualidade por vezes parecia desaparecer diante de uma disciplina tática que saltava aos olhos. Porém, era indiscutível que Balint, Lăcătuş e Piţurcă fossem acima da média.

Se conhecesse o time romeno, Bambino Veira certamente pensaria numa marcação mais pesada sobre Marius Lăcătuş. O artilheiro tinha o hábito de irromper pelo flanco direito e, quando todos imaginavam que cruzaria a pelota, costumava arrematar cruzado e surpreender o arquero rival. Tratava-se daquela típica jogada que todos conhecem, mas que ninguém consegue bloquear. Dos 370 gols feitos na carreira, quase um terço foi marcado dessa forma.

Presa indefesa de seu lado latino, essa habilidosa equipe era capaz de catimbar como poucos e como, certamente, El Bambino Veira jamais havia cogitado. Além disso, praticava a violência e a provocação como mecanismos de desestabilização de seus adversários. Gostava de ter o controle das ações e, se tivesse a felicidade de sair à frente do placar, as pequenas pedras no caminho do River se transformariam em grandes montanhas a serem superadas.

O jogo: o espetáculo da tensão

Como não conhecia o adversário, o elenco do River e sua comissão técnica esperavam por quase tudo. Só não imaginavam que seriam surpreendidos por um toque y me voy típico dos melhores momentos do futebol argentino. Toque para lá, toque para cá, e nada de o River pegar na pelota. A proposta era clara: desestabilizar os argentinos, conseguissem o gol rapidamente ou não.

Do lado do River, a ideia era buscar um gol rapidamente para ter a tranquilidade necessária para que seu jogo de raça prevalecesse. No elenco, pérolas da garra e da velha raça sul-americana: Alzamendi, El Beto Alonso, El Búfalo Funes, El Cabezón Ruggeri, Tolo Gallego e outros.

No banco, o experimentado Bambino Veira, figura de honra na sala de estar em que se pensou a formação daquela equipe vencedora. Sob seu comando, um elenco de homens voltados para a causa do clube, dedicados, disciplinados, contundentes e de forte personalidade dentro e fora de campo. Na forma de atuar, uma equipe perigosíssima, cuja destacada força física permitia que se deslocasse por todos os setores do campo. E o principal: uma máquina configurada como poucas para o contra-ataque letal. Em uma palavra: o melhor representante sul-americano possível para aquele encontro. Porém, aquele time era vítima, no início do cotejo, do inesperado domínio exercido pelo jogo psicológico e pelo toco y me voy dos europeus.

De repente, o susto. Após tocar a bola para lá e para cá, o Steaua chega à frente de Pumpido e o zagueiro Belodedici guarda a pelota no arco do porteiro millonario. Por sorte, o assistente viu um controverso impedimento na jogada e anulou o gol. Isso foi o suficiente para o River mordiscar ainda mais na marcação. Contudo, pouco adiantava a proposta, pois a pelota girava de um lado para outro sem que nenhum atleta argentino fizesse sequer uma falta. Para se ter ideia, na jogada que originou o gol anulado foram vinte passes à frente da área de Pumpido sem que alguém pudesse interceptar. Um assombro.

Aos 28 minutos, contudo, o River encaixou um contragolpe, para o qual o excesso de confiança romeno foi determinante. As tentativas de interceptação da jogada já demonstravam que os europeus não botavam muita fé na capacidade millonaria de mudar o destino do jogo. Foi então que Alzamendi irrompeu pelo meio e tocou para Búfalo Funes, que sofreu a falta. Enquanto o adversário se recompunha, também lentamente, Beto Alonso tocou rápido para Alzamendi que, à frente do porteiro Stângaciu, tentou duas vezes até ver a pelota no arco.

Um gol que, se não ocorresse naquele momento, poderia ter mudado a história do embate. Um gol que teve a função de reverter o domínio psicológico da partida. E o efeito disso foi que o River Plate pôde finalmente apostar no seu jogo fechado e preparado para o contragolpe.

Daí até o final, o embate foi para cachorro grande. Do lado do River, a calma sobrevivia à tensão e falava mais alto. Com ela, os jogadores apareciam para as divididas com confiança e com a certeza de que ganhariam as jogadas. Nisso, o destaque vai para Tolo Gallego e para o uruguaio Gutiérrez. Do lado do Steaua, a tranquilidade do início havia sido substituída inicialmente pela tentativa, ainda serena, de igualar o marcador; depois, pelo desespero em chegar ao empate a qualquer custo.

Para a desgraça dos romenos, eles se deram conta de que tinham em campo um rival forte e determinado. E esse simples fato, por si só, penetrava nos seus raciocínios e fragmentava ou dinamitava qualquer tentativa de articular mentalmente uma jogada. Quando ela saía, surgia precipitada, desarticulada ou grosseira. Em outras palavras: com uma natureza diferente das típicas jogadas de classe e elegância que compunham o repertório da forte equipe dos Montes Cárpatos. Diante desse cenário, assombrado por ele e vítima de uma circunstância que não parecia previamente calculada, o conjunto romeno não era sequer sombra da sábia equipe que ignorou o Barcelona em plena Espanha, meses antes.

Com o passar do tempo, à medida que os europeus se descaracterizavam em campo, o River era cada vez mais o retrato de uma equipe planejada. E, se o jogo dos romenos não aparecia, distante que estava do toque de bola e do planejamento tático, os argentinos retratavam o que tinham de melhor: um futebol compacto, raçudo e configurado, feito uma serpente traidora, para o contragolpe.

Em um deles, no fim do cotejo, Beto Alonso foi o nome que tocou na bola para perder um gol incrível diante do porteiro Stângaciu. O gol não aconteceu, mas não foi necessário. Foi o último jogo da carreira do ídolo Alonso, espécie de Zico canhoto do River, habilidosíssimo camisa 10 dos anos 1970 e 1980, tal como o Galinho, mas vencedor de Copa do Mundo em 1978, convencido pelo técnico Veira a pendurar as chuteiras na glória máxima.

O placar final ficou mesmo no 1 a 0 do primeiro tempo. E o Club Atlético River Plate se tornava campeão do mundo. Uma glória justa para o futebol, pois fazia justiça a uma das maiores instituições futebolísticas do planeta. Um ajuste na ordem das coisas, que acontecia para restabelecer o equilíbrio no mundo do futebol. Gigante como era, o River jamais poderia viver sem esse título, e por sua conquista o futebol até os dias de hoje lhe rende homenagens e agradece.

River Plate: Nery Alberto Pumpido; Jorge Manuel Gordillo, Nelson Daniel Gutiérrez, Oscar Alfredo Ruggeri, Alejandro Alfredo Montenegro; Héctor Adolfo Enrique, Américo Rubén Gallego, Norberto Osvaldo Alonso, Roque Raúl Alfaro (Daniel Adolfo Sperandío); Antonio Alzamendi e Juan Gilberto Funes. Técnico: Héctor El Bambino Veira.

Suplentes: Sergio Javier Goycochea, Rubén Darío Gómez, Claudio Morresi e Néstor Raúl Gorosito.

Vélez Sarsfield 1994: o pequeno de Liniers derruba o melhor time do mundo

Dezesseis anos depois do último título argentino, e pela primeira vez na história de um clube que nunca havia chegado a uma final continental, o Vélez Sarsfield foi ao Japão e derrubou o Milan.

Era, no papel, o confronto mais desigual que a competição já tinha produzido. O Milan de Fabio Capello vinha de golear o Barcelona por 4 a 0 na final da Liga dos Campeões, com uma equipe que reunia Franco Baresi, Paolo Maldini, Alessandro Costacurta, Marcel Desailly, Demetrio Albertini, Roberto Donadoni, Zvonimir Boban, Dejan Savićević e Daniele Massaro. O clube italiano era então o maior vencedor de títulos do mundo.

Do outro lado, um clube do bairro de Liniers que jamais havia disputado uma decisão internacional.

A Libertadores nos pênaltis do Morumbi

O caminho até Tóquio passou por uma final contra o São Paulo, bicampeão continental e mundial nos dois anos anteriores. No Amalfitani, o Vélez venceu por 1 a 0. No Morumbi, diante de mais de 92 mil pessoas, perdeu pelo mesmo placar.

Empatados em pontos e saldo, os times foram aos pênaltis dentro do Morumbi. Palhinha desperdiçou a cobrança decisiva e o Vélez venceu por 5 a 3, conquistando sua primeira Libertadores. Era o segundo título continental seguido de Carlos Bianchi como treinador, depois de ter vencido a competição como jogador ainda não, mas de ter chegado ali com um time montado por ele.

1º de dezembro de 1994: 2 a 0 no Estádio Nacional de Tóquio

A final mundial foi disputada em 1º de dezembro de 1994, no Estádio Nacional de Tóquio, diante de 47.886 pessoas, com arbitragem do colombiano José Torres Cadena.

O Vélez não se acanhou. Aos cinco minutos do segundo tempo, Roberto Trotta converteu um pênalti e abriu o placar. Sete minutos depois, Omar Asad fez o gol que ficou na memória: uma pirueta dentro da área que liquidou a partida e lhe rendeu o prêmio de melhor jogador da final.

O 2 a 0 se manteve até o fim. O clube de Liniers era campeão do mundo, e o futebol argentino voltava ao topo depois de dezesseis anos.

Vélez Sarsfield: José Luis Chilavert, Roberto Trotta, José Luis Cardozo, Héctor Almandoz e Víctor Sotomayor; Adrián Gómez, Christian Bassedas, José Basualdo e Marcelo Pompei; Omar Asad e Omar Flores. Técnico: Carlos Bianchi.

Milan: Sebastiano Rossi, Mauro Tassotti, Franco Baresi, Alessandro Costacurta, Paolo Maldini, Demetrio Albertini, Roberto Donadoni, Marcel Desailly, Zvonimir Boban, Dejan Savićević (Marco Simone) e Daniele Massaro (Christian Panucci). Técnico: Fabio Capello.

O título fechou um ciclo curto e intenso: entre 1994 e 1996, o Vélez somaria ainda a Supercopa Libertadores, a Recopa Sul-Americana e a Copa Interamericana. Nenhum clube argentino fora dos cinco grandes chegou tão longe.

Boca Juniors 2000: os dois gols de Palermo em seis minutos

Vinte e dois anos depois do título sobre o Borussia Mönchengladbach, o Boca Juniors voltou a ser campeão do mundo. E fez isso do jeito mais improvável: derrubando o Real Madrid recém-campeão europeu, no início do projeto galáctico, com dois gols nos primeiros seis minutos de jogo.

A partida foi em 28 de novembro de 2000, no Estádio Nacional de Tóquio, diante de 52.511 pessoas, com arbitragem do colombiano Óscar Ruiz.

Seis minutos que decidiram tudo

Aos três minutos, Martín Palermo abriu o placar. Aos seis, fez o segundo. O Real Madrid, que entrara em campo como favorito absoluto, viu-se perdendo por 2 a 0 antes de tocar na bola com alguma organização.

Roberto Carlos descontou aos doze minutos do primeiro tempo, e a partir dali o jogo virou uma longa resistência argentina. Mas uma resistência com bola: o Boca de Carlos Bianchi, comandado por Juan Román Riquelme, não se limitou a se defender.

O dado mais eloquente da noite está nos goleiros. Óscar Córdoba fez uma única intervenção nos noventa minutos. Iker Casillas precisou de pelo menos três defesas difíceis e ainda teve de se desdobrar para afastar cruzamentos perigosos.

Palermo foi eleito o melhor jogador da final. Era o mesmo atacante que, um ano antes, perdera três pênaltis em uma única partida da Copa América.

A vitória encerrou um jejum sul-americano diante dos europeus que durava desde o título do Vélez, em 1994.

Boca Juniors 2003: o tri nos pênaltis, sobre o Milan

Três anos depois, o Boca voltou ao Japão para buscar o terceiro título mundial de sua história. No meio do caminho, houve a derrota de 2001 para o Bayern de Munique, por 1 a 0, com Bianchi já fora do clube após o rompimento com Mauricio Macri, e depois o retorno do treinador.

A final de 2003 foi disputada em 14 de dezembro, no Estádio Internacional de Yokohama, diante de 66.757 pessoas, com arbitragem do russo Valentin Ivanov. O adversário era o Milan de Carlo Ancelotti, campeão europeu.

O empate em 1 a 1 se manteve na prorrogação e a decisão foi para os pênaltis, terreno em que o Boca de Bianchi já havia construído boa parte de sua fama. Venceu por 3 a 1.

Matías Donnet foi eleito o melhor jogador da final. Era o terceiro título mundial xeneize, o que colocava o clube na liderança isolada entre os argentinos na competição.

Foi também o penúltimo campeão da Copa Intercontinental no formato tradicional. Em 2005, a FIFA extinguiu o troféu e criou o Mundial de Clubes, com representantes de todas as confederações. O Boca disputaria a nova competição em 2007, perdendo a final para o mesmo Milan por 4 a 2, desta vez sem Riquelme.

Os nove títulos, em resumo

Ano Clube Adversário Resultado
1967 Racing Celtic (Escócia) 1 a 0 no desempate, em Montevidéu
1968 Estudiantes Manchester United (Inglaterra) 1 a 0 e 1 a 1
1973 Independiente Juventus (Itália) 1 a 0, em jogo único
1977 Boca Juniors Borussia Mönchengladbach (Alemanha) 2 a 2 e 3 a 0
1984 Independiente Liverpool (Inglaterra) 1 a 0, em Tóquio
1986 River Plate Steaua Bucareste (Romênia) 1 a 0, em Tóquio
1994 Vélez Sarsfield Milan (Itália) 2 a 0, em Tóquio
2000 Boca Juniors Real Madrid (Espanha) 2 a 1, em Tóquio
2003 Boca Juniors Milan (Itália) 1 a 1 e 3 a 1 nos pênaltis, em Yokohama

Nota de edição

Este especial reúne as sete partes da série “Títulos Argentinos no Mundial Interclubes”, publicadas pelo Futebol Portenho em janeiro e fevereiro de 2012, em um único texto. Nenhum trecho foi cortado.

Sobre os três últimos capítulos: a série original foi anunciada para cobrir as nove conquistas mundiais de clubes argentinos, mas parou na sétima parte, sobre o River Plate de 1986. Os capítulos de Vélez Sarsfield 1994 e Boca Juniors 2000 e 2003 foram escritos agora, para completar o especial conforme a proposta inicial.